Entrevista:O Estado inteligente
Casa sem poupança... RAUL VELLOSO
O GLOBO - 10/10/11
Demanda de consumo não é problema no Brasil. Sem subprimes (empréstimos "bichados"), os gastos públicos correntes e o crédito crescem aceleradamente, enquanto a procura por commodities, afora crises agudas, vai bem, obrigado. Lá fora, os subprimes ainda abundam, falta demanda, e os países mais desenvolvidos cobiçam a nossa.
Nosso problema é outro: oferta inadequada. Quando o crescimento da demanda bate no setor de maior peso no PIB, o de bens e serviços não comercializáveis com o exterior, a resposta desse setor, que tem grande participação do setor público, é ruim, produzindo elevações de preços, e, daí, inflação acima da meta. Trata-se dos serviços em geral, especialmente de infraestrutura, construção civil etc., e alguns ramos da indústria cuja importação é inviável pelo alto custo do frete ou por proibição imposta pelo governo. Neste último caso, o exemplo mais notório era a lei de informática, quando existia. Finalmente, a taxa Selic sobe, abortando o crescimento da demanda e do PIB. Assim, como o governo prioriza o lado da demanda, a oferta fica às moscas...
A fraca resposta da oferta interna de não comercializáveis se deve, primeiro, ao simples fato de que, por definição, não há como suplementá-la com importações, ou seja, só com investimentos se aumenta a oferta. Além disso, como o peso do governo é muito grande, especialmente na infraestrutura de transportes, e como é o mesmo setor público que vem expandindo fortemente outro tipo de gasto, o corrente, há um conflito em princípio sem solução. Poupa-se (e se investe mais) ou se faz mais gasto corrente (e lá se vai a infraestrutura...).
O problema é mais complicado, porque: (1) com o tempo, o setor público brasileiro passou de doador a sugador de recursos do setor privado, já que a queda de poupança tem sido maior que a queda do investimento, inclusive pela incidência de juros sobre a dívida que se foi acumulando; (2) como a dívida subiu muito, o governo, ao manter o pé no acelerador dos gastos correntes, passou a conter ainda mais os investimentos e aumentar a carga tributária, para controlá-la. Ao lado, o aumento dos impostos teve o efeito colateral nocivo de pressionar a poupança privada para baixo. (3) Por mais que se negue, há, ainda, um claro viés antissetor privado, especialmente em infraestrutura. É só lembrar que, até hoje, a União não aprovou sequer um caso de parceria público-privada e as enormes dificuldades para colocar em pé uma primeira concessão relevante de aeroporto.
Seja porque o setor público investe menos, seja porque virou sugador de recursos, seja porque não morre de amores por investimento privado em infraestrutura, e porque ele controla a dívida via corte de investimentos e aumento de tributos, a ação do governo está na raiz da falta de crescimento sustentável. A poupança externa não poderia substituir parte da poupança faltante? Sim, e, numa certa medida, isso ocorre, especialmente num mundo com abundância de financiamento externo, mas se dá a um custo elevado para o terceiro segmento que completa a configuração setorial da economia do país, a indústria de transformação.
Ao subirem os preços de não comercializáveis com o exterior relativamente aos da indústria de transformação (cujos preços em dólares são determinados fora do país, e, pela "invasão chinesa", têm estado em queda nos últimos anos), mão de obra e recursos são atraídos para os primeiros, reduz-se a produção da indústria e aumentam-se suas importações, gerando déficits externos adicionais. É como se a indústria assumisse o papel de importador "estratégico", a fim de liberar recursos aos que não têm como importar. Alguns chamam isso de desindustrialização. Na verdade, é mera reação do sistema de mercado aos estímulos existentes. Para evitá-la (e também evitar a subida dos juros), cabe contestar não o efeito, mas sim a origem do problema, ou seja, o modelo dos gastos correntes.
