Entrevista:O Estado inteligente
Ferreira Gullar Primeiros resmungos de 2010
Fala-se que Lula pretende dirigir a disputa da Presidência da República para uma comparação entre o seu governo e o governo Fernando Henrique. Quem foi melhor, Lula ou FHC? Se se considera que o êxito do governo Lula se deve, em boa parte, de um lado, à política econômica implantada pelo governo anterior e, de outro, pelo crescimento da economia mundial a partir de 2003, a discussão será bem mais complicada do que Lula supõe.
Além do mais, convenhamos, seria uma campanha eleitoral sui generis, que teria, como protagonistas, não os candidatos de fato e, sim, dois ex-presidentes que não estariam disputando o cargo. A única explicação para uma tal esdrúxula estratégia eleitoral é que Lula não confia na candidatura de Dilma, sabe que ela não tem cacife para enfrentar José Serra.
Resmungão, como sou, não gostei nada quando ouvi a televisão dizer que 2 milhões de pessoas estavam sendo esperadas para o Réveillon da avenida Atlântica, aqui em Copacabana. Esperadas por quem? Será que 2 milhões de pessoas ligaram para a televisão dizendo que aceitavam o convite? Mas a TV insistiu e, na noite do dia 31, alardeava: "Dois milhões de pessoas estão aqui na avenida Atlântica...". Alguém contou? Quer dizer que os convidados vieram todos, sem faltar nenhum! Pura mentira: na avenida Atlântica, com 3.800 metros de comprimento, não cabem 600 mil pessoas, ainda que coladas umas nas outras. Estive lá na noite do Réveillon: público compacto, só havia em frente ao Copacabana Palace, onde ficava o palco principal; em frente aos outros dois palcos, também havia aglomeração, mas em número bem menor; no resto da avenida, gente dispersa.
Por falar nisso, já viu um close do Maracanã lotado? É muita gente, não? Pois é, aquela massa de gente soma 85 mil pessoas, e não é ficção, não, é ingresso contado. Dez Maracanãs somam, portanto, 850 mil pessoas. Dois milhões de pessoas seriam mais de 23 Maracanãs lotados. Não há logradouro público no Rio onde caiba tanta gente, um terço da população total da cidade.
A Prefeitura do Rio confiou em dona Adelaide, médium da seita Cacique Cobra Coral e, graças a isso, não choveu durante o Réveillon. Já em Angra dos Reis, foi a tragédia que se viu. Nisso é que dá duvidar dos poderes espirituais da Cobra Coral! Dizem que seu próximo milagre vai ser impedir o aquecimento global.
Estou escrevendo esta crônica no dia 4 de janeiro e me pergunto: que fim levou o Zelaya, sim, aquele que, de chapelão e botas, instalou-se na embaixada brasileira em Tegucigalpa? Devemos admitir que se trata de um dos episódios mais extravagantes da história diplomática, já que, pela primeira vez, um político, persona non grata de um governo, usa uma embaixada estrangeira, no caso, a nossa, não para sair do país e se exilar, mas para entrar nele. Com isso, criou-se, na história da diplomacia, uma figura deveras original: a do "desasilado", ou o asilado às avessas.
Bem, fora isso, ou apesar disso, o governo brasileiro insistiu em mantê-lo na embaixada, sem qualquer justificativa legal, por simples arrogância, que Lula jamais teria coragem de usar caso o problema se passasse não na pequenina Honduras, mas no México ou na Argentina.
Assim agia Tio Sam contra todos nós, latino-americanos, nos anos da Guerra Fria, lembram? Logo o Lula, hein, quem diria? E o pior é que, depois das eleições realizadas em novembro, ele se nega a reconhecer o presidente eleito, sobrepondo sua arrogância à vontade do povo hondurenho.
FOLHA DE S PAULO
Mas não era disso que queria falar. É que me lembrei do conto de Franz Kafka, de um jejuador que, dentro de uma jaula, exibia ao público sua resistência à fome. Centenas de pessoas desfilavam por dia para vê-lo e constatar a sua inacreditável capacidade de jejuar, que se estendeu por semanas e meses, conforme se lia numa tabuleta presa à grade da jaula, em que era anotado, dia a dia, o seu prolongado jejum.
No começo, havia gente que passava a noite em claro, vigiando o jejuador, que nunca foi flagrado comendo nem sequer um biscoito. Mas, com o tempo, como seu jejum tornou-se interminável, as pessoas se desinteressaram dele, que, ainda assim, mesmo sem público, continuou jejuando em sua jaula. Terminou morrendo de fome e, sem que ninguém se desse conta disso, secou e virou pó. Um dia, o faxineiro do circo entrou na jaula, varreu o pó e pôs na lixeira. No lugar do jejuador, puseram uma jovem pantera, que transpirava saúde e voracidade.
E o Zelaya, gente, ainda está na embaixada ou já o varreram?
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