Sexta-feira, Julho 31, 2009
Dora Kramer Tigre de papel
Tigre de papel
Dora Kramer - Dora Kramer O Estado de S. Paulo - 31/07/2009
Muito provavelmente quando o recesso acabar o presidente do Senado, José Sarney, já terá conseguido convencer seus aliados a desistir da molecagem de usar as representações partidárias junto ao Conselho de Ética para retaliar quem identifica como inimigo.
A ideia não é denunciar infrações, mas tentar pôr de joelhos o adversário. Tanto é que, informa a tropa de choque, o DEM e o PT não serão alvos de representações, porque não assinaram os pedidos de abertura de processos contra Sarney, apresentados pelo PSDB e pelo PSOL.
Decisão que contraria a ameaça do suplente Wellington Salgado: "Já que pedir emprego é falta de decoro, vamos ver nos últimos seis anos todo mundo que fez isso aqui no Senado." É a prova da bravata, pois "todo mundo" incluiria o DEM, o PT, o PTB, o PDT e até o PMDB.
O senador José Sarney deveria ser a última pessoa interessada nessa guerra que seus aliados ameaçam. Primeiro, foram mexer com o senador Artur Virgílio, cujo senso de medida é inversamente proporcional ao tamanho dos desafios que recebe.
Em segundo lugar, o líder do PSDB tem duas explicações a dar ao Conselho de Ética, ambas já feitas ao plenário da Casa diariamente ao longo de duas semanas.
Seus pecados ele assumiu. Contratou um funcionário fantasma para atender às demandas de uma amizade e teve a conta de hotel em Paris paga pelo então diretor-geral, Agaciel Maia.
Se os processos prosperarem e o conselho onde os governistas são maioria achar por bem condená-lo, pode fazê-lo. Mas ficará apertado para arquivar as representações contra Sarney, que carrega nas costas um caminhão de contas em aberto. A saber: mentira ao Parlamento, nepotismo, uso de ato secreto para beneficiar parente, tráfico de influência no caso do neto intermediário de operações de crédito consignado para funcionários, sonegação de impostos, desvio de dinheiro de empresas públicas (Petrobrás e Eletrobrás) para as contas das empresas da família Sarney.
Se quem deve teme, quem deve mais teme muito mais.
No cotejo, Sarney e o PMDB levam enorme desvantagem. Por essa e mais algumas outras é que não é verossímil essa história de retaliação. A menos que o partido tenha enveredado pelo perigoso terreno do perdido por um, perdido por mil.
Mas não parece. Há muito cálculo ali. Indicativo firme de que estamos diante de uma fanfarronice é o fato de o grupo de Michel Temer ter "aceitado" entrar numa briga de rua com o PSDB.
Esse pessoal, na maioria deputados, manda no PMDB, está longe da confusão e assim pretende ficar. Temer e companhia disseram sim porque, nesta altura, dizer não só elevaria a pressão. O PMDB, que já briga com o PSDB e o PT, voltaria a brigar entre si em público.
A cúpula aprendeu a conhecer a fundo a teimosia e os métodos do líder do partido no Senado, Renan Calheiros. Manteve a fleuma quando o plano de eleger Sarney quase põe em risco a eleição de Temer para a presidência da Câmara, olhou do camarote o desenrolar da crise nestes cinco meses no Senado e agora fez o gesto de aceitação no limite do indispensável.
A ala do Senado não tem mais nada a perder, mas o grupo da Câmara tem muito a ganhar.
Quer a vaga de vice na chapa de Dilma Rousseff, quer transitar livremente também pelos palanques da oposição por meio de alianças nas eleições estaduais e, sobretudo, não quer atrito com os dois partidos que potencialmente representam a porta da esperança de acesso à máquina pública.
Convenhamos, dá para acreditar que essa turma vai pôr o pescoço a prêmio para ajudar o grupo adversário que recentemente não teve com os colegas deputados nenhuma consideração? Só vendo.
O finado Antônio Carlos Magalhães costumava dizer que faltava "coragem física" a Sarney. É um traço de personalidade a ser levado em conta na análise de possibilidades sobre o caminho a seguir: o recuo estratégico ou o avanço insano na companhia de Renan Calheiros e sua intrépida trupe de suplentes.
?Por maior?
Se tiver mesmo a chance de concorrer em 2010 como vice de Dilma Rousseff, o deputado Michel Temer precisa se entender muito bem com Orestes Quércia.
Sua aliança com o governo federal o elegeu presidente da Câmara. Mas quem o elege deputado é a máquina do PMDB de São Paulo, controlada por Quércia e prometida a José Serra.
Dois coelhos
Caso o nome de Ciro Gomes entre na próxima pesquisa de intenções de voto para 2010 na lista de candidatos ao governo de São Paulo, o Planalto conta criar um fato político.
Ao mesmo tempo favorável a Dilma e desfavorável ao PSDB no Estado. Saindo do rol dos pretendentes a presidente e entrando na pesquisa estadual, Ciro aumentaria os índices da ministra e reduziria o favoritismo numérico dos tucanos paulistas.
| Dora Kramer - Dora Kramer |
| O Estado de S. Paulo - 31/07/2009 |
A ideia não é denunciar infrações, mas tentar pôr de joelhos o adversário. Tanto é que, informa a tropa de choque, o DEM e o PT não serão alvos de representações, porque não assinaram os pedidos de abertura de processos contra Sarney, apresentados pelo PSDB e pelo PSOL. Decisão que contraria a ameaça do suplente Wellington Salgado: "Já que pedir emprego é falta de decoro, vamos ver nos últimos seis anos todo mundo que fez isso aqui no Senado." É a prova da bravata, pois "todo mundo" incluiria o DEM, o PT, o PTB, o PDT e até o PMDB. O senador José Sarney deveria ser a última pessoa interessada nessa guerra que seus aliados ameaçam. Primeiro, foram mexer com o senador Artur Virgílio, cujo senso de medida é inversamente proporcional ao tamanho dos desafios que recebe. Em segundo lugar, o líder do PSDB tem duas explicações a dar ao Conselho de Ética, ambas já feitas ao plenário da Casa diariamente ao longo de duas semanas. Seus pecados ele assumiu. Contratou um funcionário fantasma para atender às demandas de uma amizade e teve a conta de hotel em Paris paga pelo então diretor-geral, Agaciel Maia. Se os processos prosperarem e o conselho onde os governistas são maioria achar por bem condená-lo, pode fazê-lo. Mas ficará apertado para arquivar as representações contra Sarney, que carrega nas costas um caminhão de contas em aberto. A saber: mentira ao Parlamento, nepotismo, uso de ato secreto para beneficiar parente, tráfico de influência no caso do neto intermediário de operações de crédito consignado para funcionários, sonegação de impostos, desvio de dinheiro de empresas públicas (Petrobrás e Eletrobrás) para as contas das empresas da família Sarney. Se quem deve teme, quem deve mais teme muito mais. No cotejo, Sarney e o PMDB levam enorme desvantagem. Por essa e mais algumas outras é que não é verossímil essa história de retaliação. A menos que o partido tenha enveredado pelo perigoso terreno do perdido por um, perdido por mil. Mas não parece. Há muito cálculo ali. Indicativo firme de que estamos diante de uma fanfarronice é o fato de o grupo de Michel Temer ter "aceitado" entrar numa briga de rua com o PSDB. Esse pessoal, na maioria deputados, manda no PMDB, está longe da confusão e assim pretende ficar. Temer e companhia disseram sim porque, nesta altura, dizer não só elevaria a pressão. O PMDB, que já briga com o PSDB e o PT, voltaria a brigar entre si em público. A cúpula aprendeu a conhecer a fundo a teimosia e os métodos do líder do partido no Senado, Renan Calheiros. Manteve a fleuma quando o plano de eleger Sarney quase põe em risco a eleição de Temer para a presidência da Câmara, olhou do camarote o desenrolar da crise nestes cinco meses no Senado e agora fez o gesto de aceitação no limite do indispensável. A ala do Senado não tem mais nada a perder, mas o grupo da Câmara tem muito a ganhar. Quer a vaga de vice na chapa de Dilma Rousseff, quer transitar livremente também pelos palanques da oposição por meio de alianças nas eleições estaduais e, sobretudo, não quer atrito com os dois partidos que potencialmente representam a porta da esperança de acesso à máquina pública. Convenhamos, dá para acreditar que essa turma vai pôr o pescoço a prêmio para ajudar o grupo adversário que recentemente não teve com os colegas deputados nenhuma consideração? Só vendo. O finado Antônio Carlos Magalhães costumava dizer que faltava "coragem física" a Sarney. É um traço de personalidade a ser levado em conta na análise de possibilidades sobre o caminho a seguir: o recuo estratégico ou o avanço insano na companhia de Renan Calheiros e sua intrépida trupe de suplentes. ?Por maior? Se tiver mesmo a chance de concorrer em 2010 como vice de Dilma Rousseff, o deputado Michel Temer precisa se entender muito bem com Orestes Quércia. Sua aliança com o governo federal o elegeu presidente da Câmara. Mas quem o elege deputado é a máquina do PMDB de São Paulo, controlada por Quércia e prometida a José Serra. Dois coelhos Caso o nome de Ciro Gomes entre na próxima pesquisa de intenções de voto para 2010 na lista de candidatos ao governo de São Paulo, o Planalto conta criar um fato político. Ao mesmo tempo favorável a Dilma e desfavorável ao PSDB no Estado. Saindo do rol dos pretendentes a presidente e entrando na pesquisa estadual, Ciro aumentaria os índices da ministra e reduziria o favoritismo numérico dos tucanos paulistas. |
Celso Ming-Parar pra ver
| O Estado de S. Paulo - 31/07/2009 |
(A ata, que desta vez tem oito páginas, é mais do que um documento burocrático. É um dos instrumentos pelos quais o Banco Central - BC - conduz as expectativas dos "fazedores de preços", para que não forcem a mão nas remarcações e depois se sujeitem a encalhes de mercadoria.) A maioria dos analistas do mercado financeiro que se manifestaram após a divulgação da ata entendeu que a pausa será longa. O Copom relembra que o efeito dos juros sobre a atividade econômica leva de seis a nove meses para acontecer. Como os cortes começaram em janeiro, alguns resultados já estão à mostra e o conjunto deles provavelmente não se esgotará antes do primeiro trimestre de 2010. Assim, parece mais provável que o BC considere encerrado o atual ciclo de distensão e mantenha inalterado ao longo deste ano o nível da Selic, de 8,25%. A ata enfatizou que "alguns membros do Comitê entenderam que haveria respaldo para a possibilidade de manter inalterada a taxa básica de juros (de 9,25% ao ano) já nesta reunião (realizada em 22 de junho)". Mas eles acabaram votando com a maioria pelo corte de 0,5 ponto. E esse pormenor foi entendido como indicação de parada à vista. Mas não foi explicado por que, diante das ponderações dos mais cautelosos, não prevaleceu a hipótese de um corte de 0,25 ponto porcentual. Embora a manifestação da autoridade monetária seja de parar por aí, não se pode afirmar com certeza que a porta para mais um corte nos juros esteja definitivamente fechada neste ano. Se, por exemplo, a inflação apontasse para algum ponto muito abaixo do centro da meta, o Banco Central poderia rever essa disposição. O IGP-M, por exemplo, está negativo em 12 meses (-0,67%). No entanto, talvez o Banco Central já esteja preocupado com que ocorra o contrário, ou seja, que haja nova estocada da inflação. Como de hábito, o Copom não se pronunciou sobre o eventual impacto que poderia ser exercido pela forte expansão dos gastos públicos. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não convence quando garante que o governo conseguirá observar o compromisso de um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) de 2,5% do PIB neste ano. Se esse estouro fiscal acontecer, sobrará uma rebarba e tanto para ser aparada pela política de juros. Há mais um ponto a conferir. Em nenhum momento o Copom mencionou preocupações de que as tensões eleitorais começam a se misturar com as de natureza econômico-financeira. Tampouco acolheu reiteradas observações públicas do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, de que a curva futura dos juros já sofre desvios (para cima) por causa das incertezas sobre o que será a política econômica do governo que sucederá ao atual. Se o Copom não julgou relevante esse fator, ficam para serem explicadas as razões de Meirelles, ele que também se insinua como candidato ao governo de Goiás, por um partido a que ainda terá de se filiar. Confira Por que a pressa? - O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, quer que o novo marco regulatório do petróleo seja aprovado pelo Congresso Nacional em regime de urgência constitucional. A Comissão de ministros vem trabalhando no projeto das novas regras do pré-sal há mais de um ano. Pelo que apontam seus balões de ensaio, mudou seus pontos de vista mais de uma vez e não parece segura do que pretende. E, no entanto, deseja que o Congresso engula o bolo preparado sabe-se lá com que pressupostos e tome decisões dessa envergadura em 90 dias. |
Merval Pereira -A nova classe
| O Globo - 31/07/2009 |
A tomada de poder no Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat) — que administra os R$ 158 bilhões de patrimônio do Fundo do Amparo ao Trabalhador (FAT) —, promovida pelo ministro do Trabalho, Carlos Lupi, é apenas mais um dos muitos movimentos que vêm sendo feitos para ampliar o poder dos sindicalistas no governo. Para evitar que representantes dos empresários assumissem o controle do Conselho no próximo período, que abarca anos eleitorais, o ministro Lupi, oriundo do Sindicato dos Jornaleiros, ajudou a criar uma confederação empresarial, a Confederação Nacional de Serviços, entidade reconhecida oficialmente apenas em dezembro passado, e que tem sua representatividade contestada pelas federações da área. |
Segunda onda Fernando Gabeira
A democracia vem em ondas, acha um candidato chileno. Se isso é verdade, a primeira onda já se esgotou no Brasil. Eleições diretas, uma política econômica realista, uma generosa política social são suas conquistas. Mesmo se Sarney cair, o que é inevitável, e a sociedade impuser sobriedade ao Senado, as coisas não estarão resolvidas.
