domingo, novembro 29, 2009

Carta ao Leitor


A chave é o indivíduo

Fabiano Accorsi

O policial, quando valorizado como indivíduo, é mais eficiente na luta contra o crime


Vive-se um tempo em que as pessoas, suas circunstâncias particulares, responsabilidades e conquistas sumiram de vista em favor de projetos de engenharia social e suas promessas de resultados obtidos com a adesão de grandes massas. O mundo já se encantou antes com essas ilusões coletivistas apenas para descobrir, não sem sofrimento, que o sucesso e o fracasso dependem das ações de cada indivíduo. A presente edição de VEJA traz diversas reportagens que reavivam o conceito do ser humano não em seu estado difuso de integrante de uma colmeia, mas como unidade pensante, dotada de livre-arbítrio e guiada por uma bússola ética.

A primeira dessas reportagens é uma investigação sobre a releitura atual das técnicas clássicas de autocontrole, comedimento, serenidade e senso de justiça que abriram para a humanidade, há muitos séculos, a opção civilizatória. A reportagem fala de valores individuais poderosos que atravessaram as eras produzindo pessoas boas e bem-sucedidas, a despeito dos cruéis arranjos sociais em que elas viveram. Na entrevista das Páginas Amarelas, o ator canadense Michael J. Fox conta como rejeitou a vitimização por ser doente de Parkinson e tirou dessa condição adversa não amargura, mas belas lições de tolerância. Outra reportagem ressalta a coragem de Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, em acusar os cariocas de "emporcalhar a cidade", lembrando que se cada um sujar menos todos ganham. A limpeza pública é um dever da prefeitura, pois afinal as pessoas pagam impostos e esperam que eles sirvam para alguma coisa útil. Isso, porém, não diminui a força do diagnóstico do prefeito: a compostura pessoal tornaria o trabalho de limpeza da cidade muito mais eficiente e barato.

Finalmente, uma reportagem especial sobre as polícias brasileiras, feita pelo editor Ronaldo França, revela que aumentar contingentes policiais e dotar as unidades de melhor armamento e tecnologia são fatores essenciais no combate ao crime. Mas nada é tão eficiente quanto dar ao homem e à mulher de farda treinamento, confiança pessoal e reconhecimento moral e financeiro para fazer deles heróis perante si mesmos e os cidadãos.

Entrevista Michael J. Fox


O Parkinson não me vence

O ator canadense, diagnosticado com a doença há dezoito anos,
fala do longo caminho que percorreu para reconstruir sua vida
e manter o otimismo no dia a dia


Gabriela Carelli

Timothy White/Corbis Outline/Latinstock
"É sempre complicado encarar a própria mortalidade, mas, uma vez que se consegue lidar com ela, aprendem-se muitas lições"


Michael J. Fox se tornou um dos atores mais populares de Hol-ly-wood nos anos 80 ao estrelar a trilogia De Volta para o Futuro. No auge da carreira, em 1991, intrigado com um tremor em um dos dedos da mão, foi ao médico e recebeu o diagnóstico de Parkinson, doença degenerativa do sistema nervoso. Hoje, aos 48 anos, Fox se orgulha de ter saído fortalecido de todas as provações por que passou à medida que a doença progredia. Embora tenha sido obrigado a abandonar a carreira, ele avalia que se tornou uma pessoa mais rica do ponto de vista espiritual. Neste ano, ele voltou a atuar na série de TV Rescue Me, no papel de um paraplégico. O trabalho acabou lhe rendendo um prêmio Emmy, entregue em setembro. Também neste ano, Fox lançou sua autobiografia, que acaba de chegar às livrarias brasileiras com o título Um Otimista Incorrigível. Ele falou a VEJA.

Sua carreira no cinema foi interrompida pelo Parkinson. Como a doença afetou sua vida?
O Parkinson é uma doença curiosa em muitos aspectos. Por pior que seja, possui uma vantagem: ela acontece de forma gradual. Costumo usar uma metáfora para explicá-la. Se estamos dirigindo a 100 quilômetros por hora numa estrada, um ônibus surge de repente na contramão e não temos tempo de pisar no freio, nossa vida pode mudar num instante. O paciente de Parkinson está na mesma estrada, só que grudado ao asfalto. Ele pode ouvir o ônibus chegando, mas, como demora a aparecer, o paciente tem tempo para refletir sobre o acidente e se preparar para o pior. Quando fui diagnosticado com Parkinson, ainda era capaz de trabalhar. Atuei durante toda a década de 90. Esses anos foram essenciais para preparar meu afastamento, ajustar meus pensamentos e, finalmente, aceitar minha condição e todas as suas implicações. A natureza da doença tem sido muito útil no meu caminho para o autoconhecimento e para a aceitação dos fatos da vida.

Qual foi sua reação ao receber a notícia de que estava com Parkinson?
Em vez de perguntar "por que comigo?", questionei a exatidão do diagnóstico. Achei que os médicos estavam errados. Queria que alguém chegasse e dissesse que era tudo um engano, que eu poderia continuar minha vida normalmente, que estaria apto a exercer minhas atividades de sempre.

O que o ajudou a aceitar o diagnóstico?
Uma ajuda inestimável veio da leitura de um livro chamado On Death and Dying (Sobre a Morte e o Morrer), da psiquiatra Elisabeth Ross. A autora descreve os cinco estágios pelos quais costumam passar os pacientes desenganados: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Quanto mais você entende e aceita sua condição, melhor. Se você não aceita ou não quer lidar com o problema, só piora. Tudo mudou quando decidi me debruçar sobre a doença de Parkinson. Falei com os médicos a respeito do meu quadro, procurei pesquisadores e fiz contato com outros doentes. Inteirei-me da comunidade da qual passara a fazer parte e das necessidades de quem sofre de Parkinson. Tudo isso me deu um novo ânimo e mudou minha atitude diante da doença.

Depois de anos sem atuar, o senhor participou da série de TV Rescue Me e recebeu um Emmy pelo trabalho. Como foi receber o prêmio depois de tanto tempo afastado das telas?
Quando fui convidado para participar do programa, achei que não conseguiria cumprir a tarefa. Meu papel era o de um paraplégico, um homem incapaz de fazer qualquer movimento. Justo eu que, por causa do Parkinson, não consigo parar de me mexer um minuto sequer. Questionei os produtores, porém eles me queriam mesmo assim. As filmagens foram um desafio, mas tanto eu quanto as outras pessoas envolvidas no projeto nos divertimos muito. Vivo em Nova York, e foi como voltar a minha antiga casa em Los Angeles e rever um monte de amigos. Quando você ganha uma oportunidade dessas, e as pessoas apreciam o seu trabalho, a sensação é indescritível. Ganhar o prêmio, é claro, foi emocionante. Gostaria muito de retomar minha carreira, mas representar se tornou muito cansativo para mim. Dá muito mais trabalho do que antes.

"Nem sempre é possível prever as reações físicas que o Parkinson provoca. A doença afeta cada pessoa de forma única. Os corpos reagem de maneiras distintas e os sintomas mudam o tempo todo"

Como o senhor enfrentou a necessidade de abandonar a carreira?
Todos nós, constantemente, temos escolhas a fazer. Podemos nos concentrar em nossas perdas pessoais e passar a existência lamentando-as. A alternativa a isso é empolgar-nos com os novos caminhos que preenchem as lacunas criadas por essas perdas. Sinto falta do trabalho, mas minha vida se tornou recompensadora em outras áreas. Tenho quatro filhos e adoro passar um longo tempo com eles e com minha esposa. Hoje tenho um cotidiano pleno e rico.

Como o Parkinson o afetou fisicamente desde que o senhor recebeu o diagnóstico da doença, há dezoito anos?
Minha esposa sempre brinca comigo quando digo "não posso mais fazer isso, não posso mais fazer aquilo". Ela diz que minhas limitações não se devem ao fato de eu ter Parkinson, mas sim à idade que está chegando. Afinal, já estou beirando os 50 anos. Nem sempre é possível prever as reações físicas que o Parkinson provoca. A doença afeta cada pessoa de forma única. Converso
com outros pacientes e todos tomam medicamentos diferentes. Os corpos reagem de maneiras distintas e os sintomas mudam o tempo todo. Às vezes, atividades como escrever ou correr são impossíveis. Em outras ocasiões, posso praticá-las. É muito difícil planejar o que poderei fazer amanhã ou depois de amanhã. Tenho de lidar com o imprevisível. Às vezes tenho cãibras muito fortes, cólicas e não controlo bem a minha fala. No dia seguinte, eu me sinto bem. Tudo isso ensina o paciente a viver um dia de cada vez.

