Entrevista:O Estado inteligente
O fim ou tudo de novo MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 06/10/11
O fim do capitalismo foi previsto em estudos - e desejado em tantos textos ideológicos -, continua sem data para acontecer, mas o tamanho da encrenca em que ele entrou agora é de grandes proporções. Ontem, os ministros das Finanças da Europa admitiram que precisam recapitalizar os bancos com medidas fortes. Nas ruas, os protestos aumentam.
Para onde se olhe há fios desencapados na ordem econômica mundial. Os bancos com suas ações em queda livre e alvo de desconfiança de investidores e até deles mesmos representam um dos problemas. A ideia agora é: os governos europeus agirem de maneira mais decidida para provar que os bancos que compraram suas dívidas não vão quebrar por isso. O Dexia tem 15 bilhões de euros da dívida italiana que foi rebaixada esta semana. Tem outros 3,5 bilhões de euros de dívida grega. Operava intensamente no que eles chamam de mercado de dívida soberana e subsoberana - de outras entidades estatais e públicas - e pediu socorro. Está sendo resgatado. Ele está longe de ser o único. Há inúmeros bancos alemães, franceses, belgas com bilhões de dívida dos governos da periferia da Europa, ou de países centrais encrencados.
Mas o que os ministros das Finanças da Europa admitiram em reunião é que mais precisa ser feito e de forma mais convincente. É preciso agir de forma coordenada. Foi o que alguns disseram após um encontro em Luxemburgo. A Alemanha - sempre ela - pensa em pôr de novo em atividade o mecanismo de salvamento dos bancos que foi usado em 2008. O ministro George Osborne, da Inglaterra, tão mão fechada em todos os gastos, também disse que: "está claro agora que o sistema monetário europeu precisa ser fortalecido e necessita mais capital."
O difícil é como contar isso para o contribuinte que sofreu inúmeros cortes em seus serviços e benefícios nos últimos anos de crise e está diante de economias que oferecem cada vez menos empregos. Os protestos de Wall Street têm se intensificado dando uma aparência de rebelião norte-africana ao país que mais apoiou com belas frases, votos na ONU e atos os rebeldes dos países árabes.
A grande encrenca é que uma quebra em dominó de bancos produzirá uma crise mundial de proporções inimagináveis. Veja o que a quebra do Lehman Brothers fez ao mundo, que desde então patina. Afinal, a crise de 2011 é apenas a recidiva da crise de 2008. É o W desenhando sua segunda queda.
Os bancos não podem ser salvos da mesma forma que foram, por vários motivos. Primeiro é que na queda precipitada pela quebra do Lehman o que se viu é que a falta de regulação e supervisão estava na origem das estranhas criaturas financeiras que os levaram ao precipício. Segundo, que os governos gastaram muito, endividaram-se demais para socorrê-los e o mundo entrou no círculo vicioso de dívida soberana e bancos frágeis do qual ainda não saiu. Hoje os governos têm menos capacidade de ampliar a munição de gastos para o resgate.
Terceiro, porque logo depois de socorridos com dinheiro público, benesses, expansão monetária, os bancos voltaram a pagar milionários bônus aos mesmos executivos e dividendos aos maiores acionistas. Para qualquer pessoa que vai para as ruas protestar - ou não - parece um acinte que quem escolheu estar no negócio bancário lucre na abundância e na crise, eternamente sem punição.
Ninguém ganha com uma crise bancária e ela atinge o cidadão que protesta nas ruas mais do que ele mesmo imagina. Mas não necessariamente isso significa salvar banqueiros e executivos e deixá-los serem regiamente pagos por administrar as instituições financeiras da mesma forma de sempre, expondo o mundo a riscos dos quais serão resgatados.
Depois de uma crise que se desdobra em ondas de aflições desde 2008 está na hora de as autoridades mundiais pensarem no fim do capitalismo como nós o conhecemos. Há muito a ser feito para melhorar a regulação, fiscalização para a prevenção de crises. Basta ver o resultado dos testes de estresse a que foram submetidos os bancos europeus. Eles passaram. O Dexia, também, e está com problemas três meses depois. No mínimo os testes têm de ser revistos. Isso sem falar nas agências com suas notas doidas e deplorável atuação. Não precisa estar em Wall Street protestando para saber que há algo de podre nas relações promíscuas entre agências, bancos, fiscalizadores e reguladores e que no final das contas todos serão salvos porque uma crise bancária mundial é um armagedon que todos vão querer evitar.
Todos disseram frases fortes ao fim da reunião de ministros das Finanças da Europa, em Luxemburgo. O comissário econômico da Europa, Olli Rehn, disse que há um senso de urgência entre os ministros e a convicção de que é preciso ir em frente. O ministro alemão Wolfgang Schauble disse que a maior preocupação que eles demonstraram na reunião é que a crise atual escale e se torne uma crise bancária disseminada. Diante do cenário de fim de mundo eles vão agir. Mas a dúvida é: o mundo ficará à espera da próxima crise em que a mesma ameaça terminal será usada para justificar qualquer medida ou desta vez será o resgate para acabar com todos os resgates? (Com Álvaro Gribel.)
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