Uma segunda onda de democracia fatalmente virá. Um dos seus componentes essenciais é a responsabilidade diante da transparência. Responder às questões, admitir erros, corrigir rumos, é a base do comportamento na nova etapa.
Há um risco desse tema escapar às eleições presidenciais. O PT empacou na primeira onda.
As forças restantes parecem tímidas ou exauridas para conduzi-la. Será preciso vencer muitos medos. O primeiro deles é de que o tema interessa apenas à classe média ou apenas às metrópoles. No caso da esquerda, há o argumento de que a demanda é apenas uma manifestação udenista, referindo-se ao passado. Para quem dizia que a história não se repete, achar repetição em cada esquina é muito estranho.
Existem mitos: não se ganham eleições sem os fisiologistas. Duas eleições presidenciais foram ganhas contra eles, a de Collor e Lula. Não se governa sem eles, dizem. Mas o que é governabilidade? No meu entender, significa realizar elementos básicos do programa. Não é vencer sempre.
Se a questão não for central na próxima campanha, corre-se o risco de um debate conformista. De certa forma, Collor abordou o tema, que era importante no discurso do PT, em 2002. De lá para cá, as demandas sociais cresceram e os políticos brasileiros dependem hoje, para serem respeitados, de uma nova condição. Os americanos têm uma palavra enorme para isto: accountability. Sem ela, não dá mais.
Luiz Carlos Mendonça de Barros A mensagem do Copom
Recuperação da economia será lenta e país não deve voltar à excitação dos primeiros trimestres de 2008
NORMALMENTE não leio integralmente a ata do Copom. Ela é sempre longa e, de certa forma, pretensiosa no seu conteúdo. A Marina Santos, do quadro de economistas da Quest, sempre faz um resumo eficiente da ata, ressaltando o que nela há de relevante. Com isso fico sabendo das posições de nossa autoridade monetária.
Mas ontem rompi com essa rotina e li com atenção quase tudo o que foi escrito. Minha intuição dizia que deveria agir assim porque estamos diante de um momento quase histórico na condução da política monetária e queria entender a posição do Banco Central. Afinal o juro real no mercado monetário atingiu o nível mais baixo em muitas décadas. Muitos analistas mostram-se céticos quanto à estabilidade desse juro real mais baixo e apostam em uma volta à situação anterior. Para eles, nada mudou no Brasil que justifique essa euforia. Sempre me posicionei contra isso. Inúmeras vezes defendi junto ao leitor da Folha uma tese oposta.
A economia brasileira mudou muito nestes últimos anos, e uma taxa de juros mais baixa seria um resultado natural dessas mudanças. A questão mais importante seria saber qual o novo nível compatível com esse quadro mais estável da economia. Ninguém "a priori" pode responder a essa questão e somente uma política cautelosa de tentativa e erro nos levará ao menor nível de juros compatível com a estabilidade da inflação.
O nível atual da taxa Selic parece ser um bom início nessa busca. Por isso a decisão, tomada pelo Copom em sua última reunião, de estabilizar a Selic em 8,75% ao ano é correta. Com as expectativas de inflação, para este ano e 2010, estabilizadas em 4,5%, o juro real nela embutida é de 4%.
Muitos argumentam que os juros no Brasil ainda são muito elevados quando comparados aos de outros países. Não concordo, também, com essa posição, embora entenda que ainda há espaço para uma redução maior nos próximos meses.
A taxa de juros reflete as condições internas de uma economia de mercado e essa comparação com terceiros não é um argumento sólido, além de ser perigosa. Por isso entendo que precisaremos de algum tempo para testar esse novo nível de juros reais e, mais à frente, dependendo da reação da economia a ele, fazer um novo ajuste na taxa Selic. Mas minha intuição é que o BC vai manter a Selic estável por um longo período.
A ata da última reunião do Copom passa uma mensagem correta para o mercado financeiro. Seus membros entendem que a redução do juro real realizada nos últimos meses deve ser estável, e não apenas conjuntural. Dizem também que será preciso algum tempo para ter certeza dessa estabilidade.
Por isso o Copom estará nos próximos meses monitorando o comportamento da inflação nesse contexto de juros mais baixos. Palavras sábias, na minha leitura. Alguns outros pontos -esses de natureza conjuntural- me chamaram também a atenção. O mais importante é que o Copom trabalha com uma ocupação gradual da capacidade ociosa de parte da economia ao longo dos próximos meses.
Essa posição se contrapõe à parte do mercado que já vê no ano próximo pressões inflacionárias por conta de um nível menor do chamado hiato do produto. Os mais afobados já preveem inclusive uma rodada de elevação da Selic ao longo de 2010. Não concordo com isso. A recuperação da economia será lenta e não devemos voltar à situação de excitação vivida nos primeiros trimestres de 2008.
Míriam Leitão Ordem do futuro
Brasil, China e Índia serão compelidos a adotar metas de redução das emissões. A China já sabe que não escapará e está fazendo investimentos pesados em conversão energética. A Índia está irredutível: acha que tem o direito de poluir para crescer. No Brasil, a posição diplomática é velha, mas a sociedade está mudando. Um sinal animador é o de as empresas pedirem que o Brasil adote metas.
O "Valor Econômico" publicou reportagem nesta quinta-feira, de Samantha Maia, contando que algumas grandes empresas e associações empresariais estão preparando um documento pedindo que o Brasil adote metas de redução das emissões dos gases de efeito estufa. Eles acham possível a redução das emissões do setor industrial.
Atenção governo: não vale dizer que o Brasil já tem metas. As anunciadas no Plano Nacional de Mudanças Climáticas não são compulsórias, não são auditáveis, não são comparáveis e não estão sendo cumpridas.
A diplomacia brasileira precisa ouvir os empresários e os segmentos da sociedade que estão dizendo que é urgente o Brasil assumir suas responsabilidades ambientais e se comprometer em reduzir as emissões tanto do setor industrial quanto do desmatamento.
O governo ficou parado nos anos 90, na ideia de que os países emergentes precisam emitir para crescer.
Ela dá aos grandes países emergentes, mesmo que sejam altamente poluentes, o direito de não assumir metas.
Os países de industrialização antiga são os principais responsáveis pelos gases que foram emitidos no passado e nos causam danos agora, mas isso não torna as novas emissões menos nocivas. O animador agora é que a sociedade está se movendo.
Os avanços não são feitos sem conflito e pressão sobre o setor produtivo.
Há três anos, militantes do Greenpeace vestidos de frango na porta do McDonald's, em Londres, gritaram contra o desmatamento da Amazônia. A Conservação Internacional e a WWF também pressionaram.
Os importadores exigiram explicações aos produtores brasileiros. Foi este o começo do mais bem sucedido acordo entre o setor produtivo brasileiro para a redução do desmatamento da Amazônia. Por causa dele, os grandes esmagadores de soja no Brasil, Cargill, Amaggi, ADM, Bunge, e rede de produtores Amigos da Terra, assumiram compromissos de não comprar de área recentemente desmatada.
Assim nasceu a moratória da soja.
O que aqueles enormes frangos berravam na porta da lanchonete é que eles comiam ração feita com soja plantada em área de desmatamento.
Quem entrava lá e comia um sanduíche de frango era cúmplice do desmatamento.
O primeiro a pedir satisfação foi o próprio McDonald's à Cargill.
Vieram outros. A negociação acabou sendo referendada pelo governo. Os grandes exportadores de soja puseram o compromisso por escrito e assinaram. Exigência dos consumidores.
Normalmente, os grandes produtores de soja compram de pequenos e médios que invadiram a floresta para produzir. Segundo dados da Conab, a moratória da soja, ou seja, esse compromisso de não comprar de áreas desmatadas, não afetou absolutamente nada a produção de grãos no país. Ela cresceu e as exportações também.
Na área que ela passou a vigorar, caiu a violência, a disputa de terra e a grilagem.
Isso prova o que têm dito os estudiosos do assunto: a disputa de terra, a grilagem e o desmatamento não produzem progresso.
Elevam a violência. A pacificação com a floresta é que nos trará índices maiores de qualidade de vida.
Esta é a ordem do progresso.
Esta semana foi assinada a renovação desse compromisso da soja com o ministro Carlos Minc.
A pressão contra a carne é mais difícil. Boi anda. Há dificuldades técnicas e resistência à rastreabilidade. O BNDES deu um prazo longo demais para os produtores. A pressão contra a carne produzida em área desmatada foi desencadeada pelo relatório do Greenpeace mostrando que a cadeia produtiva da pecuária brasileira vai direto de áreas griladas e desmatadas ao mercado consumidor, passando por grandes frigoríficos. Ao mesmo tempo, o Ministério Público do Pará iniciou ação contra grandes empresas ao fim de longo trabalho de investigação de compra de carne de fazendas embargadas pelo Ibama. O trabalho está no começo. A lavoura arcaica, reunida na CNA, reagiu. Mas os mais inteligentes começam a se preparar para cumprir o que o mercado exige. A pressão vai crescer. Esta semana, a Timberland disse que não compra mais couro da Amazônia, até que provem que não vem de área desmatada recentemente.
A Nike fez a mesma coisa na semana passada.
A fiscalização pública, a vigilância do Ministério Público, essa rede de ONGs, consumidores, empresas modernas estão fazendo o Brasil avançar. Os argumentos velhos têm um bom lugar para ir: para o lixo. Não é nem reciclável. A tese de que o Brasil precisa desmatar para produzir não resiste à menor análise; aquela desculpa esfarrapada de que o governo militar incentivou o desmatamento é ainda mais ridícula: o governo militar acabou há um quarto de século. Estamos falando de crime recente.
No Brasil, o governo avança quando é empurrado pela sociedade. É isso que começa a acontecer.
Com Alvaro Gribel
Quinta-feira, Julho 30, 2009
Celso Ming Não é mais o mesmo
| O Estado de S. Paulo - 30/07/2009 |
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Perigo à vista para o futuro do pré-sal David Zylbersztajn
| O Estado de S. Paulo - 30/07/2009 |
Dia vai, dia vem, e o tema do pré-sal volta ao noticiário com novidades, especulações sobre alguma coisa que se manifesta como uma espécie de sebastianismo salvador, dada a enorme expectativa criada em torno da descoberta de expressivas reservas de petróleo. |
O orçamento da eleição permanente: Rolf Kuntz
| O Estado de S. Paulo - 30/07/2009 |
Trotskismo e revolução permanente já eram. A ideologia quente no Brasil é a da eleição permanente. Esse é um dado essencial para explicar o indisfarçável desmanche das contas públicas federais. Crise econômica e incentivos setoriais são apenas uma parte da história. A injustificável expansão do custeio, incluída a folha salarial, não é só barbeiragem administrativa. É também uma ação intencional e defendida pelas autoridades com argumentos inteiramente esfarrapados. O novo aumento do Bolsa-Família, previsto para setembro, foi apresentado pelo secretário do Tesouro, Arno Augustin, como parte da política anticíclica. Mas os beneficiários do programa têm uma renda mínima garantida e não trabalham nos setores mais afetados pelo desemprego. Além disso, a inflação, controlada, pouco deve ter atingido seu padrão de consumo. Que outra explicação para o aumento, além do interesse eleitoral? |
Míriam Leitão Visão turva
O problema fiscal não é a meta. É a atitude e a interpretação. O que está errado neste ano, perdido para o crescimento em quase todos os países do mundo, não é um número, é a forma equivocada com que o governo avalia a conjuntura e aplaude as próprias decisões. Ele está aumentando o gasto errado e chamando isso de política anticíclica.
