Entrevista:O Estado inteligente

sábado, julho 18, 2009

Música O Sistema: a orquestra jovem da Venezuela

Música

da veja

O milagre venezuelano

No meio do caos e da pobreza do país de Hugo Chávez, 
o Sistema oferece perspectivas mais amplas a crianças 
e jovens que aprendem música erudita


Sérgio Martins, de Caracas

Alexandre Schneider

CARISMA E ENERGIA Gustavo Dudamel em um ensaio da Orquestra Jovem Simon Bolívar: gravações elogiadas no mundo todo e uma execução polêmica do Hino Nacional

Luz Ramirez, de 11 anos, e Genesis da Silva, de 14, vivem em bairros pobres e assolados pelo crime em Caracas, a capital mais violenta da América do Sul: segundo as estatísticas oficiais, provavelmente maquiadas, há 130 assassinatos para cada 100 000 pessoas (o índice no Rio de Janeiro, por exemplo, é de 34 para cada 100 000). Luz é da favela de Antimano, e Genesis mora em Sarría, bairro onde imperam os traficantes. Ambas falam em seguir carreira na música. No subúrbio latino-americano típico, esse seria apenas um sonho irreal. Para Luz e Genesis, porém, trata-se de um plano factível. Elas são revelações de um projeto social que, há mais de trinta anos, vem arrancando jovens da pobreza com o auxílio de Bach, Beethoven e Mozart. Atendidas pelo Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela – mais conhecido simplesmente como El Sistema –, as duas garotas estão bem avançadas no aprendizado de seus instrumentos. Luz é primeiro-violino de uma orquestra do Centro Acadêmico Infantil de Montalbán. Genesis toca clarinete no Núcleo Infantil de Sarría, e seu talento despertou a atenção do clarinetista venezuelano Jorge Montilla – que, radicado nos Estados Unidos, visita seu país natal periodicamente para dar aulas a alunos que considera promissores. Criado em 1975 pelo maestro e economista José Antonio Abreu, o Sistema conta hoje com 250 000 estudantes em toda a Venezuela, 90% deles vindos de comunidades carentes. Seus objetivos são sociais – a música serve para ajudar crianças e adolescentes em situação precária –, mas o projeto também alcançou um notável sucesso artístico, formando artistas que tocam nas melhores orquestras do mundo – o celebrado maestro Gustavo Dudamel é seu mais reluzente garoto-propaganda. Na Venezuela cada vez mais caótica e autoritária de Hugo Chávez, o Sistema é uma rara instituição que merece ser copiada em outros países. "É o maior acontecimento da música clássica no mundo inteiro", já disse o maestro inglês Simon Rattle, diretor artístico da Filarmônica de Berlim.

O projeto atravessou incólume sete presidências venezuelanas. O governo Chávez, para o qual é indispensável manter a popularidade nas periferias pobres, tem sido generoso com o Sistema, destinando-lhe 29 milhões de dólares anuais, que são complementados por mais 5 milhões de patrocinadores e doadores privados. Em troca, Chávez tenta usar a imagem do projeto a seu favor. Em 2007, o governo fechou a RCTV, emissora de oposição, e a substituiu temporariamente por um canal oficial. As transmissões de propaganda chavista começaram com uma gravação da Orquestra Jovem Simon Bolívar, que congrega os melhores músicos do Sistema, executando o Hino Nacional, com regência de Dudamel. "Fui xingado de chavista e velhos amigos me insultaram na rua. Mas somos financiados pelo estado. Se o estado nos pede algo, temos de aceitar", diz o advogado e violinista diletante Eduardo Mendéz, diretor executivo do Sistema. Ele garante, porém, que o Sistema não tem cor política ou ideológica: "Temos unidades em locais como Chacao, que faz oposição a Chávez".

