Entrevista:O Estado inteligente

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sexta-feira, janeiro 13, 2012

Governo da infeliz cantilena :: Roberto Freire



Há algo terrivelmente familiar no rastro das chuvas que varrem o Rio de Janeiro e Minas Gerais, bem como na seca que devasta a Região Sul atualmente, sua previsibilidade.

Faz algum tempo que o Brasil enfrenta o aumento de ocorrência de desastres naturais, com um padrão de destruição e fatalidade sem precedentes.

Foi o Furacão Catarina que em 2004 deu o tom da mudança climática que estamos experimentando, quando, em Santa Catarina, destruiu 1.500 casas e fez milhares de desabrigados; em 2008, no mesmo estado, outra tempestade arrasou encostas, transbordou rios e deixou um saldo, segundo a Defesa Civil, de quase 80 mil desabrigados, uma centena de mortes, 19 desaparecimentos, e afetou a vida de 1,5 milhão de brasileiros.

Em janeiro de 2010, a mesma coisa pôde ser percebida no Rio de Janeiro, uma chuva varreu cidades inteiras em sua região serrana, como Teresópolis e Friburgo, com mais de mil mortos e desaparecidos e milhões de reais em prejuízo econômico para empresas e famílias.
A resposta do governo federal foi a omissão, pois desde o governo Lula vem anunciando planos mirabolantes para “prevenção de tragédias”, para consumo meramente propagandístico, e absolutamente nada foi feito ou teve consequências práticas.

Como denunciou o secretário demissionário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia, Luiz Antônio Barreto de Castro, quando admitiu que o governo federal falou mais do que fez e poderia ter evitado a tragédia de 2010.

Um levantamento feito pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) mostra que somente 13% dos recursos gastos pelo governo federal em ações da Defesa Civil foram investidos na prevenção de desastres naturais, como deslizamentos de terra, enchentes e seca, no período de 2006 a 2011.

Quando confrontado com as necessidades reais do povo brasileiro, o governo do PT só o trata bem em sua farta propaganda.

Os pequenos “apagões” diários de energia elétrica que transtornam a vida dos cidadãos, nas mais diversas regiões do país, a total ausência de uma efetiva política de combate ao dengue, por exemplo, as questões que envolvem o risco direto de vidas preciosas, como um sistema integrado de monitoramento de catástrofes provenientes das chuvas em nossas cidades, que a cada ano, quase na mesma época, infelicitam tantas famílias, somadas a uma precária infraestrutura urbana, explicam o que assistimos nos últimos dias no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.

E, mais uma vez, a velha pantomima da presidente Dilma se repete, reuniu ministros, muitos dos quais, como ela, estavam em férias, para providenciar planos que já deveriam ter sido executados.

Nos falta um governo que previna, que planeje e que respeite seu povo.

Assistimos pasmos ao resultado de quase dez anos de gestão Lulo-petista que sempre buscou se notabilizar por sua excelência, e na propaganda isso beira a perfeição, mas o que temos efetivamente é a velha cantilena das tragédias anunciadas.

Roberto Freire, deputado federal (SP) e presidente do PPS

FONTE: BRASIL ECONÔMICO

Entrevista: Luiz Werneck Vianna



Entrevista: Luiz Werneck Vianna

"Dilma será constrangida à infidelidade"

Cristian Klein

RIO - Raros analistas, transcorrido apenas um ano de observação, afirmam de modo tão categórico que a presidente Dilma Rousseff conduz um governo essencialmente diferente ao de seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva. Para o sociólogo Luiz Werneck Vianna, de 73 anos, professor da PUC-Rio, Dilma realiza mudanças profundas que abrem novos caminhos na prometida marcha de continuidade à era Lula. Dilma separa-se do padrinho nos direitos humanos, na relação com os sindicatos - "a armação que Lula concebeu e fez funcionar está destruída" - e será cada vez mais impelida à infidelidade. Montará um governo com cara própria e o tocará sob a égide da racionalidade; e não para atender aos caprichos dos amigos e aliados. Dilma, afirma o pesquisador, já está introduzindo uma guinada no presidencialismo de coalizão brasileiro, com ministérios sem "porteira fechada". A tendência, prevê, é de uma coalizão mais programática.

A "estatolatria" de Lula, que significou uma volta ao varguismo e ao regime militar, dá espaço a uma presidente sintonizada com a agenda internacional de uma nova época em emergência, onde o Estado-nação perde força. Dilma é, e será, diferente de Lula, em primeiro lugar, por chegar ao poder em circunstâncias distintas - num mundo em mutação e em crise financeira - e, em segundo lugar, por estar dotada, com sua formação universitária em economia, da capacidade de calcular os riscos por ela mesma.

Ex-militante do Partidão, o PCB, quando foi aluno de curso de formação de quadros comunistas internacionais na então União Soviética, em 1974, Luiz Werneck Vianna mantém a posição em causas consideradas polêmicas. Defende as férias de 60 dias dos magistrados e critica o acerto de contas com o regime autoritário, nos moldes realizados pelos vizinhos sul-americanos: "Os direitos humanos dizem respeito aos vivos", afirma o sociólogo, que considera o empresário Eike Batista e a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) símbolos do capitalismo brasileiro em expansão. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Werneck Vianna ao Valor:

Valor: Qual é a sua avaliação do primeiro ano de Dilma Rousseff?

Luiz Werneck Vianna: Mudou em relação ao governo anterior, em que pese a própria Dilma.

Valor: Como assim?

Werneck Vianna: Independentemente de querer ser fiel ao patrono, ela vai ser constrangida à infidelidade. Já está montando um governo com cara própria. Caíram seis ministros, por denúncias de corrupção, sendo que o sétimo, o Nelson Jobim [ex-ministro da Defesa], era absolutamente chave. Foi uma perda imensa. Os outros significavam bem essa política do presidencialismo de coalizão do Lula. E essa é uma inflexão importante. A Dilma está introduzindo uma mudança de fundo na arquitetura do presidencialismo de coalizão no Brasil: [o ministério] não vai ser de porteira fechada. Tende a ser uma coalizão programática, o que nunca ocorreu no Lula. Era "Vem cá meu bem, que para você tem" e com isso você pode atender seu partido, seus amigos. A primeira implicação é uma mudança no sentido de partidos que parecem mais estruturados do que nossa filosofia admite. Para que o presidencialismo de coalizão programático funcione é preciso que os partidos estejam mais estruturados do que estão.

Valor: Quais são as evidências?

Werneck Vianna: Ela está conversando mais com os secretários-executivos sobre a realização de programas de governo. Na reforma ministerial, isso vai aparecer de forma mais definida.

Valor: A reforma vai ser importante para dar a cara dela.

Werneck Vianna: Vai definir qual será a natureza do presidencialismo de coalizão. Porque não há sociedade que tolere, com esse sistema de freios e contrapesos, e porque não há recursos para esses gastos perdulários. Tende a enxugar, tende a racionalizar. Essa é uma tendência do governo Dilma: racionalização.

Valor: O desafio é encontrar uma fórmula que não desagrade tanto a classe política, como a contenção de emendas parlamentares.

Werneck Vianna: E nem [desagrade] embaixo. Dependendo de como ela manobre, podemos ter turbulências. Politicamente, ela não tem ninguém relevante do lado dela. Perdeu o [Antonio] Palocci [ex-ministro da Casa Civil] e o Nelson Jobim. São quadros que ela não tem como recuperar.

Valor: O senhor critica uma certa "estatolatria" que haveria no Brasil. Dilma mudou em relação a Lula?

Werneck Vianna: Com ela, tende a diminuir. Se eu estiver certo, nós vamos ver nos próximos meses um progressivo distanciamento dos sindicatos e dos movimentos sociais em relação ao governo. O MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] já começou.

Valor: Isso é bom?

Werneck Vianna: Dá mais autonomia para a sociedade.

Valor: Por que Dilma abriria mão do arranjo político que foi tão bem sucedido com Lula?

Werneck Vianna: Porque ela está vivendo um outro mundo, onde terá que fechar o cofre. E porque nós estamos vivendo uma mudança de época. O mundo mudou. Sabemos do que estamos nos afastando, mas ainda não pressentimos para onde vamos.

Valor: De que nos afastamos?

Werneck Vianna: Do que se poderia caracterizar, como no diagnóstico da [filósofa] Nancy Fraser, de um paradigma keynesiano-westfaliano. Estamos indo para um mundo onde temas centrais da vida moderna são tratados por organismos que exercem jurisdição internacional, por exemplo os que mexem com economia, meio ambiente e terrorismo. Exemplo forte é o da Justiça internacional, com o Tribunal Penal, acima dos Estados nacionais. É uma época de inovação, de criação.

Valor: O Brasil, com o recente fortalecimento do peso do Estado, não seria um contraponto à tendência?

Werneck Vianna: Esse deslizamento está acontecendo numa escala mundial. O Estado-nação perde força. E as ideologias, comportamentos e atitudes que vieram com ele vêm se esmaecendo. Mas no segundo mandato de Lula, houve uma mirada no retrovisor. Foi um momento de forte adesão ao paradigma keynesiano-westfaliano, no momento em que esse paradigma no mundo perde força.

Valor: Como isso se deu?

Werneck Vianna: Houve um retorno a um repertório dos anos 30, do Estado Novo, do regime militar, do "Brasil país grande potência". O tema [westfaliano] da grandeza nacional foi um retorno quanto à política do regime militar, especialmente a do governo Geisel. Esse eixo Getulio-JK-regime militar se projetou inteiro no segundo mandato de Lula. Isso envolvendo políticas e valores do nacional-desenvolvimentismo. [O economista] Celso Furtado [1920-2004] foi guindado a uma figura ícone do governo. Agora mesmo, um navio importante recebeu o nome dele. Na política externa, teve acompanhamento, especialmente, nas relações com o mundo árabe, América Latina... Para não falar da forte "estatalização" do movimento sindical.