As limitações físicas constituem o maior fardo da luta contra o Parkinson?
É duro suportar as limitações físicas, porque adoro esportes. Ainda pratico hóquei e golfe, mas não posso jogar tão bem como antigamente. No início, minha maior dificuldade era lidar com a doença do ponto de vista emocional. Como fui capaz de compreender e aceitar minha situação, hoje me sinto muito mais forte nesse sentido. É sempre complicado encarar a própria mortalidade, mas, uma vez que você consegue lidar com ela, aprende lições profundas. Querer fazer algo simples e não conseguir representa uma grande perda. Mas aprendi que, com paciência, o vazio dessas perdas acaba por ser preenchido. Em cada decepção há uma oportunidade. Basta saber reconhecer quando essa oportunidade aparece. A recompensa é sempre maior do que a perda.

Que recompensas a doença lhe proporcionou?
À medida que minha saúde se deteriora, minha condição mental e espiritual melhora. Estou muito mais feliz em relação a certas coisas do que quando era mais jovem. Sou mais tolerante, tenho mais entusiasmo e compaixão. Uma das minhas grandes recompensas é a fundação para pesquisa de células-tronco que criei. Trata-se da segunda maior fundação de pesquisa para Parkinson em atuação no mundo. Esse projeto, e as possibilidades que ele abre para a cura de milhões de pessoas, compensa plenamente muitas coisas das quais tive de abrir mão.

Baseado nas pesquisas com células-tronco feitas por sua fundação, o senhor acredita que em breve haverá tratamento para doenças como Parkinson e câncer?
Tenho certeza de que as células-tronco serão a resposta da medicina para a cura de várias doenças em um futuro não muito distante. Infelizmente, estamos vários anos atrasados por causa da posição conservadora do ex-presidente americano George W. Bush com relação às pesquisas com células-tronco embrionárias. Nos Estados Unidos, muitos cientistas deixaram esse campo de pesquisa e migraram para outras áreas porque não conseguiam quem os financiasse
e não tinham apoio do governo.

Muitas pessoas que sofrem acidentes graves ou são acometidas por doenças como o Parkinson procuram ajuda na religião. O senhor é religioso?
Não pertenço a nenhuma religião específica, mas sinto que há uma força superior a mim atuando, uma força positiva. O que gosto na religião é a noção de humildade que ela promove. Eu aprendi a ser humilde.

Em seu livro, Um Otimista Incorrigível, o senhor relata sua luta contra o alcoolismo. Como conseguiu deixar a bebida?
Meu problema com a bebida piorou muito quando fui diagnosticado com Parkinson. Quando me deram a notícia, comecei a beber mais ainda. Para mim, o alcoolismo e o Parkinson têm muito em comum – é impossível ter controle sobre ambos. Foi preciso me render e aceitar que eu não
podia beber moderadamente. Só assim a recuperação se tornou possível. Com o Parkinson é a
mesma coisa. É necessário render-se para preparar o futuro.

"Enquanto minha condição física se deteriora, minha condição mental e espiritual melhora. Estou muito mais tolerante, tenho mais entusiasmo e compaixão do que quando era jovem"

No livro, o senhor cita o ciclista Lance Armstrong, que teve câncer, e o ator Christopher Reeve, que ficou tetraplégico, como fontes de inspiração para conviver com o Parkinson. Por quê?
São duas pessoas a quem respeito e admiro. De certa forma, em algum ponto da vida, eles estiveram na mesma situação que eu. De repente, algo terrível aconteceu a eles. Mesmo assim, encontraram forças para direcionar sua energia na conscientização do público sobre os seus problemas e na pesquisa para amenizar o sofrimento das pessoas que passavam por situações semelhantes. Sinto um respeito especial por Reeve, que teve muita dificuldade em lidar com as consequências de seu acidente e passou por desafios terríveis ao ficar tetraplégico. Ele conseguiu mobilizar a opinião pública para a importância das pesquisas com células-tronco para
o tratamento da lesão de medula espinhal e outras doenças. Lance Armstrong também me surpreendeu. No Tour de France, em Paris, vi centenas de pessoas com câncer que viajaram o mundo todo só para estar com ele, e pude perceber a importância que suas tentativas de superação da doença tinham na vida daquelas pessoas.

O que é mais importante para aprender a conviver com o Parkinson ou outra doença grave?
O mais importante é aprender a viver o momento. Tenho uma teoria: imagine uma pessoa doente ou que sofreu um acidente e vive com medo de que o pior cenário se materialize. Esse medo se torna uma obsessão que toma conta de sua mente. Se, por infelicidade, o pior cenário se tornar real, essa pessoa viverá o mesmo drama duas vezes. Claro que devemos ser realistas e aceitar as circunstâncias, mas acho que, mesmo diante de uma situação dramática, há muitos motivos para ter pensamentos positivos. Muito do que aconteceu no ano passado durante as eleições americanas foi decorrente do otimismo na sua forma mais pura. Milhões de eleitores que votaram no Partido Democrata estavam reunidos por acreditar em uma mudança efetiva nos rumos dos Estados Unidos, de seu povo e do mundo. O presidente Barack Obama chamou esse sentimento de uma urgência feroz do agora. Sua mensagem dizia que era preciso lidar com os problemas que estão à frente em vez de se preocupar com o passado ou ficar com medo do que possa acontecer no futuro.

Como o senhor se mantém tão otimista?
Tento ver possibilidades em todas as circunstâncias. Para tudo o que nos é tirado, algo de grande valor nos é oferecido. Quando estive no México, há alguns anos, um guia me mostrou uma árvore da qual escorria um líquido vermelho e disse para não tocá-la de jeito nenhum, pois a substância poderia causar queimaduras. Um pouco mais à frente, deparamos com outra árvore, da qual escorria um líquido preto. O fluido, disse o guia, curava queimaduras. Assim é a vida. Para tudo o que queima, há algo que cura.

Lya Luft

A praga moderna

"O que somos mesmo, neste período pós-moderno
de que algumas pessoas tanto se orgulham, é estressados"


Nossas pestes – que também as temos – podem ser menos tenebrosas do que as medievais, que nos faziam apodrecer em vida. Mas, mesmo mais higiênicas, destroem. E se multiplicam, na medida em que se multiplica o nosso stress. Ou melhor: o stress é uma das modernas pragas. Quanto mais naturebas estamos, mais longe da mãe natureza, que por sua vez reclama e esperneia: tsunamis, tempestades, derretimento de geleiras, clima destrambelhado. Ser natural passou a não ser natural. Ser natural está em grave crise.

O bom mesmo é ser virtual – mas isso é assunto para outra coluna, ou várias. Porque, se de um lado somos cada vez mais cibernéticos e virtuais, de outro cultivamos amores vampirescos, paixões por lobisomens, e somos fãs de simpáticos bruxos em revoadas de vassouras. Mudaram, os nossos ídolos. Não sei se para pior, mas certamente para bem interessantes. Pois nosso lado contraditório é que nos torna interessantes, em consultórios de psiquiatras, em textos de ficcionistas. Também na vida cotidiana aquela velhíssima voz do instinto, voz das nossas entranhas, deixou de funcionar. Ou funciona mal. Desafina, resmunga, rosna. A gente não escuta muita coisa quando, por acaso ou num esforço heroico, consegue parar, calar a boca, as aflições e a barulheira ao redor.

O que somos mesmo, neste período pós-moderno de que algumas pessoas tanto se orgulham, é estressados. Não tem doença em que algum médico ou psiquiatra não sentencie, depois de recitar os enigmáticos termos médicos: "E tem também o stress". Para alguns, ele é, aliás, a raiz de todos os males. Eu digo que é filho da nossa agitação obsessivo-compulsiva. Quanto mais compromissados, mais estressados: é inevitável, pois as duas coisas andam juntas, gêmeas siamesas da desgraça. Porque a gente trabalha demais, se cobra demais e nos cobram demais, porque a gente não tem hora, não tem tempo, não tem graça. Outro dia alguém me disse: "Dona, eu não tenho nem o tempo de uma risada". Aquilo ficou em mim, faquinha cravada no peito.