Vários economistas alertam: a conta virá no futuro.
Para o economista-chefe da Convenção Corretora, Fernando Montero, o governo terá que recorrer ao dinheiro do Fundo Soberano (FS) para cumprir a meta de superávit primário de 2009.
Ele explica que para cumprir o resultado, o crescimento da despesa — que foi 19% maior que o crescimento da receita no primeiro semestre — terá que desacelerar para 6% até dezembro. Um resultado muito difícil de ser cumprido e que obrigará o governo a usar o FS.
Nesse contexto, Montero já acredita até que a meta de superávit de 2010 não será cumprida. Primeiro, porque no ano que vem não haverá mais os recursos do Fundo Soberano — que serão usados este ano — e, segundo, porque o carregamento estatístico deste ano para o ano que vem será fraco.
A meta mudou a cada etapa do ano. Por isso, Montero a define como meta(morfose).
Ela foi já reduzida, e só será cumprida com recursos extraordinários que não existirão nos anos vindouros.
Já os custos da política permanecerão.
— Trabalhamos este ano com um superávit primário efetivo de 1,6% do PIB que foi transformado em superávit formal de 2,5% com a ajuda do Projeto Piloto de Investimentos (PPI) e do aporte de 0,4% do Fundo Soberano. O governo preferiria não ter que recorrer ao FS, mas não terá como evitar — diz.
O problema, segundo ele, é que o FS é uma poupança finita e em 2010 haverá mais dificuldade de fechar a conta porque a meta de superávit primário será de 3,3%.
Se o país crescer mais fortemente no ano que vem, a arrecadação aumentará e isto tornará possível elevar o esforço fiscal. O problema é que 2010 é ano eleitoral e a maioria das despesas que cresceram este ano não poderá ser comprimida.
O mundo inteiro está aumentando seus gastos como forma de reverter o quadro recessivo, diz o governo. E é verdade. Comparado com o resto do mundo, o Brasil tem até um quadro bom porque os déficits nominais nos outros países são muito maiores, diz também o governo. E de novo é verdade. O Brasil terá um déficit nominal de 3,5% do PIB, o que para um ano de crise não é muito.
O problema que o governo não se dá conta, nas suas frequentes sessões de autocongratulação, é que os outros países aumentam despesas que não se repetirão todos os anos porque são investimentos. Já o Brasil está aumentando os custos da máquina pública. Os governos não estão fazendo política anticíclica aumentando salário de funcionários e as contratações para o quadro efetivo. O Brasil tem também sua história: de hiperinflação, desordem de contas públicas, dívida interna pública alta, cara e curta. Por tudo isso, comparações com outros países precisam ser relativizadas.
Ninguém hoje tem medo de solvência da dívida pública. Isso é um dos nossos vários avanços. Mesmo assim, a dívida interna cresceu no governo Lula mesmo nos anos em que a arrecadação aumentou. O que caiu foi o conceito dívida pública líquida consolidada, pela queda da dívida externa, pela valorização cambial, pelo acumulo de reservas. Mas o fato de não haver temor sobre a solvência da dívida não significa que está tudo certo. O governo tem cometido erros fiscais nos bons e nos maus momentos.
— O problema é sempre a qualidade. Era a qualidade do ajuste quando o primário disparava e é a qualidade do desajuste agora que o primário despenca — diz.
Em outubro de 2008, o superávit estava em 4,3% do PIB. Ouvido por Bruno Villas Bôas, do blog (http://www.miriamleitao.com/), o economista Sérgio Vale, da MB Associados, disse que o superávit ficará em 2% este ano, já considerando o PPI (gastos que não são contados como gastos) e o Fundo Soberano (poupança feita no finalzinho do ano passado; ao contrário de países como o Chile que pouparam durante todos os bons anos).
— Este ano fiscal já está perdido. A questão agora é o que o governo vai fazer ano que vem, mas acho que não há risco fiscal ainda — explica Sérgio Vale.
A economista Monica de Bolle, da Galanto, alerta que é muito difícil comparar gastos de custeio dos países, mas afirma que outros governos tiveram rombos ainda maiores nas contas públicas.
— A deterioração fiscal nos EUA e Europa é muito maior do que aqui porque a crise financeira aconteceu lá, então, os gastos dos governos também foram muito maiores, isso é natural. O problema quando se olha para as nossas contas é que elas já estavam se deteriorando antes de a crise começar.
Então a crise, na verdade, acabou virando desculpa para que o governo pudesse gastar mais — explica.
O déficit público americano deve saltar de algo em torno de 3% para 14% do PIB em 2009. Em 2010, deve recuar para 9%. Isso terá impacto na dívida pública que ultrapassará 100% do PIB. A política anticíclica deles acontece através da sustentação da demanda e em investimento em infraestrutura.
Os nossos investimentos de infraestrutura são poucos e frequentemente nos projetos errados.
Com Alvaro Gribel
Dora Kramer Operação mãos sujas
Infortúnio difícil de enfrentar esse que o senador José Sarney achou de construir para si no epílogo de tão celebrada biografia política: não bastasse a sanha dos inimigos precisa também administrar o ímpeto apaixonado dos amigos.
Cada um que se levanta para defendê-lo o faz de maneira mais desastrada que o outro. Nenhum deles, do presidente da República ao líder do PMDB no Senado, passando pelos dois mais destacados suplentes integrantes de sua tropa de choque - Wellington Salgado e Paulo Duque -, nenhum foi capaz de fornecer ao senador José Sarney um alento sequer.
Justiça seja feita, tudo começou com ele mesmo, no primeiro discurso de autodefesa, quando considerou uma afronta à sua história ser contestado por ter feito de Agaciel Maia poderoso executor de esquema de poder paralelo no Senado.
Aquilo irritou as pessoas. Que ficaram ainda mais irritadas quando o presidente Luiz Inácio da Silva corroborou a tese dizendo que Sarney não poderia ser tratado como uma pessoa "comum". Estabeleceu-se aí um outro confronto de pensamentos que lançou luz sobre o problema real. Não se tratava se uma ou outra irregularidade, uma contratação indevida ali ou um nepotismo ali.
Tratava-se do choque entre o novo tempo da sociedade moderna e a política velha. Sarney não se deu conta e Lula não acreditou que há opinião no público. Preferiu se fiar no mito da "opinião publicada" representada por meia dúzia de elitistas mancomunados com seus comparsas oposicionistas. Ou, para usar o jargão, golpistas.
Com os dois suplentes e suas declarações de apreço ao fisiologismo, melhor nem perder tempo.
Passemos, portanto, direto ao fato mais recente.
Lembrando, antes, que por incrível que pareça Sarney e companhia ainda acreditaram no velho truque da aliança entre o recesso e o "cansaço" do noticiário dito excessivo que resultaria em esquecimento gradativo dos fatos e arrefecimento da crise.
Isso, com uma eleição pela proa. Obviamente, deu-se o oposto, em boa medida sob o gentil patrocínio das bobagens da defesa. Em demonstração explícita de que detecta a aproximação do tudo ou nada, o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros, saiu das sombras em que vinha atuando no comando das ameaças insinuadas aos colegas e partiu para a ignorância.
Literalmente. Telefonou para o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, com a proposta indecente de sempre. Um acordo de paz entre os dois partidos ou o PMDB representaria contra o líder dos tucanos, Artur Virgílio, por quebra de decoro na contratação de um funcionário fantasma e na conta de hotel em Paris paga por Agaciel Maia.
Uma chantagem clara, cujo maior defeito não foi nem a nitidez, mas a estultice do gesto. Calheiros entregou-se na bandeja ao adversário e ainda mostrou que na visão de sua turma denúncia não serve para corrigir malfeitos, mas para ser usada como moeda de troca na tentativa do "abafa". Uma legítima operação mãos sujas.
Já executada em outras ocasiões e bem aceita pela oposição. Mas, desta vez, Sergio Guerra não apenas não aceitou a barganha, como espalhou a proposta recebida e, no dia seguinte, o partido emplacou três representações no Conselho de Ética.
Duas já com provas materiais devidamente expostas. A influência de Sarney na fundação que leva o nome dele e é suspeita de ter desviado dinheiro da Petrobrás é comprovada no estatuto da entidade.
A influência dele na indicação de um neto para atuar como intermediário de operações de crédito consignado para funcionários do Senado permite dúvida, mas a mentira da negativa sobre a existência dos atos secretos - objeto da terceira representação - está desvendada nos diálogos gravados pela Polícia Federal.
Noves fora, o recesso acaba na próxima semana e a situação de Sarney piorou bem. Ao ponto de mandar recados ao governo de que pode ceder e deixar o cargo. A conferir se fala a verdade ou se lança, em forma de ameaça, um novo pedido de socorro ao presidente da República.
Boi dormir
Não para em pé a história, difundida Esplanada dos Ministérios afora, de que o ministro das Relações Institucionais exagerou, por conta própria, no tom da contestação à nota do líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante.
Diga-se de José Múcio Monteiro qualquer coisa, menos que seja inexperiente ou tenha temperamento animoso. É, antes de tudo, um conciliador. Além disso, postulante a uma vaga no Tribunal de Contas da União, José Múcio quer distância de confusão. Com o Congresso ou com o Planalto.
Se saiu de uma reunião do conselho político do Palácio do Planalto dizendo que a nota em defesa do afastamento de Sarney só expressava a opinião de "um ou dois senadores", foi porque assim o autorizava o clima da reunião.
Mais provável é que o ministro ainda tenha amenizado em público o tom corrente em particular na conversa entre o presidente e o conselho
Merval Pereira Sem solução
Com pequenas variações de tons e ênfases, com abordagens mais inteligentes ou mais simplórias, as desculpas são sempre as mesmas: todo mundo faz. A principal defesa dos cada vez mais raros apoiadores do presidente do Senado é acusar os acusadores, colocando todos como farinha do mesmo saco. E como muitas vezes são mesmo, essa estratégia vai protelando o fim da crise, ou montando uma solução que livre todos igualmente.
O senador José Sarney já deu a dica: se cometi crime ao nomear parentes, todos cometeram.
Foi o que o próprio Lula fez no mensalão, quando lançou a tese, engendrada por seu ministro da Justiça da ocasião, o criminalista Márcio Thomaz Bastos, de que se tratava de caixa dois de campanha eleitoral, "o que é feito sistematicamente no Brasil".
Desde então, a defesa das irregularidades tornou-se a marca registrada do jeito Lula de organizar coalizões partidárias.
O caso é grave a ponto de abranger de um extremo a outro o espectro demográfico do Senado. Tome-se por exemplo o neófito senador sem votos Wellington Salgado, de 51 anos.
Sem história política que sustente suas opiniões, ele tem a coragem de aparecer na televisão para defender a tese de que sempre houve "ocupação de espaço" por parte dos políticos, com nomeações de parentes e amigos.
O senador, que não se dá ao respeito a ponto de receber dos colegas a alcunha de "Cabeleira", de uma família proprietária de uma universidade, deveria ser, teoricamente, um educador, mas sua visão da vida pública absorve como naturais essas "colocações", que era como antigamente se apelidava o empreguismo.
No outro extremo, o senador duplamente sem voto Paulo Duque, segundo suplente do governador do Rio, Sérgio Cabral, continua a defender a efetividade do empreguismo como arma política, aos 81 anos de idade e 60 de vida pública.
Assim como Sarney, nas palavras premonitórias do senador Jarbas Vasconcellos, transformou o Senado em um imenso Maranhão, o senador Paulo Duque transformou seu mandato em uma representação do que há de mais retrógrado na política brasileira. Ele tem a dimensão de um vereador de província e lida com questões nacionais à frente do Conselho de Ética, uma piada de mau gosto pregada na cidadania por Renan Calheiros, outro exemplar da tropa de choque do PMDB.
Não é à toa que volta e meia flagra-se o olhar embevecido do hoje senador Fernando Collor a admirar a performance palanqueira do presidente Lula.
O reencontro recente desses dois políticos que já se confrontaram em situações diferentes vinte anos atrás fala bem da involução da política brasileira.
Audacioso a ponto de ter chegado ao Palácio do Planalto a bordo de uma aventura política que poucos tentariam, Collor não teve coragem de enfrentar seus algozes no Congresso, como Lula hoje enfrenta seus opositores, sem nenhum tipo de escrúpulo.
É bem verdade que, naquela época, atiçados pelo PT e sob a liderança de Lula, os estudantes foram para as ruas do país, e a totalidade dos movimentos sociais se mobilizou para exigir a saída de Collor.