Valor: A relação com os sindicatos mudou muito?

Werneck Vianna: A Dilma herda esse eixo, mas só que o mundo deslizou, vem deslizando. A armação que Lula concebeu e fez funcionar está destruída. Este sindicalismo não tem mais o velho lugar, quando sentava com o presidente da República e deliberava como ia ser o salário mínimo futuro - tanto de produtividade, tanto de inflação - e que virou lei agora. Isso foi feito com Lula e eles. Não tem mais Dilma e eles.

Valor: Ter os sindicatos por perto não seria uma medida mais racional para Dilma?

Werneck Vianna: Mas a conta também é alta. Passa pela Previdência, pelo salário mínimo, ajuste fiscal, custo Brasil, não dá mais. Essa crise está limpando a névoa, está obrigando a que o argumento econômico seja mais respeitado. Há exemplos de fora: Itália, Espanha. As medidas dela não terão como objeto os que estão em cima, as elites econômicas, mas quem está embaixo. Você continua a viver num condomínio entre governo e elites econômicas do país. Sempre disse isso.

Valor: O combate à pobreza e a ascensão de uma nova classe média não contradizem essa ideia?

Werneck Vianna: Está sendo importante. Mas são processos que requerem muita maturação.

Valor: Que outras diferenças marcam o estilo Dilma?

Werneck Vianna: Há uma diferença irremovível: ela tem formação universitária e numa área determinada, em economia. Alguma coisa de economia ela entende. O Lula, não. Delegava. A crise chega com a presidente no olho do furacão, sabendo ler, interpretar e calcular os riscos por ela mesma.

Valor: O país está em boas mãos?

Werneck Vianna: Não estou avaliando se é melhor ou pior. Só sei que quando os sindicatos chegam, com as suas pretensões, ela tem objeções a fazer, como fez na época da votação do salário mínimo. "Isso eu não posso dar". Ela sabe que não pode dar. E em outras coisas, como Previdência, saúde, ela é obrigada a se adaptar a uma agenda mais racional-legal do que Lula, por razões econômicas e por razões de fortalecimento de um sistema de freios e contrapesos que foi se tornando cada vez mais importante, além da mídia.

Valor: Nestes termos weberianos, Dilma busca legitimar seu poder no mundo da técnica enquanto a fonte de Lula era o carisma?

Werneck Vianna: Pode-se dizer. Mas, independentemente desse cálculo, há constrangimentos que fazem com que ela seja orientada para esta direção, e não outra. Não tem como não aderir a este movimento. A cognição política pode ser a mesma, o que muda é a circunstância, é a "fortuna", para ficar na imagem cediça do Maquiavel. E, aí, a "virtù" tem que mudar também. O tema dos direitos humanos ganhou uma projeção no governo Dilma, que não teve no governo Lula. O movimento sindical sofreu - a meu ver foi uma ferida funda - um abalo, com a saída desse ministro [Carlos Lupi, do PDT], que vinha do atraso sindical.

Valor: Qual é a consequência?

Werneck Vianna: O movimento sindical vai conhecer a divisão real entre as centrais, por exemplo, entre CUT, Força...

Valor: Mais competitividade?

Werneck Vianna: Sim, e também mais independência em relação ao governo. Com o Lupi, houve a ampliação da vida sindical em torno dos projetos governamentais. O sindicalismo foi se expandindo, com todos os sindicatos se arregimentando ao governo.

Valor: Fora o acesso aos recursos do imposto sindical.

Werneck Vianna: E Lupi dando carta sindical para todo mundo e tudo isso aparelhado com ONGs. Mas, independentemente disso, o Lupi não caiu por causa da Dilma.

Valor: Por que ele caiu?

Werneck Vianna: Porque as instituições democráticas se reforçaram no país.

Valor: A Comissão de Ética da Presidência da República ganhou um peso que não tinha.

Werneck Vianna: A Comissão de Ética era para ter um outro papel, mais dócil. E não teve.

Valor: A recomendação de saída do ministro deixou a presidente numa saia-justa.

Werneck Vianna: Para ela, destituir a Comissão seria um desastre, nem poderia fazer. A Comissão teve uma importância inesperada. E mais: deixou uma raiz, um sedimento, deixou, digamos, uma jurisprudência.

Valor: Foi o nascimento de uma nova instituição de controle?

Werneck Vianna: Isso ao lado da Controladoria Geral da União e desses mecanismos todos que foram criados pela Constituinte ou depois dela, para que a sociedade pudesse fiscalizar o Executivo. Era tudo nominal, no papel. A esquerda em 1988 - consideradas as forças que mais tarde fundaram o PSDB e o PT, que já existia - não tinha a menor ideia do papel que essa institucionalidade iria ter. A presença dessas instituições e do Judiciário na vida política brasileira não foi algo que surgisse daquela intelligentsia e daquela esquerda. Isso não estava na cabeça do Fernando Henrique [Cardoso, ex-presidente], não estava na do Lula, do Ulysses [Guimarães, ex-presidente da Câmara dos Deputados e da Assembleia Nacional Constituinte].

Valor: Estava em quem?

Werneck Vianna: Parece que foi uma associação entre juristas e [o ex-governador de São Paulo] Mário Covas, especialmente o José Afonso da Silva [constitucionalista, ex-secretário de Segurança Pública de 1995 a 1999 e principal assessor jurídico de Covas quando ele era senador, na Constituinte].

Valor: Como deve ser a sucessão no Ministério do Trabalho?

Werneck Vianna: É difícil. Porque também não dá para entregar para um petista, que vem com a agenda prontinha lá daquele fórum de 2004 [o Fórum Nacional do Trabalho], com uma carga doutrinária sobre o assunto e a defesa da pluralidade sindical. Não pode entregar a um [Ricardo] Berzoini [ex-ministro do Trabalho, do PT, entre 2004 e 2005].

Valor: O PT no Ministério do Trabalho é um complicador?

Werneck Vianna: Acho impossível [a nomeação de um petista]. Ele é obrigado a fazer reforma. O Berzoini tentou. Fez uma emenda constitucional.

Valor: O senhor costuma mencionar em suas análises o processo de expansão do capitalismo no país. Quem o lidera e para onde ele vai?

Werneck Vianna: Vai sem projeto, politicamente desarmado. Mas tem sua energia, é voraz. Esse Eike Batista [presidente do grupo EBX e oitavo homem mais rico do mundo] pode ser considerado uma figura emblemática. Tem essa ética, com uma vida de monge, não é um homem de consumo conspícuo. Vive para servir à riqueza, à acumulação, como se fosse um herói calvinista. Ele é bem representativo. E os homens do agronegócio também. A [senadora] Kátia Abreu [do PSD de Tocantins e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)] é outra. São os novos personagens do capitalismo brasileiro. Vigorosos, sem fraquezas, sem ostentação. Os Matarazzo [de São Paulo] tinham uma vida mais aristocrática.

Valor: Seu trabalhos sobre judicialização da política são referência. Como o senhor avalia as críticas às tentativas de se podar o Conselho Nacional de Justiça (CNJ)?

Werneck Vianna: Isso vai na esteira do mesmo processo de intensificação do mecanismo de controle [das instituições brasileiras].

Valor: O CNJ é importante?

Werneck Vianna: Freios e contrapesos fazem parte de uma dinâmica que tem funcionado cada vez mais.

Valor: Prerrogativas dos magistrados, como férias de 60 dias, são justificáveis?

Werneck Vianna: É uma atividade terrível. Há determinadas profissões que também têm férias mais extensas, escafandristas, esse tipo de coisa. A sociedade é que tem que estabelecer isso.

Valor: A Comissão da Verdade não chega tardiamente?

Werneck Vianna: A minha posição não acompanha as posições majoritárias aí na intelligentsia. Acho que a gente deve recuperar a história, mas o passado passou. Página virada. Cada país fez, em circunstâncias diferentes. Você, à esta altura, rasgar a Lei da Anistia, seria jogar o país numa crise, não sei para quê.

Valor: E para conhecer as circunstâncias das mortes, sem punição, como aprovado?

Werneck Vianna: Isso deve existir, com estes limites.

Valor: Os militares recorrem sempre à acusação de revanchismo.

Werneck Vianna: Mas, vem cá, as grandes lideranças que nos trouxeram à democracia tiveram muito clara essa questão: anistia real, geral e irrestrita. As forças derrotadas, ou seja, a luta armada, querem reabrir esta questão? Não foram elas que nos trouxeram à democracia. Nos momentos capitais, ela não estava à frente, na luta eleitoral, na luta política, na Constituinte. Era um outro projeto.

Valor: Por isso ela é menos legítima para reivindicar investigações sobre o período?

Werneck Vianna: É politicamente anacrônica. O país foi para frente. Tem uma ex-prisioneira política na Presidência da República. Altos dignitários da administração têm a mesma origem que ela.

Valor: Os direitos humanos não deveriam estar além do conflito entre projetos à esquerda ou à direita?

Werneck Vianna: Os direitos humanos dizem respeito aos vivos. Aos mortos, o velho direito de serem enterrados como Antígona [protagonista da tragédia grega de Sófocles] quis enterrar o irmão em solo pátrio. É o que esta Comissão da Verdade está fazendo.

FONTE: VALOR ECONÔMICO, 10/1/2012

domingo, agosto 21, 2011

Entrevista - Jarbas Vasconcelos:

O GLOBO

'O que a gente não pode é esmorecer'



Adriana Mendes
A frente contra a corrupção vai crescer?

JARBAS VASCONCELOS: O movimento só se consolida e só se expande se a presidente tomar uma medida uniforme com relação a todos os partidos. Não adianta ela fazer o que fez com relação ao Ministério dos Transportes e ficar de faz de contas em relação aos outros. Dilma só consolida essa posição dela, que é uma posição louvável, se ela tiver apoio da sociedade, das entidades, da mídia e do Congresso.