Um dos nossos mais detestáveis clichês é: "Não tenho tempo". O que antes era coisa de maridos e de pais mortos de cansaço e sem cabeça nem para lembrar data de aniversário dos filhos (ou da mãe deles), agora também é privilégio de mulher. De eficientes faxineiras a competentíssimas executivas, passamos de nervosas a estressadas, stress daqueles de fazer cair cabelo aos tufos.

Não sei se calvície feminina vai ser um dos preços dessa nossa entrada a todo o vapor no mercado de trabalho – pois ainda temos a casa, o marido, os filhos, a creche, o pediatra, o ortodontista, a aula de dança ou de judô dos meninos, de inglês ou de mandarim (que acho o máximo, "meu filhinho de 6 anos estuda mandarim") –, mas a verdade é que o stress nos domina. É nosso novo amante, novo rival da família e da curtição de todas as boas coisas da vida.

Que pena. Houve uma época em que a gente resolvia, meio às escondidas, dar uma descansadinha: 4 da tarde, a gente deitada no sofá por dez minutos, pernas pra cima... e eis que, no umbral da porta, mãos na cintura ou dedo em riste, lá apareciam nossa mãe, avós, tias, dizendo com olhos arregalados: "Como??? Quatro da tarde e você aí, de pernas pra cima, sem fazer nada?".

Era preciso alguma energia para espantar os tais fantasmas. Neste momento, porém, eles nem precisam agir: todos nós, homens e mulheres, botamos nos ombros cruzes de vários tamanhos, com prego ou sem prego, com ou sem coroa de espinhos. São tantos os monstros, deveres, trânsito, supermercado, dívidas e pressões, que – loucura das loucuras – começamos a esquecer nossos bebês no carro. Saímos para trabalhar e, quando voltamos, horas depois, lá está a tragédia das tragédias, o fim da nossa vida: a criança, vítima não do calor, dos vidros fechados, mas do nosso stress. Começo a ficar com medo, não do destino, eterno culpado, não da vida nem dos deuses, mas disso que, robotizados, estamos fazendo a nós mesmos.

Maílson da Nóbrega


Pré-sal, a vingança do retrocesso

"Na verdade, a guinada estatizante – que traz novos riscos
de privilégios, corrupção e desperdício – pode reduzir
as chances de melhor aproveitamento dessa riqueza"

Roberto Campos, um dos mais argutos críticos dos desatinos econômicos da Constituinte de 1988, foi membro da subcomissão que redigiu os "Princípios Gerais" do capítulo da "Ordem Econômica". Em seu livro de memórias, ele dedicou dois capítulos à derrota das ideias que lá defendeu como senador.

No primeiro deles ("O avanço do retrocesso", que inspira esta coluna), Campos fala das visões ultrapassadas que ali vingaram. No segundo ("A vitória do nacional-obscurantismo"), ele destaca a criação de novos monopólios do petróleo, a seu ver uma vitória do corporativismo da Petrobras.

Nos anos 1990, a situação mudou: o Muro de Berlim caiu, a União Soviética desapareceu e a estabilidade de preços chegou ao Brasil. Em 1997, sob novas lideranças – Fernando Henrique na Presidência e Luís Eduardo Magalhães na Câmara –, os monopólios foram extintos. O petróleo ganhou uma legislação moderna.

A nova lei abriu o setor à participação estrangeira. Adotou-se o regime de concessão – o padrão de países institucionalmente maduros – para a pesquisa e a exploração de petróleo e gás. A norma atribui o risco aos concessionários. O estado regula e arrecada royalties e participações especiais. Foi um sucesso.

Com o pré-sal e sob outras lideranças, voltamos ao viés estatizante de 1988. Nascerá o regime de partilha, que foi inventado pelas grandes do petróleo para operar em países de instituições fracas, pois assim fogem do risco de tributação confiscatória. A Petrobras será a operadora única, na prática o retorno do monopólio. O retrocesso se vingou.

Em depoimento no Senado, assinalei os riscos do regime de partilha. O estado vai gerir e comercializar o petróleo, o que pode dar margem a favorecimentos e uso político. Burocratas decidirão sobre contratação de serviços de comercialização de petróleo e gás pela União. Definirão preços de venda, porcentuais da União em cada bloco e valor do custo em óleo das empresas vencedoras das licitações. O representante da Petro-Sal nos blocos terá poder de veto. O potencial de corrupção se elevará dramaticamente.

A nova legislação concede enorme poder discricionário ao Executivo, aumentando os riscos de erros de formulação e execução. Poderão renascer políticas ultrapassadas de substituição de importações. O dirigismo sujeitará o setor a incertezas decorrentes de ciclos eleitorais e de mudanças nas regras do jogo por diferentes grupos políticos. Os burocratas poderão ser capturados por grupos de interesse.

Se levadas em conta as declarações de funcionários do governo, a mudança visaria a proteger o nosso petróleo da cobiça internacional. Ou a controlar o ritmo de exploração para dar tempo à indústria nacional de se tornar fornecedora de equipamentos mais complexos. Ou a dar o comando do processo ao estado, que saberia, melhor do que o setor privado, como usar o petróleo em prol do desenvolvimento do país. Haja delírio.

Um deles, também presente no Senado, forneceu a justificativa para o novo marco regulatório: "O petróleo é estratégico". Surpreendente. Como hoje se sabe, a fonte primária do desenvolvimento é o conhecimento. Estratégica, pois, é a educação, e não um recurso natural, por mais relevante que seja para a economia atual. Por isso Campos dizia que o petróleo não passava de "um líquido pegajoso e fedorento". A propósito, as três maiores e mais bem-sucedidas economias – Estados Unidos, Japão e China – são importadoras de petróleo.

Vista sob a perspectiva histórica, a futura extinção das reservas de petróleo não deve assustar. Serão crescentes os incentivos à busca de substitutos, como é o caso de programa proposto por Barack Obama. A energia do futuro é a limpa, e não o petróleo. Como dizia um ministro saudita do petróleo, "a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra". A do petróleo não acabará por falta de petróleo.

A propaganda do governo dá a entender que os benefícios do pré-sal virão do regime de partilha. Nada mais falso. O Brasil pode beneficiar-se da dádiva independentemente do marco regulatório. Na verdade, a guinada estatizante – que traz novos riscos de privilégios, corrupção e desperdício – pode reduzir as chances de melhor aproveitamento dessa riqueza.

RADAR

Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br

Eleições 2010

Como será o programa do PSDB

ANDRE DUSEK/AE

Rivalidade risonha
Aécio e Serra: dois candidatos, uma vaga


O que se verá no programa de TV do PSDB, que vai ao ar na quinta-feira, é uma bem-acabada divisão de espaço ao modo tucano. José Serra e Aécio Neves dividirão o tempo de jogo como bons companheiros (fora isso, haverá também uma pequena aparição de Sérgio Guerra, presidente do partido). Cada um listará suas realizações - Aécio enfatizando mais sua biografia, com o objetivo de tornar-se mais conhecido, e Serra relembrando seus pontos altos no Ministério da Saúde, na prefeitura paulistana e no governo de São Paulo. E, como uma espécie de cereja do bolo, Aécio falará um pouco de Serra, e vice-versa, para demonstrar união.

Palocci ainda mira São Paulo
Lula recebeu um pedido de Antonio Palocci para que a decisão sobre o candidato petista ao governo de São Paulo só saia em março. Lula topou.

De olho nas urnas
Marina Silva vai a Copenhague disposta a brilhar - e a recuperar o tempo perdido e de pouca exposição pública das últimas semanas. Não participará de nenhum evento oficial, mas sua agenda foi feita com um olho nos auditórios e outro nos holofotes.