Hoje, se mobilização houver, será a favor de qualquer tramoia que o governo patrocine, até mesmo a favor dos caciques do PMDB de "moral homogênea", na definição de Márcio Moreira Alves.
Essa ousadia, essa falta de escrúpulos, essa manipulação do povo humilde, resumem o que Collor tentou fazer e não conseguiu no plano de poder político.
O grito de "não me deixem só" foi o precursor das atuações performáticas de Lula nos palanques da vida.
As acusações de corrupção, que levaram Collor ao nocaute político mas não foram suficientes para condenálo por um misto de incompetência dos advogados de acusação e um acordo político tácito, hoje são enfrentadas pelo governo Lula e seus aliados com a naturalidade dos que consideram as falcatruas políticas parte integrante do jogo democrático.
Se tivesse tido a audácia de assumir seus atos como naturais quando esteve sob o fogo cruzado da imprensa e do Congresso, Collor poderia ter resistido no cargo, assim como Lula resistiu quando o mensalão devastou o primeiro escalão de seu governo e respingou nele, a ponto de ameaçar momentaneamente sua reeleição.
É claro que Lula tinha o PT e os movimentos sociais a seu favor, e já montava o que seria o grande alavancador de sua estratégia eleitoral, o Bolsa Família. Mas Collor sabia na ocasião que grande parte daqueles que votaram pela sua cassação não tinha condições morais de acusá-lo.
Nem mesmo o irmão Pedro, que detonou todo o processo, o fez por razões altruístas, mas apenas porque lhe negaram um pedaço maior do butim.
O que Collor não sabia, e sabe agora, é que é preciso dar espaço para incluir o maior número possível de políticos, sejam de que tendência política forem, em seus projetos de poder.
Dividir o bolo, permitir que todos se locupletem, enquanto finge-se que se quer instaurar a moralidade.
É o que está em marcha no Senado nos dias atuais.
Monta-se nos bastidores uma guerra de processos na Comissão de Ética que tem por finalidade neutralizar qualquer acusação.
Caminha-se para uma aparente solução, a renúncia do senador José Sarney da presidência do Senado, a eleição de um outro senador da base do governo, de preferência do PMDB, para o cargo, e um recomeço de atividades com a pedra zerada.
Tudo indica que o máximo que se conseguirá no momento é isso, com o compromisso do novo presidente de comandar uma reforma que impedirá que aconteçam os desmandos que até agora dominam o dia a dia do Senado.
Difícil é acreditar que um presidente saído de um acordo promíscuo como esse consiga avançar na moralização dos costumes do Senado.
Quarta-feira, Julho 29, 2009
Clipping de 29/07/2009
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Niall Ferguson,“Chimérica” é o grande desafio
entrevista a O Estado de S. Paulo, 29/07/09
Niall Ferguson: professor da Universidade Harvard; Para historiador, crise expôs 'casamento problemático' entre chineses poupadores e americanos gastadores
Nathan Gardels, GLOBAL VIEWPOINT
Apesar de todos os problemas, o principal desafio do presidente americano, Barack Obama, é corrigir o desequilíbrio com a China. Para Niall Fergunson, professor de história da Universidade Harvard e de gestão de negócios da Harvard Business School, foi a estratégia adotada pela China de acumular reservas em dólar que financiou o endividamento dos EUA.
Agora que a era de endividamentos acabou, qual é a chave para manter a parceria entre o grande poupador e o grande dissipador?
Meu amigo Moritz Schularick e eu propusemos no fim de 2006 essa ideia da "Chimérica". Tentávamos explicar o boom financeiro global. Decidimos que a resposta era China e América (EUA) se fundirem e se tornarem uma economia única, criando a Chimérica. Os chineses poupariam e os americanos gastariam. Os chineses exportariam e os americanos importariam. Os chineses fariam empréstimos e os americanos tomariam emprestado. Como a estratégia chinesa se baseou no crescimento conduzido pelas exportações, os chineses não queriam ver sua moeda se valorizar frente ao dólar. E interferiram nos mercados cambiais. Como resultado, possuem hoje reservas internacionais que totalizam US$ 2,1 trilhões. Cerca de 70% são valores mobiliários em dólar e grande parte deles são títulos do governo americano. O efeito inesperado disso foi ajudar a financiar o déficit de conta corrente dos EUA. Sem isso, é difícil acreditar que os mercados financeiros dos EUA teriam chegado à bolha observada entre 2002 e 2007. Hoje a grande questão é se essa Chimérica é, ou não, um casamento problemático. A crise financeira pôs fim à era dos endividamentos. Os consumidores americanos, com enormes dívidas, não podem mais pedir emprestado. A taxa de poupança está subindo e as importações americanas declinaram. Os dados comerciais chineses mostram a mesma coisa: as exportações despencaram. Isso não significa que os chineses deverão parar de adquirir dólares. Mas eles não deixarão que a sua moeda se valorize quando tantos empregos no setor exportador estão ameaçados.
O governo Obama quer tomar bilhões emprestado dos chineses para financiar pacotes de estímulo. E se os chineses não comprarem os títulos do Tesouro?
A China detém títulos do Tesouro americano que em maio atingiam US$ 801,5 bilhões, alta de 5% em relação a abril. Digamos que o aumento foi de US$ 40 bilhões em um mês. Imaginemos que os chineses forneçam esses empréstimos cada mês neste ano fiscal. Seria uma linha de crédito de US$ 480 bilhões. Considerando que o déficit total previsto é de cerca de US$ 2 trilhões, isso significa que os chineses podem financiar menos de um quarto do valor, enquanto que há alguns anos, estavam financiando praticamente todo o déficit. O problema é que a China percebeu que detém títulos suficientes do governo dos EUA. Sua grande aflição é que a política fiscal um tanto indulgente do governo Obama pode provocar a queda dos títulos americanos e/ou a redução do poder de compra do dólar. Em qualquer dos casos os chineses perdem.
Celso Ming,É mesmo preciso mudar?
O Estado de S. Paulo, 29/07/09
A Petrobrás informou ontem que, no pré-sal, nada menos que em 26 dos 30 poços já perfurados foi encontrado petróleo e/ou gás, perfazendo um índice de sucesso de 87%. Mas observou que a existência de hidrocarbonetos não garante previamente o interesse comercial da jazida.
O governo quer mudar tudo nas regras do petróleo. Argumenta que é tão menos arriscada a exploração do petróleo no pré-sal que o regime de concessão (em que a empresa concessionária enfrenta mais riscos) deva ser trocado para o de partilha (em que a contratada explora o petróleo da União e é remunerada em parte da produção).
Esta coluna já questionou anteriormente a necessidade de se criar uma nova estatal apenas para gerenciar o pré-sal se a Petrobrás, como já anunciou a ministra Dilma Rousseff, terá tratamento prioritário nos contratos de exploração das áreas do pré-sal que ainda não foram licitadas.
Mas, mesmo confirmando-se as estimativas do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, de que a formação pré-sal possa conter um potencial de 150 bilhões de barris, é preciso perguntar se é mesmo preciso mudar tudo. O sucesso obtido até agora se deveu à vigência do regime de concessão. Se o que é bom deve continuar, novas regras podem colocar em risco a empreitada.
Talvez as mudanças devam limitar-se a questões puramente administrativas, mais condizentes com a apropriação da renda proporcionada pelos royalties e pelas participações especiais.
Outra questão envolve o inevitável aumento de capital. Mais cedo ou mais tarde, a Petrobrás terá de providenciar reforço de capital destinado a garantir sua capacidade de investimento, seja com recursos próprios, seja por aumento do endividamento.
A ideia inicial era levar o Tesouro a subscrever sua participação em 32% do capital sem desembolso de dinheiro, mas com cessão de petróleo existente nas áreas contíguas às já descobertas pela Petrobrás no pré-sal. Há um ano, quando a Comissão Interministerial criada para propor um novo marco regulatório iniciava seus trabalhos, a proposta era garantir aumento de participação do Tesouro no capital, já que uma boa parte dos atuais acionistas provavelmente não subscreveria a sua parcela. Agora, esse projeto esbarra em dois novos problemas.
O primeiro consiste em saber previamente qual é o volume de petróleo que o Tesouro detém nessas áreas contíguas, levando-se em conta a nova probabilidade de insucesso da exploração. Antes de fazer a transferência dessas reservas para a Petrobrás, alguma empresa terá de perfurar a área pertencente ao Tesouro para saber o que tem lá embaixo. E isso leva dinheiro e tempo. O segundo, ligado ao anterior, consiste em definir a cotação adequada do petróleo ainda enterrado a 6 mil metros de profundidade para que determinada quantidade dele possa ser incorporada ao capital da Petrobrás.
Pelos confusos balões de ensaio soltos em Brasília já se desconfiava de que o governo vem montando um frankenstein petrolífero sob novas regras. Agora se vê que o governo já não parece seguro do que pretende e vai adiando as decisões.
As novas licitações estão paralisadas desde novembro de 2007, supostamente porque esperam pela nova regulamentação. Além de levar tempo e expor-se a forte desgaste político, a mudança do marco regulatório traz o risco de atrasar e prejudicar o próprio desenvolvimento do pré-sal.
PAULO RABELLO DE CASTRO O novo cenário WWW
Marolas sucessivas surgem da superonda do crédito chinês, capaz de produzir minibolhas dos EUA ao Brasil |
UMA DAS linguagens mais bem-sucedidas na interpretação da evolução da crise global é a simbologia do "alfabeto da recuperação econômica". Sabemos que a retomada não aconteceu em V, passando rapidamente do mergulho na crise para o rebrote da primavera, como se chegou a anunciar em março, na entrada da nova estação no hemisfério Norte. Tampouco parecemos condenados ao colapso em L, ou seja, cair e ficar no fundo do poço por um longo período. Então, tudo indica que nossa sorte é na forma de U, com direito à estagnação um pouco mais demorada, antes da brotação da primavera econômica.
Pessoalmente, gosto mais da letra W. Além de mais complexa, traduz melhor o jeito ciclotímico do mundo em que vivemos. Pelas manchetes recentes, a crise acabou, principalmente no Brasil. Os propagandistas da recuperação a galope saíram de suas tocas hibernais. E não falta noticiário positivo, na China, na Índia e, especialmente, no Brasil, que deixou de ser o campeão mundial do juro básico (não deixou de sê-lo no juro bancário!) para oferecer o primeiro lugar a Pequim. Os efeitos da recuperação da crise são especialmente fortes no Brasil pelo efeito conjugado do juro básico em queda com a apreciação significativa do real.
Nossa moeda, pelo índice do Big Mac, ficou mais valorizada que o dólar e supera todas as moedas emergentes em apreciação relativa. Ponha na lista a China, a Rússia, o México, a Argentina e, é claro, a maioria dos países europeus. Tal valorização do real produz efeitos imediatos altamente reconfortantes em termos de manutenção de poder de compra da população e também faz muito bem à saúde política do governo, mesmo enfrentando escândalos espantosos em sua base aliada.
Os sinais mais claros dessa onda de bem-estar e otimismo vêm -não por acaso- das Bolsas e dos mercados de commodities.
Desde o fundo de poço, a cotação do petróleo já subiu quase 100%. E a corretora norte-americana Goldman Sachs acha que o óleo ainda está barato, conforme seu último boletim divulgado aos clientes. Aliás, essa sensação é generalizada: quase todas as commodities agrícolas e minerais estariam em ponto de compra, segundo aquela fonte. Não espanta que um passageiro conversador de ponte aérea me tenha confidenciado, com a espontaneidade dos crentes, que a nossa Bolsa de Valores haverá de chegar aos 100 mil pontos até dezembro. Está por volta de 54 mil e já subiu 45%.
Os otimistas não deixam de ter sua razão. Estamos embarcados numa superonda mundial de expansão monetária e de crédito, criada pelos governos do mundo justamente para não deixar fenecer o entusiasmo do mundo da bolha.
Os chineses, por exemplo, expandirão o crédito local em 40% do PIB neste ano, cerca de US$ 1,5 trilhão.
Equivale a três vezes o crédito brasileiro total em reais, em números absolutos. A potência anabolizante dessa gigantesca injeção de recursos foi capaz de produzir os 8% de crescimento chinês em 2009 e certamente ajudou o governo brasileiro a baixar juros e apreciar o real. Fecharemos o ano de 2009 com o PIB em território positivo.
Se essa política é financeiramente sustentável, é perguntar demais. O máximo que se pode dizer, com certeza provisória, é que a superonda do crédito chinês hoje produz minibolhas para todos os lados, nos EUA, na Ásia e no Brasil.