Adianta entrar mais poupança externa diretamente no setor problemático para expandir seus investimentos? O problema é que a poupança de fora só se materializa na expansão da produção interna de qualquer setor, se houver aumento de valor equivalente do déficit externo da indústria, agravando seu encolhimento. (O peso da indústria de transformação no PIB já é metade do que era nos anos 80.) Se não, o Banco Central compra os dólares e os aplica lá fora. Nesse caso, como a União não tem poupança (que se tornou inclusive negativa em 2009), o governo emite títulos e paga um diferencial de juros exorbitante, que uma hora vai bater perigosamente na dívida.
No momento, mesmo havendo queda aguda na demanda externa nesta segunda rodada da crise, as taxas de juros só podem cair de forma expressiva e sustentada se, da mesma forma, o modelo dos gastos correntes mudar. Caso contrário, o desequilíbrio entre demanda e oferta de não comercializáveis volta rapidamente a aparecer, e o BC, mantida a política de metas de inflação, voltará a subir a Selic, frustrando a todos.
RAUL VELLOSO é economista.
Arquivo do blog
-
▼
2011
(2527)
-
▼
outubro
(224)
- Agnelo na mira REVISTA ÉPOCA
- Escândalo latente REVISTA VEJA
- À moda stalinista ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
- Histórias e males da inflação – Parte 1 MAÍLSON DA...
- O Brasil vai ao Mundial desfalcado de Orlando Silv...
- Capitanias hereditárias no século 21 PAULO BROSSARD
- Esperando em vão PAULO GUEDES
- O primeiro grande erro de Dilma RENATO JANINE RIBEIRO
- E se a população mundial encolher? COLUM LYNCH
- Eles bebem. Você paga!
- Além da Indignação Carta ao leitor
- Não confesso que vivi LÚCIA GUIMARÃES
- Juventude sequestrada CARLOS ALBERTO DI FRANCO
- Lula, Dilma e o câncer JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
- Subsídio secular EDITORIAL FOLHA DE SP
- Deixem Aldo em paz RICARDO NOBLAT
- Do acaso à necessidade FERREIRA GULLAR
- Na crise, a indústria global se movimenta JOSÉ ROB...
- Travas à corrupção SUELY CALDAS
- Dexter entre a ciência e a religião MARCELO GLEISER
- Somos 7 bilhões CELSO MING
- A baderna a serviço do crime EDITORIAL
- República destroçada MARCO ANTONIO VILLA
- Copa - dinheiro, soberania e catarse GAUDÊNCIO TOR...
- Longe do prazer PAULO SANT’ANA
- Indignados e desanimados VINICIUS TORRES FREIRE
- Consertar é possível DORA KRAMER
- Coisas que nos unem DANUZA LEÃO
- Defendendo a pátria JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Argentina grau abaixo MAC MARGOLIS
- A lição que Tancredo deixou ZUENIR VENTURA
- Ainda faltam oito ministros LEONARDO CAVALCANTI
- Ajuda chinesa será limitada GILLES LAPOUGE
- E se não vier a tempestade? CELSO MING
- Um país melhor FERNANDO RODRIGUES
- As políticas do BC e nossas convicções ALBERTO GOL...
- Liberdade de cátedra, herança e ambiguidades CLAUD...
- Orlando, ocupe Wall Street! GUILHERME FIUZA
- Do Enem à OAB WALTER CENEVIVA
- O erro de Haddad HÉLIO SCHWARTSMAN
- Reprovado EDITORIAL FOLHA DE SP
- Mais uma cerveja RICARDO NOBLAT
- Economia e moral DENIS LERRER ROSENFIELD
- Corrupção e conflitos no vácuo do Legislativo PAUL...
- Deu errado ALON FEURWERKER
- As apostas entre o BC e o mercado estão na mes Mar...