Câmara

Peneira esgarçada
Que ninguém se iluda. Das seguidas denúncias de uso irregular da verba indenizatória que vêm sendo publicadas desde domingo na Folha de S.Paulo, serão investigadas apenas aquelas em que haja evidência de que os deputados apresentaram notas por serviços nunca prestados. Ou seja, a Câmara só levará as investigações adiante nos casos em que os deputados possam ter embolsado o dinheiro da verba sem contratar serviço algum. Notas de empresas de familiares e gastos em campanha passarão ao largo.

Governo

ED FERREIRA/AE

Diplomata
José Dirceu: missão de acalmar
o destrambelhado Chávez

Itamaraty do B
José Dirceu desembarcou há quinze dias em Caracas com uma missão de governo. Sondar Hugo Chávez em relação a Honduras e tentar baixar sua bola.

Economia

Vem para a Caixa você também
Luiz Gushiken foi procurado pelos controladores do Banco Bonsucesso em seu escritório paulista para ajudá-los a vender a instituição para a Caixa Econômica Federal. Aliás, Gushiken, com toda a discrição possível, deu uma espécie de consultoria informal ao Pan-Americano em suas negociações para a venda de 49% do banco à CEF. Gushiken, assim como Dirceu e toda a turma, está de volta.

Pole position
Apesar de a ex-líder Volkswagen estar em seus calcanhares, a Fiat fechará 2009 como a líder na venda de carros pela oitava vez consecutiva.

Aviação

Cumbica vai diminuir...
Na terça-feira, a Anac vai restringir a capacidade do Aeroporto de Cumbica, o maior do Brasil, que hoje opera no limite. Os 48 pousos e decolagens por hora passarão para 45. A ideia é dar mais conforto aos passageiros. Ampliação das instalações, que é bom, nada.

...e a demanda segue em alta
Apesar das restrições, a demanda não para de crescer. A Gol, por exemplo, acaba de pedir às autoridades americanas para fazer voos charter para Miami e Orlando - e voos fretados costumam ser o primeiro passo para as operações regulares. Essas rotas integram os planos de expansão internacional da Gol, que passam todos pelo Caribe.

Salve-se quem puder
Atenção, viajantes, preparem-se: os dias de pico nos aeroportos neste fim de ano serão 19, 20, 26 e 27 de dezembro.

Defesa do consumidor

Alô, alô
O primeiro aniversário do decreto que regulamentou o Serviço de Atendimento ao Consumidor, agora no início de dezembro, será marcado com um balanço do governo. Em resumo, os números vão dizer que os serviços de call center das empresas de telefonia pioraram, ao passo que os das empresas de cartão de crédito melhoraram.

Livros

Sindicalismo de luxo
O Ministério da Cultura acaba de aprovar a captação de recursos via Lei Rouanet do livro O Movimento Sindical em São Paulo. Até aí, beleza. O projeto é descrito como "um livro luxuoso" que falará da história do sindicalismo paulista e "principalmente dos nomes que se destacaram nesse movimento, como o do senhor presidente da República". Em resumo, é um exemplo de culto à personalidade com renúncia fiscal.

Machado em cazaque
Mais de um século depois de sua morte, Machado de Assis, finalmente, chega ao Cazaquistão. A embaixada brasileira em Astana acaba de editar um livro de contos escolhidos de Machado, numa tiragem de 1.200 exemplares, que serão distribuídos para escolas e universidades locais.

Futebol

Outro estádio-problema
Nos últimos meses, o vilão da vez no que se refere a estádios para a Copa de 2014 foi o Morumbi. O estádio paulistano, porém, acaba de perder seu protagonismo nesse filme: o Maracanã é a nova grande preocupação da CBF e da Fifa. Faltam três anos e meio para a Copa das Confederações e nada de projeto para o estádio que ambiciona sediar a final da Copa.

ROBERTO SCHIMIDT/AFP

Na berlinda
Ronaldo: de camisa amarela se dependesse da torcida


Dunga não quer; a torcida, sim
Dunga deixou claro na semana passada: ninguém deve perder tempo imaginando Ronaldo Fenômeno vestindo a camisa da seleção na Copa da África do Sul. Beleza. Mas vai decepcionar a maioria dos torcedores - mais exatamente 57% dos 8.216 brasileiros de todo o país que responderam à pergunta "Você acha que Ronaldo deve voltar a seleção?", numa pesquisa feita no fim de outubro pela TNS Brasil. Entre os corintianos, esse porcentual sobe para 76%.

Com Paulo Celso Pereira

Será que genro é parente?

Marcelo Sato, casado com a filha mais velha de Lula, aparece em investigação da Polícia Federal conversando com empresário acusado de formação de quadrilha, estelionato e corrupção


Gustavo Ribeiro

Michel Filho/Ag. O Globo

Lula Como o francês François Mitterrand e o americano Jimmy Carter, teve algumas tristezas causadas por parentes


Não são raros os casos de chefes de estado que, vez por outra, se encontram na constrangedora situação de administrar fanfarronadas de parentes, amigos ou pessoas próximas. O presidente Lula não escapa dessa maldição. Ele já passou por essa situação algumas vezes, uma delas quando seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, foi pilhado pedindo dinheiro ("dois pau") a um empresário do ramo de jogos. Agora, um genro do presidente aparece como protagonista de atos ilegais em uma investigação da Polícia Federal. O genro é Marcelo Sato, casado com Lurian, filha mais velha de Lula. Sato foi flagrado pelos policiais negociando o recebimento de 10 000 reais de um empresário ligado a uma quadrilha investigada por lavagem de dinheiro, operações cambiais clandestinas, ocultação de bens e tráfico de influência. Equivaleria a um certificado de boa conduta se tudo o que esses parentes e meios-parentes de Lula tivessem obtido de benefícios próprios em sete anos de governo fossem os "dois pau" para Vavá e os 10 000 reais para Sato, que deveria repassá-los a Lurian, conforme as gravações da PF. Mas a questão não pode ser colocada em termos de valores absolutos. É grave o caso de Marcelo Sato, oficialmente empregado como assessor parlamentar.

O marido da filha do presidente prestava serviços a uma quadrilha, ora acompanhando processos em órgãos federais, ora usando sua condição de "genro" para agendar reuniões dos suspeitos com autoridades do governo.

É no terreno fértil das franjas do poder que florescem histórias desse tipo. VEJA teve acesso a relatórios policiais reservados da chamada Operação Influenza, que, durante dois anos, monitorou as atividades de uma quadrilha de empresários de Santa Catarina e de São Paulo apontados como responsáveis por desfalques milionários contra os cofres públicos. O genro do presidente, segundo a PF, funcionava como lobista do grupo. Interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça mostram que Marcelo Sato mantinha relações estreitas com o empresário João Quimio Nojiri, preso em junho de 2008. Nojiri era quem determinava quais missões o genro deveria cumprir dentro do governo. No dia 21 de maio de 2008, a polícia gravou uma conversa entre o empresário e um amigo de Lurian, identificado apenas como Guilherme. Nojiri conta que recebeu uma mensagem da filha do presidente, que estaria passando por dificuldades financeiras. O empresário, então, mandou depositar 10 000 reais para Lurian na conta-corrente de Marcelo Sato. "Tem certeza que tem que ser na conta dele?", pergunta o amigo. Nojiri liga para sua secretária e manda fazer a transferência do dinheiro.

A ajuda, porém, foi dada de maneira bem peculiar. João Nojiri pediu à secretária que fizesse "dois depósitos de 5" – uma provável medida de precaução contra a vigilância das autoridades, já que os bancos são obrigados a informar e identificar toda movimentação igual ou superior a 10 000 reais. Dividindo o repasse em dois, são nulas as possibilidades de a transação despertar a atenção da entidade fiscalizadora. "Estou fazendo um negócio pra você, tá? Tô sabendo que você tá precisando", informou o empresário a Marcelo Sato.

Lurian negou ter pedido dinheiro ao empresário Nojiri. "Não conheço esse homem. Nunca ouvi falar dele e não sei de dinheiro nenhum", garantiu ela. Marcelo Sato contradisse a esposa e admitiu a proximidade do casal com o investigado Nojiri, com quem teria uma amizade de dez anos. A versão dada por Marcelo Sato para justificar o repasse de 10 000 reais para sua conta exige que a tese da amizade longa e sólida seja verdadeira. O dinheiro seria fruto de um empréstimo pessoal feito por Nojiri e que já teria sido pago por Sato. João Nojiri, por sua vez, confirmou o vínculo com a família Sato, mas não se recorda nem da doação, nem do empréstimo, nem do pagamento do empréstimo. Disse Nojiri: "Não me lembro desses detalhes".

