Histórias e males da inflação – Parte 1 MAÍLSON DA NÓBREGA
REVISTA VEJA
A inflação voltou a preocupar. É assunto nas conversas, nas feiras livres e nos supermercados. A imprensa transmite esse sentimento no noticiário de TV, no rádio e nos jornais. Reaparecem charges inspiradas no tema. No mercado financeiro, aumenta a procura por títulos públicos indexados à inflação. Depois da conquista da estabilidade (1994), é a primeira vez que se percebe uma mudança de prioridades na política econômica. Há evidências de que agora se privilegia o crescimento, enquanto a inflação cairia mais por um suposto efeito desinflacionário da crise mundial do que pela ação da política monetária.
Quem tem até 25 anos – uma geração – não viu o caos inflacionário nem dele se lembra. Quem está nesse grupo não havia nascido ou era criança quando o Plano Real venceu a inflação desembestada, após as tentativas fracassadas de 1986, 1987, 1989, 1990 e 1991. É útil, pois, relembrar histórias sobre a inflação e mostrar seus deletérios efeitos.
A Alemanha e o Brasil são casos extremos. Os alemães se tornaram o povo mais intolerante à inflação, enquanto nós aqui construímos uma cultura de tolerância, da qual muitos ainda não conseguiram se livrar.
Nos últimos cinquenta anos, a inflação na Alemanha foi de 309,4%, ou 2,86% ao ano em média. No mesmo período, a brasileira atingiu estonteantes 36 552 126 060 062 700% (trinta e seis quatrilhões, quinhentos e cinquenta e dois trilhões, cento e vinte e seis bilhões, sessenta milhões, sessenta e dois mil e setecentos por cento), com média anual de 95,55%. Lá, a rejeição tem origem no terror da hiperinflação dos anos 1920, na República de Weimar. O ambiente inflacionário teve papel relevante na ascensão do nazismo ao poder. Hitler foi "o filho adotivo da inflação".
O marco alemão perdeu duas das três funções básicas de uma moeda: a de reserva de valor e a de unidade de conta. O dólar era a referência básica de preços de bens e serviços, mas surgiram cerca de 2 000 outros tipos de "moeda", como cigarros e alimentos. A terceira função – a de meio de troca – foi em parte preservada, mas há relatos e fotos de alemães carregando carrinhos de mão cheios de cédulas para comprar pão.
Nossa tolerância à inflação foi em parte fruto da visão desenvolvimentista do pós-guerra. Pensava-se que um pouco de inflação ajudava o crescimento. Seria uma espécie de lubrificante das engrenagens da economia. Celso Furtado dizia que uma inflação anual de até 15% era suportável. Talvez achasse que o baixo desenvolvimento do mercado financeiro justificaria recorrer ao imposto inflacionário para financiar os gastos públicos.
No regime militar, três medidas constituíram o berço da mais entranhada indexação de preços, salários e contratos à inflação passada que o mundo conheceu. A primeira foi a criação da Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional (ORTN), cujo valor variava trimestralmente. Preservava-se o valor real dos recursos investidos em papéis do Tesouro e se incutia confiança nos que os adquiriam.
As duas outras medidas foram os reajustes de tributos em atraso e de cadernetas de poupança, ambos com base na ORTN. Os salários seguiam uma fórmula oficial baseada na inflação futura e na produtividade. Os contratos eram pactuados livremente entre as partes. Boa parte dos preços estava sob o controle do governo. Com o tempo, a correção monetária se espalhou pelos contratos e pelos preços. Em 1979, os salários passaram a ser reajustados também pela inflação passada.
Dois choques do petróleo (1973 e 1979) aceleraram o ritmo da inflação e encurtaram os prazos de indexação. Com o insucesso do Plano Cruzado (1986) e de seus quatro sucessores, os reajustes se tornaram mensais. O valor dos títulos do Tesouro e a taxa de câmbio variavam diariamente. A inflação ficou crônica, depois fugiu do controle e resultou no processo hiperinflacionário de 1987-1994. (Na próxima semana, explico por que a inflação é a queridinha dos ricos e a maior inimiga dos pobres.)
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