Deveria haver uma medida mais forte por parte de Dilma?

JARBAS: Mais forte e para todos. Ela não pode deixar de lado porque tal partido é grande, ou porque pertence a ele, no caso o PT. Ela tem que enfrentar isso de maneira firme, determinada e com a conduta uniforme. Ela não pode estar com um peso para um e uma medida para outro

Por que é difícil maior adesão de parlamentares?

JARBAS: Primeiro, por acomodação. Segundo, compromisso com cargos, emendas. Não querem contrariar o governo. Acham que fazer parte de uma frente dessas, só depois de consultar a presidente. Mas o que a gente não pode é esmorecer. No combate à corrupção, ela tem de exercer a autoridade dela de forma clara, transparente e linear. No Congresso, uma grande parte que é fisiológica não apoia.

Quatro ministros já caíram, três por denúncias. Dilma está colocando o dedo na ferida?

JARBAS: Para mim, era previsível. Eu tinha para mim mais ou menos essa previsão, porque ela tem um conceito, a conduta e fama de durona. Eu achava que, se ela enveredasse por essa formação dela, essa formação de não conviver com o malfeito... eu acho que em determinados momentos ela iria enfrentar isso. Enfrentar isso tem muitas contradições e muitos problemas para Dilma. Primeiro, porque é uma herança de que ela participou. Ela também criou essa herança. É uma herança maldita que veio de Lula, mas de que ela participou, porque foi chefe da Casa Civil. Ela presenciou (o fato de) que Lula alisava, passava a mão na cabeça de corruptos. Lula convivia bem com mensaleiros, Lula amparou e defendeu os aloprados. Sempre saiu em defesa de Sarney. Na crise de Sarney, ele se colocou à frente dizendo que Sarney era uma pessoa diferenciada. Tudo isso, ela presenciou.

Onde Lula errou?

JARBAS: Ele é marqueteiro. É homem de palanque. E chegou a índices de popularidade incríveis. Lula se considerou, no governo e agora fora do governo, uma pessoa que está acima de tudo. Acima da Constituição, acima da Justiça, acima do Congresso, acima das pessoas. Quando Lula diz que essa questão de formador de opinião pública é uma balela, que não existe, ele incorre em um grande erro. Todo país, toda cidade, todo estado, tem formadores de opinião pública. Ele alcançou uma popularidade tal que se dá o luxo hoje e o desplante de enfrentar TCU (Tribunal de Contas da União), a mídia de um modo geral, de desqualificar denúncias. Ele tinha força para isso. A Dilma não tem ainda. A Dilma está longe, muito longe de chegar a uma posição de Lula. O Lula enveredou por um caminho errado, de proteger. O erro dele foi esse aí.

A corrupção está centrada nos ministérios ou presente também em outros órgãos?

JARBAS: Ela é generalizada. É uma avaliação incorreta dizer que o Lula, o PT, ou os dois juntos inventaram a corrupção. A corrupção sempre existiu. Só que Lula foi benevolente. Lula foi eleito em 2002 em cima de duas bandeiras, de duas pernas: uma perna que era a da ética e outra que era a das mudanças. Lula nem promoveu mudanças e deixou a ética de lado, abandonou a ética.

Dilma está esquentando a cadeira para Lula?

JARBAS: Não, não. Eu acho que ela vai ser candidata. Acho que ele é candidatíssimo, se não fosse, não estaria andando pelo país inteiro. Ele está com um comportamento de candidato. Se ele não quisesse antecipar eleição, ele não estaria andando como está andando, ele estaria mais recolhido como ex-presidente da República. Ele tá em plena campanha! Ele deve estar com isso na cabeça, de voltar. E ela, eu acho que ela está querendo criar um estilo próprio, porque ela não tem como e ela não vai chegar nunca aos índices de popularidade de Lula, que fazia o que queria e a popularidade dele não era sequer arranhada. Eu acho que vai ter um conflito, mais cedo ou mais tarde, é muito cedo ainda, com o desejo dele de voltar à Presidência em 2014 e o desejo dela de permanecer no poder, de querer se reeleger.

Ela disputa então a eleição de 2014?

JARBAS: Ela é candidatíssima. Para isso, ela só tem que fazer o que está fazendo. Ela tem que se diferenciar de Lula. Aí você percebe que é um mundo de contradição. É um mundo de choque. Ela até agora está tirando ministros que eram ligados a Lula, eram indicações de Lula. O (Antonio) Palocci, o (Wagner) Rossi eram pessoas ligadas e indicadas por Lula. Ela sabia que não podia ter uma conduta como teve com relação ao Ministério dos Transportes e mudar a conduta com relação ao PMDB, só porque o PMDB é maior, bem maior do que o PR.

O senhor já declarou que o PMDB é um partido corrupto. Esse é um dos problemas do governo?

JARBAS: Hoje não é nem o PMDB. A corrupção está instalada em todos os lugares. É a política do toma lá, dá cá. Tem uma coisa importante nisso tudo aí, que é a reforma política, que ficou de lado. Nós estamos terminando agosto e entrando em setembro, para fazer PEC, modificar normas eleitorais, a gente tem que fazer até um ano antes da eleição. Esse prazo se extingue daqui a 40 ou 50 dias no máximo, no começo de outubro. Vamos ficar sem reforma política, vamos disputar eleições para o ano, e depois em 2014, com essas regras.

"Não me acho fora de moda nem sou Quixote"

A reforma política não sai?

JARBAS: Não sai porque o Executivo não teve interesse. Ela está repetindo erros de governos anteriores. Não estou nem me referindo a Lula. Ou você faz isso no começo, ou não faz mais. Ela está terminando o 8º mês e não fez. Acabar com coligações e eleições proporcionais, essa história de votar em José e eleger Emanoel, isso beneficia as legendas de aluguel. Esses pequenos partidos que infernizam a vida de qualquer país que queira se livrar da corrupção.

O senhor foi favorável à CPI da Corrupção. É um caminho?

JARBAS: Sinceramente, não. Mas ela tem que ser formalizada. Porque se criou um hábito de que o governo não quer CPI. A CPI da Corrupção é a favor dela (Dilma), ia ajudá-la, já que não quer conviver com corruptos. A corrupção está incorporada à paisagem brasileira. É como se fosse um outdoor. O medo que faz é a população se acostumar com isso.

O que pode ser feito de concreto pela frente suprapartidária?

JARBAS: Tenho algumas ideias. Primeiro, acho que isso tem de ser levado à frente e se aproximar da sociedade organizada. Depois daquela denúncia contra o meu próprio partido, o PMDB, apresentei um projeto de que todas as diretorias financeiras e órgãos de ministérios e de estatais, a diretoria financeira não podia ser indicada por partidos políticos, teria que ser de funcionários de carreira, proibindo a indicação de políticos. Pode ser feito um pente fino no Congresso para levantar os projetos que possam melhorar o combate à impunidade e à corrupção.

A oposição está enfraquecida ou incompetente?

JARBAS: A oposição está muito reduzida e ainda continua incompetente para fazer oposição. A oposição que não se reúne. No Senado, no ano passado, na única vez em que a gente se reuniu formalmente, o núcleo de oposicionistas, a gente conseguiu derrubar a CPMF, que era para reduzir a carga tributária no país. Então, a gente precisa se reunir mais, conversar mais.

O senhor não se acha fora de moda, senador?

JARBAS: Não, não me acho fora de moda, não, e nem quero ser o Quixote. Não tenho formação para isso: o moralista, o homem que tem a bandeira da moralidade. Não quero nada disso. Eu quero fazer aquilo que minha consciência determina, que minha formação dada pelos meus pais explicita em mim.

FONTE: O GLOBO

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Moacir Scliar: Legado imortal Larissa Roso

Moacir Scliar: Legado imortal

Larissa Roso

Um dos mais prolíficos e premiados autores brasileiros, Moacyr Scliar tinha presença constante e intensa na vida literária local e nacional. O escritor morreu na madrugada de domingo, aos 73 anos, depois de permanecer mais de 40 dias internado no Hospital de Clínicas. Durante o velório, na Assembleia Legislativa (foto), colegas, amigos e autoridades saudaram a memória do autor que tornou o Bairro Bom Fim universal.

A cena estava ali, aos olhos de todos os que chegavam ao Salão Júlio de Castilhos da Assembleia Legislativa ontem à tarde: o esquife fechado, como manda a tradição judaica, guardava o corpo do escritor Moacyr Scliar, e sua família enlutada recebia os cumprimentos de uma multidão que se manteve constante.

Mas a sensação de muitos dos presentes era resumida pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, secretário de Cultura e amigo de Scliar:

– Ainda não consigo imaginar um cenário da literatura do Estado sem ele, tal a intensidade com que ele vivia a vida literária, tão importante e aglutinadora era sua presença.

O rosto sério, encostado a um pilar do salão, outro dos grandes autores do Estado, Sergio Faraco, dizia algo parecido:

– Para nós, que começamos com ele mais ou menos na mesma época, pensar em um mundo sem Scliar é como sentir que falta um alicerce.

Tão logo soube da morte, ainda de madrugada, o presidente da Assembleia, Adão Villaverde, colocou à disposição da família o salão para o velório, e lá ficou grande parte do tempo.

O autor de mais de 70 livros em 73 anos de vida não tinha apenas talento e facilidade para a escrita, mas para fazer amigos. Sua morte na madrugada de ontem, depois de mais de 40 dias internado, deflagrou amplas manifestações de luto. As homenagens foram prestadas por conhecidos de Scliar em todos os seus campos de atuação: integrantes da comunidade judaica, médicos, jornalistas, escritores, leitores.