A relação entre empresário e assessor não era uma via de mão única. Se Nojiri prontamente atendia às carências do amigo, também recebia a contrapartida. Em inúmeras conversas registradas pela PF, Marcelo Sato agenda almoços, reuniões e audiências em Brasília com políticos graúdos. Ele conta com o apoio do deputado federal Décio Lima, do PT catarinense. O parlamentar, compadre do casal Sato, é íntimo dos acusados, mas também não se lembra de muita coisa: "Não tenho nenhuma relação com esse pessoal". Décio Lima pode ter esquecido, mas é sabido que ele com frequência tinha à sua disposição um avião da quadrilha investigada pela Polícia Federal. Em 14 de fevereiro de 2008, Sato, Décio e Nojiri estavam em Brasília. Sato disse que levaria o empresário para uma conversa com o presidente Lula, no Palácio do Planalto, tão logo encerrasse a agenda oficial do dia. A Presidência da República informou que não há registro do encontro.

Fotos Moser/Ag. Rbs e Beto Barata/AE

O PODER DA SOMBRA
O deputado Décio Lima embarca em um avião cedido pela quadrilha, que tinha o empresário João Nojiri (ao lado) como o responsável por cuidar dos interesses junto ao governo



RELAÇÕES PERIGOSAS

Marlene Bergamo/Folha Imagem

Diálogos captados pela Polícia Federal revelam que o empresário paulista João Noriji deu 10 000 reais para Lurian Cordeiro Lula da Silva, filha do presidente Lula. Segundo a PF, a doação aconteceu na mesma época em que o marido de Lurian, Marcelo Sato, estava usando sua condição de "genro do presidente Lula" para ajudar a abrir portas no governo para a quadrilha que tinha João Nojiri como um dos principais integrantes.

Noriji: Eu precisava do rádio, do ID do rádio da Lurian.

Guilherme: Eu não tenho.

N: Achei que você tinha o radio dela.

G: Não, não tenho.

N: E como você fala com ela?

G: MSN

N: Tá bom, então. Eu estou conversando com ela por e-mail. Diz a ela que eu estou resolvendo a questão dela, de uma necessidade,
até sexta feira. Para ela dar uma consultada na conta do marido.

G: Tem certeza que tem que ser na conta dele? Porque ele não vai dizer a ela que entrou e ele não autoriza a ficar checando conta...

Julio/Ag. RBS


Um hora e trinta e cinco minutos depois da primeira ligação, Nojiri manda sua secretária fazer dois depósitos de 5000 reais na conta de Marcelo Sato.

Noriji: Josi, aquele depósito. A Sacha te falou que tinha que fazer? Secretária: Depósito do Village?

N: Não, o outro. Do Marcelo (Sato).

S: Tá aguardando um ok do senhor, se é pra fazer na conta dele ou na conta da esposa.

N: Faz na conta dele mesmo. Dois depósitos de 5, tá bom?.

S: Tá ótimo então. Vou falar pra fazer na conta dele.

Vinte minutos depois, João Nojiri liga para Marcelo Sato e informa sobre o depósito:

Nojiri: Oi, querido.

Marcelo Sato: Fala, querido. Tudo bem?

N: Eu estou fazendo um negócio pra você, tá? Tô sabendo que você tá precisando. Conta com isso.

S: Tá. Bom, a gente conversa direitinho...

DENTRO DO PALÁCIO

Marlene Bergamo/Folha Imagem

A Polícia Federal responsabilizou o genro do presidente Lula por tráfico de influência. Nas conversas captadas pela PF, Marcelo Sato promete colocar o empresário João Nojiri, que viria a ser preso meses depois, em contato com o presidente Lula.

Nojiri: Tá, mas que horas você acha que é bom ir pra lá?

Sato: Ah, porque hoje ele vai receber o presidente de Guiné Equatorial. Era pras 15h. Ele tá atendendo agora a agenda das 13h45. Aí depois tem o presidente, tem a Dilma, tem o Múcio, aí a gente.

N: Então, mas que horas você acha que a gente tem que ir pra lá?

S: Umas 18h30, por aí. Em princípio, o Múcio tava pra umas 19h. Acho que ele vai antecipar tudo e a gente conversa com ele. Ele vai pro Chile e volta domingo. (...)

N: Onde você tá?

S: Agora eu tô aqui saindo do (Palácio da) Alvorada.

N: Você não quer encontrar antes da gente ir lá pro anexo?

S: Se você quiser ir pra lá, pode ir. Porque eu já vou acertar direitinho lá no gabinete agora, entendeu?

N: Pode deixar marcado. Deixa tudo certo. Tô falando pra conversar com você antes de eu te encontrar, pra ir junto pra lá.
Que que você quer fazer?

S: Quero sentar lá no Palácio agora, falar: "Vem pra cá tal hora, certinho, que a gente vai falar"

"Triste e abatido"

Em artigo publicado na Folha, um esquerdista histórico afirma

que Lula tentou subjugar um rapaz quando estava na prisão.
O presidente ficou perplexo

Fotos Niels Andreas/AE e Reprodução

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?
Benjamin e Lula, em 1980, quando foi fichado: o "menino do MEP" seria João Batista dos Santos


A um mês da estréia de Lula, o Filho do Brasil, surge um depoimento que contrasta fortemente com o filme de contornos hagiográficos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na sexta-feira passada, o jornal Folha de S.Paulo publicou um artigo que deixou de olhos arregalados todos os que o leram. Intitulado "Os filhos do Brasil", o texto é assinado por César Benjamin, um dos mais célebres militantes da esquerda brasileira. Entrou para o movimento estudantil ainda adolescente. Por sua militância política, ficou preso por cinco anos e foi expulso do Brasil em 1976. Quando voltou, empenhou-se na fundação do PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006, foi candidato a vice-presidente pelo PSOL. Hoje, está sem partido. Cesinha, como é conhecido, relata o que teria sido uma revelação devastadora feita por Lula a ele em 1994.

Na ocasião, o petista iniciava sua segunda campanha a presidente. Benjamin estava na equipe de marketing do candidato. Ele relata: "Lula puxou conversa: ‘Você esteve preso, não é, Cesinha?’ ‘Estive.’ ‘Quanto tempo?’ ‘Alguns anos...’, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: ‘Eu não aguentaria. Não vivo sem b...’. Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos trinta dias em que ficara detido. Chamava-o de ‘menino do MEP’, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do ‘menino’, que frustrara a investida com cotoveladas e socos". Segundo Benjamin, o diálogo foi presenciado pelo publicitário Paulo de Tarso da Cunha Santos. O publicitário, cujos contratos com o governo federal montam a 300 milhões de reais, negou em nota lembrar-se do episódio.

Por liderar greves no ABC paulista, Lula passou 31 dias preso no Dops, em São Paulo, em 1980, com outros sindicalistas. VEJA ouviu cinco de seus ex-companheiros de cela. Nenhum deles forneceu qualquer elemento que confirme a história de Benjamin. Eles se recordam, porém, de que havia na mesma cela um militante do Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP). "Tinha um rapaz com a gente que se dizia do MEP. Tinha uns 30 anos, era magro, moreno claro. Eu não o conhecia do movimento sindical", diz José Cicote, ex-deputado federal. "Quem estava lá e não era muito do nosso grupo era um tal João", lembra Djalma Bom, ex-vice-prefeito de São Bernardo do Campo. "Eu me lembro do João: além de sindicalista, ele era do MEP mesmo", conta Expedito Soares, ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. O João em questão é João Batista dos Santos, ex-metalúrgico que morou e militou em São Bernardo. Há cerca de três anos, ganhou uma indenização da Comissão de Anistia e foi viver em Caraguatatuba, no Litoral Norte de São Paulo. Por meio do amigo Manoel Anísio Gomes, João declarou a VEJA: "Isso tudo é um mar de lama. Não vou falar com a imprensa. Quem fez a acusação que a comprove".