É um cenário de marolas sucessivas. Lula, nosso pressagiador, estava correto. Estamos mais para um WWW, um cenário de internet, no alfabeto moderno da crise.
RUY CASTRO Dependência e morte
RIO DE JANEIRO - Na blitz sobre a cracolândia paulistana, deflagrada pelo governo estadual e pela Prefeitura de São Paulo na semana passada, transeuntes que assistiram à operação e até agentes de saúde se surpreenderam com a resistência dos dependentes a se deixar transferir para albergues, a receber ajuda e a ter uma oportunidade de se libertar do crack.
A cobertura de "O Estado de S.Paulo" reproduziu o diálogo entre um garoto de 12 anos e um agente. Ao ouvir a promessa de que, no albergue, ele não teria crack, mas poderia comer pizza à vontade, o menino reagiu a caráter: "Não gosto de pizza. Gosto de crack".
O que surpreende nesse diálogo é a inocência do profissional da saúde, ao acreditar que uma reles pizza poderia curar uma das mais severas dependências químicas já surgidas. Ou que o guri fuma crack por não ter dinheiro para a pizza. Ou que sua preferência pela droga seria produto de sua vontade ou, quem sabe, de sua "má natureza".
Duas ou três cachimbadas de crack são suficientes para estabelecer a dependência. A partir daí, a sensação, que se poderia classificar de prazerosa naquelas primeiras instâncias, muda de figura. Não será mais pelo prazer que o usuário terá de continuar com a droga, e sim para não passar mal -para não experimentar os terríveis efeitos da abstinência. Com qualquer droga é assim, mas com o crack é pior, porque o efeito apaziguador de uma pedra passa em instantes depois de fumada, obrigando o dependente a comprar outra pedra (por R$ 5 ou R$ 10) e fumar de novo.
Os dependentes não querem ir para o albergue porque sabem que lá não há crack e, para eles, ficou impossível viver sem crack. Na verdade, o impossível é viver com crack -mas seus sobreviventes só descobrirão isso depois de purgar todos os demônios da abstinência numa dura internação.
Los hermanos Miriam Leitão
O GLOBO
A América Latina está em recessão, depois de um excelente 2008, exceto para o México, o primeiro a ser afetado pela crise. Mas há fatos piores. Os bastidores da manipulação de preços na Argentina foram revelados; um dos objetivos era tungar os detentores de bônus. A Venezuela enfrenta recessão com inflação subindo. Isso, sem contar a escalada autoritária do presidente Hugo Chávez.
A ex-diretora do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Indec, o IBGE argentino, Graciela Bevacqua, em entrevista ao jornal "La Nacion", falou pela primeira vez, no último final de semana, dois anos depois de ter sido demitida, após uma carreira de 16 anos no instituto.
Ela disse que por trás da sua demissão está claramente a presidente Cristina Kirchner. Inclusive, ouviu isso durante o processo da demissão.
Numa conversa com o secretário do Comércio Interior, Guillermo Moreno, ela ouviu que a mudança no cálculo da inflação tinha que ser feita "pela pátria", que pagava juros aos donos dos bônus, calculados com base nos índices de preços.
"Nós, a pátria, temos que pagar os bônus", disse Moreno depois de criticar as estatísticas brasileiras. Curioso, aqui o IBGE jamais aceitaria tal intromissão e isso nem se colocaria. Felizmente.
O cálculo de uma consultoria, a El Estúdio Bein e Associados, calcula que o governo deixou de pagar US$ 15,6 bilhões aos poupadores desde então.
O chefe do governo, Aníbal Fernandez, nega tudo e diz que um grupo de especialistas escolhidos em três universidades está fazendo a revisão dos índices de preços desde 1999. Mas a confiança já se quebrou. A Argentina hoje tem dificuldades de se financiar, até porque nunca regularizou a situação com os credores internos e externos desde a moratória. E tem recebido empréstimos do Banco de La Nación.
Na Venezuela, a inflação de dois dígitos, entre 30% e 40%, está ficando crônica (confira as projeções no gráfico). Na Argentina, cada consultoria e banco faz seu próprio cálculo de inflação, já que no Indec ninguém confia mais.
Felizmente, o Brasil está no grupo dos países normais da região. No Chile, a inflação caiu fortemente por causa da recessão. Despencou de uma taxa anual de 9,5%, em junho do ano passado, para 1,9%, em junho deste ano, ficando abaixo do centro da meta que é de 3%. O país sentiu fortemente o impacto da retração mundial. Seu PIB caiu 2,1% no primeiro trimestre deste ano e as projeções indicam outro encolhimento de 4% no segundo trimestre. Mas o presidente do Banco Central, Jose de Gregório, fala de recuperação no segundo semestre. O país cortou fortemente os juros e está usando estímulos de recursos poupados durante o período do boom econômico.
O México já cresceu pouco em 2008 (veja no gráfico).
Dada a proximidade com os Estados Unidos e sua dependência comercial, começou a reduzir a atividade econômica no primeiro momento da crise. Este ano, a previsão é de uma queda forte. Numa conversa recente que tive com o presidente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o mexicano Angel Gurría, ele disse que o país já entrou no segundo semestre em recuperação, mas que o numero final do ano será ruim pela queda do primeiro trimestre, que chegou a anualizados 24%. A previsão do FMI é de que o país feche 2009 com queda de 7,3% no PIB.
Comparado com os maiores países da região, o Brasil está melhor do que Argentina e Venezuela porque aqui se sabe a inflação e ela caiu e continua caindo. Difere do México porque tem um comércio internacional mais diversificado.
Mas ao contrário do Chile, não se preparou para este momento. Está gastando, criando esqueletos para o futuro. O dado de PIB do Brasil previsto pelo FMI para 2009 (-1,3%) está abaixo das previsões do mercado mas deve ser revisto para cima.
Merval Pereira Pouco risco
O GLOBO
De todos os envolvidos no processo político de escolha do próximo presidente da República, o único que não tem nada a perder, e tem um projeto definido, é Lula. Os dois partidos políticos metidos mais diretamente na disputa, PT e PSDB, correm o mesmo risco, o de sair da eleição quase se desmanchando.
Se o PSDB não conseguir fazer o sucessor de Lula, seja José Serra ou Aécio Neves, o partido tende a ficar mais fraco do que já está no Legislativo e nos governos estaduais, tornando-se crucial manter as administrações de São Paulo e Minas para não desaparecer.
As chances são piores do que em 2006, pois, se a popularidade de Lula determinar uma vitória de sua candidata, a coalizão governista pode ter força para eleger o governador de Minas com Aécio fora da disputa.
Em São Paulo, parece mais fácil a vitória tucana, seja com a reeleição de Serra ou a candidatura de Geraldo Alckmin.
Ciro Gomes, a melhor aposta do governo, não parece ter fôlego de vencedor para uma corrida desse tipo. Mas tem resistência e vontade suficientes para atacar seu inimigo escolhido, o governador Jos é Serra .Mas Lula não quer que Ciro ganhe.
Faz parte da sua estratégia tirar Ciro da corrida presidencial para evitar que sua presença impeça uma decisão plebiscitária entre a candidata de Lula e o candidato da oposição.
Para conseguir isso, teve que arranjar um brinquedo novo para Ciro, e trata agora de convencer o PT a deixar Ciro brincar em seu quintal.
Já o PT, abrindo espaço para as coalizões regionais com diversos partidos e deixando de disputar governos estaduais para não melindrar seus aliados, corre o risco de não fazer uma bancada forte no Congresso e perder os governos estaduais que tem.
Se a ministra Dilma Rousseff perder, não terá sido por culpa de Lula, mas, se ela for eleita, certamente deverá tudo a ele. Por isso, Lula é também o que está jogando mais solto, com autonomia para impor uma candidatura ao partido que deveria liderar esse processo, e determinar as regras do jogo para o seu lado do campo, sem se importar com os adversários.
Lula definiu desde o início que as chances de vitória de seu time teriam que estar baseadas única e exclusivamente no seu apoio, e não nas qualidades deste ou daquele candidato, não havendo espaço nesse tipo de jogo para um candidato de luz própria, que definisse posições e estratégias. Mesmo porque não havia esse produto na prateleira do PT.
Depois do operário, seria preciso encontrar algum representante de minorias para dar prosseguimento ao "governo popular", e a ministra Dilma Rousseff está candidata não por suas qualidades de gestora, mas por ser mulher.
Seu proverbial mau humor pode criar problemas mais adiante, se chegar a subir a rampa do Palácio do Planalto, mas durante a campanha sua candidatura será monitorada pelos mesmos que coordenaram a campanha vitoriosa de Lula — os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci — e os acordos políticos estão sendo costurados pelo próprio presidente.
A imensa popularidade do presidente é o ponto fora da curva dessa eleição.
Apesar da crise, Lula não se desgastou, e está conseguindo convencer a todos que, mesmo que o país tenha um pequeno crescimento negativo este ano, estamos melhores do que os outros, que terão quedas muito maiores.
Não é coerente com a tese que defendia até bem pouco, quando o governo dizia que o baixo crescimento brasileiro não poderia ser comparado com o de outros países, mas sim com a performance do próprio Brasil em anos anteriores.
Mas quem está buscando coerência nesses tempos? A oposição, que pensava que teria uma vida mansa na primeira disputa presidencial sem Lula na cédula, surpreendeu-se com a efetividade da sua estratégia, que está conseguindo colocar Lula num palanque sem que as restrições da legislação eleitoral o atinjam.
Lula faz campanha pelo país impunemente, e continuará fazendo. Ele já disse a interlocutores que o melhor está para vir: "Ainda não levantei o braço dela na frente do povo para dizer que ela é a minha candidata", comentou Lula recentemente.
Até o momento, ele está apenas esquentando os motores e já conseguiu fazer com que "a mulher do Lula" ganhasse exposição e reconhecimento.
A única surpresa foi a doença da ministra Dilma Rousseff, que colocou uma interrogação na sua capacidade de enfrentar uma campanha tão árdua.
Se confirmado o prognóstico de que está curada do câncer linfático, Lula tem grandes chances de coroar seu projeto político com a eleição da sucessora.
Se Dilma perder, foi uma boa tentativa.
Em ambos os casos, Lula sairá pelo mundo à frente de uma ONG fazendo campanha contra a fome.
Ele continuará sendo uma figura política importante no país, podendo se defender de eventuais acusações que sempre ocorrem em momentos de crise política.
Mas já tem a garantia, de antemão, de que não há inimigos do outro lado do campo, no máximo adversários muito bem comportados.
Mais até do que a máquina de moer reputações em que se transformou o petismo.
O recente episódio da crise no Senado, na qual o presidente Lula está jogando todo o seu prestígio na tentativa de garantir a sobrevivência de Sarney e, por tabela, a adesão do PMDB a seu projeto de poder, é mais um teste.
As próximas pesquisas de opinião mostrarão até que ponto a defesa intransigente de Sarney afeta a popularidade de Lula.
Mantidas as atuais condições, é uma jogada de alto risco a que Lula está montando, mas risco para o PT, não para ele mesmo.
E-mail para esta coluna: merval@oglobo.com.br
Dora Kramer O olho do juiz
Em meio aos fatos exuberantes sobre a crise do Senado e seus desdobramentos, agora já entrando em mares nunca dan tes navegados – como um governo chamar publicamente o líder do seu partido de mentiroso por meio de comunicação oficial do ministro das Relações, note-se, Insti tu cionais – a notícia mereceu es paço acanhado.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, cobra da Câmara uma investigação mais acurada sobre o esquema de desvio de passagens aéreas da cota oficial para a comercialização em agências de turismo.
O ministro não é muito explícito, mas fala claro o suficiente para ser entendido. Gilmar Mendes e outro ministro do STF, Eros Grau, usaram inadvertidamente passagens da Câmara. Só descobriram quando seus nomes apareceram no escândalo chamado farra das passagens.
Conseguiram provar que os bilhetes não tinham sido repassados "de favor" por ne nhum parlamentar. Mendes comprou o dele e da mulher Guiomar e Eros Grau teve o dele pago por uma universidade onde participou de um seminário.
A partir daí, ficou claro o desvio. A Câmara fez uma sindicância, o presidente da Casa anunciou abertura de 44 processos contra funcionários e divulgou a suspeita do envolvimento de cinco deputados. Dos 513 gabinetes de deputados, 39 foram investigados.
No relatório da Câmara enviado ao presidente do Tribunal a informação é que apenas funcionários, e não deputados, estão envolvidos. Pelo que se depreende da declaração do ministro Gilmar Mendes, os dados são genéricos e insatisfatórios. "O relatório informa que o desvio de passagens teria partido de servidores e que era uma prática mais ou menos consolidada e contínua. Há necessidade de esclarecimentos".
