- O Estado de S.Paulo
Para Grécia, Portugal e Irlanda, a crise de 2008 foi ruim, mas a de 2011 tem sido dramática. Espanha e Itália andam de olhos arregalados, esperando o pior a qualquer momento. Ameaçada com rebaixamento em risco de crédito, a França passa um sufoco jamais imaginado. Maior potência econômica do mundo, os EUA sofreram em 2008, mas em 2011 viraram uma "república de bananas", nas palavras do Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman. Os países latino-americanos, entre eles o Brasil, levaram um enorme susto em 2008, aprenderam a se defender e têm sido menos contaminados em 2011. Pelo menos até agora.
As diferenças entre 2008 e 2011 não estão só no tamanho da tragédia em cada país. É preciso entender a natureza das duas crises para o mundo corrigir seus erros. Em 2008 a irresponsável e desmedida ganância por lucro de agentes do sistema financeiro, somada à omissão de bancos centrais na regulação e fiscalização, levou grandes bancos à falência e os governos de países ricos a multiplicarem dívidas para socorrê-los e tentar evitar a recessão injetando dinheiro em suas economias.
Se em 2008 o setor privado foi o ator principal da crise, em 2011 passa a ser o Estado. A tragédia, agora, decorre do excessivo endividamento de países europeus e dos EUA, obrigados a "inventar" dinheiro para tentar tirar suas economias do atoleiro de 2008. Mas não só, o problema é mais antigo. Há décadas alguns países da Europa gastam mais do que têm e convivem com políticas sociais incompatíveis com sua renda tributária. Sucessivos déficits orçamentários têm sido cobertos com endividamento. Quem não quer políticas sociais generosas? Mas é preciso ajustar seu custo para caber no orçamento, senão um dia a conta chega e junto vem o desemprego, as aposentadorias reduzem de valor, a educação e a saúde perdem qualidade, etc. É o que vivem hoje os gregos, que vão às ruas protestar, e o que é exigido de Portugal, Espanha e Itália.
O caso dos EUA é diferente. É pior, pois nasceu da guerra, da destruição. Até a gestão Bill Clinton, em 2001, a dívida dos EUA somava US$ 5,8 trilhões. Nos oito anos de George W. Bush ela mais que dobrou, foi para US$ 11,9 trilhões e para US$ 14,3 trilhões na gestão Obama. Os gastos para sustentar as guerras contra Iraque e Afeganistão, os cortes de impostos dos mais ricos e a crise de 2008 explicam esse salto. Ao chegar ao poder, em 2001, Bush encontrou um superávit público de US$ 5,6 trilhões, que ele tratou de transformar em déficit de US$ 3,3 trilhões apenas dois anos depois. Foi essa a maldição que Bush deixou para Obama.
Segundo o FMI, a dívida bruta da Grécia estará em 152% do PIB em 2011; a da Itália, em 120%; a dos EUA, em 99,5%; a da França, em 87,6%; e a do Brasil, em 65,7%. Ou seja, mesmo que o povo grego trabalhasse e acumulasse riqueza ao longo de um ano e meio, não conseguiria pagar a dívida do país. Reverter esse quadro implica ordenar uma saída para o pagamento, mas também equacionar problemas estruturais desses países que estão no epicentro da questão.
E nós, por aqui? Por enquanto estamos desviando da crise, mas é impossível evitá-la. O primeiro contágio se dará pelo comércio externo e não é pouca coisa. O esfriamento da economia mundial reduzirá a demanda externa e derrubará os preços das commodities, que têm sustentado nossas exportações. Isso agrava o desequilíbrio do balanço de pagamentos. A escassez de crédito externo pode até não vir tão forte, como em 2008, quando o dinheiro secou até para a Petrobrás, que acabou se socorrendo na Caixa Econômica. Mas será difícil escapar. Guido Mantega prometeu uma surpresa a cada mês no resultado fiscal, mas não dá sinal de como fará. E, dado o nosso histórico político de gastança, só como São Tomé: ver para crer. A presidente Dilma tem repetido que não vai optar pela recessão. Nem é preciso. Mas o crescimento de 4% este ano pode não estar mais garantido. A situação do Brasil em 2011 é melhor que em 2008. E, para os brasileiros, outra boa diferença: não precisam mais ouvir Lula tratar da crise com galhofa e deboche de "marolinha" e "vai perguntar ao Bush".
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