O Palácio do Planalto reagiu com indignação, qualificando o relato de Benjamin de "loucura". O chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, disse que o artigo de César Benjamin era ato de um "psicopata". Carvalho afirmou também que Lula havia ficado "triste, abatido e sem entender" as razões que levaram o militante histórico a fazer um ataque tão destruidor contra sua honra.

O mensalão de Brasília


O governador do Distrito Federal é investigado pela PF por
suspeita de uso de doações de caixa dois para comprar deputados distritais


Otávio Cabral

Fotos Dida Sampaio/AE e Cristiano Mariz

NOTAS MARCADAS
Agentes da PF fizeram diligências em gabinetes e na casa de deputados em busca do dinheiro da corrupção


José Roberto Arruda (DEM), governador do Distrito Federal, já conheceu o céu e o inferno na política. Há oito anos, ele era líder do governo Fernando Henrique Cardoso no Senado quando teve de renunciar ao mandato por ter participado da violação do sigilo do painel de votações. Arruda voltou por baixo, elegendo-se deputado em 2002. Quatro anos depois, conseguiu retornar aos holofotes ao eleger-se governador. Com uma gestão austera, marcada por políticas de corte de gasto e ajuste das contas, ele atingiu uma popularidade recorde na capital do país. Arruda tornou-se a maior expressão política do DEM, chegando a ponto de ser cotado como um dos principais candidatos a uma futura Vice-Presidência em uma chapa de oposição encabeçada pelo PSDB nas eleições de 2010. Na sexta-feira passada, a trajetória do governador girou 180 graus. Agentes da Polícia Federal realizaram buscas na residência oficial, na sede do governo, em gabinetes de secretários e deputados distritais, numa operação batizada com o sugestivo nome de Caixa de Pandora. Descobriu-se algo realmente terrível, embora nada surpreendente: a existência de um grande e milionário esquema de corrupção. O próprio Arruda foi gravado conversando sobre o destino de uma montanha de dinheiro recolhido junto a empresários que prestam serviços ao governo.

O Ministério Público e a Polícia Federal conseguiram convencer um de seus secretários a participar de um programa de delação premiada. Por meses, Durval Barbosa, ex-delegado de polícia que fez carreira de sucesso como arrecadador de dinheiro informal para campanhas eleitorais do PMDB e que ocupava o cargo de secretário de Assuntos Institucionais de Arruda, filmou e gravou tudo o que viu. Em um dos encontros que teve com o governador, Durval discute com ele o destino de 400 000 reais, dinheiro arrecadado de empresários para ser distribuído aos parlamentares da chamada base aliada – uma versão local do notório mensalão dos petistas. Outros 200 000 reais deveriam ser guardados para despesas futuras. Segundo depoimento do delator, as empresas prestadoras de serviço contribuíam para o caixa clandestino com um porcentual calculado sobre cada fatura paga pelo governo. Os repasses seriam em
média de 600 000 reais por mês. Com a ajuda de Durval Barbosa, a PF marcou as notas com uma tinta especial e, na semana passada, foi à casa dos supostos beneficiados em busca das provas da corrupção. Apreendeu 700 000 reais guardados em cofres. Não se sabe ainda se as cédulas apreendidas foram as mesmas marcadas pelos policiais.

José Roberto Arruda ingressou na política pelas mãos do ex-governador Joaquim Roriz – que teve de renunciar ao mandato de senador, em 2007, para não ser cassado por corrupção. Em sua campanha ao governo, em 2006, Arruda rompeu com Roriz. Ao assumir o cargo, porém, manteve vários ex-assessores do antigo governador. Os adversários diziam que Arruda herdou também o esquema de corrupção de Roriz. A abertura da caixa de Pandora do Distrito Federal vai revelar se isso é verdade. A operação tem efeito direto sobre o resultado das eleições do ano que vem. Arruda, candidato à reeleição, lidera com folga as pesquisas de opinião. Em segundo lugar aparece exatamente o ex-governador Joaquim Roriz, que, esbanjando ironia, comentou a investigação sobre a administração de seu sucessor: "Nunca imaginei que pudesse haver corrupção no governo Arruda. É lamentável".

Fontes da polícia confirmam que as investigações podem aniquilar também as pretensões de Joaquim Roriz. Isso depende do que Durval Barbosa se dispuser a contar em juízo. O ex-secretário de Arruda comandou durante anos uma estatal, e comenta-se que ele possui um baú enorme de provas contra metade dos políticos da capital. O caso é tão complexo que o DEM, o partido do governador, não divulgou sequer a tradicional e burocrática nota de solidariedade a Arruda, preferindo manter o silêncio. O governador também preferiu não se manifestar oficialmente. Seus assessores informaram que ele espera ter acesso ao inquérito para, só depois, comentar o caso. "Ele vai revelar como funciona a política em Brasília", diz um de seus assessores. Arruda, a fênix que ressurgiu do episódio do painel de votações, pode estar empreendendo outro mergulho rumo às cinzas.

DELAÇÃO PREMIADA
O governador José Roberto Arruda: ele foi gravado por um de seus assessores

Derrota da diplomacia petista


Ao insistir em restaurar Manuel Zelaya no poder,
o governo brasileiro se torna adversário da saída mais
democrática para a crise em Honduras: as urnas

Fotos Susan Walsh/AP e Fernando Souza/CPDOC JB/Folha Imagem
AI, QUE MEDO
Obama, o sereno, é atacado por Garcia, o sinistro: o verdadeiro motivo é a raiva pelos planos fracassados de transformar Honduras em vitória ideológica

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Alguma coisa certa Barack Obama fez. E não estamos falando do garbo exibido na primeira recepção de gala de seu governo, visto na foto ao lado. A prova do acerto está nos ataques virulentos que recebeu de Marco Aurélio Garcia, o assessor do presidente Lula para assuntos internacionais. Tudo o que Garcia fala é errado, na forma e no conteúdo, além de prejudicial aos interesses nacionais. O presidente dos Estados Unidos foi alvo do novo surto de megalonanismo por defender o reconhecimento das eleições em Honduras, neste domingo. Desde que Manuel Zelaya tentou emplacar a própria reeleição e foi punido pela Suprema Corte com a perda do cargo, além de expulso manu militari do país, ao qual retornou com a patola chavista, instalando-se de bigode e chapelão na embaixada brasileira, a diplomacia petista trabalha com o objetivo de restaurá-lo no poder a qualquer preço. A saída pela via eleitoral, com a escolha de um novo presidente, virou um anátema para Garcia e sua turma. A proposta de solução apoiada por Obama parecia razoável: levar observadores internacionais para Honduras e, verificada a lisura da votação, chancelar o resultado, abrindo uma saída pacífica para o impasse. "Isso é muito ruim para os Estados Unidos e sua relação com a América Latina", rugiu Garcia. "Todo aquele clima favorável que se criou com a eleição do presidente Obama começa a se desfazer um pouco."

Em diplomacia, as palavras devem ser escolhidas com cuidado, não por cortesia banal, mas para evitar o agravamento de atritos. Quando um país considera necessário censurar outro, a praxe é plantar declarações indiretas, chamar os representantes diplomáticos do oponente para uma conversa ou fazer comunicações por escrito. A ideia de personalizar as críticas, nomeando um chefe de governo diretamente, só em casos muito graves. Garcia rompeu todas essas regras e, num lapso ofensivo, somou a ofensa à injúria ao dizer que reconhecer a eleição em Honduras seria "legitimar o branqueamento de um golpe" - ah, as peças que o inconsciente prega. A violência de suas declarações tem uma explicação simples: frustração. A diplomacia petista contava com uma vitória política e ideológica com a restituição de Zelaya, que representaria uma prova de força e de prestígio internacional do governo Lula.

Rodrigo Abd/AP
ELES QUEREM VOTAR
Manifestação em Honduras: críticas a Lula

Na prática, deu tudo errado. A alegria dos megalonanicos quando Zelaya retornou murchou rapidamente. O sujeito se mostrou disposto a lutar até a última vida dos outros, usou a embaixada brasileira como palanque e decepcionou mesmo quem condenava a forma como foi defenestrado. O governo interino de Roberto Micheletti, que tinha por trás o comando das Forças Armadas, a maioria do establishment político, a Corte Suprema e uma parte possivelmente majoritária da opinião pública, revelou uma capacidade de resistência insuspeita num país pobre, pequeno e suscetível a pressões. "Aqui não temos medo dos Estados Unidos, nem do Brasil, nem do México. Temos medo de Manuel Zelaya", resumiu Micheletti.