De fato. Nem é preciso ter o olho clínico de juiz para a ilicitude para perceber o imprescindível.
Se a prática é "consolidada e contínua" – quer dizer, sólida e ininterrupta – trata-se de um mal sistêmico, estrutural. Parece, em princípio, pouco que num universo de mais ou menos 15 mil funcionários e 513 deputados, apenas 44 servidores tenham envolvimento e cinco parlamentares sejam suspeitos de participar do esquema.
O presidente da Câmara não abriu o relatório para o público e, pelo que insinua o ministro Gilmar Mendes, a farra pode ter sido muito maior e mais grave que a até agora divulgada. A julgar pelo testemunho prestado por servidores na mesma sindicância sobre a existência de funcionários fantasmas e embolso, pelo parlamentar, de parte dos salários dos contratados nos gabinetes – notícia publicada também em espaço exíguo nesses dias de predominância absoluta do Senado – a Câmara anda a merecer atenção.
E, como sugere Gilmar Mendes, acurada investigação.
Nome do jogo
O presidente do PT, Ricardo Berzoini, acha que seus correligionários do Senado são néscios, não percebem que fazem "o jogo da oposição" ao pedir o afastamento do presidente do Senado, José Sarney.
Nessa matéria, os acontecimentos comprovam, o mais eficiente jogador da oposição foi sem dúvida alguma o presidente Lula. Jogou com eficácia ímpar ao defender Sarney usando frases e expressões com as quais nem em seus melhores sonhos o PSDB imaginou poder contar em 2010.
Morubixaba
De certa forma o senador Sarney tem razão de se surpreender com tantas críticas ao fato de ele interceder em favor da contratação do namorado na neta no Senado. Afinal, em matéria de interferência sua biografia tem episódios mais eloquentes.
Em abril, o jornal O Estado de S.Paulo publicou um deles. Revelou a carta que José Sarney mandou para o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Francisco Rezek, que atuou como advogado do ex-governador Jackson Lago, cassado por abuso de poder econômico pela Justiça e substituído por Ro seana Sarney.
A despeito da vitória, Sarney não se conformou com a independência de Rezek, contratado pelo adversário. Considerou os termos da defesa "um insulto", cobrando o fato de Rezek ter sido indicado ao Supremo em 1983, por influência dele junto ao governo militar, cujo partido de apoio (PDS) era presidido por Sarney.
Protocolo
Misturar política com questões de saúde é, como se sabe, de uma inadequação a toda prova. Tanto da parte de quem o faz para angariar simpatia, quanto dos que usam o momento de fragilidade para tirar algum proveito em relação ao adversário.
O presidente do Senado, José Sarney, tem perfeita noção disso. No entanto, no primeiro discurso de defesa na tribuna da Casa deu um jeito de se referir às dificuldades por que passava a filha Roseana na ocasião, operada de um aneurisma, e agora cita a operação da mulher, Marly, para suscitar piedade nos críticos dentro do Senado.
Não fica nada bem. Para dizer o mínimo.
O PAC, cada vez mais caro
Em atraso, quase metade dos projetos do programa, lançado em 2007, passou por revisão, que levou ao reajuste dos valores dos contratos. Em 55 dos 122 projetos da área de logística, energia, saneamento, urbanismo e transporte urbano o custo das obras aumentou, como mostrou reportagem de Renée Pereira publicada na edição de domingo do Estado. A repórter comparou os dados do último balanço do PAC, divulgado em abril de 2009, com os relatórios anteriores e verificou que, em alguns casos, o valor da obra foi reajustado em mais de 100%, como na construção do gasoduto Urucu-Coari-Manaus, da Petrobrás.
Problemas inesperados, como a descoberta de um sítio arqueológico, podem retardar ou encarecer uma obra. Mas quando existem projetos executivos de qualidade - com informações precisas sobre as condições do subsolo, as espécies vegetais e animais que precisam ser preservadas, detalhes da construção e a indicação das melhores técnicas que podem ser utilizadas para dar mais eficiência às obras - é muito pouco provável que o valor precise ser dobrado, disse o presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi.
A ocorrência de um número tão grande de reajustes de preços indica que ou não havia projetos executivos ou eles eram inadequados ou incompletos - de má qualidade, em resumo. No fundo, falta planejamento às obras do PAC. Como elas começam sem projetos adequados, durante sua execução se descobre que o volume de investimentos foi mal dimensionado, o que exige a revisão dos valores. E, sem um projeto consistente, fica fácil para a empresa contratada sobrevalorizar a obra.
No caso do gasoduto Urucu-Coari-Manaus, a justificativa da Petrobrás para que o valor da obra mais do que dobrasse foi a adoção de uma tecnologia inédita no Brasil de transporte de tubos. É um raro caso em que o avanço da tecnologia - no caso, o transporte dos dutos por aeronaves especiais - impõe imensos ônus ao contratante sem que se conheçam os benefícios que justifiquem o encarecimento da obra nessa proporção.
Outros projetos da Petrobrás incluídos no PAC tiveram reajustes elevados, fato que chamou a atenção do Tribunal de Contas da União (TCU), que investiga as obras da Refinaria Abreu Lima, no complexo de Suape (PE); o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) em Itaguaí (RJ), atualmente em fase de licitação das obras; e o investimento na plataforma P-53, no Campo de Marlim Leste (na Bacia de Campos).
No setor de logística, o maior reajuste foi registrado na construção da via de acesso perimetral da margem direita do Porto de Santos. O valor da obras foi corrigido em 94%. É um sinal de que o programa foi feito de afogadilho, disse ao jornal um empresário que não quis ser identificado.
A lentidão na execução dos projetos - outro dos defeitos do PAC, fruto do mau planejamento e de precária administração -, que retarda os benefícios das obras para a economia, resulta também em aumento de custos diretos. "Quanto mais demorado for o processo entre a licitação e a execução dos projetos, mais cara será a obra", disse o professor da Fundação Dom Cabral Paulo Resende. "O tempo vai passando e as propostas iniciais não se sustentam, especialmente num cenário de alta de preços." Novos casos surgirão, pois, como observou o diretor executivo da Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas, Carlos Eduardo Lima Jorge, para acelerar a liberação dos recursos do PAC, muitos contratos foram assinados sem os devidos cuidados, o que exigirá sua revisão.
Em geral, o PAC anda muito devagar e, quando avança, descobre-se que foi mal planejado. Em qualquer dos casos, fica mais caro para o País.
Vamos proclamar a República? Sandra Cavalcanti
O ESTADO DE S PAULOOs dias constrangedores que estamos vivendo mostram, de forma inequívoca, que muita gente no Brasil não tem a menor noção do que seja exercer uma atividade pública. A maioria dos representantes do povo, bem como esmagadora parte do próprio povo, todos demonstram, seguidamente, que não sabem fazer a correta distinção entre o que é publico e o que é particular. O comportamento da maioria dos cidadãos e dos governantes revela esta realidade: os conceitos de bem público e bem privado aparecem sempre muito misturados, de forma confusa e até ardilosa, sufocados pelos interesses particulares de pessoas, famílias, corporações, sindicatos, ONGs suspeitas e seitas pseudorreligiosas.
Os resultados dessa criminosa contaminação são aterradores: populismo, demagogia, uso perverso dos meios de comunicação, acirramento dos ressentimentos entre categorias sociais, total falta de transparência no gerenciamento dos tributos arrecadados, nepotismo, enriquecimentos inexplicáveis. Ou seja, o apodrecimento dos valores morais.
É chocante o que vem sendo trazido à tona nestes últimos tempos, mesmo com a desculpa de que em épocas anteriores também era habitual a pilhagem do bem comum. Sabemos disso. Mas havia reação. Havia quem se escandalizasse, quem reagisse. Havia quem se envergonhasse... Hoje, não. A impunidade vira regra geral e o povo não tem mais a quem recorrer diante da violência crescente. Parece que todo o talento de nossa gente mostra sua fantástica criatividade na invenção de novas modalidades de golpes.
Pior do que isso é ter de aturar, na mídia, as declarações e explicações de nossos caciques, pedindo respeito a pessoas incomuns. E exigindo atenção à sua biografia. Ou alegando valores republicanos!
Francamente! República não é nada disso. Essa palavra veio do latim res publica. República cuida da coisa pública. Seu objetivo principal é o bem comum. Ser republicano é dar primazia ao bem comum. Isso significa que cabe ao político cuidar do bem comum. E que essa atividade política se desenvolve na área da justiça e se vincula integralmente à ética. Sem ética não há política nem políticos. Sem justiça não há política nem políticos.
Vale a pergunta: de que cuidam os políticos em nosso país, nestes tempos negros? Só pensam em chegar ao poder. Ficar no poder. Usufruir o poder. Gozar o poder. Aproveitar o poder. Tirar vantagens do poder.
Acontece que o poder existe para que alguém exerça a tarefa de governar. É isso que os brasileiros devem exigir de quem chega ao poder. Que cuide só de governar. Governar, em seu significado republicano, significa zelar pelo bem comum, gerenciar com honestidade os recursos públicos, prestar contas de todos os atos e respeitar as leis. Leis votadas para serem cumpridas por todos, governantes e governados.
Tudo o que estamos vendo é exatamente o contrário. Os encarregados de zelar pelo bem comum só cuidam de interesses particulares, partidários, ideológicos, sindicais, corporativos, familiares, etc., ignorando todos os objetivos do bem comum e dele se apropriando sem nenhum sinal de vergonha ou constrangimento.
Daí a estranheza que nos aflige. Se todos estão vendo tudo isso, onde está a indignação de nossa gente? A indignação só se volta contra alguns do Senado. E os outros Poderes, em Brasília e no resto do Brasil?
Encarapitados no planalto goiano, os governantes vivem fora da vigilância próxima da população brasileira. Sabemos que ali é quase milagre escapar da contaminação. Pode ser presidente, deputado, senador, enfim, o que for, todos se movimentam num ambiente à parte do País, mergulhados nas vantagens e benesses que marcaram a implantação de Brasília e ainda imprimem o ritmo de seu funcionamento. Lá tudo é coisa pública pronta para virar coisa privada! Emprego, carro, combustível, verbas indenizatórias, gabinetes, luz, telefones, passagens, parentes, amigos, presentes, as famosas bases, obscuros artigos das medidas provisórias, misteriosas emendas orçamentárias, verbas com endereço certo, concorrências de fachada, licitações com cartas marcadas, recibos técnicos, notas frias - enfim, um labirinto burocrático infernal, onde o bem comum jamais é levado em conta.
Qual a solução? Trazer a capital de volta para o Rio? Levar para São Paulo ou Belo Horizonte? Não dá mais. Agora é tarde. Existe alguma? Claro que sim. Mas para isso, para que o elefante acorde e reaja é preciso que apareçam lideranças. Lideranças de verdade. Não há de ser com os caras-pintadas de ontem comandando a UNE subordinada de hoje, certo? Qual o caminho, então?
Mudar nosso sistema de representação democrática. Acabar com a passividade do eleitor. Dar-lhe voz ativa. Dar-lhe o direito de eleger e o poder para deseleger. Dar-lhe meios para vigiar, nos partidos, a indicação de nomes sérios. Dar-lhe meios para dizer sim e não.
Só com uma profunda e revolucionária alteração no processo de participação do eleitor, no comando Legislativo do País, pode-se pensar em mudar este quadro. Sem isso, nada feito. Pelo sistema de hoje, nosso voto não passa de um simples voto de boas-festas, de parabéns, de pêsames ou de louvor. Os partidos atuais não vivem pela força de seus filiados atuantes. Sobrevivem por causa de alianças passivas com o poder. Essa mudança tem de ser feita. Quem fará? O Congresso? O Executivo? O Judiciário? Quem, afinal?
Nós! Nós, os republicanos indignados, explorados. Depende só de nós. O mundo mudou muito, mas a internet mudou o mundo. Essa é a revolução. A turma do Poder já percebeu e está-se mexendo. E nós? Nossa praça virtual vai ser ouvida. Só depende de nós. Quantos somos? Onde estamos? Qual o nosso alvo? Vamos proclamar a República?
Sandra Cavalcanti, professora, jornalista, foi deputada federal constituinte, secretária de Serviços Sociais no governo Carlos Lacerda, fundou e presidiu o BNH no governo Castelo Branco
E-mail: sandra_c@ig.com.br
O ESTADO DE S PAULOOs dias constrangedores que estamos vivendo mostram, de forma inequívoca, que muita gente no Brasil não tem a menor noção do que seja exercer uma atividade pública. A maioria dos representantes do povo, bem como esmagadora parte do próprio povo, todos demonstram, seguidamente, que não sabem fazer a correta distinção entre o que é publico e o que é particular. O comportamento da maioria dos cidadãos e dos governantes revela esta realidade: os conceitos de bem público e bem privado aparecem sempre muito misturados, de forma confusa e até ardilosa, sufocados pelos interesses particulares de pessoas, famílias, corporações, sindicatos, ONGs suspeitas e seitas pseudorreligiosas.