As crianças podem ingressar no Sistema já aos 2 anos de idade. Os instrumentos são emprestados a elas, com o compromisso de serem bem-cuidados. É imperativo que elas frequentem a escola e tenham boas notas. De segunda a sábado, elas estudam música das 14 às 18 horas, e ainda praticam em casa. "Toco com tanta intensidade que deixo os meus pais malucos", diz a entusiasmada Genesis. O Centro Acadêmico Infantil de Montalbán – visitado na semana passada por VEJA – é exemplar do Sistema: fica ao lado de Antimano, que, com seus casebres coloridos plantados sobre um morro, lembra uma favela carioca. Ali têm aulas 1 500 alunos, entre 2 e 16 anos. Tudo é muito limpo e conservado: não há pichações nas paredes nem papéis no chão. No pátio, ouve-se a algazarra típica da hora do recreio nas escolas, com crianças correndo e gritando. No interior do prédio, os sons são outros: em uma sala, pequenos violinistas repetem a mesma escala, até conseguirem reproduzi-la a contento do instrutor. Mais adiante, podem-se ouvir os alunos mais avançados praticando peças inteiras, como 1812, de Tchaikovsky. Esses jovens são convidados a ensinar os novos estudantes dos núcleos – e, a longo prazo, isso representa uma possibilidade de emprego: "Meu sonho é ser violinista profissional. Se isso não acontecer, serei professora", diz Luz Ramirez, aluna de Montalbán. Ao contrário do que se poderia imaginar, nem sempre os pais aprovam a educação musical gratuita oferecida a seus filhos. "Muitos nos odeiam porque gostariam de ver seus filhos trabalhando, e não tocando música clássica", diz o trompetista Rafael Elster, diretor do Núcleo de Sarría – que já foi até ameaçado por uma mãe armada de um taco de beisebol. Elster resume bem a filosofia ao mesmo tempo democrática e disciplinadora do Sistema: "Não perguntamos sobre a origem dos alunos. Não importa que os pais deles sejam presos ou criminosos. Mas não admitimos que eles descontem seus problemas nas aulas nem toleramos um linguajar chulo ou repleto de gírias".

A grande vitrine do Sistema é a Simon Bolívar, uma orquestra jovem, enérgica, que já lançou quatro belos discos pela Deutsche Grammophon, a principal gravadora do mercado de música erudita, sob regência do carismático Gustavo Dudamel, talento de 28 anos celebrado por figurões da regência como Daniel Barenboim e Claudio Abbado. Dudamel não é um aluno típico do Sistema – veio de uma família de classe média (seu pai foi trombonista de orquestras de salsa e hoje trabalha no Sistema). Em outubro, o venezuelano assume o posto de regente titular da Filarmônica de Los Angeles. Graças ao Sistema, a Venezuela está se transformando em uma grande exportadora de talentos da música erudita – como o contrabaixista Edicson Ruiz, hoje com 23 anos, e que aos 17 se tornou o músico mais jovem a entrar para a tradicionalíssima Filarmônica de Berlim.

O Sistema também exporta sua valiosa experiência de ensino – realiza intercâmbios com dois projetos similares no Brasil: o Neojibá, na Bahia, e o Instituto Baccarelli, que mantém uma orquestra jovem na favela de Heliópolis, em São Paulo. Projetos de música erudita para comunidades carentes inspirados no Sistema estão sendo implantados na Escócia e em três cidades americanas – Nova York, Los Angeles e Chicago. É realmente uma fórmula que merece ser copiada. Não será exagero dizer que, em alguns casos, o Sistema salva vidas. Dez anos atrás, Lennor Acosta, 27, era um caso perdido. Criado em Carapita, um dos bairros mais violentos de Caracas, ele havia sido preso nove vezes, era usuário de crack, maconha e cocaína. Em 1999, Acosta foi enviado a Los Chorros, uma instituição para recuperação de menores. Lá, conheceu o Sistema, adotou a clarineta e hoje se divide entre as apresentações da Orquestra Jovem Simon Bolívar e a coordenação musical do Núcleo Los Chorros – que deixou de ser um reformatório para se tornar um núcleo do Sistema. "Segurar uma clarineta é melhor do que segurar uma arma", diz.

Fotos Alexandre Schneider

SALVOS PELA MÚSICA Ensaio em Sarría, bairro violento de Caracas, o ex-criminoso Lennor Acosta, hoje clarinetista, e Luz Ramirez, que quer ser violinista ou professora de música: de fato, um modelo que se pode copiar

 

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