Seu editor, Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, voou de São Paulo tão logo soube da notícia. Discreto durante o velório, por vezes trocava algumas palavras com Judith, 64 anos, com quem Scliar era casado desde 1965. Um pouco mais ao fundo do salão, amigos manifestavam sua solidariedade ao filho de Scliar, o fotógrafo Beto, 31 anos. Membros da comunidade judaica de Porto Alegre, do meio literário, da imprensa, todos se enfileiravam para demonstrar seu respeito ao autor de O Centauro no Jardim. A Academia Brasileira de Letras, para a qual o escritor havia sido eleito em 2003, foi representada por Domício Proença Filho. Dilma Rousseff enviou uma coroa de flores. E a comoção chegou até a internet, onde a morte foi lamentada em blogs e no serviço de microtextos Twitter por jornalistas, escritores, amigos e leitores que só o conheciam por seus livros, por palestras para as quais o generoso autor sempre encontrava tempo ou pelas suas múltiplas crônicas na imprensa – para Zero Hora, ele escrevia três colunas semanais.

– Perdemos um dos nossos, mas a tristeza é de todo o Brasil. E também dos gaúchos que lamentam a perda de um escritor que retratou como ninguém o Estado em livros e em crônicas – disse o vice-presidente executivo do Grupo RBS, Eduardo Sirotsky Melzer.

Prêmios e fundação homenageiam autor

As homenagens ao autor devem se prolongar por todo o ano. Ontem, no velório do escritor, o governador Tarso Genro decretou luto oficial de três dias e anunciou que o prêmio literário que o Estado vai criar a partir deste ano, com apoio da Petrobras, para livros lançados nos dois anos anteriores, receberá o nome de Moacyr Scliar. A Academia Brasileira de Letras, em que Scliar ocupava a cadeira 31, também decretou luto oficial. O secretário de Cultura de Porto Alegre, Sérgius Gonzaga, presente no velório, informou que a Semana de Porto Alegre deste ano será em homenagem a Scliar. O Prêmio Fato Literário, entregue pelo Grupo RBS durante a Feira do Livro, homenageará o escritor em 2011.

– É uma perda enorme. Scliar era um escritor e um colega extraordinário, generoso e de grande simplicidade. Um homem que, com a mesma paixão, em um dia podia dar uma palestra em uma escola no Interior e dois dias depois estar em Nova York, para um curso – destacou o vice-presidente RS do Grupo RBS, Geraldo Corrêa.

A própria família Scliar estuda, passado o primeiro impacto, criar uma fundação com o nome do escritor para se dedicar a fazer o que ele sempre fez: apoiar novos autores. Scliar era conhecido por ser prestativo e atencioso com autores da nova geração e redigiu prefácios e textos de apresentação para muitos deles.

– Olhando agora, é bem apropriado que o último livro dele se chame Eu Vos Abraço, Milhões. É quase um livro-testamento para um autor que de fato parecia generoso o bastante para abraçar o mundo – disse Luiz Schwarcz.

REPERCUSSÃO

O adeus dos colegas

Durante todo o domingo, o nome de Moacyr Scliar se manteve entre os tópicos mais comentados – no Brasil e o no mundo – no Twitter, site em que fãs destacaram, além de seus livros favoritos, lembranças singelas. “Você contando suas histórias para mim sobre sua máquina de escrever. Obrigada por me dar esse momento maravilhoso. Vá em paz”, recordou uma admiradora de São Paulo, sem detalhar local ou data do encontro inesquecível. Veja, a seguir, o que disseram personalidades da área literária:

“Estou muito triste com as mortes do Scliar e do Benedito Nunes (filósofo e escritor paraense, também morto neste domingo). Perdi dois grandes amigos em um dia. Participamos (Scliar e eu) de alguns eventos literários juntos. Sempre foi uma pessoa muito generosa com os escritores. Nesse mundinho da literatura, há muita vaidade, uma vaidade doentia, como talvez exista em todas as profissões. O Scliar estava acima disso. Quem é generoso não precisa ficar se afirmando.

Não achava que ele iria embora agora, sinceramente. A morte é sempre um escândalo.”

Milton Hatoum, escritor amazonense, autor de Dois Irmãos

“A Academia está muito magoada. Moacyr foi um acadêmico exemplar porque ele era um acadêmico múltiplo: era um acadêmico na Academia e para a Academia. Ele era muito presente em seminários, simpósios, missões no Exterior, universidades estrangeiras.

Quantas e quantas vezes Moacyr nos advertia para questões de trabalho excessivo. E eu, muitas vezes, perguntava: ‘Moacyr, qual é a autoridade que você tem para reclamar de quem está trabalhando muito? Você não para de trabalhar!’

Marcos Vinicios Vilaça, presidente da ABL

“Era um dos escritores mais queridos da literatura brasileira. Não só por causa da obra, cuja importância é indiscutível, mas também pela generosidade com que tratava colegas, leitores, editores, jornalistas.”

Michel Laub, escritor gaúcho, autor de O Segundo Tempo

“Gostava muito do Scliar. A leitura de O Centauro no Jardim foi um impacto para mim. A Majestade do Xingu é um romance perfeito. Acabei de ler Eu vos Abraço, Milhões. Ele internacionalizou a literatura brasileira. Era um herdeiro do estilo do grande narrador.

Costumava encontrá-lo em feiras de livro. A última vez foi em Ribeirão Preto, em agosto. Em um hotel do Rio, no café da manhã, ele olhou para o meu prato e disse: ‘Bá, tchê, que frugal que tu és’ (risos). Como médico, achou a minha alimentação ótima, deu nota 10. Anos atrás, éramos jurados do prêmio Portugal Telecom. Um dia, brincou: ‘Agora vou me alimentar. Eu nem sei por que vou comer, já que eu sou imortal’. Só tenho doces lembranças dele.”

Cristovão Tezza, escritor catarinense radicado no Paraná, autor do multipremiado O Filho Eterno

“Ele fez a orelha do meu terceiro livro, Anotações Durante o Incêndio (2000). Não me conhecia, não sabia quem eu era. Leu e, em três dias, estava pronto. Depois descobri que ele era generoso para tudo. Quando eu era diretora do Instituto Estadual do Livro, se faltasse um autor para atender a uma escola lá num cafundó, ele ia. Era um entusiasta da literatura, um amante da vida. Muito grato ao Brasil, ao Rio Grande do Sul – foram esse país e esse Estado que acolheram a nossa gente. Ele se sentia profundamente gaúcho. Era sinceramente gaúcho e sinceramente judeu, embora não fosse religioso. Perdemos um homem maravilhoso, um diamante.”

Cíntia Moscovich, escritora gaúcha, autora de Duas Iguais
FONTE: ZERO HORA (RS)

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Roberto Freire A reforma e Jabuticaba

Há muito estamos propugnando uma ampla e profunda reforma política, que torne mais racional a escolha dos representantes da sociedade, fortaleça os partidos - instrumentos fundamentais de expressão da cidadania organizada - além de tornar mais transparente o processo eleitoral.

Tal reforma é um elemento indispensável para o fortalecimento do processo democrático. Para tanto, defendemos a adoção do voto distrital misto, modelo no qual metade dos eleitos seriam definidos pelo voto majoritário do distrito, e a outra metade pelo voto na legenda, fruto de uma lista definida pelo partido.

A simples adoção dessa forma de escolha dos titulares do Poder Legislativo, resultaria no fim das coligações partidárias, exceto para eleições majoritárias, obrigando cada partido a construir sua própria nominata de candidatos, elemento fundamental para o fortalecimento das legendas.

Essa mudança possibilita um maior controle, pelos eleitores, da atuação dos parlamentares de seu referido distrito, elevando, assim, a participação da cidadania no processo político.

Além disso, a adoção do financiamento público de campanha e da contribuição, até dois mil reais, de pessoas físicas, evita o dificultoso processo de fiscalização, em âmbito nacional. Importante aliar essa mudança à proibição da participação de pessoas jurídicas (empresas), que é sempre motivo de controvérsias, por beneficiar determinados candidatos, tornando desproporcional a competição.

Isso sem falar dos interesses empresariais no desenrolar do governo e na captura do Legislativo pelos interesses corporativos, em detrimento dos interesses difusos da cidadania.

Por sugestão do senador Itamar Franco, com o endosso da ampla maioria de nossos companheiros, somos favoráveis, ainda, ao fim da reeleição de cargos majoritários, visto que tal instrumento beneficia os detentores de mandato.

Estes são os pontos centrais de uma ampla reforma política cujo móvel é tornar mais transparentes os mecanismos de escolha dos representantes e mandatários e, ao mesmo tempo, fortalecer os partidos, tornando-os mais propícios à fiscalização.

No, entanto, infelizmente, algumas lideranças, por meio do vice-presidente, Michel Temer (PMDB), articulam a não-reforma, com a adoção dessa jabuticaba política que é o "distritão".

Tal proposta, significa, em primeiro lugar, o fim dos partidos, pois a sociedade deixaria de votar em programas ou projetos, e escolheria "celebridades". Não por outro motivo, o modelo passou a ser chamado "sistema eleitoral Tiririca", para impossibilitar a eleição com as "sobras" de candidatos com grande quantidade de votos.

Ademais, tal sistema, agravaria os problemas já vivenciados por nosso sistema político-partidário, aprofundando a distorção da eleição de candidatos que mais recursos conseguissem amealhar, seja com o concurso decisivo de empresas e/ou por meio de desvios de recursos do Estado, por meio do que se convencionou chamar de "caixa dois".

Além de destroçar os partidos, por sua irrelevância para a escolha dos candidatos e burlar a ação da cidadania. Não por acaso, tal sistema não existe em nenhum lugar do planeta.

