Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 07, 2010

JOÃO UBALDO RIBEIRO A companhia do finado Tancinho

O GLOBO - 07/03/10


Um homem desses tendo de pedir desculpas!

A declaração indignada, proferida por um inflamado Jacob Branco, ressoou no Bar de Espanha, cujos frequentadores acabavam de assistir incrédulos ao noticiário sobre a vida sexual do campeão de golfe Tiger Woods. Particularmente chocante foi o pedido de desculpas que se seguiu e houve necessidade de elucidar o acontecido a alguns que permaneceram céticos e perplexos. Até mesmo o próprio Jacob, orador renomado e bem informado, me pediu que lhe explicasse aquela atitude surpreendente.

- Suspeitas confirmadas - proclamou ele, assim que acabei de tentar alinhavar a dificultosa explanação. - Esses americanos são todos uns anormais.

Achei a conclusão um pouco radical, mas ele insistiu. Quanto mais pensava nos americanos, mais colhia evidências da anormalidade. Não fora eu mesmo quem explicara que eles inventaram um tal ponto G e vivem procurando fazer fórmulas e até GPS para achar o ponto G? O resultado só pode ser que as mulheres ficam cansadinhas de tanta ciência e vão cuidar do ponto G delas com o primeiro leigo apresentável e num instante acham até o ponto picilone - cala-te, boca, são todos uns loucos celerados, não dava mesmo para acreditar, tanto atraso num povo tão adiantado. Eu ainda quis contrapor alguns argumentos, mas Jacob foi fulminante.

- Eu vejo o caso triste desse desaventurado - disse ele - e me lembro do finado Tancinho. Pronto, é o que eu lhe digo e quero ver você responder. Finado Constâncio da Pureza Brito, Tancinho Cobra Cega, você ainda pegou ele vivo e lendo sem óculos.

Sim, finado Tancinho Cobra Cega, claro, Deus o tenha, embora haja quem duvide. Jacob tinha razão, o velho Tancinho nunca pediria desculpas a ninguém, assim como ninguém entenderia tal pedido. Verdade que ele também não era tão normal assim, mesmo para os padrões exuberantes da ilha. Ele era, digamos, um destaque em matéria de mulher, mas Tiger Woods também é. E o exemplo dele - tirem suas próprias conclusões - pode ser usado para provar que esses americanos são mesmo uns anormais.

Viúvo das legítimas pela terceira vez, já bem entrado nos anos e meio curvadinho, Tancinho chegou a afirmar em várias oportunidades que não se casaria novamente. Não tinha mais a disposição da juventude, deixara a administração das quitandas com os filhos e netos e agora vivia só, na fazendola de Vera Cruz. Mas, sabe-se como são essas coisas, o sujeito se acostuma a certo tipo de passadio e de repente um acontecimentozinho corriqueiro traz de volta antigos costumes. No caso de Tancinho, dizem que ele ficou com umas ideias assistindo a um pato que ele criava dar assistência a suas patas. O pato, quando termina a função, estremece todo e cai duro para trás, é muito sugestivo.

Bem, pato ou não pato, o que interessa é que Tancinho virou, mexeu e acabou casando de novo. E, burro velho sendo, fez questão de capim novo. Escolheu logo Abigail, bela moça por todos estimada e ainda no frescor de seus quarent´anos, mas havida como talvez um tanto impetuosa, embora o apelido de Biguinha Venta Acesa pudesse não ser inteiramente justo. Depois da festa do casamento, foram viver na fazenda e pouco apareciam na cidade. Numa dessas aparições, Tancinho se queixou de que ela vivia meio triste, naquele isolamento da fazenda.

- Ela é muito jovem, precisa de alguém da mesma faixa de idade para fazer companhia, conversar com ela, sair com ela, essas coisas - disse ele aos amigos, num dos dias em que deu as caras na cidade. - Acho que vou arranjar uma pessoa para fazer companhia a ela. Vou chamar alguém para morar lá também, tem gente que gosta muito de vida em fazenda.

Trocando olhares significativos entre si, os presentes ponderaram que dificilmente alguém aceitaria o convite. As mulheres da idade dela eram todas casadas e as mais novas certamente não quereriam morar numa fazenda. Não, o único jeito de ter alguém jovem na fazenda era contratar um empregado de serviços gerais, um colhedor de dendê, um capataz, qualquer coisa assim. Mas isso estava fora de cogitação, pois, afinal, Tancinho não ia querer outro homem convivendo com Abigail naqueles ermos.

- Não sei por quê - respondeu ele. - Esses medos são para quem não bota fé no taco. Se tiver que ser homem, vai homem mesmo, comigo não tem essas besteiras.

Mais olhares significativos, pigarros, mexidas nas cadeiras. Depois que ele saiu, comentários falsamente comiserados, observações sobre como ele podia já estar começando a caducar, piadinhas maldosas. Mas o tempo passou e o assunto foi esquecido. Até que Tancinho surgiu novamente no bar, para rever os mesmos amigos. Estava muito contente, feliz de verdade. A decisão que tomara quanto a Abigail tinha sido a mais sábia de sua vida, agora ela estava feliz, tinha companhia para conversar e se distrair.

- Aliás - informou ele - a notícia é melhor ainda. Ela está grávida!

Olhares francamente significativos, bocas abertas, mãos juntas. Ah, sim, claro. Ele contratara mesmo alguém e agora esse alguém... Claro! Biguinha... Abigail ficara grávida logo depois da chegada dessa pessoa?

- Uns cinco dias depois, acho eu - disse Tancinho.

- Essa pessoa é rápida, hein?

- É, sim, já está grávida também - disse Tancinho - Mulher é um pobrema.

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