Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, março 17, 2010

Celso Ming -Manipulação do câmbio

O Estado de S. Paulo - 17/03/2010

Uma comissão do Congresso dos Estados Unidos formada por 130 políticos dos dois principais partidos, o Democrata e o Republicano, está pressionando o presidente Obama para que declare oficialmente que a China manipula o câmbio e que, nessas condições, alija deslealmente o produto americano do mercado global.
Essa declaração abriria caminho para as represálias previstas na legislação americana. Entre elas está o aumento das tarifas de importação que encareceriam o produto chinês. Nos anos 70, essas represálias foram acionadas contra o Japão e a Alemanha.
Os sindicatos americanos argumentam que a China mantém artificialmente desvalorizado o yuan, a moeda chinesa, com o objetivo de turbinar suas exportações, fator que, por sua vez, provoca desemprego nos Estados Unidos.

As pressões para que a China revalorize a sua moeda vêm desde o governo Clinton, mas essa é a primeira vez que é usado o argumento de que a China faz jogo sujo no comércio com política cambial. No âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), entidade que fiscaliza a lisura do comércio global, não há nenhum tratado que defina desvalorização da própria moeda como manobra desleal.

É também complicado caracterizar o processo de formação de preços (o da moeda, inclusive) de uma economia centralmente planificada, como a da China, como condenável e sujeito a represálias.

Em todo o caso, o viés puramente legalista não evitaria eventuais decisões de força. E, diante das atuais dificuldades econômicas, os Estados Unidos poderiam perfeitamente deixar de lado pruridos de bons-mocismos e colocar em marcha escaramuças comerciais pesadas contra a China, cujas consequências, inevitavelmente graves, seriam imprevisíveis.

Domingo, o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, reagiu a pressões desse tipo e fez duras declarações contra o governo do presidente Obama. Afirmou que os Estados Unidos querem que a China assuma e pague o preço de um problema americano. E insistiu em que o yuan não está excessivamente desvalorizado.

Ontem, a Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) pareceu acatar as razões de Wen e argumentou que a solução para os atuais desequilíbrios não está na guerra comercial, mas na criação de um Sistema Monetário Global ("uma OMC para o câmbio"), que acabe com a volatilidade entre as moedas.

Qualquer país que emita moeda local para comprar dólares e, nessas condições, manter uma cotação cambial artificialmente desvalorizada produz inflação. Mas, no momento, a China pode comprar todo volume de moeda estrangeira que entra no país e ameaça puxar a cotação do câmbio oficial (6,826 yuans por dólar), porque utiliza para isso a poupança nacional impressionante de 51% do PIB.

Assim como está sendo tratada, essa ofensiva contra a China tem um viés claramente protecionista. Logo estarão dizendo que a China não pode exportar o que exporta porque paga salários baixos, porque seus trabalhadores não são sindicalizados, porque não toma cuidados ambientais, porque não tem um sistema de previdência social equivalente ao de países do Ocidente... e por aí vai.

CONFIRA
Subindo, subindo... - Na média, a China vai acrescentando mais de US$ 30 bilhões mensais às suas reservas externas. Elas são o
resultado da forte exportação.

As projeções do FMI indicam que, apenas neste ano, a China terá um superávit comercial com o resto do mundo de US$ 450 bilhões.

A maior parte dessas reservas está aplicada em ativos em dólares, especialmente em títulos do Tesouro americano. Isso significa que a China ajuda a financiar o consumo dos Estados Unidos, que reverte em alta das exportações chinesas.

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