Entrevista:O Estado inteligente

domingo, janeiro 03, 2010

Alberto Dines A década das cuecas

JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Estadistas prometem prosperidade, cientistas garantem a longa vida, escritores oferecem sabedoria e sacerdotes, a imortalidade. Nesta virada de ano vale tudo, lástima que os exaustos publicitários não perceberam a infinita utilidade destas peças do vestuário íntimo, de repente levadas às manchetes pelos ventos da notícia.

Cuecas, no Brasil, pudicamente designadas como roupas de baixo, são ferramentas valiosas. Sobretudo na esfera legislativa. Indispensáveis para a consumação da corrupção política, complemento do caixa dois, cofres fortes porém levíssimos, sem segredos, inexpugnáveis.

Agora o terrorista nigeriano da Al-Qaeda descobriu que cuecas podem substituir as maletas 007 e carregar mortíferos arsenais de destruição em massa. Nem James Bond ou Batman poderiam imaginar um kit terrorista tão perfeito. E – desculpem – tão paradoxal: se o prêmio pelo martírio do fanático são onze mil virgens à sua espera no paraíso, guardar o pó explosivo nas cuecas seria, digamos, desperdício.

A direita americana está exultante: desde o caso Bill Clinton–Monica Lewinsky (em meados dos anos 90) que os herdeiros da Ku Klux Klan não se animam a botar a boca no trombone com tanto gosto. Antes queriam pedir o impeachment do democrata por causa do vestido da estagiária da Casa Branca manchado pelo sêmen presidencial. Agora querem culpar Barack Obama pela ineficiência dos órgãos de segurança americanos alimentada ao longo dos últimos oito anos pelos alucinados procedimentos de George W. Bush.

Os aloprados de Osama Bin Laden conseguiram o que queriam: criar a histeria das cuecas. Tal como aconteceu em dezembro de 2001, também perto do Natal, criaram o não atentado com efeitos morais mais devastadores. O "martírio" de Richard Reid estava previsto para não consumar-se, os explosivos que levava nos tênis não deveriam detonar. Sua "tarefa" era criar o pânico mundial e, assim, condenar ao ostracismo o calçado-símbolo da modernidade ocidental. Conseguiu: agora, além de cintos e bolsas, os viajantes que vão e voltam dos EUA são gentilmente convidados a descalçar seus tênis. Logo desistirão de viajar com eles, mais uma vitória da jihad islâmica.

A não façanha do terrorista-aprendiz Umar Faruk Abdulmutallab é ainda mais diabólica, satânica: ao ser flagrado com 80 gramas do inocente pozinho branco nas cuecas o terrorista criou uma série de constrangimentos de proporções globais e ainda não devidamente avaliados: como detectar o perigoso pozinho branco no recôndito das cuecas e como diferenciá-lo do açúcar?

Na policialesca China que acaba de executar o taxista britânico que entrou no país com alguns quilos de coca refinada, o problema será gigantesco: alguém precisará cheirar e classificar o pó. Se entrar num "barato", tudo bem. Se explodir, tudo mau.

O mundo sofreu drásticas transformações por causa das letras móveis inventadas por Gutenberg, da máquina a vapor desenvolvida por James Watt, do balão dirigível de Santos Dumont e da desintegração atômica concebida por Robert Oppenheimer. Peças de roupa também produziram extraordinárias revoluções, a mais importante decretada pelas feministas quando queimaram seus sutiãs.

Seria possível um mundo sem cuecas? Eis a questão. Nossos corruptos conseguirão carregar maços de notas apenas nas meias? Ceroulas não seriam mais produtivas numa avaliação custo-benefício? Com o aquecimento global a COP-16 não deveria estabelecer o modelo samba-canção, mais arejado e devassável? E então, por despeito, o bolivariano Hugo Chávez não lançará a cueca-bolero, solta, pintada de coqueiros, absolutamente isenta de perigo? E por que este ressentimento antimasculino – calcinhas femininas não poderiam carregar igualmente as fatídicas 80 gramas de PETN?

Tudo seria possível na década inicial do século 21, marcada por tantas e tão transcendentes polarizações. Decênio encerrado, transição, idem. Hora de acordar.

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