sábado, janeiro 25, 2014

Cláudio Humberto



• Empresa de Chioro tem e terá recursos do SUS
A empresa de consultoria de Arthur Chioro, substituto do ministro Alexandre Padilha (Saúde), recebe verbas diretas do Sistema Único de Saúde (SUS) porque trabalha para municípios destinatários desses recursos. E continuará recebendo, quando ele passar a comandar o SUS, como ministro. Aliados de Dilma temem que prefeituras “clientes” de Chioro, venham a ser privilegiadas nas relações com o ministério.

• MP investiga
O Ministério Público já estava de olho: secretário de Saúde de São Bernardo (SP), Chioro contratou a consultoria da própria empresa.

• Me engana, eu gosto
Ontem, Arthur Chioro deu uma de joão-sem-braço e passou sua empresa para… sua mulher. E as “consultorias” continuam.

• Inferno astral
Padilha criou programas relevantes, como o “Mais Médicos”, e retirou o Ministério das páginas policiais. Com Chioro, retoma-se o inferno astral.

• Um capricho
Mais que uma indicação, Arthur Chioro é um capricho imposto pelo ex-presidente Lula. Ele queria adiar para março a reforma ministerial.

• Agentes denunciam ‘monopólio de chefias’ na PF
Em meio à briga interna, a Federação Nacional dos Policiais Federais – que representa agentes, papiloscopistas e escrivães – acusa a PF de agir junto ao Ministério da Justiça para “forçar monopólio de chefia para delegados”. Os agentes defendem no Congresso a “PEC do FBI”, que assemelharia seus cargos ao dos agentes especiais norte-americanos, que podem ser promovidos em caso de especialização e experiência.

• ‘Burrocracia’
Segundo Fenapen, a maioria dos agentes federais tem curso superior, mas não pode ser gerente ou coordenador por questões burocráticas.

• Sair da sombra
Agentes dizem que PEC 361 não possibilita que se tornem delegados, o que seria inconstitucional: “só cansamos de não ter reconhecimento”.

• Junho em janeiro
A imprensa internacional destacou o protesto convocado pela internet “Não vai ter Copa”, em 36 cidades neste sábado (25). O clima é tenso.

• Ordens são ordens
O ex-governador José Serra disse a amigos que, apesar de negociar com a presidenta Dilma, o ex-prefeito Gilberto Kassab deverá apoiar a reeleição do tucano Geraldo Alckmin ao governo de São Paulo.

• Vale a pena ver de novo
A Agência Nacional de Aviação Civil garante que o movimento dos aeroportos na Copa será quase o mesmo no Natal e Ano Novo. Ou seja, tomem desde já chá de camomila.

• Toma lá, dá cá
Geddel Vieira Lima (PMDB) quer disputar o governo da Bahia, mas disse a ACM Neto (DEM), prefeito de Salvador, que disputará o Senado caso Paulo Souto (DEM) pretenda voltar ao Palácio de Ondina.

• Tá feia a coisa
A americana Armalite, através da Dimensão, em Brasília, venceu mais uma no governo federal: chegam nos próximos dias fuzis AR-10 com 1,5 km de alcance e poder de fogo de matar um batalhão. Americanos no Iraque e no Afeganistão usavam armas de guerra menos ofensivas.

• Gana dos outros
Com nota de crédito rebaixada pela agência Fitch, Gana, na África, vai pedir empréstimo de novo ao Brasil, diz a Bloomberg. Não bastaram o perdão da dívida e o crédito camarada de US$95 milhões do BNDES.

• Calote coletivo

O conhecido site de compras coletivas Groupon terá que indenizar a noiva Emanuella Torres, de Brasília. Ela tomou um calote de R$ 3.490 ao fechar com eles um serviço de buffet, que sumiu antes do casório.

• Brasil nada chique
A presidente da Boeing no Brasil, Donna Hrinak, lamentou a derrota na venda dos caças ao Brasil, e faz uma aposta que até parece rogar uma praga: “Eu dizia que era entusiasmada com o país antes de o Brasil ser chique. Agora digo que serei entusiasmada quando não for chique”.

• Vício de origem
Deputados federais e senadores destinam recursos, em suas emendas, para áreas em que não podem ser usadas, criando os chamados “vícios de elaboração”. Esse tipo de emenda jamais sai do papel.

• Vip
Delúbio Soares deveria incluir em seu staff mensaleiro um assessor de imagem: engordou e é o único que volta rindo à cadeia.

