FOLHA DE S. PAULO
O culto ao presidente Lula chegou a tal ponto que não causará estranheza se alguma edição popular da Bíblia iniciar com: "No princípio, Lula criou...". Inegavelmente, ele é, até este instante, o maior mito da nossa história.
Esse fenômeno nasceu nos anos 70, ainda durante o regime militar. Foi produzido por um conjunto de fatores. De um lado, pela ausência de novas lideranças sindicais, produto da supressão das liberdades pelo regime militar. Por outro, devido à repressão que atingiu o Partido Comunista Brasileiro, além das cisões do final da década de 60. O PCB acabou perdendo espaço no movimento operário. E a pequena influência que manteve foi por meio de alianças com os sindicalistas conhecidos como pelegos.
Foi nesse campo aberto que apareceu Luiz Inácio Lula da Silva, em 1977. Tinha sido eleito, dois anos antes, presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
Após a divulgação por esta Folha do relatório do Banco Mundial, em que ficou demonstrado que o índice de inflação de 1973 tinha sido manipulado por Delfim Netto, então ministro da Fazenda, Lula iniciou uma campanha pela reposição salarial. Não obteve resultado, mas chamou a atenção da imprensa nacional.
O novo líder operário foi imediatamente adotado por alguns intelectuais de São Paulo. Eles criticavam Vargas, o PCB e o populismo. Ambicionavam participar da grande política, mas não tinham voto.
A eles se somaram os derrotados da luta armada, também sem influência popular, e os membros das comunidades eclesiais de base, da Igreja Católica. Estes últimos obtiveram ampla inserção nos movimentos sociais, que surgiram nos anos 70, mas careciam de formação política sólida.
Sustentado por essas três vertentes, Lula foi incensado como líder popular: antipopulista, anticomunista e católico. Em pouco tempo, transformou-se na maior referência do sindicalismo. As greves de 1978-1980, dirigidas de forma atabalhoada, fizeram a transição de líder sindical para dirigente partidário.
Em 1980, foi um dos fundadores do PT e seu primeiro presidente. Outra vez Lula foi usado como referência de ruptura. O PT seria o primeiro partido de trabalhadores do Brasil, apagando a história de mais de 60 anos dos partidos operários.
Anos antes, os mesmos intelectuais haviam transformaram Lula no primeiro sindicalista "autêntico" do ABC, mas a região teve movimentos grevistas desde a década de 20.
Tudo o que falava era considerado original, sábio. Quando exagerava na dose -como numa entrevista, em 1979, em que elogiou a "determinação" de Adolf Hitler-, era perdoado.
Durante 20 anos participou de cinco eleições. Ganhou uma, em 1986, eleito deputado constituinte. Mesmo assim, o mito não foi abalado. Pelo contrário, os intelectuais do partido transformaram as derrotas em vitórias políticas, sempre encontrando alguma razão para os fracassos.
O processo de construção mítica foi ampliado depois da eleição de 2002. Todos os êxitos do governo foram creditados a ele, e as dificuldades e problemas de difícil resolução a curto prazo foram imputados a uma herança maldita dos governos anteriores, especialmente da presidência FHC. Continuou contando com a colaboração entusiástica de intelectuais. Tudo o que falava ou fazia era considerado extraordinário. Era uma espécie de Espinosa de São Bernardo do Campo.
Na crise do mensalão, o encanto não foi quebrado. Tudo teria sido tramado pela imprensa golpista. Mais uma vez, a figura de Lula era o divisor de águas. O caixa dois teria sido colocado de ponta-cabeça. Os destinatários dos recursos não contabilizados seriam o partido e a campanha. Era a corrupção positiva, companheira.
Com a reeleição, o mito chegou ao auge. Ultrapassou as fronteiras nacionais. O ufanismo entrou na ordem do dia. O delírio do presidente que foi ungido em Caetés para libertar o Brasil tomou conta do noticiário. Como nas ditaduras do "socialismo real", o presidente foi considerado infalível. Se Stálin, pouco antes de morrer, dissertava sobre linguística, Lula passou a explicar até as variações climáticas.
Porém, como o mito foi construído em vida, corre o risco de o próprio Lula ajudar a destruí-lo. Se perder a eleição de 2010, terá de descer do Olimpo. As críticas à sua liderança irão crescer, inclusive dentro do PT.
Há muito deixou de ouvir contestações e negativas dos que o cercam. Os áulicos só dizem sim. O todo-poderoso voltará ao mundo real. O mito vai resistir?
Marco Antonio Villa, 54, é professor de história da UFScar (Universidade Federal de São Carlos) e autor, entre outros livros, de "Jango, um Perfil".
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