O GLOBO
O sujeito vai ficando velho e vai se transmutando num reacionário cada vez mais enfezado, de maus bofes e convívio desagradável. Triste fado de que alguns afortunados escapam, mas em que a maioria, suspeito eu, acaba caindo, pouco disfarçando a antiguíssima e cruel verdade de que o verdadeiro mal da nova geração é que não pertencemos mais a ela. É o que penso aqui, olhando este caderninho, onde faço anotações que se assemelham um pouco às mensagens do Missão Impossível.
Não se autodestroem, mas quase todas se tornam indecifráveis uns dez minutos depois de escritas. A exceção, agora descubro, são as rabugentas.
Num ato falho embaraçoso, as notas rabugentas estão grafadas com clareza, geralmente em letra de forma. Não dá para disfarçar a preferência do autor.
É mesmo atanazar o juízo do semelhante com reclamações, queixas e comentários azedos a qualquer pretexto, ou mesmo sem pretexto.
Não, sem pretexto também não. Os pretextos abundam, feliz ou infelizmente.
Como se soubesse em que estou me ocupando agora e quisesse me provocar, a repórter do noticiário de televisão a que no momento assisto diz que não sei o que lá acontece "peluma razão muito simples" . Essa — como direi? — preposição não foi criada por ela, porque já a ouvi antes e a ouço com cada vez maior frequência. Dizem que os neologismos surgem espontaneamente, assim que há necessidade. Devemos, por conseguinte, ter necessidade, pelum desses volteios do destino, de usar uma preposição variável, haverá de ser mais um passo para a nossa crescente integração no concerto das nações desenvolvidas. Pelum, peluma, peluns, pelumas — estou começando até a gostar, pode ser que dê mais expressividade à língua.
Escuto agora um senhor afirmando que o presidente de uma comissão do Congresso não vai tomar nenhuma medida concreta (as abstratas, tudo bem) no momento, porque prefere aguardar maior unanimidade entre os membros da dita comissão. Mal tenho tempo para me indagar como é que a unanimidade pode ficar maior ou menor, quando se passa a uma entrevista, acho que com um membro da mencionada comissão, na qual ele afirma que "a comissão, ela não tem como objetivo" etc.
Aí se trata do famoso sujeito duplo, que se estabeleceu de vez entre nós e daqui a pouco vão dizer que quem não fala assim está falando errado. Por alguma razão não explicada, de uns anos para cá vem se tornando cada vez mais raro ouvir alguém usar a terceira pessoa de qualquer verbo sem dobrar o sujeito.
Se fosse numa língua sem flexões verbais, até que dava para entender, mas a nossa é muito bem servida delas. Não adianta resistir, só se fala assim.
Despeço-me do televisor, não sem antes ouvir outro repórter dizer que uma inauguração ocorreu "há exatos vinte anos". Fico imaginando vinte anos rigorosamente exatos, cada ano mais exato que outro, não admitindo nem ano bissexto. Outra vez inovamos e, agora que penso mais detidamente no assunto, parece que o Brasil vai de fato distinguir-se por tornar variáveis as categorias invariáveis. Não ficamos nas preposições, fomos igualmente aos advérbios. As conjunções e interjeições variáveis não devem tardar, se é que não estão já por aí. Talvez não, porque devem andar ocupadas com a movimentação a que têm sido sujeitas nos últimos tempos, a ponto de eu acreditar que algumas delas ficaram estressadas, como não pode deixar de ser no caso do divórcio rumoroso entre "daqui" e "de", bem como no contubérnio de "acontecer" com "de". Ah, não souberam? Pois é o que lhes digo — e já está tudo escancarado para qualquer um ver. Ninguém mais fala "daqui a dois dias", só fala "daqui dois dias". Outro dia ouvi alguém dizer "pra mim fazer daqui dois dias" e fiquei pensando no inglês dos apaches dos filmes de caubói antigos. Quanto ao caso de "acontecer" com "de", já descarou há muito tempo e também logo deve tornar-se moda. O primeiro pode e devia prescindir da segunda, mas, sabem como são essas coisas, pintou um clima e aí ficou essa sem-vergonhice.
Não acontece mais ninguém passar sem a preposição. Aconteceu de eu estar escrevendo, aconteceu de ela ver e assim por diante.
Creio também que já chegou a hora de preparar o necrológio de "cujo", esse desconhecido. Há alguns marginais que ainda recorrem a ele, mas estão cada vez mais minoritários e acredito que dentro em breve quem usá-lo vai ser vaiado ou denunciado como elitista ou perguntado como vão as coisas na Ucrânia. Já está ficando estranho alguém, na conversa comum, dizer "a moça cujo pai eu vi ontem". O certo vai acabar sendo "a moça que eu vi o pai ontem". Tenho certeza de que isso se aproxima do léxico e da sintaxe dos chimpanzés, mas não disponho de provas e não quero melindrar os chimpanzés.
E, finalmente, porque o espaço está acabando e chega de rabugice num domingo só, merece pelo menos menção honrosa o fato de que dizer "este ano", "esta semana" está ficando a cada dia mais incomum. Agora, sabe Deus por que artes da burrice e da ignorância, só se diz "neste ano" e "nesta semana". Daqui a pouco, vai se dizer "neste hoje eu ainda te falo" ou "isto foi nesta ontem".
Mas não liguem, é tudo caturrice mesmo, a língua é viva e muda o tempo todo. Se as línguas não mudassem, estaríamos falando latim e, portanto, não há nada de preocupante nesses e em outros exemplos que me recheiam cá o caderninho. Mas, como esta coluna não é interativa e vocês não podem senão lê-la (aliás, podem mais, mas prefiro não ser informado do quê), fico com a última palavra. Já que mencionei o latim, menciono os romanos, que sabiam das coisas e diziam "ubicumque lingua romana, ibi Roma" — onde quer que esteja a língua romana, aí estará Roma. Fico meio assim, porque isto, aplicado a nós, significa que estamos na cucuia.
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