O GLOBO - 04/08/11
Vou acompanhando o desenrolar algo enigmático do governo Dilma, e cada vez mais me recordo das palavras com que Carlos Castello Branco, o maior colunista político brasileiro, explicava a natureza dos fatos políticos cotidianos: "Os fatos vão se criando, e as explicações, se multiplicando, ganhando coerência ou clareza à medida que os surpreendemos no seu aparecimento, no seu colapso, no seu ressurgimento, nessa permanente elaboração, fundada em contradições que nem sempre chegam a sínteses, que caracteriza a ação política".
Seus atos, até agora, ora carecem de clareza ou coerência, ora parecem justificar a crença de que nada mudou em relação ao governo de seu sucessor e tutor político.
Mesmo quando parece que sua direção é contrária ao estabelecido anteriormente, logo um recuo determina os limites de sua ação autônoma.
Assim, a tal operação "faxina" que não teria limites dá lugar a uma grande manobra palaciana para impedir que o Congresso monte uma CPI para investigar as denúncias a que o próprio governo deu crédito, a ponto de demitir mais de 20 servidores dos Transportes e mais o próprio ministro.
De volta ao Congresso, Alfredo Nascimento fez um discurso cheio de insinuações contra o governo que diz ainda apoiar, mas do qual a bancada de sua sigla anuncia se afastar.
O de mais grave que disse, ainda carente de resposta, que não veio possivelmente por não ser possível rebater, é que os sobregastos ocorridos nas obras ocorreram sobretudo na campanha, quando Dilma Rousseff disputava o Planalto.
Ao acionar a máquina partidária para impedir a CPI, Dilma confirma que não pretende se afastar demasiadamente das raízes que a ligam ao lulismo, acatando os conselhos de Lula para não afrontar a base parlamentar costurada por ele de modo a ser a mais ampla possível para facilitar o governo de Dilma e não para ser confrontada permanentemente.
O PMDB sente-se novamente revigorado com a garantia de que não será incomodado e mostra-se unido em torno da demonstração de força dada pelo vice-presidente Michel Temer, cujo protegido, o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, não será atingido nem mesmo por denúncias de um irmão do líder do governo no Senado.
Outra indicação de que laços que a ligam ao lulismo são mais fortes do que supõem os que imaginam que ela possa estar em busca de novas alianças é o programa de fortalecimento da indústria nacional. Reafirma visão de capitalismo de Estado que joga com a interferência do governo em setores-chave da economia que pode trazer prejuízos, como vem acontecendo com Vale e Petrobras.
A preferência para a produção nacional, quando a diferença de preços em relação aos competidores estrangeiros for de até 25%, é o retorno de reservas de mercado com viés nacionalista que afronta a livre concorrência, e pode ter consequências nocivas à competitividade da indústria nacional.
A sensação é que, mesmo superado o problema imediato, a situação econômica dos EUA não está resolvida e, ao contrário, ficou mais explícita a dificuldade de Obama para governar.
A polarização democratas-republicanos chegou a um nível que impede o funcionamento do Congresso. Temos, assim, além do problema econômico, problema político grave.
Como será o futuro das relações políticas que, em caso como o da dívida, deveriam ser apartidárias e acabaram virando disputa sangrenta e com sentido puramente eleitoral?
As pesquisas mostram que nenhuma das siglas ganhou na opinião dos eleitores, e o descrédito dos políticos cresceu.
Obama conseguirá dar a volta por cima? O aumento de impostos voltará à discussão se ficar demonstrado que os cortes de gastos estão impedindo o país de sair da crise?
Tom Trebat, diretor-executivo do Instituto de Estudos da América Latina e do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Columbia (NY), considera esta "uma crise política que tem cara de crise financeira".
Para Trebat, "um lado do debate partidário está no momento disposto a arriscar tudo, até a própria estabilidade da economia, para ganhar a batalha".
Ele chega a comparar "essa visão de tudo ou nada" à que marcou a política americana antes da Guerra Civil, e durante os anos 30, com forte resistência, que continua até hoje, contra as reformas de Roosevelt. "Ou seja, o debate atual americano está revestido de enorme importância histórica".
Quem corre o risco maior neste contexto, diz Tom Trebat, é o presidente Obama, "justamente o cara que quer fazer as pazes com todo mundo".
Os republicanos já teriam percebido "que ele pode ser uma versão atualizada de Jimmy Carter - bom de papo e bem-intencionado, mas sem jogo de cintura. Pressionado, ele cede terreno".
Por sua vez, os democratas, segundo Trebat, estão desiludidos por não haver até agora estratégia para lidar com a extrema direita dos republicanos.
Ele acha que as vantagens de Obama ainda são grandes: a imensa maioria dos eleitores é contra o radicalismo da direita, que foi tão claramente exposto nesse debate, e em consequência a predominância dos republicanos sofrerá certo recuo na Câmara de Deputados.
Lembra ainda que o grande capital privado, que acaba financiando as campanhas americanas, será bem mais cauteloso antes de apoiar candidatos radicais que poderiam levar o país à beira da moratória.
Essas eleições de 2012 "serão cruciais" e, na opinião de Trebat, "inevitavelmente se transformarão em uma quase luta de classes, com Obama defendendo a classe média e pintando os republicanos como representantes só dos mais ricos".
Caso Obama assuma cara nova de lutador zangado e abandone a postura de conciliador que o marca como um líder fraco, Trebat acha que ele tem boas chances de se reeleger.
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