Roberto Freire é deputado federal e presidente do PPS

domingo, fevereiro 06, 2011

Crescimento é um processo de longo prazo::José Roberto Mendonça de Barros

O crescimento econômico, em seu sentido mais amplo, é o objetivo de todos os países, especialmente daqueles onde os níveis de renda ainda são modestos. Maior renda possibilita maiores níveis de consumo e de bem-estar, especialmente se também ocorrerem melhoras distributivas que permitam estender os frutos do sucesso a todas as famílias, eliminando os focos de pobreza e a insegurança alimentar. A busca do progresso e do entendimento de suas causas é um fenômeno, do ponto de vista histórico, relativamente recente e vem da época da revolução industrial inglesa e dos economistas clássicos.

Uma das poucas coisas sobre as quais não perduram dúvidas é que o crescimento é um fenômeno de longo prazo. Todas as regiões gozam de certos períodos de expansão, por diversas causas. Entretanto, poucos países conseguem sustentar um progresso suficientemente rápido por longos períodos, de sorte a mudar permanentemente a sociedade e a sua posição relativa entre as nações. Da mesma forma, o sucesso do passado não garante o do futuro, isto é, os países podem perder vitalidade e viabilidade. A China dos séculos 18 e 19 é um bom exemplo a ser lembrado.

Pretendo neste e no próximo artigo mostrar alguns casos de sucesso, a posição do Brasil e alguns insucessos, visando a contribuir para o entendimento das dificuldades que acompanham a busca pelo progresso.

O desenvolvimento é uma contínua superação de tensões, onde a solução de um problema abre a porta de mais dois. Envolve e resulta em modificações de toda a sociedade. Depende de algumas causas gerais, necessárias em todos os lugares (por exemplo, sem investimento não há crescimento) e coisas específicas (dotação de recursos, instituições). É um processo construído, mesmo que muitas vezes não se tenha a total dimensão do evento, no momento de sua ocorrência. As demandas começam mais simples (como superar o riscos de fomes generalizadas ou o colapso do comércio internacional) e vão se sofisticando a partir de sucessos iniciais, passando a incluir a redução de recessões recorrentes, melhor distribuição de renda, redução de desigualdades regionais, inclusão das mulheres e, mais recentemente, a questão ambiental.

A forma mais simples de medir o crescimento econômico ainda é dada pela evolução do Produto Interno Bruto (PIB). Sabemos que esta é uma medida imperfeita, pois não incorpora questões como a distribuição de renda e qualidade de vida. Daí porque os economistas começaram também a se utilizar de outras medidas, como o popular Índice do Desenvolvimento Humano (IDH), que, além de renda, incorpora a longevidade e a educação. Entretanto, séries longas para vários países existem apenas para o PIB e a população, o que não é muito grave, pois ao longo do tempo PIB e qualidade de vida são bastante correlacionados.

Também a forma mais simples de comparar o desempenho de países ao longo do tempo é referenciá-los àquele de melhor performance, que no período recente são os EUA. Assim, a evolução do PIB de cada país é apresentada, em cada momento, como uma porcentagem do equivalente americano.

Utilizamos aqui a monumental base de dados coletada pelo economista inglês Angus Maddison, recentemente falecido. O período de análise vai de 1850 até 2008. Os valores estão em dólares de 1990 e são ajustados pela Paridade do Poder de Compra (PPP). O gráfico 1 mostra o PIB per capita americano, que cresce durante todo o período, refletindo sua ascensão à condição de maior e mais importante economia (embora não seja o maior PIB per capita).

O crescimento brasileiro de longo prazo teve um desempenho mediano, pois, embora a produção tenha crescido, nosso PIB per capita flutua em torno de 20% do americano há mais de cem anos, com um breve pico em torno de 1980, quando pareceu que o País iria decolar. A crise de 1982 liquidou com o sonho do Brasil Potência.

Uma comparação com a Coreia do Sul mostra bem o que dissemos acima. Como se vê no gráfico 3, o PIB coreano foi por muito tempo similar ou pior que o brasileiro, especialmente considerando os problemas da península no início dos anos 50. Tão próximo quanto 1970, a Coreia era mais pobre que o Brasil.

A partir daí, o desempenho coreano é um fenômeno, colocando o país no grupo dos desenvolvidos. Muito se discutiu do porquê dessa diferença, mas duas razões fundamentais são universalmente aceitas: a Coreia realizou um enorme esforço educacional (este economista estava na Universidade Yale, em 1973, quando os coreanos começaram a chegar em massa para fazer doutorado) e sempre buscou ter uma indústria competitiva, exposta à concorrência global.

Também se discute muito a importância da política industrial, tema bem controverso. Aqui, uma coisa parece segura: além da educação, a Coreia fez esforço na direção de construir um sistema de inovações, que hoje é bem significativo. Por outro lado, tenho dúvidas que a escolha de campeões nacionais tenha sido fator decisivo, dado o grande número deles que foi quebrando ao longo do caminho e o frequente socorro do Estado aos mesmos. Na mesma época, o Brasil também buscou campeões nacionais, sem que isso tivesse catapultado nosso crescimento, embora vários dos grupos ainda existam até hoje.

O caso da Coreia não é o único, pois mostramos no gráfico 4 o desempenho de Taiwan, bastante parecido com o caso coreano. Na realidade, Coreia, Taiwan, Cingapura e Hong Kong são hoje regiões de alta renda e plenamente desenvolvidas.

Mostramos também no gráfico 4 o caso do Chile, que apresenta uma evidente reversão na trajetória de crescimento relativo a partir de 1990. Neste caso, não pairam dúvidas de que o sucesso chileno tem tudo a ver com os processos de estabilização, abertura e reformas pelas quais o país passou a partir de 1990. O Chile é mais um caso a mostrar que com inflação alta e persistente não existe crescimento de longo prazo, algo que boa parte da América Latina ainda insiste em desconhecer.

Finalmente, mostramos a evolução relativa dos gigantes asiáticos China e Índia. No caso chinês, é visível a mudança de trajetória a partir de 1980, inclusive com o fator de aceleração. Mas também é visível que nós falamos de um país apenas mediano em termos de renda relativa per capita. É por isso que os chineses não podem parar de crescer, coisa que acreditamos que continuará a ocorrer. Finalmente, o caso indiano, onde o PIB per capita de apenas 10% do americano revela o tamanho do desafio que o país tem pela frente. China e Índia mostram também que a demanda potencial por commodities é absolutamente gigantesca, se ajustarmos por suas populações.

Os casos que mostramos, evidentemente, não são os únicos de sucesso, pois vêm imediatamente à mente os países nórdicos, o Canadá e a Austrália. Entretanto, todos eles mostram, definitivamente, que o crescimento é um processo de longo prazo, de várias gerações. Devemos, pois, ficar vacinados contra autoavaliações triunfalistas que falam que o Brasil desenvolveu com sucesso um novo modelo de crescimento econômico.

É economista

FONTE O ESTADO DE S. PAULO

Tempo de muda::Fernando Henrique Cardoso

É hora de a oposição falar forte e esquecer as questões pequenas

Novo ano, nova presidente, novo Congresso atuando no Brasil de sempre, com seus êxitos, suas lacunas e suas aspirações. Tempo de muda, palavra que no dicionário se refere à troca de animais cansados por outros mais bem dispostos, ou de plantas que dos vasos em viveiro vão florescer em terra firme. A presidente tem um estilo diferente do antecessor, não necessariamente porque tenha o propósito de contrastar, mas porque seu jeito é outro. Mais discreta, com menos loquacidade retórica. Mais afeita aos números, parece ter percebido, mesmo sem proclamar, que recebeu uma herança braba de seu patrono e de si mesma. Nem bem assume e seus porta-vozes econômicos já têm que apelar às mágicas antigas (quanto foi malfalado o doutor Delfim que nadava de braçada nos arabescos contábeis para esconder o que todos sabiam!) porque a situação fiscal se agravou. Até os mercados, que só descobrem estas coisas quando está tudo por um fio, perceberam. Mesmo os "velhos bobos ortodoxos do FMI", no linguajar descontraído do ministro da Fazenda, viram que algo anda mal.

Seja no reconhecimento mal disfarçado da necessidade de um ajuste fiscal, seja no alerta quanto ao cheiro de fumaça na compra a toque de caixa dos jatos franceses, seja nas tiradas sobre os até pouco tempo esquecidos "direitos humanos", há sinais de mudança. Os pelegos aliados do governo que enfiem a viola no saco, pois os déficits deverão falar mais alto do que as benesses que solidarizaram as centrais sindicais com o governo Lula.

Aos novos sinais se contrapõem os amores antigos: Belo Monte há de vir à luz com cesariana, esquecendo as preocupações com o meio ambiente e com o cumprimento dos requisitos legais; as alianças com os partidos da "governabilidade" continuarão a custar caro no Congresso e nos ministérios, sem falar no "segundo escalão", cujas joias mais vistosas, como Furnas (está longe de ser a única) já são objeto de ameaças de rapto e retaliação.

Diante de tudo isso, como fica a oposição?

Digamos que ela quer ser "elevada", sem sujar as mãos (ou a língua) nas nódoas do cotidiano nem confundir crítica ao que está errado com oposição ao país (preocupação que os petistas nunca tiveram quando na oposição).

Ainda assim há muito a fazer para corresponder à fase de "muda". A começar pela crítica à falta de estratégia para o país: que faremos para lidar com a China (reconhecendo seu papel e o muito de valioso que podemos aprender com ela)? Não basta jogar a culpa da baixa competitividade nas altas taxas de juro. Olhando para o futuro, teremos de escolher em que produtos poderemos competir com China, Índia, asiáticos em geral, Estados Unidos, etc. Provavelmente serão os de alta tecnologia, sem esquecer que os agrícolas e minerais também requerem tal tipo de conhecimento. Preparamo-nos para a era da inovação? Reorientamos nosso sistema escolar nesta direção? Como investir em novas e nas antigas áreas produtivas sem poupança interna? No governo anterior os interesses do Brasil pareciam submergir nos limites do antigo "Terceiro Mundo", guiados pela retórica do Sul-Sul, esquecidos de que a China é Norte e nós, mais ou menos. Definimos os Estados Unidos como "o outro lado" e percebemos agora que suas diferenças com a China são menores do que imaginávamos. Que faremos para evitar o isolamento e assegurar o interesse nacional sem guiar-nos por ideologias arcaicas?

