Entrevista:O Estado inteligente

sábado, outubro 03, 2009

Merval Pereira O fim do "complexo de vira-latas"

O GLOBO

A vitória do Rio de Janeiro na disputa pela sede das Olimpíadas de 2016 é um retrato da evolução da situação econômica do país. Em 1992, Brasília se candidatou aos jogos de 2000, e, em 1995, o Rio se candidatou pela primeira vez, às Olimpíadas de 2004. Em 2004, a cidade carioca perdeu mais uma vez na tentativa de sediar o evento em 2012. Em nenhuma das ocasiões anteriores havia condições mínimas para que os Jogos Olímpicos fossem realizados no país, que, além de um presente conturbado, não tinha uma perspectiva de futuro que permitisse um planejamento razoável de projeto tão grandioso.

Mas, entre a primeira tentativa e a vitória de ontem, o país evoluiu em aspectos fundamentais, a partir do Plano Real, lançado no governo Itamar Franco — depois de termos perdido a primeira disputa pelas Olimpíadas —, controlando a praga da inflação e instituindo instrumentos de política econômica que se transformaram em políticas de Estado, como o equilíbrio das contas públicas, o controle da inflação e o câmbio flutuante.

O país que, como ressaltou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pode vir a ser a quinta economia do mundo em 2016, tem hoje condições de fazer planos de longo prazo, como organizar uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada.

Ao mesmo tempo, nada mais exemplar das voltas que o mundo dá do que a derrota de Chicago logo no primeiro turno, e a vitória do Rio por mais do dobro de votos que a segunda colocada, Madri.

A presença de Barack Obama em Copenhague, contrariando as previsões e nossos temores, não teve a menor importância na decisão dos delegados do Comitê Olímpico Internacional, o que poderia indicar que também a presença de Lula não fez diferença.

Mas o fato é que hoje, assim como o Brasil é muito diferente daquele que perdeu a indicação em 2004, quando ele já estava na Presidência, Lula tornou-se um dos líderes mais importantes do atual cenário mundial.

E assim como Obama representa a nova ordem mundial multipolar, Lula representa a emergência dos países do terceiro mundo nas decisões globais. Os dois estavam em seus papéis, Obama no de líder do país mais influente do mundo que está abrindo mão de sua hegemonia, e Lula no de líder do país que quer ter sua importância reconhecida no mundo.

A escolha de Atlanta como sede da Olimpíada de 1996, derrotando Atenas, é exemplar de como a hegemonia americana se impunha.

O simbolismo de que naquela ocasião se celebraria o centenário das Olimpíadas, cujo início é marcado pelos Jogos em Atenas em 6 de abril de 1896, foi menos importante para o Comitê Olímpico Internacional do que a pressão do governo dos Estados Unidos e o fato de que em Atlanta estava a sede da Coca-Cola e da rede mundial de televisão CNN.

Hoje, foi mais importante levar as Olimpíadas para a América do Sul, e para o país da América do Sul que faz parte do seleto grupo que compõe o G-20, a nova instância de resolução das questões econômicas mundiais.

Embora a Argentina também esteja no G-20, está lá mais pela importância que já teve, enquanto o Brasil representa o futuro da região. Na verdade, a tendência do G-20 é tornar-se, pelo menos na prática, em G-14, com alguns países ficando de fora gradualmente, entre eles a Argentina.

Foi a primeira vez que o Rio de Janeiro entrou na final da disputa, e esse já era um sinal de que o papel do país se consolidara como representante do poder emergente no novo desenho geopolítico saído da crise internacional.

O presidente Lula demonstrou um ressentimento incompreensível em meio a um pronunciamento emocionado e muito bonito: “Os mesmos que não acreditavam que eu pudesse governar o país terão uma surpresa com nossa capacidade de organizar as Olimpíadas”.
Ele, que falou tanto da generosidade do povo brasileiro, poderia ter um sentimento mais generoso na hora de comemorar suas vitórias.

Teve, no entanto, sagacidade política ao recusar a ideia de que derrotara Obama, embora a tentação seja inevitável.

Não citou literalmente, mas abordou o resgate do nosso eterno “complexo de vira-latas” diagnosticado pelo dramaturgo, especialista em brasilidade, Nelson Rodrigues, ao dizer que o país, finalmente, deixava de ser visto como de segunda classe.

O mesmo sentimento tomou conta do economista André Urani, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), um apaixonado pelo Rio de Janeiro e estudioso de seus problemas e, sobretudo, das soluções possíveis.

A primeira reação dele foi dizer que vencer uma disputa com Madri, Tóquio e Chicago e derrotar ao mesmo tempo Obama e o rei Juan Carlos dava uma boa massageada no ego dos cariocas e recuperava a auto-estima.

Assim como Lula, ele também citou os revezes que o Rio sofreu nos últimos 50 anos, com a perda da capital e a fusão da Guanabara com o Estado do Rio.

Na avaliação de Urani, as coisas têm melhorado no Rio com a parceria entre as três esferas de governo — federal, estadual e municipal —, além da parceria com a sociedade civil e a iniciativa privada, que participaram do projeto das Olimpíadas 2016.

Ele espera que a cidade, a partir do planejamento da organização da Olimpíada, possa sair da decadência atual para entrar no século XXI.

Para isso, ele acha que o projeto oficial tem que receber algumas alterações, e o preocupa especialmente o fato de a Barra ser considerada o coração do projeto.

Pegando o exemplo de Barcelona em 1992 e o de Londres para 2012, André Urani diz que as áreas degradadas da cidade, como o Centro, os subúrbios e a área portuária deveriam ser prioritárias.

O projeto do Rio deveria também incluir metas sociais, como acabar com a pobreza até 2016, o que teria um papel importante na redução da violência.

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