O Estado de S.Paulo
Dois dias menos tensos mas ainda não tranquilos no mercado financeiro internacional depois que as bolsas passaram por uma semana das mais voláteis. Os indícios mais fortes de recessão provocaram queda de 8% na Bovespa em apenas um dia, seguida de alta de 5% logo depois. Na sexta-feira, após a turbulência, as bolsas mostraram recuperação.
Três fatos positivos explicam esse suspiro de alívio: aumento de 0,5% no consumo interno e desemprego menor nos EUA. Na Europa, após uma quinta-feira tensa, houve a ação dos governos para impedir compras alavancadas e do Banco Central Europeu, que continuou comprando títulos de Itália e Espanha. É importante registrar que os índices voltam aos níveis do início da queda, em 7 de julho, e a economia continua extremamente sensível a qualquer noticia negativa.
Espera sem esperança. Há grande expectativa quanto ao pronunciamento que Bernanke deve fazer no dia 23, e esperança de possíveis medidas do governo para estimular investimentos e emprego - crescimento, enfim. É, no entanto, uma frágil esperança, porque Obama continua amarrado pelo Congresso, onde cedeu aos ultrarradicais e conservadores do Partido Republicano (isso no século 21!), e o Fed não sabe ainda bem o que pode fazer.
Ao contrário do BC do Brasil, não tem mais a arma dos juros e só lhe resta emitir dólares, o que até agora impediu evitar a deflação e adiar o risco da recessão, mas não foi suficiente para retomar o crescimento.
Caminho certo. No Brasil, acentuam-se as medidas para evitar a contaminação externa que pode vir pelos caminhos financeiro e comercial. O BC continua mantendo a liquidez no mercado e aumentando as reservas, que passam de US$ 350 bilhões, o que dá tranquilidade. Somados aos R$ 200 bilhões de caixa do Tesouro, suficiente para não ter que emitir títulos. São recursos que garantem a liquidez do sistema e o financiamento das exportações, mesmo com uma possível retração dos investimentos externos. Um colchão importante para atenuar choques externos.
Sim, temos as reservas que não passavam de US$ 30 bilhões há pouco mais de oito anos, quando o Brasil estava no FMI. É curioso registrar que muitos economistas críticos dessa política de reservas começam a preparar terreno para rever suas posições.
Chega, dizem alguns. Será? Sabem o que pode acontecer no mercado internacional? E se os investidores saírem correndo para cobrir perdas? Isso não está acontecendo agora. Em 12 meses entraram US$ 59 bilhões. Mas, no clima atual de incerteza, a palavra de ordem é segurança a qualquer custo e a qualquer preço. A história nos ensina que todas as crises brasileiras foram cambiais.
Os investidores externos continuam comprando títulos brasileiros, quase no mesmo ritmo dos americanos. Os nossos rendem 12,5%, o deles, 2%. E são também líquidos e seguros enquanto tivermos reservas elevadas e o atual clima financeiro e econômico.
Comércio não atrapalha. Economistas afirmam que a retração do comércio mundial pode afetar o Brasil. A coluna discorda. A maior parte das exportações é de commodities agrícolas menos sensíveis que as industriais à concorrência e à turbulência. Até a Europa, à beira da recessão, aumentou a compra de alimentos nos últimos meses!
País fechado. Vejam os números. O Brasil continua a ter uma das economias mais fechadas do mundo. Nos 12 meses terminados em julho, exportou US$ 235,6 bilhões e importou US$ 208,6 bilhões, o que representa um pouco mais de 10% do PIB, enquanto o mercado interno representa mais de 60%. O fluxo do comércio exterior, importações e exportações, é de cerca de 20% do PIB.
Isso e um mercado financeiro saudável explicam a resistência do Brasil às crises. O consumo interno pode garantir razoável crescimento em curto prazo, mesmo com o risco de excesso das importações com reflexos negativos na balança comercial.
Não é a hora do ufa! O mercado financeiro fechou o fim de semana num clima menos tenso, mas de expectativa ansiosa em torno da reunião de Sarkozy e Merkel, na terça-feira, e novas medidas nos EUA. A impressão era de que o pior pode ter passado. Mas será que não vimos isso antes, quando todos erraram - com exceção de Roubini, que prevê agora risco de 50% de recessão? Para a coluna não é ainda a hora do "ufa! já passou". E felizmente, agora, parece que Brasília está convencida disso...
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