O que pesou, no entanto, foi a mudança na posição dos Estados Unidos. Quando Zelaya foi despachado e sua separação abrupta do poder parecia um golpe clássico, do tipo que assolou a América Latina no passado nem tão distante, o governo Obama apoiou a condenação internacional praticamente unânime. Depois, suspendeu parte da ajuda a Honduras e cancelou os vistos de integrantes do governo interino e dos membros da Corte Suprema. A situação começou a mudar quando Hugo Chávez patrocinou o retorno sub-reptício de Zelaya e se multiplicaram as incitações ao levante popular, com o patente objetivo de criar mártires. "Naquele momento, ficou claro que o presidente deposto era um baderneiro que queria apenas provocar a instabilidade no país", disse a VEJA Doug Bandow, pesquisador do Instituto Cato, com sede em Washington. Quanto mais a diplomacia petista se exibia em manifestações estridentes de autoapreciação, mais baixinho falavam os americanos. Em outubro, o subsecretário de Estado para a América Latina e próximo embaixador em Brasília, Thomas Shannon, foi a Honduras e mediou um acordo que parecia salvar a cara de Zelaya e seus defensores: Micheletti renunciaria, o bigodudo voltaria à Presidência por um breve período, numa espécie de regime de liberdade vigiada, e as eleições resolveriam o assunto. Na realidade, o governo interino enrolou quanto pôde e Zelaya foi virando cada vez mais um personagem irrelevante. Só o último ponto se concretizou.

Muita coisa que aconteceu em Honduras foi indesejável: a adesão de Zelaya ao chavismo, as manobras que fez para alterar a cláusula pétrea da Constituição que proíbe a reeleição, sua posterior expulsão do país, a breve mas condenável decretação do estado de sítio. Numa situação com tantos fatores negativos, a eleição de um novo presidente parece uma evolução positiva. As eleições foram marcadas quando Zelaya ainda estava no poder e, embora tenha passado a rejeitá-las, dos cinco candidatos dois são zelayistas. Micheletti deixou o cargo na semana passada e o Congresso ficou de decidir depois da eleição se Zelaya seria restaurado, hipótese altamente improvável. O favorito nas pesquisas é Porfírio Lobo, do Partido Nacional, de centro-direita. O presidente Lula reiterou que não aceitará de maneira alguma o resultado da eleição. Se a premissa de condições democráticas irrepreensíveis fosse aplicada em todas as situações para validar eleições, muitos países não teriam saído de regimes ditatoriais. É bom até bater na madeira para não lembrar desse passado. Toc, toc, toc. Ou, nas palavras inesquecíveis de Marco Aurélio Garcia, top, top, top.


Noves fora, nada

Eraldo Peres/AP
BEM NA FOTO
Lula e seu convidado: vantagens, só para Ahmadinejad

Tudo o que foi dito pelo governo a respeito da visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, é cortina de fumaça. O barbudinho sinistro não foi convidado para cultivar relações com um país importante, nem para avançar relações comerciais, nem para dar ao Brasil um papel de mediação na crise do programa nuclear clandestino do regime dos aiatolás. Os dois primeiros objetivos podem e devem ser promovidos com impessoalidade diplomática, sem contemplar um pária como Ahmadinejad com o prêmio de um convite oficial ao Brasil. O terceiro contraria a lógica do esforço diplomático mundial para conseguir uma saída à questão nuclear: o momento é de pressionar e acenar com normalização apenas na hipótese de que o Irã aceite a proposta da ONU, de enriquecer urânio na Rússia, como garantia de que não o usará na fabricação de bombas. O verdadeiro objetivo dos afagos a Ahmadinejad foi o de sempre: conseguir uns votinhos em organismos internacionais, uma área em que a diplomacia lulista tem sido particularmente malsucedida - basta o chanceler Celso Amorim se aproximar de um candidato a qualquer coisa e, catapimba, o infeliz não se elege nem síndico de prédio.

A coisa menos ruim que aconteceu foi que o presidente Lula não escapou do roteiro e não disse absurdos. Por ocasião da eleição fraudulenta que reelegeu Ahmadinejad, ele desqualificou os protestos da oposição, comparando-a a torcida de time perdedor - justamente no momento em que jovens iranianos eram presos, espancados e violentados nas cadeias. As declarações em favor de que o Irã "tenha o direito de desenvolver enriquecimento de urânio para fins pacíficos" foram desmentidas na prática: na sexta-feira, o Brasil se absteve na resolução da Agência Internacional de Energia Atômica condenando os comprovados subterfúgios do programa nuclear do Irã.

Mujica não assusta


O agricultor, favorito nas eleições presidenciais do Uruguai,
foi guerrilheiro tupamaro. Mas a probabilidade de ele se aproximar
do venezuelano Hugo Chávez é pequena


Duda Teixeira

Pablo La Rosa/Reuters
SÓ A LÍNGUA É SOLTA
Mujica, em campanha: ele deve manter o rumo da economia

O mais provável vencedor do segundo turno das eleições presidenciais no Uruguai, que acontece neste fim de semana, é José "Pepe" Mujica. Com 74 anos, bigodão e barrigona, o político foi guerrilheiro dos Tupamaros, um dos grupos de luta armada mais temidos da América Latina nos anos 60 e 70. Participou de sequestros de políticos e de assaltos a banco. Passou catorze anos na cadeia e fugiu duas vezes. Hoje, cultiva flores e hortaliças em seu sítio de 20 hectares. Tem um Fusca na garagem e traz sempre ao lado sua cachorra de 16 anos, que não tem uma perna. Finda essa breve apresentação, a pergunta é: uma vez eleito, Mujica se tornará mais um integrante da esquerda carnívora, aquela que destrói empresas, ataca jornalistas, persegue opositores e ecoa a retórica bélica e alucinada do presidente venezuelano Hugo Chávez?

Por ora, não há motivo para se preocupar com o país vizinho, de 3,4 milhões de habitantes. Na campanha uruguaia, ninguém demoniza a imprensa nem usa os sindicatos para atacar a oposição. Não se fala em estatização. A economia do país, muito ligada à produção de carne, trigo, lã e soja, cresceu em média 7% nos últimos três anos. O patrono de Mujica é o atual presidente, Tabaré Vázquez, que em seu governo triplicou o investimento externo, reduziu o gasto público e goza de popularidade acima dos 70%. Mujica deve manter as políticas em vigor. Quando aponta para fora do país, ele se espelha em políticos de uma esquerda moderada. Nos comerciais de televisão, apareceu ao lado de Lula e da presidente chilena Michelle Bachelet – os quais visitou em agosto, em seus respectivos países.

Pequeno e distante, o Uruguai parece despertar pouco interesse em Hugo Chávez. O venezuelano visitou Montevidéu em 2005 e 2006. Fez doações para bairros pobres e hospitais. Depois, esqueceu o país. Muito mais momentoso para o eleitor uruguaio é saber que espécie de relação cada candidato mantém com a Argentina governada pelos Kirchner. Os dois países estão envolvidos numa disputa em tribunais internacionais por causa de duas fábricas de papel e celulose em região de fronteira. Esse conflito criou na população um sentimento generalizado de hostilidade em relação aos Kirchner. Mujica comprou a briga. É ao "casal K" que ele destina suas críticas mais duras. Já os chamou de "gangue", "irracionais", "histéricos" e "loucos". Diz ele: "A institucionalidade do país não vale nada".

Caso o bigodudo perca o pleito, também não há expectativas de grandes guinadas. Seu adversário é o advogado Luis Alberto Lacalle, que foi presidente do país na década de 90 e disputa pelo conservador Partido Nacional. "Todos os partidos já participaram do governo, o que nos tornou muito pragmáticos e moderados", diz o cientista político Daniel Chasquetti, da Universidade da República, em Montevidéu. "O Mujica de hoje está longe de ser um radical."