Há outros objetivos estratégicos. Por exemplo, no caso da energia: aproveitaremos de fato as vantagens do etanol, criaremos uma indústria alcoolquímica, usaremos a energia eólica mais intensamente? Ou, noutro plano, por que tanta pressa para capitalizar a Petrobras e endividar o Tesouro com o pré-sal em momento de agrura fiscal? As jazidas do pré-sal são importantes, mas deveríamos ter uma estratégia mais clara sobre como e quando aproveitá-las. O regime de partilha é mesmo mais vantajoso? Nada disso está definido com clareza.

O governo anterior sonegava à população o debate sobre seu futuro. O caminho a ser seguido era definido em surdina nos gabinetes governamentais e nas grandes empresas. Depois se servia ao país o prato feito na marcha batida dos projetos-impacto tipo trem-bala, PACs diversos, usinas hidrelétricas de custo indefinido e serventia pouco demonstrada. Como nos governos autoritários do passado. Está na hora de a oposição berrar e pedir a democratização das decisões, submetendo-as ao debate público.

Não basta isso, entretanto, para a oposição atuar de modo efetivo. Há que mexer no desagradável. Não dá para calar diante de a Caixa Econômica ter se associado a um banco já falido que agora é salvo sem transparência pelos mecanismos do Proer e assemelhados. E não foi só lá que o dinheiro do contribuinte escapou pelos ralos para subsidiar grandes empresas nacionais e estrangeiras, via BNDES. Não será tempo de esquadrinhar a fundo a compra dos aviões? E o montante da dívida interna, que ultrapassa um trilhão e seiscentos bilhões de reais, não empana o feito da redução da dívida externa? E dá para esquecer os cartões corporativos usados pelo Alvorada, que foram tornados "de interesse da segurança nacional" até ao final do governo Lula para esconder o montante dos gastos? Não cobraremos agora a transparência? E o ritmo lento das obras de infraestrutura, prejudicadas pelo preconceito ideológico contra a associação do público com o privado, contra a privatização necessária em casos específicos, passará como se fosse contingência natural? Ou as responsabilidades pelos atrasos nas obras viárias, de aeroportos e de usinas serão cobradas? Por que não começar com as da Copa, libertas de licitação e mesmo assim dormindo em berço esplêndido?

Há sim muita coisa para dizer nesta hora de "muda". Ou a oposição fala e fala forte, sem se perder em questiúnculas internas, ou tudo continuará na toada de tomar a propaganda por realização. Mesmo porque, por mais que haja nuances, o governo é um só Lula-Dilma, governo do PT ao qual se subordinam ávidos aliados.

FONTE: O GLOBO

Oposição e democracia:: Dora Kramer

Derrotado na eleição presidencial com um "até breve" que deixou adversários, correligionários e eleitores intrigados, José Serra ainda não definiu seu destino político - que aliás não depende só de sua vontade -, mas já resolveu pegar firme no ofício do contraditório.

Começa por uma autocrítica partidária: acha que há "uma desproporção imensa" entre o que o PSDB está fazendo e o que deveria fazer.

O partido se perde em combates internos referidos em eleições futuras, enquanto, na opinião dele, deveria estar preocupado em "dar uma resposta" aos quase 44 milhões de eleitores que optaram pela oposição em outubro último.

"Não podemos deixar esse eleitorado sem representação. Precisamos convencer essas pessoas de que não jogaram seus votos fora. Quem votou em nós queria que ganhássemos, mas sabia que poderíamos perder. Logo, a oposição é tão legítima quanto o governo; expressa a vontade do eleitor e qualifica a democracia."

Na concepção de Serra, isso só acontecerá se a oposição não se amedrontar, tiver posições claras, for ativa, não se omitir, resumindo: "Não jogar parada, de olho em 2014, esquecendo-se de que uma eleição presidencial não é um acontecimento de 45 dias de campanha, é resultado de quatro anos de atividades".

A receita, diga-se, não foi seguida pelo autor, cujo discurso nos anos que antecederam a última campanha durante os quais foi governador de São Paulo esteve muito distante de cumprir as premissas por ele postas agora.

E, mesmo como candidato, José Serra foi ambíguo em relação ao então presidente Luiz Inácio da Silva, por não querer bater de frente com a popularidade dele, a quem só deixou de elogiar quando ficou claro que o adversário capitalizara a ambiguidade e que o eleitorado, na dúvida, ficaria com o produto original.

Assumir a oferta do braço para torcer não faz o estilo de Serra, que, na prática, reconhece parcialmente o equívoco ao constatar: "Uma das objeções do eleitorado ao candidato oposicionista estava no fato de o PSDB não ter sabido fazer oposição. Para muitos eleitores, quem não sabe ser oposição também não sabe ser governo".

A admissão é parcial porque, na visão dele, caberia ao partido ter exercido esse papel e não ao governador, cujo desempenho depende em muito das boas relações com o governo federal.

Agora, longe dos compromissos de um cargo administrativo, o ex-governador sente-se liberado para retomar a vida partidária. Sem mandato nem tribuna oficial, por ora Serra o faz na condição de personagem dono de capital que não pretende desperdiçar.

Partindo de um princípio: "É a existência de uma oposição robusta, clara, leal aos interesses do País, que prova a existência da democracia".
Não se trata, segundo ele, de fazer oposição sistemática ou não. "Isso é bobagem, nas grandes democracias do mundo essa questão não se coloca."

O essencial é o exame e o debate da realidade. "O Brasil tem um grande problema fiscal, há a disputa abjeta por cargos entre partidos, há o desequilíbrio macroeconômico evidente, o vexame do Enem, a imperícia diante de catástrofes. Em suma, há uma vasta agenda a ser discutida e uma série de cortinas fechadas a serem abertas pela oposição."

Serra defende que os oposicionistas estejam atentos aos movimentos do governo. "Ele fará acenos aos adversários e à classe média. Apelará ao nosso tradicional bom-mocismo. Isso com a intenção de nos dividir e reduzir nosso ímpeto. Quando chegar perto das eleições, voltarão ao vale-tudo, às enganações, às bravatas e calúnias."

"Não podemos cair na esparrela." Cobrando e criticando o governo, mas, sobretudo, defendendo os próprios princípios. "Precisamos mostrar quem, de fato, defende a social-democracia, denunciando que o PT adotou as bandeiras, mas subverteu as práticas, banalizou o que havia de pior no poder público."

Por onde começar? A base, para José Serra, é a reconstrução da unidade do partido, a partir de um mandamento cuja observância considera indispensável ao êxito de qualquer projeto: "Não ajudarás o adversário atacando teu colega de partido".

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Tempestade no deserto:: Míriam Leitão

O Egito magnetiza o mundo porque é um dos mais complexos fatos contemporâneos. Não há uma única explicação simples. Tudo é espantosamente complicado quando se tenta entender causas e consequências. Eventos que aparentemente não estão ligados misturam-se elevando o grau de tensão e incerteza: desemprego de jovens, revolução da comunicação, luta contra tiranias, preço de alimentos.

A imprevisibilidade tem estado presente desde o início dos fatos. Quando um rapaz vendedor de verduras ateou fogo ao corpo na Tunísia, ninguém imaginaria que isso acabaria provocando a queda de um ditador que estava no poder há 23 anos. No entanto, hoje Ben Ali está refugiado na Arábia Saudita. A Jordânia fez reformas no governo. O Iêmen avisou que haverá alternância no poder em 2013. A Argélia avisou que o estado de emergência que vigorou por 19 anos será suspenso. O Egito está vivendo dias dramáticos. O governo americano teve que mudar suas posições e fazer pronunciamentos que seriam impensáveis tempos atrás contra o que era apresentado como: "confiável aliado" e um "governo estável." Todos olham para outros países pensando quem mais poderá ser atingido pela verdadeira tempestade no deserto: Síria, Líbia e até, quem sabe, a Arábia Saudita.

O que o jovem Mohammed Bouazizi da Tunísia tinha que provocou um efeito dominó do qual ainda não se sabe o final? Tinha sonhos não realizados. Ele estudou, fez universidade, achou que iria além dos seus pais. Mas, desempregado, decidiu ter uma banca de verduras na qual era achacado por policiais corruptos. Um dia, os policiais tomaram a sua barraca. A frustração e a raiva foram além do que ele podia suportar. Depois de se imolar, ele ainda sofreu por 23 dias no hospital antes de morrer.

Jovens com sonhos não realizados, prisioneiros de situações tirânicas - das pequenas ou grandes autoridades - e que se sentem num beco sem saída podem habitar qualquer país, em qualquer dos mundos do mundo, em qualquer religião ou cultura. Ele pareceu o retrato no espelho para jovens de vários outros países no Norte da África.

Hoje, o fenômeno do desemprego de jovens é mundial: ocorre em países ricos como Estados Unidos, Espanha. Em países emergentes que crescem. É problema urgente. Numa democracia como o Brasil, deve estar no topo da agenda. As empresas falam em pleno emprego, e o Brasil fechou seu melhor ano com uma taxa média de 14,9% de desemprego entre 18 a 24 anos.

A ditadura de Ben Ali demorou a cair mais do que nos damos conta. O rapaz jogou fogo ao corpo em dezembro, morreu no dia 4 de janeiro, e o presidente fugiu no dia 14. Mas enquanto foi a Tunísia, o Ocidente olhou apenas com curiosidade. Quando a fúria chegou ao Cairo, capital do país que sempre foi considerado uma peça central no xadrez da parte mais complicada do mundo, todos viram.