- A lei inédita de Lavoisier Roberto Luis Troster
- A liberdade de expressão Renato Janine Ribeiro
- Fechar a torneira José Roberto de Toledo
- Trancos e barrancos DORA KRAMER
- O PNBC do Terceiro Setor GAUDÊNCIO TORQUATO
- Os Kirchners, uma vez mais SERGIO FAUSTO
- Sob a proteção de Lula JOÃO BOSCO RABELLO
- Nadir, Euripedes e Yuri MARTHA MEDEIROS
- Internautas do mundo todo, uni-vos! FERREIRA GULLAR
- O Brasil deve aprender mais ciência MARCELO GLEISER
- O poço que não tem fundo DANUZA LEÃO
- Nuvens no horizonte JOSÉ MILTON DALLARI
- As trapalhadas como IPI EDITORIAL O ESTADÃO
- De onde vêm as desigualdades SUELY CALDAS
- E falta o principal conserto CELSO MING
- Líbia não afeta petróleo ALBERTO TAMER
- PAUL KRUGMAN - O partido da poluição
- A anomalia das microssiglas FERNANDO RODRIGUES
- Além da faxina EDITORIAL DE SP
- Risco líbio REGINA ALVAREZ
- HÉLIO SCHWARTSMAN A maldição da abundância
- Fim de semana para ser lembrado LUIZ CARLOS MENDON...
- As provas pedidas EDITORIAL
- Vade retro, Luiz! JOÃO MELLÃO NETO
- Em jogo, o futuro do euro CELSO MING
- Partilha REGINA ALVAREZ
- Questão dos royalties virou escárnio EDITORIAL
- Conduta uniforme DORA KRAMER
- O fim da guerra ao verde NELSON MOTTA
- Combinação mortal HÉLIO SCHWARTSMAN
- O tempora o mores RICARDO NOBLAT
- Turquia versus Brics RUBENS RICUPERO
- Aposta perigosa do governo Dilma LUIZ CARLOS MENDO...
- A terceirização do governo JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
- Calamidade no DNIT ALAYR MALTA FALCÃO
- A maldição de Guadalajara VINICIUS MOTA
- Governo desmoraliza Camex e erra em comércio exter...
- Jornal, qualidade e rigor CARLOS ALBERTO DI FRANCO
- Na base do puxadinho CARLOS ALBERTO SARDENBERG
- Martins, o barbeiro PAULO SANT’ANA
- O Ocidente entre a Grande Pedalada e a Grande Frea...
- Passeatas de feriado acabam em pizza GUILHERME FIUZA
- Direito à vida Ives Gandra da Silva Martins
- Mais um corte nos juros CELSO MING
- Quais os limites da guerra cambial? ROBERTO GIANN...
- PIB recua, inflação sobe. E daí? ALBERTO TAMER
- República de surdos DORA KRAMER
- Comércio e finanças na economia internacional CELS...
- O Iraque como modelo para o Oriente Médio JACKSON ...
- Roubalheira recorde EDITORIAL
- Política sem sonhos FERREIRA GULLAR
- A travessia MERVAL PEREIRA
- O filme da sua mente MARCELO GLEISER
- Greves infames PAULO SANT’ANA
- Presidente: sonhar e não ceder MIGUEL SROUGI
- Procissão da alegria HÉLIO SCHWARTSMAN
- Do caderno de um repórter HUMBERTO WERNECK
- Novos horizontes ideológicos JOÃO UBALDO RIBEIRO
- A esquerda e a corrupção ALDO FORNAZIERI
- Sombras sobre a China GILLES LAPOUGE
- O G-20 avança pouco CELSO MING
- O sigilo garantido WALTER CENEVIVA
- Rio digital MERVAL PEREIRA
- O melhor humorista PAULO SANT’ANA
- Vida pedestre RUTH DE AQUINO
- Fraudes e gambiarras na saúde HÉLIO SCHWARTSMAN
- O troco em Dilma LEONARDO CAVALCANTI
- Crescer na crise REGINA ALVAREZ
- Simples assim... Josef Barat
- Reféns da China REGINA ALVAREZ
- Pedra no sapato DORA KRAMER
- Efeitos da corrupção MERVAL PEREIRA
- Nenhum país é uma ilha FERNANDO GABEIRA
- Paradoxos da corrupção HÉLIO SCHWARTSMAN
- Boca-livre high tech NELSON MOTTA
- Furor de substituição de importações ROGÉRIO FUR...
- VEJA
- Sigilo nos atos secretos EUGÊNIO BUCCI
- Dinheiro saindo pelo duto
- Fraude com chancela oficial
- Em quem confiar LYA LUFT
- Trégua na Europa CELSO MING