Tempestade no deserto


Estouro da bolha imobiliária faz o governo de Dubai anunciar a moratória no pagamento de suas dívidas. Mas a crise não deverá minar a transformação do emirado na meca do turismo no Oriente Médio


Giuliano Guandalini

Bjoen Goettlicher/TCS/ Zuma Press

FALTOU DINHEIRO
Pregão na bolsa de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos: dívida de 80 bilhões de dólares


Partiu do Oriente Médio, na semana passada, a lembrança de que a economia mundial ainda não se recuperou por completo de sua mais acerba crise financeira em oito décadas. O governo de Dubai anunciou a seus credores a intenção de suspender, por ao menos seis meses, o pagamento da dívida da Dubai World, a gigantesca estatal do emirado que está por trás de alguns dos mais arrojados projetos imobiliários do planeta – entre eles as Palm Islands, um complexo faraônico de três ilhas artificiais no Golfo Pérsico onde estão sendo construídos milhares de mansões, além de uma centena de hotéis, parques de diversões e shoppings. Um eventual calote de Dubai teria consequências sentidas em todo o mundo financeiro. Isso porque bancos europeus já combalidos, principalmente os ingleses, aparecem entre os principais credores do emirado e teriam de registrar novas e expressivas perdas. Daí a queda nas bolsas de valores na semana passada. A moratória, se confirmada, ocorrerá em um momento em que os países do Golfo Pérsico davam sinais de recuperação, depois de terem sentido os efeitos da desvalorização do petróleo. Dubai, no entanto, sofreu com o estouro de sua própria bolha (o preço dos imóveis caiu pela metade desde o início do ano) e passou a ter dificuldades para encontrar quem bancasse o seu ritmo delirante de investimentos.

Ao contrário de seus vizinhos, Dubai não é rico em petróleo (a exploração desse recurso mineral representa apenas 2% de seu PIB). Por isso o emirado, um dos sete que compõem os Emirados Árabes Unidos, procurou diversificar sua economia. Primeiro, deu incentivos fiscais ao comércio e à instalação de empresas em parques industriais. Mais recentemente, lançou-se como o principal centro financeiro da região, ao mesmo tempo em que buscou se transformar na meca do turismo nas Arábias. A estratégia deu certo, e o emirado passou a crescer velozmente. O salto veio depois de 2002, quando o governo, controlado hoje pelo xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum (veja o texto ao lado), concedeu autorização para que estrangeiros fossem proprietários de imóveis no emirado.

Dubai, no entanto, contraiu empréstimos em excesso para erguer obras mirabolantes. Suas dívidas alcançam 80 bilhões de dólares, soma equivalente ao tamanho de seu PIB. Desse total, a maior parte (60 bilhões de dólares) pertence à Dubai World, que, além dos investimentos imobiliários no próprio emirado, controla as operações do lucrativo porto no golfo e participa de projetos no exterior – é sócia da CityCenter, em Las Vegas (veja mais). O grande temor dos investidores internacionais é que Dubai protagonize um calote à moda argentina. Até sexta-feira, imperava a absoluta incerteza a respeito de como se daria a reestruturação da dívida. A expectativa é de que o resgate financeiro saia dos cofres de Abu Dhabi, emirado rico em petróleo e dono do maior fundo soberano do mundo, com uma carteira de investimentos que soma mais de 600 bilhões de dólares, parte deles em Dubai. Mas os xeques de Abu Dhabi relutam em bancar mais uma vez a prodigalidade de seus vizinhos. Será a ruína de Dubai? Provavelmente não. O emirado é mais liberal que outros países da região e se localiza em uma faixa menos conturbada do Oriente Médio. Além disso, boa parte de seus empreendimentos já foi vendida e está concluída. Tão logo corrija seus excessos, deverá continuar a representar um oásis para investidores e turistas às margens do explosivo Golfo Pérsico.


O xeque e sua bolha

Reuters

O PRIMO PRÓDIGO
Xeque Mohammed Al Maktoum: duas esposas, dezenove filhos e 16 bilhões de dólares


O esplendor de Dubai deve-se em grande parte a um único homem. Fã de corridas de camelos, o xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, de 60 anos, antes mesmo de ascender ao trono, em 2006, havia concentrado esforços em transformar o emirado numa espécie de Nova York do Oriente Médio, mas com arquitetura ao estilo de Las Vegas e marinas que emulam Mônaco. O monarca, que descende da linhagem que domina a região desde 1833, possui hoje um patrimônio pessoal estimado em 16 bilhões de dólares. O xeque tem duas esposas, dezenove filhos – e mais de 100 000 seguidores no Facebook e no Twitter. Em uma região onde o poder secular se mistura com o religioso, governa Dubai como uma autocracia que se pretende democrática. Prova disso é que, apesar da faceta progressista, seu governo ameaçou com pesadas multas quem fizesse menção às consequências negativas da crise para o emirado. Em reunião recente com investidores, o monarca foi questionado sobre a saúde das finanças de Dubai e a suposta deterioração das relações com o primo rico, Abu Dhabi. A resposta do xeque foi um sonoro "Calem a boca".

O lixo diário de cada um


O prefeito Eduardo Paes ameaça suspender por um dia a limpeza das praias do Rio para mostrar que quem emporcalha a cidade são os cariocas


Silvia Rogar

Cezar Loureiro/ Ag. Globo

NEM PARECE PRAIA
Garis recolhem lixo na Praia de Copacabana: até 180 toneladas por dia


Praias cercadas por montanhas tornam o Rio de Janeiro uma metrópole única. Nos fins de semana de sol, a orla fica tão apinhada que parece não haver outro programa na cidade. Com o passar das horas, porém, o cenário maravilhoso se esvai. Lá pelo início da tarde, no trajeto entre o calçadão e o mar, é grande a possibilidade de o banhista tropeçar numa casca de coco, pisar num palito de churrasco ou ter de espantar pombos que disputam restos de comida na areia. Os cariocas, é claro, culpam a prefeitura. Mas basta passar pelas praias no início ou no fim do dia, quando 200 garis estão em plena atividade, para ver que não é bem assim. Eles chegam a recolher 180 toneladas de sujeira na orla depois de um domingo de sol. Na semana passada, uma possível proibição da venda de coco, já descartada, trouxe à tona o cerne da questão: a limpeza da cidade é responsabilidade do governo, mas cabe à população preservá-la. O prefeito Eduardo Paes não economizou nas palavras. "As pessoas têm de ser menos porcas", disse.

O lixo jogado pelos cidadãos se espalha por toda a cidade. A Avenida Rio Branco, a principal via do centro do Rio, é varrida seis vezes por dia – e, ainda assim, está sempre suja. Diariamente, são recolhidas 3 500 toneladas de lixo das ruas cariocas, o que equivale a 590 gramas por habitante. Em São Paulo, são 2 970 toneladas por dia, ou 280 gramas por habitante. É menos da metade. "Esses dados mostram que o carioca é pouco educado quando descansa e quando trabalha", disse Paes a VEJA. O prefeito fez muito barulho ao anunciar medidas para conter a sujeira. O alarde valerá a pena, caso consiga diminuir a porqueira da cidade. Ele promete instalar painéis, batizados de lixômetros, nas 34 regiões administrativas do Rio, a partir de dezembro. O indicador mostrará se o lixo jogado na área aumentou ou diminuiu. Também serão instaladas mais lixeiras, destinadas aos 900 barraqueiros das praias.

A Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) teve orçamento de 800 milhões de reais em 2009 – cerca de 10% da receita da prefeitura carioca. O município ainda estuda outros estímulos, como baixar o IPTU da região que conseguir reduzir mais significativamente o lixo. Enquanto a sujeira não diminui, Paes promete: sem anunciar a data, vai suspender o trabalho dos garis na orla após um domingo de sol. Confrontados com o lixo que produzem, talvez os cariocas consigam melhorar suas maneiras. Em países como a Inglaterra, onde o grande problema das ruas são as pontas de cigarro, o governo é duro com os sujismundos. Cerca de 44 000 pessoas são processadas ou recebem anualmente algum tipo de penalidade por atirar lixo em lugares públicos.

Foto Uanderson Fernandes/Ag. O Dia

NEM PARECE PRAIA
Garis recolhem lixo na Praia de Copacabana: até 180 toneladas por dia

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