Foi quando tantos se deram conta da nossa piramidal ignorância sobre os fenômenos do mundo árabe e muçulmano. No primeiro momento, algumas análises apontavam o Egito como a véspera do Irã de 1978, sem ver todas as inúmeras matizes que existem no Oriente. Vários dias de noticiário intenso, de surpresas, e de consultas a quem entende ou acompanha de perto ajudaram a vislumbrar algumas nuances.

A fúria dos manifestantes armados pelo estado policial comandado durante 30 anos por Hosni Mubarak abateu-se com a mesma intensidade sobre a CNN e a Al Jazeera, que se apresenta como "uma visão alternativa", e que, a propósito, não é transmitida nos Estados Unidos, apesar de ser vista pela internet. A TV iraniana em inglês, a PressTV, que se propõe a ser uma alternativa persa no mundo islâmico, também transmitia as mesmas imagens, frequentemente com as mesmas avaliações dos fatos. A diferença era o destaque à interpretação do Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, de que o que está acontecendo da Tunísia ao Egito é o eco das vozes da revolução islâmica iraniana.

Se John McCain, Barack Obama e Ali Khamenei fazem declarações a favor dos mesmos manifestantes, alguém não está entendendo direito o que está acontecendo. A esperança é que seja o Aiatolá, por uma boa razão: um dos elementos da rebelião é sem dúvida a luta contra tiranias; nisso se parece com a revolução verde que pôs tantos iranianos na rua de Teerã, em 2009, e que produziu uma avassaladora repressão. As cenas dos jovens iranianos na rua - e até da morte da jovem Neda - foram imediatamente postadas pelas redes sociais. Esse é outro fenômeno inteiramente novo do qual se sabe pouco. Duas coisas já podem ser ditas sobre as novas tecnologias de comunicação: elas não criam explosões sociais, mas aumentam a velocidade do fenômeno do contágio; elas são a forma de contornar a censura imposta pelas ditaduras mas podem ser usadas para disseminar mensagens falsas que interessam ao poder tirânico. Mostraram o que Mubarak não queria que fosse visto; mas o governo de Mubarack obrigou empresas ocidentais a divulgaram mensagens de apoio a ele.

Num mundo já complicado, há outra peça do xadrez. O preço da alimentação que consome 40% do orçamento da classe média egípcia e deixa desamparada a vasta pobreza do país pode subir ainda mais por causa dos fenômenos climáticos extremos e constantes em vários países produtores.

O governo que sucederá Hosni Mubarak terá uma pesada herança. O imenso estrago da economia é só um dos elementos. O custo do governo é outro. O país tem sete milhões de funcionários públicos, destes, as Forças Armadas e policiais são exorbitantes três milhões. O Egito não sobrevive sem o cheque americano de US$1,5 bilhão por ano.

FONTE: O GLOBO

Na encruzilhada:: Merval Pereira

A explosão de um gasoduto no Sinai, em Cheikh Zouwayed, a dez quilômetros da Faixa de Gaza, e que abasteceria Israel, foi o toque de realismo no 12º dia de protestos contra o governo de Hosni Mubarak, no Egito. Mesmo sem haver uma confirmação oficial, a primeira versão era de que os radicais islâmicos aproveitaram o vácuo de poder para começar seus ataques.

Somente nos próximos dias saberemos qual a dimensão desse ataque, ou se foi mesmo um ataque terrorista. Mas que ele serve aos interesses dos que querem manter Mubarak no poder, sob a alegação de que ele representa um equilíbrio conhecido na região, isso serve.

Não foi à toa que o ainda presidente Hosni Mubarak fez uma reunião de emergência com seu renovado ministério, ao mesmo tempo em que mandou prender vários membros do antigo gabinete.

Quer manter a aparência de poder e, ao mesmo tempo, reforçar a ideia, que já transmitiu ao próprio presidente dos Estados Unidos Barack Obama, de que sua saída do poder pode levar ao caos na região.

O megainvestidor George Soros, presidente Open Society Foundation (Fundação Sociedade Aberta), que apoia a democracia e os direitos humanos em mais de 70 países, tratou da questão mais delicada na região em recente artigo publicado no jornal "The Washington Post".

Ele acha que, embora Israel tenha tanto a ganhar quanto os Estados Unidos com a disseminação da democracia no Oriente Médio, o país não reconhece essa oportunidade que surge, porque a mudança é muito brusca e traz consigo muitos riscos.

Além disso, diz Soros, alguns apoiadores de Israel nos Estados Unidos são mais rígidos e ideológicos que os próprios israelenses.

Soros relembra as diversas advertências pessimistas que vêm sendo feitas em relação à possibilidade de haver eleições democráticas no Egito, desde a possibilidade de fraudes eleitorais comandadas pelo Exército até a ameaça de interrupção do suprimento de petróleo na região.

Soros chama a atenção, no artigo, para uma verdadeira vingança que a direita religiosa arma contra o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, mas o encoraja a ajustar sua política à nova situação e a apoiar as mudanças que a sociedade egípcia pede.

No artigo, o megainvestidor George Soros admite que a situação na Tunísia é mais favorável ao desenvolvimento da democracia, já que o país tem uma classe média razoavelmente desenvolvida, e as mulheres já têm maiores direitos e oportunidades que na maioria dos países muçulmanos.

A complexidade da sociedade egípcia, se ajudou a mobilização de massa através dos novos meios tecnológicos, como o Facebook, o Twitter, por outro lado torna mais difícil a liderança do movimento, que une classes de alta educação a povo sem instrução; classes médias e altas a muito pobres, velhos e jovens.

Soros adverte que, em uma eleição democrática, a Irmandade Muçulmana tem muita chance de se fazer representar com força no novo Parlamento, o que lhe dará voz nas decisões, embora dificilmente vá ser majoritária.

O acordo anunciado entre o prêmio Nobel da Paz, Mohamed ElBaradei, e a Irmandade Muçulmana é um sinal, para George Soros, de que pode haver um entendimento entre as diversas forças políticas do país.

Essa também é a linha de ação do governo dos Estados Unidos, que já mantém conversações com auxiliares diretos de Mubarak, como o vice-presidente Omar Suleiman, o preferido para comandar um governo de transição, mesmo com o ditador egípcio ainda formalmente como presidente.

As negociações têm um ponto delicado, que é o de encontrar uma saída para Mubarak que não o obrigue a sair foragido do país.

Uma das alternativas seria ele viajar para revisão médica que faz anualmente na Alemanha, deixando o caminho livre para negociações com a oposição, incluindo a Irmandade Muçulmana, banida há anos pelo governo, mas que passou a ser citada por várias autoridades, nos últimos dias, num sinal de reconhecimento de sua importância política.

O que se discute, no momento, são maneiras de limitar o poder de decisão de Mubarak e removê-lo do palácio presidencial. Há planos de colocá-lo na sua casa à beira-mar, em Sharm el Sheik, fazendo com que as negociações possam acontecer sem que seja preciso mudar a Constituição para que o vice-presidente tenha poder de decisão.

Se Mubarak insistir na ideia de "morrer no Egito", a casa de Sharm el Sheik pode se transformar em seu último refúgio. Mas nem todos admitem que o ditador continue no país, entre eles Mohamed ElBaradei, que considera indispensável que Mubarak sai do governo e do país "agora".
Ele está mais empenhado em negociar diretamente com representantes do Exército, para garantir uma transição pacífica.

Nas conversas, ElBaradei defende a tese de que não é possível dar tanto tempo a Mubarak, enquanto a economia sofre com a crise que já vai para sua terceira semana, com o país parado à espera de definição política.

O desfecho da crise já parece estar decidido. A questão, agora, é saber em quanto tempo se chega a um acordo que permita avançar na tentativa de implantar um governo democrático no Egito.

Se vitorioso nessa empreitada, os Estados Unidos, que continuam sendo o espelho em que se miram os demais países ocidentais, terão reafirmado seu poderio político através da promoção de valores, não das armas.

Se fracassar, o presidente Barack Obama estará reforçando a imagem que os republicanos radicais fazem dele, a de um líder inexperiente e ingênuo, um Carter turbinado pelas redes de relacionamento social.

FONTE: O GLOBO

sábado, outubro 02, 2010

Não era este o debate Villas-Bôas Corrêa

JORNAL DO BRASIL(ONLINE)

Dou a mão à palmatória: apostei todas as fichas no último debate pela TV Globo, entre os quatro candidatos mais credenciados no cacho de bananas do ridículo e do bestialógico. E a expectativa era de final da Copa do Mundo, com a favorita Dilma Rousseff, no sobe e desce das últimas pesquisas e pela primeira vez ameaçada de não se eleger no primeiro turno, adiando a decisão para um segundo turno de todo o risco.

Com bloco e caneta, suportei o atraso de mais de meia hora.

Com a competência de sempre, William Bonner conduziu o debate, engessado na rigidez dos minutos para as perguntas, as respostas e os comentários.

Mas, com a exceção de sempre do candidato Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, o único com colocações originais e surpreendentes, mesmo nas repetições dos temas, valorizados pelo seu bom humor e por sua facilidade de comunicação.

Com a disciplina de quartel de meia-volta volver que calava os debatedores, o debate ganhou significação e importância mais pelo que não foi dito do que pela fuga dos desafios do risco de uma crise com a desmoralização dos três poderes.

Com o próximo Congresso nos esgares dos candidatos no programa eleitoral gratuito, um tiro que saiu pela culatra, é aconselhável que os crentes rezem pela sobrevivência da democracia.

Pelo andar da carruagem, não iremos muito longe. E como o candidato Plínio Sampaio não tem cacife eleitoral, o baile fica reduzido a Dilma Rousseff, José Serra e, como tema para especulação, a Marina Silva.