Os resultados dessa criminosa contaminação são aterradores: populismo, demagogia, uso perverso dos meios de comunicação, acirramento dos ressentimentos entre categorias sociais, total falta de transparência no gerenciamento dos tributos arrecadados, nepotismo, enriquecimentos inexplicáveis. Ou seja, o apodrecimento dos valores morais.
É chocante o que vem sendo trazido à tona nestes últimos tempos, mesmo com a desculpa de que em épocas anteriores também era habitual a pilhagem do bem comum. Sabemos disso. Mas havia reação. Havia quem se escandalizasse, quem reagisse. Havia quem se envergonhasse... Hoje, não. A impunidade vira regra geral e o povo não tem mais a quem recorrer diante da violência crescente. Parece que todo o talento de nossa gente mostra sua fantástica criatividade na invenção de novas modalidades de golpes.
Pior do que isso é ter de aturar, na mídia, as declarações e explicações de nossos caciques, pedindo respeito a pessoas incomuns. E exigindo atenção à sua biografia. Ou alegando valores republicanos!
Francamente! República não é nada disso. Essa palavra veio do latim res publica. República cuida da coisa pública. Seu objetivo principal é o bem comum. Ser republicano é dar primazia ao bem comum. Isso significa que cabe ao político cuidar do bem comum. E que essa atividade política se desenvolve na área da justiça e se vincula integralmente à ética. Sem ética não há política nem políticos. Sem justiça não há política nem políticos.
Vale a pergunta: de que cuidam os políticos em nosso país, nestes tempos negros? Só pensam em chegar ao poder. Ficar no poder. Usufruir o poder. Gozar o poder. Aproveitar o poder. Tirar vantagens do poder.
Acontece que o poder existe para que alguém exerça a tarefa de governar. É isso que os brasileiros devem exigir de quem chega ao poder. Que cuide só de governar. Governar, em seu significado republicano, significa zelar pelo bem comum, gerenciar com honestidade os recursos públicos, prestar contas de todos os atos e respeitar as leis. Leis votadas para serem cumpridas por todos, governantes e governados.
Tudo o que estamos vendo é exatamente o contrário. Os encarregados de zelar pelo bem comum só cuidam de interesses particulares, partidários, ideológicos, sindicais, corporativos, familiares, etc., ignorando todos os objetivos do bem comum e dele se apropriando sem nenhum sinal de vergonha ou constrangimento.
Daí a estranheza que nos aflige. Se todos estão vendo tudo isso, onde está a indignação de nossa gente? A indignação só se volta contra alguns do Senado. E os outros Poderes, em Brasília e no resto do Brasil?
Encarapitados no planalto goiano, os governantes vivem fora da vigilância próxima da população brasileira. Sabemos que ali é quase milagre escapar da contaminação. Pode ser presidente, deputado, senador, enfim, o que for, todos se movimentam num ambiente à parte do País, mergulhados nas vantagens e benesses que marcaram a implantação de Brasília e ainda imprimem o ritmo de seu funcionamento. Lá tudo é coisa pública pronta para virar coisa privada! Emprego, carro, combustível, verbas indenizatórias, gabinetes, luz, telefones, passagens, parentes, amigos, presentes, as famosas bases, obscuros artigos das medidas provisórias, misteriosas emendas orçamentárias, verbas com endereço certo, concorrências de fachada, licitações com cartas marcadas, recibos técnicos, notas frias - enfim, um labirinto burocrático infernal, onde o bem comum jamais é levado em conta.
Qual a solução? Trazer a capital de volta para o Rio? Levar para São Paulo ou Belo Horizonte? Não dá mais. Agora é tarde. Existe alguma? Claro que sim. Mas para isso, para que o elefante acorde e reaja é preciso que apareçam lideranças. Lideranças de verdade. Não há de ser com os caras-pintadas de ontem comandando a UNE subordinada de hoje, certo? Qual o caminho, então?
Mudar nosso sistema de representação democrática. Acabar com a passividade do eleitor. Dar-lhe voz ativa. Dar-lhe o direito de eleger e o poder para deseleger. Dar-lhe meios para vigiar, nos partidos, a indicação de nomes sérios. Dar-lhe meios para dizer sim e não.
Só com uma profunda e revolucionária alteração no processo de participação do eleitor, no comando Legislativo do País, pode-se pensar em mudar este quadro. Sem isso, nada feito. Pelo sistema de hoje, nosso voto não passa de um simples voto de boas-festas, de parabéns, de pêsames ou de louvor. Os partidos atuais não vivem pela força de seus filiados atuantes. Sobrevivem por causa de alianças passivas com o poder. Essa mudança tem de ser feita. Quem fará? O Congresso? O Executivo? O Judiciário? Quem, afinal?
Nós! Nós, os republicanos indignados, explorados. Depende só de nós. O mundo mudou muito, mas a internet mudou o mundo. Essa é a revolução. A turma do Poder já percebeu e está-se mexendo. E nós? Nossa praça virtual vai ser ouvida. Só depende de nós. Quantos somos? Onde estamos? Qual o nosso alvo? Vamos proclamar a República?
Sandra Cavalcanti, professora, jornalista, foi deputada federal constituinte, secretária de Serviços Sociais no governo Carlos Lacerda, fundou e presidiu o BNH no governo Castelo Branco
E-mail: sandra_c@ig.com.br
Terça-feira, Julho 28, 2009
Celso Ming -Os bancos reagem à caderneta
| O Estado de S. Paulo - 28/07/2009 |
Depois da desastrada decisão de mudar as regras da caderneta de poupança, anunciada dia 13 de maio, o governo Lula engavetou a proposta, aparentemente à espera do que ocorreria. Mas essa pausa está obrigando os bancos a se mexerem. Quem está chegando de Marte agora precisa afinal entender o que está em jogo. Desde o dia 22 de janeiro, quando o Banco Central iniciou o atual processo de afrouxamento dos juros, os bancos passaram a pressionar o governo para reduzir o rendimento da caderneta para que os fundos de renda fixa não perdessem competitividade no mercado. Esse desinteresse aconteceria necessariamente porque a caderneta paga rendimento baseado na evolução da TR mais juros mensais de 0,5%. E fica nisso. O aplicador não é garfado nem com taxa de administração nem com o Imposto de Renda. Enquanto isso, os fundos de renda fixa em geral pagam rendimento muito próximo dos juros básicos (Selic), mas sobre esse rendimento incide um Imposto de Renda de 22,5% a 15,0% (dependendo do tempo da aplicação) e a taxa de administração, a tarifa que cada banco cobra de acordo com sua política. Por temer uma revoada de aplicações dos fundos para as cadernetas, o ministro Guido Mantega anunciou a instituição de um Imposto de Renda sobre o rendimento da caderneta, de cálculo confuso, que varia de aplicador para aplicador. Também prometeu unificar o Imposto de Renda das aplicações em renda fixa em 15,0%. Até agora, nada aconteceu. Dadas as resistências na oposição às mudanças divulgadas, o governo decidiu esperar o momento politicamente mais favorável para enviar ao Congresso o projeto de lei das alterações. De janeiro para cá, os juros básicos completaram um corte acumulado de 5 pontos porcentuais ao ano, o saldo das aplicações em cadernetas está crescendo, mas não se viu ainda a tão esperada debandada das aplicações para as cadernetas. Até o dia 21 de julho, as aplicações dos fundos de renda fixa (Referenciado DI mais Renda Fixa) caíram apenas R$ 3,5 bilhões ou 0,7% num patrimônio inicial de R$ 534,7 bilhões. Enquanto isso, os saldos em cadernetas cresceram R$ 5,7 bilhões, ou 2,0% sobre um saldo inicial de R$ 282,2 bilhões. No entanto, as principais mudanças no mercado estão longe de serem estas. O que de mais importante aconteceu foi que, pressionados pela perda de competitividade dos fundos de renda fixa perante as cadernetas, os bancos começaram a reduzir as taxas de administração. Pelo levantamento da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), na média as tarifas de administração dos fundos referenciados à DI caíram de 1,52% para 1,49% ao ano, enquanto nos fundos de renda fixa caíram de 1,16% ao ano para 1,13% (veja o gráfico). Além disso, os principais bancos vêm reduzindo a exigência de desembolso mínimo por aplicação. Em outras palavras, com o adiamento da aprovação da mudança de regras, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, está conseguindo introduzir na administração dos fundos de renda fixa um elemento incitador da competição entre os bancos, justamente o que não conseguiu até agora nos juros cobrados na ponta do crédito. Confira De bom tamanho - Em seis meses, o Brasil recebeu US$ 12,6 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto, 24,1% a menos do que no primeiro semestre de 2008. Mas nas circunstâncias (crise global e queda do crédito) foi excelente resultad |
Clipping de 28/07/2009
Míriam Leitão Preço da concessão
O maior problema do acordo com o Paraguai não é a concessão em si ao país vizinho, que pode e merece ter o apoio brasileiro para o seu desenvolvimento.
Há dificuldades técnicas concretas: hoje as distribuidoras do Sudeste são obrigadas a comprar de Itaipu. Deixarão de ser? Há também uma questão política: a concessão brasileira não encerrará a pressão paraguaia.
O governo brasileiro diz que o aumento de 213% no preço pago pelo Brasil na cessão de energia não será repassado aos consumidores do país. Ora, é preciso desconhecer o básico em economia para achar que existe um preço que ninguém paga.
Se o Paraguai vai receber mais de US$ 200 milhões a mais por ano, o dinheiro sairá de algum lugar. Se não for da tarifa, sairá do Tesouro. E o Tesouro somos todos nós contribuintes. Portanto, será pago pelos brasileiros.
É bom lembrar que a cessão de energia é apenas uma parte do que se paga ao Paraguai. A Eletrobrás paga o preço de US$ 42,5 por megawatt/hora, mas sobre isso há também royalties, encargos de administração e supervisão. A cláusula de cessão de energia é um outro acréscimo que está no anexo C do acordo.
A lei que obriga as distribuidoras brasileiras a comprar a energia gerada por Itaipu é de 1973. Fica uma dúvida: se o Paraguai pode vender parcelas crescentes de energia no mercado livre, como fica a obrigatoriedade das distribuidoras? Há outra dúvida já resolvida.
O Brasil aceitou que o Paraguai possa usar, ao vender no mercado livre, a mesma estrada que se usa atualmente: o sistema integrado de Furnas. O problema é que no mercado livre não há preço mínimo, a energia tem que ser contratada, o preço oscila, e tanto sobe quanto desce.
O próprio fato de entrar mais energia no mercado livre pode derrubar o preço.
Está entrando aí Jirau, que apostou no mercado livre para oferecer preço mais baixo na licitação. E a recessão está reduzindo o consumo. Como o Paraguai depende dessa receita para cobrir boa parte do orçamento público, é bom que isso fique muito claro, antes que haja problemas.
O Brasil também concordou que Itaipu construa para o Paraguai, com empréstimo do BNDES, a linha de transmissão de Ciudad del Este a Assunção, de 500 kv.
O Paraguai terá 13 anos para pagar. A obra é necessária e justa. Afinal, o país que tem essa quantidade de energia tem também um suprimento deficiente que provoca apagões diários no verão, e não tem insumo para atrair investimentos.
Esta é a melhor parte do projeto do governo brasileiro para a negociação. Não era justo nem sustentável essa situação. Porém, não pode ser visto pelo Paraguai como compensação por uma suposta "usurpação" brasileira. Tem que ficar claro que é uma ação de boa vontade porque interessa a todos o desenvolvimento paraguaio.
O governo Lula negocia de forma errada com os países menores da região. Parece ter uma culpa original, como se tivesse vergonha de ser grande, ou acreditasse no discurso de ocasião de que somos imperialistas. O Brasil não é. Em todo esse processo, desde a negociação do acordo, a construção da usina, a operação de forma compartilhada do empreendimento, em todos os detalhes, o Brasil não se comporta como uma potência colonialista. Pelo contrário.
O Paraguai de vez em quando ameaça ir a cortes internacionais discutir o tratado. Ora, que vá. O Brasil deveria querer que não pairem dúvidas sobre a legitimidade do acordo, porque como ficará claro que o tratado é juridicamente perfeito, o país poderá fazer suas propostas em bases mais maduras.