Não é a incompetência ou a miopia política que estão contaminando este final de campanha, desde que o favoritismo da candidata oficial entrou no desvio da arrogância.

A crise que escurece o horizonte da campanha é a moral e ética do pior Congresso de todos os tempos e que será superado pelo próximo dos tiriricas. E que já perdeu o bonde da história com esta campanha medíocre, escapista que ajudou a empurrar o Legislativo para o fundo da cova.

Construir 1 milhão de casas e escolas, distribuir cestas básicas com sobremesas e sorvetes, além de aumentar o salário mínimo, são re l a m b o i a s para atrair o voto.

Mas o que está cada vez mais claro é que o governo em dose dupla do presidente Lula e o próximo não terá apoio no Congresso para a reforma que reclama a convocação de uma Assembleia Constituinte, que não foi cogitada por ninguém no lero- lero do horário de propaganda eleitoral ou na campanha perdida na véspera.

Brasília, com ou sem Roriz, é a capital que não deu certo, com o gigantismo de mais de 3 milhões de habitantes. E a praga da desmoralização do Congresso já ameaça o próximo. Ou alguém do mundo da lua acredita que o futuro Congresso será pior do que o agonizante? Na melhor das hipóteses, serão sapatos do mesmo pé.

Calma, gente Zuenir Ventura

O GLOBO

Como já tinha feito em 2006, assisti ao debate dos candidatos à presidência no auditório da TV Globo anteontem. Dessa vez fiquei dividido entre a torcida pelo segundo turno e o medo de que isso transformasse a campanha numa briga de foice, mais do que já estava sendo. Para surpresa geral, porém, em vez disso, não houve baixarias e o clima foi até morno, talvez mais por cautela do que por civilidade. O cuidado de não se ofenderem chegou a levar Dilma e Serra a não dirigirem perguntas um para o outro. Plínio teve momentos engraçados, como sempre, Dilma melhorou seu desempenho, Serra demonstrou mais uma vez que seria melhor presidente do que é candidato, e Marina assumiu o papel de fiel da balança, acreditando que possa haver prorrogação.

A metáfora futebolística é inevitável: com medo de perder a partida no final, os adversários preferiram a defesa ao ataque. Foi um ambiente completamente diferente do que se tem visto nos jornais e na internet. Estive há dias em Brasília e São Paulo, e poucas vezes vi jornalistas se xingarem tanto. Quem viveu os tempos da guerra UDN x Vargas, com direito a atentado e a suicídio, sabe aonde pode chegar a marcha da insensatez em política. Por isso, tive vontade de chamar o Ancelmo para pedir: calma, gente.

Mesmo para os que leem Merval Pereira todos os dias - e isso é imprescindível para quem se interessa por política, concordando ou não com ele - o seu livro "O lulismo no poder" não deixa de ser atual, pois o que foi escrito no calor da hora ganhou uma organização por blocos temáticos que dá aos artigos unidade e sequência.

Merval estuda um fenômeno que costuma provocar ou adesão ou aversão. E muitos equívocos, desde o começo. Ao surgir no ABC paulista, Lula foi classificado pelos comunistas de "invenção" do general Golbery, guru do regime militar. Quarenta anos depois, a oposição cometeu erro parecido, ao achar que ele era um mero aprendiz de Chávez, sem perceber que o personagem é mais complexo - é pragmático e não ideológico, nem de esquerda nem de direita, muito pelo contrário, e cujo governo foi capaz de promover do bom - inclusão social e estabilidade econômica - e do pior - aparelhamento do Estado, corrupção e tráfico de influência.

Mesmo não gostando do seu objeto de análise, o autor procura reconhecer sua importância e evita idiossincrasias, já que pertence a uma escola de repórteres que teve como mestres Carlos Castello Branco e Villas-Boas Corrêa, para os quais o fato é sagrado, não a simpatia política, e a opinião só vale quando endossada pela informação. Como o botânico que não escolhe a planta pela forma ou pela cor, o colunista do GLOBO vem há anos estudando o lulismo e seu criador. O resultado saiu na hora certa.

domingo, setembro 26, 2010

Alerta contra a anestesia crítica:: Carlos Guilherme Mota

O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

Manifesto em SP aponta falhas da República de polichinelo, às voltas com euforia econômico-social

O Manifesto em Defesa da Democracia, lançado nessa semana com discreto alarde, surge tardiamente, em tempos de desencanto e ilusões nacionais perdidas. Mas quando nasceu o problema que os manifestantes denunciam, o do perigo de patrulhamento da imprensa, agora agravado com os arroubos presidenciais autoritários?

Ele vem de longe. Veja-se a censura ao estadão.com.br e ao Diário do Grande ABC.

Mas na verdade tudo começou no período pós-ditatorial, passada a animação das "lutas pelas liberdades democráticas", toleradas aliás nos estritos limites do liberalismo precário da terra.

Supondo que haja tempo, é de se esperar que os comentaristas políticos aprimorem a mira e lancem seus torpedos na direção certa. Pois o alvo não é apenas o modelo político caduco em que Lula se compõe com Sarney, Collor e a escumalha do PMDB.

É outro o alvo, para além dos tais índices de crescimento: o perigo de ainda maior esgarçamento do tecido da incipientíssima sociedade civil. Urge fazer notar que a população brasileira duplicou em 40 anos, mas a pobreza não diminuiu sob o pontificado de marqueteiros. E que a malaise social se aprofunda, empurrando a Nação para o charco do mundo peemedebista, que agora vai comer o eventual governo Dilma pelas bordas.

A contrapartida a esse manifesto é a preocupante iniciativa denominada "Contra o Golpismo e em Defesa da Democracia", de Luís Nassif, contratado a bom preço pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), órgão oficial, que tenta mobilizar movimentos de apoio do mundo sindical atrelado à Presidência, com financiamento de muito discutíveis ONGs, blogs, etc.

Neste momento mais grave de nossa história desde 1984, a sociedade parece envolta numa bruma ideológico-religiosa-lulista em que se anestesiou o espírito crítico. Brasília foi tomada por "aloprados" e enlameada pela "lambança", palavra muito veiculada em Fatos e Versões, da TV Globo, por Franklin Martins, quando atuava do outro lado do balcão. Lula, vale recordar, "extirpou" o conceito de "luta de classes" ao retirar do programa de seu partido ideia que tanto aborrecia a direita, pela qual, hoje, "a sua" esquerda é mobilizada, procurando rachar o País.

Vive-se nesta etapa histórica um desenvolvimento político-cultural precário, de falsa euforia econômico-social, e, como em Portugal, Espanha ou Grécia, a fatura chegará, passadas as eleições. Com o aplastamento da inteligência das lideranças da sociedade civil, ou do que resta dela, não chega o tal manifesto a impactar a Nação. Mas tem o mérito de levantar uma ponta da questão nacional, que é - uma vez mais - a impunidade, a falta de transparência, a precária independência dos poderes, o centralismo exacerbado de uma República em frangalhos.

Uma República de polichinelo, com o presidente fazendo graça com seus superpoderes (que nem eu nem ninguém lhe conferiu), do neopopulismo pobrista, neste quadro sociocultural em que florescem tiriricas e mulheres-pera. É perigosa a mobilização populista de uma população que ainda não entrou na antessala da sociedade democrática moderna - por falta de educação, saneamento, saúde, mas sobretudo por falta de exemplos de cima.

Raymundo Faoro, o combativo jurista amigo de Lula, falava na triste característica do mundo político brasileiro no Segundo Reinado, controlado por um Parlamento de polichinelo. O conceito pode ser ampliado, pois os casos de Waldomiro Diniz a Erenice revelam um vasto submundo do qual nem o presidente teria conhecimento. "Não sabia", como se a imprensa - sempre a imprensa! - e o Ministério Público não viessem martelando tais falcatruas.

Faoro alertava, em Os Donos do Poder, que o modelo político brasileiro se desdobra, desde o Segundo Reinado, nessa máquina baseada na exclusão, na Conciliação, apurando mecanismos que levam ao fortalecimento da chefia única. E, como ensina a história, sempre com trágico desfecho.

Que o presidente que se quer estadista, uma vez curado da embriaguez pelo poder, retome a liturgia e a solenidade que o cargo lhe impõe como presidente de todos os brasileiros - meu inclusive -, e não condottieri de um partido ou facção. Que abra espaço e tempo para entender o que significa o que outro amigo seu, o professor Florestan Fernandes, ensinou: é preciso desmontar o atual modelo autocrático-burguês. Tarefa que Lula não conseguiu realizar, muito ao contrário, pois fez todas as conciliações, inclusive algumas inomináveis. E Florestan sempre o advertiu do perigo da "costura política pelo alto", pois os dedos podem ficar presos.

Luís Carlos Prestes, quando da festiva fundação do PT, perguntado sobre o que faltava a esse novo partido, respondeu secamente: "Falta leitura". O problema hoje é que talvez já não haja tempo para Lula ler, meditar e aplicar o princípio pétreo de um participante da Revolução Francesa, Maximilien Robespierre. "O Incorruptível", em sua anotação para um discurso à Convenção Nacional republicana, pouco antes de seu guilhotinamento em 1792, deixou escrito o seguinte: "Fui talhado para combater o crime, não para governá-lo".

Mas para isso, claro, é preciso ter (digamos) pescoço.

CARLOS GUILHERME MOTA, HISTORIADOR, É PROFESSOR EMÉRITO DA FFLCHUSP, PROFESSOR TITULAR NA UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE E AUTOR DE IDEOLOGIA DA CULTURA BRASILEIRA (EDITORA 34) E, COM ADRIANA LOPEZ, DE HISTÓRIA DO BRASIL. UMA INTERPRETAÇÃO (EDITORA SENAC)

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