O presidente Lugo tem problemas. Falarei dos problemas políticos. Sua base política é pulverizada em vários pequenos partidos, de diversas tendências, algumas bem radicais. Ele precisa, para manter um mínimo de governabilidade, do apoio do adversário Lino Oviedo. O general que já tentou um golpe no passado, já morou no Brasil, e voltou para fazer política legalmente no país, virou o pêndulo. Ele aceita dar apoio ao governo — mas não quer cargos — mas estuda caso a caso esse respaldo.
Lugo tem feito um governo considerado pelos analistas como "medíocre", não tem quadros de competência comprovada, e a máquina continua dominada pelo vetusto Partido Colorado, que está no poder desde os tempos da ditadura de Stroessner.
Lugo precisa apresentar o acordo assinado neste fim de semana como uma redenção nacional, como uma prova de ele venceu o gigante, como nunca antes na história desse Paraguai. Desta forma ele se fortalece, mas ao mesmo tempo fortalece a ideia de que o Brasil é devedor de compensações ao país. Logo, os paraguaios concluirão que isso não basta, que outras exigências podem ser feitas.
Querer o desenvolvimento do Paraguai, todos querem.
Mas não temos compensações a fazer. O Brasil ao decidir pela construção de Itaipu naquele ponto, e não em outra parte do rio, ganhou um pouco mais de potência, mas também criou para o Paraguai um ativo que ele não tinha ainda. O Brasil emprestou o dinheiro para o Paraguai integralizar a parte dele; pegou empréstimos internacionais; deu o aval do Tesouro; construiu a usina; e divide a administração da empresa de forma paritária. Não tem do que se envergonhar.
Com Alvaro Grib
Yoshiaki Nakano A vez dos países emergentes
O cenário que começa a emergir da crise financeira global é de uma recuperação lenta e hesitante nos Estados Unidos, Europa e Japão, com desemprego elevado por muitos anos e forte elevação das suas dívidas públicas. O comércio mundial deverá permanecer por longo período deprimido devido, principalmente, ao fim do consumismo americano, com as famílias já elevando a taxa de poupança em sete pontos percentuais em relação ao PIB, queda muito forte em bens dependentes de crédito e muitos países privilegiando os empregos e mercados domésticos. Por outro lado, os países emergentes estão apresentando recuperação mais rápida e países como a China estão retomando crescimento em níveis surpreendentes. Este quadro já refletiu na expectativa dos investidores que, em busca de elevados retornos, direcionam seus recursos para países emergentes e para as commodities que vêm também apresentando recuperação surpreendente. Como ficará o Brasil neste quadro?
A recessão nos Estados Unidos, Europa e Japão deverá ser mais profunda e durar mais do que as experiências cíclicas anteriores do período pós-guerra, afinal, foi o colapso do sistema financeiro que causou a contração da economia real, e não o contrário. A recuperação deverá ocorrer somente a partir de meados de 2010, com crescimento muito lento e hesitante posteriormente. Imensos desequilíbrios terão que ser removidos para a economia voltar a funcionar normalmente. Muitos destes estarão operando para reduzir a taxa de crescimento destes países pelo menos no médio prazo, tais como redução no endividamento, desalavancagem e aumento da taxa de poupança do setor privado e política fiscal restritiva, necessária depois dos imensos déficits fiscais em 2009 e 2010.
As economias emergentes importaram a crise. O seu sistema financeiro não entrou em colapso e foi a queda nas suas exportações, devido à queda na demanda nos países desenvolvidos, que provocou a desaceleração das suas economias. A China, por exemplo, está apresentando uma recuperação surpreendente em forma de V, ainda que ninguém espere que volte a crescer a taxas pré-crise. Os países emergentes, ao acumularem reservas, tornaram-se, em maior ou menor grau, menos dependentes do financiamento externo. E, principalmente países com grande população, como a China, Índia e o Brasil, cada um de forma específica, estão explorando o mercado doméstico para promover a recuperação.
Em princípio, o alto potencial de crescimento dos países emergentes não foi afetado pela crise financeira global. Este potencial vem do processo de "catching-up", importando bens de capital e tecnologia para construir uma estrutura produtiva moderna, competitiva e realocando trabalhadores para empregos mais produtivos e melhor remunerados. Isso vem gerando grandes e contínuos ganhos de produtividade e um mercado doméstico dinâmico. A queda drástica no crédito externo e fluxo de capitais não afetará o seu crescimento potencial, pois estes países de alto crescimento com política cambial agressiva manterão superávit em transações correntes, o que no passado lhes permitiu acumular reservas cambiais gigantescas, constituindo seguro contra a própria crise.
Duas consequências importantes decorrem deste quadro: a manutenção de elevadas taxas de retorno nos investimentos nos emergentes e rápido crescimento da demanda de commodities. Ao atrair investidores em busca de alto retorno, disputará recursos financeiros com países mais ricos e deficitários e, certamente, provocará elevação na taxa real de juros de longo prazo. Como os países emergentes já haviam se tornado os maiores consumidores de commodities, respondendo com quase 60% do consumo global de petróleo e quase 70% do consumo de metais e alimentos, deverão manter em rápido crescimento a sua demanda. Assim, além do menor fluxo de capitais, o cenário será de taxa real de juros mais elevadas e preços de commodities também elevados.
A questão central é: como o Brasil deve se posicionar neste cenário? Que ajustes na política macroeconômica devemos adotar para garantir um crescimento sustentado e estável? Tomemos a China como referência: os chineses já se posicionaram mantendo a sua taxa de câmbio fixa ao dólar, ganhando competitividade global adicional com a depreciação do dólar e, com isso, estão substituindo importações. Além disso, estão implementando um vigoroso programa fiscal anticíclico, deslocando gradualmente o dinamismo para o mercado doméstico. Como há folga fiscal, não estão comprometendo o futuro. Utilizando parte de seus US$ 2 trilhões de reservas para comprar empresas no exterior, vão continuar ampliando sua participação no comércio mundial. A característica de sua política é que a taxa real de câmbio estável e competitiva é utilizada como instrumento estratégico de longo prazo para manter elevada a sua taxa de poupança, mantendo a sua independência em relação aos recursos financeiros externos. As políticas monetária e fiscal são anticíclicas e utilizadas como instrumentos de curto prazo para garantirem a estabilidade da economia.
O cenário é favorável para o Brasil. Temos um grande potencial de crescimento do mercado doméstico, somos grande exportadores de commodities e temos uma complexa estrutura industrial já montada no país. Mas o período de bonança externa acabou com crise e deverá prevalecer o novo cenário descrito acima. O Brasil vem ampliando a participação de commodities nas suas exportações e, com regime de câmbio flutuante, o real está cada vez mais atrelado ao preço das commodities, tornado-se uma moeda com comportamento anticíclico. A crise financeira e a retirada da pauta da inflação nos trouxe uma grande oportunidade para flexibilizar a política monetária e para levarmos o patamar de juros próximo ao nível internacional. Neste caso, ainda que com flutuações cíclicas, a taxa de câmbio no longo prazo poderia equilibrar o setor externo. Infelizmente, o Copom acaba de anunciar que não é para onde vamos caminhar.
Em plena recessão e sem nenhum risco inflacionário no horizonte, o Banco Central está cedendo às pressões do mercado financeiro, anunciando que 8,75% é uma taxa adequada às circunstâncias atuais. Com isso continuamos com a taxa real de juros num patamar dos mais altos do mundo, permitindo a apreciação da taxa de câmbio, tornando esta pró-cíclica, e tornando a indústria manufatureira vulnerável não só a flutuações imprevisíveis da taxa de câmbio, mas também a acirrada competição estrangeira. No curto prazo, a demanda dos emergentes por commodities pode dar fôlego à recuperação, mas no longo prazo vamos comprometer o "catching-up", pois este envolve aprendizagem tecnológica e diversificação da indústria, possível com exportação de manufaturados. Com apreciação cambial, voltaremos também a ter crises de balanço de pagamentos. Em relação ao nosso eterno problema fiscal, estamos longe de ter equilíbrio de longo prazo para ajudar a alcançar o equilíbrio externo e podermos atuar no curto prazo de forma anticíclica.
Dora Kramer Caminhando contra o vento
Cristovam Buarque, Vitor Buaiz e Luiza Erundina, respectivamente governadores do Distrito Federal, Espírito Santo e prefeita de São Paulo, cada um a seu modo, época e circunstâncias sentiram na pele, na carne e nos ossos a dureza de governar quando o PT era um partido tão oposicionista que fazia oposição aos governantes que ele mesmo elegia.
Chegou a virar folclore o pendor petista à autocombustão. Certamente não por acaso, nenhum dos três citados - entre vários casos semelhantes - está hoje no PT.
Sem entrar no mérito dos equívocos de parte a parte, o registro serve apenas para lembrar como o PT mudou de lá para cá. Aprendeu a ser realista, pôs os pés no chão, conquistou a Presidência da República, deixou de ser rebelde diletante e, desde então, ganhou muitas eleições, poder, projeção, dinheiro, influência.
Em compensação, foi ao outro extremo e agora se expõe ao risco de perder a identidade por excesso de obediência ao comando do presidente Luiz Inácio da Silva de quem o partido é dependente, mas para quem o PT hoje é (ou talvez tenha sido sempre) só um meio para chegar a um fim.
Partidos que estão no governo, reza a norma, em geral pagam o preço da subserviência pragmática. São os primeiros a ceder espaço aos aliados, a abrir mão da própria opinião, a fazer qualquer negócio em nome da chamada governabilidade. Tendo a Presidência da República, qualquer sacrifício é válido.
Aconteceu com o PSDB no período Fernando Henrique Cardoso. Ficou em segundo plano, enquanto todas as gentilezas eram feitas para os parceiros PFL e PMDB. Ao fim, o que era na concepção original um "partido de quadros" bem formado acabou descaracterizado como tal.
O PT estaria no mesmo caminho se já não tivesse ido além e não estivesse indo cada vez mais fundo. A aura da combatividade e da defesa da boa ética o partido perdeu há algum tempo e parece não apenas conformado, mas bastante satisfeito com sua condição de legenda igual às outras.
Daqui em diante o que ocorre com o PT e que até então não se viu acontecer com partidos que estiveram no poder é a perda gradativa dos brios. O exemplo mais recente é o episódio José Sarney.
Depois de desautorizar a bancada do partido no Senado, o presidente simplesmente destituiu o senador Aloizio Mercadante da liderança ao duvidar publicamente de que a nota pedindo o afastamento de Sarney representasse a posição dos senadores petistas. Vale-se da impossibilidade de Mercadante reagir.
O que era uma agremiação viva, com energia partidária sempre em movimento, no momento é um partido com dono, em pânico ante a possibilidade de sair do poder e disposto a se submeter qualquer humilhação para tentar não retornar à planície.
É o único projeto em debate no PT. Não se ouve a defesa de uma só ideia que não seja a aceitação dos ditames do Palácio do Planalto. Quem resumiu a situação - aparentemente em tom acrítico - foi a ex-prefeita Marta Suplicy, no encontro do diretório paulista, que aprovou a abertura oficial de conversações para apoiar uma possível candidatura de Ciro Gomes ao governo de São Paulo.
Definindo-se como "soldado de um exército que tem general", Marta afirmou que quem "assinala a estratégia" do partido é Lula. A partir de qual premissa? A do que seja supostamente mais adequado ao êxito da candidatura Dilma Rousseff à Presidência da República.
Se a aliança sair, será a primeira vez que o PT deixará de disputar o governo de São Paulo, sua base e até outro dia mais forte reduto com excesso e não carência de candidatos. Todos dizimados por escândalos, mortos em combates nem sempre altivos na defesa do poder.
Valeu a pena?
É a conta que muita gente no partido faz hoje em dia. Aceita-se o pressuposto de que a retirada de Ciro da disputa nacional possa aumentar o patrimônio de Dilma assim como Lula parte do princípio de que possa repetir com ela o que Paulo Maluf fez com Celso Pitta em São Paulo, simplesmente transferir votos. E o desempenho propriamente dito da candidata, sua empatia, ou não com eleitorado, não vale nada? Ao fim e ao cabo, é só o que vale numa eleição presidencial.
Se não der certo, se Dilma perder, se o PT aceitar entregar os melhores palanques de governos estaduais para o PMDB, o que será do partido na oposição, mesmo na hipótese de eleger grandes bancadas na Câmara e no Senado?
Terá poder para fustigar o governo federal, terá instrumentos de pressão para, ao molde atual do PMDB, continuar incrustado na máquina pública, mas não terá discurso, lideranças nem marca para fazer a política do partido.
Terá, sim, Lula a reinar como a grande figura da oposição, cujo governo será o tempo todo defendido. Em que termos as críticas serão feitas é um m