Fonte: Diário do Poder

Demétrio Magnoli De Damasco a Kiev

FOLHA DE S PAULO
A expressão "atores estrangeiros" emergiu dois meses atrás, de porta-vozes do Kremlin e do governo ucraniano. As palavras "extremistas" e "terroristas" começam a ser pronunciadas agora, quando aparecem os primeiros cadáveres em Kiev. Dois manifestantes foram mortos a tiros pela polícia. O corpo de um terceiro ativista, encontrado sem vida numa floresta nos arredores da capital, exibia sinais de tortura. Um estudante de 17 anos sofreu sevícias de policiais, que o espancaram e esfaquearam, obrigando-o a despir-se e cantar o hino nacional sob o frio congelante. "Damasco": o presidente Viktor Yanukovich e seu patrono, Vladimir Putin, inspiram-se no exemplo da Síria, onde Bashar Assad comprovou que a repressão sangrenta de um levante nacional pode permanecer impune. Contudo, para Washington e Bruxelas, o teste de Kiev vale mais, muito mais, que o de Damasco.
No ponto de partida da revolta popular síria, Obama e os líderes europeus avisaram que não ficariam inertes diante dos massacres perpetradas pelo regime. Depois, no ano 1 da guerra civil, prometeram apoiar a corrente moderada da oposição. Quando os compromissos solenes já estavam desmoralizados, o presidente americano traçou sua célebre "linha vermelha", assegurando que reagiria militarmente a um hipotético ataque químico. Assad cruzou, impávido, a última fronteira, demonstrando que o rei estava nu. Ao longo da trajetória, a oposição moderada dissolveu-se na irrelevância, cedendo lugar a organizações fundamentalistas e grupos jihadistas. Putin convenceu-se de que está autorizado a jogar, na Ucrânia, as mesmas cartas utilizadas na Síria. Mas Kiev não é Damasco.
"Quero viver na Europa". Os cartazes exibidos nas cidades ucranianas indicam tanto as fontes quanto os rumos da revolução em curso. A Ucrânia pertenceu, durante séculos, ao Império Russo, e viu frustrada sua primeira independência, que coincidiu com a Revolução Russa mas durou efêmeros quatro anos de guerras sucessivas. Uma segunda independência, propiciada pela implosão da URSS, em 1991, jamais se completou. As manifestações multitudinárias deflagradas em novembro, que retomam a frustrada Revolução Laranja, de 2004, evidenciam a natureza anacrônica da sujeição do país à Grande Rússia. Aos olhos da maioria do povo ucraniano, "Europa" ou "União Europeia" são a tradução geopolítica da exigência de soberania nacional. Eis o motivo pelo qual a aposta de Putin representa um desafio histórico para Washington e Bruxelas.
A legitimidade da União Europeia (UE) não repousa sobre o mercado comum ou, mesmo, a liberdade de circulação dos cidadãos europeus. Desde a Segunda Guerra Mundial, "Europa" é o outro nome das liberdades políticas e da democracia. O projeto europeu surgiu para proteger as liberdades, depois da tempestade do nazismo e diante do espectro triunfante da URSS de Stalin. A UE renovou-se e provou sua vitalidade na década seguinte às revoluções de 1989, pela incorporação dos países do antigo bloco soviético. Kiev não é uma crise qualquer: na Ucrânia, a "Europa" precisa demonstrar que serve a algo maior que os interesses do "mercado".
O Kremlin acusou "atores estrangeiros" de "insuflarem" os protestos na Ucrânia. De fato, em dezembro, a representante diplomática da UE, Catherine Ashton, e o ministro do Exterior alemão, Guido Westerwelle, juntaram-se aos manifestantes da Praça da Independência. Eles estavam dizendo que não são "estrangeiros", que os ucranianos são europeus, que 1989 não terminou e que Kiev não é Damasco. A presença deles equivale a uma nota promissória, que começa a ser cobrada agora. Os EUA e as potências europeias têm os instrumentos para infligir punições diplomáticas e econômicas insuportáveis à Rússia. Se não os utilizarem, permitindo que Kiev se torne Damasco, reduzirão "Europa" a um sinônimo de decadência. 

Ruy Fabiano: Lula em cena

Um dos temas da semana foi a reaparição de Lula no centro do poder – do qual, diga-se, jamais se afastou. Mas o simples fato de se ter exibido sem qualquer discrição, participando de reunião no Palácio da Alvorada com a presidente Dilma e alguns ministros, mostra que fazia questão de ser visto, no papel que exerce desde que transmitiu a faixa presidencial: o de tutor da presidente.

Não foi uma reunião qualquer. Durou cinco horas e, ao final, anunciou-se a troca de guarda na Casa Civil: saiu a senadora Gleisi Hoffmann, entrou o senador Aloizio Mercadante.

A saída de Gleisi estava prevista, já que deve se candidatar ao governo do Paraná. Mas a nomeação de Mercadante, que jamais se incluiu entre os favoritos de Dilma, é sinal de que Lula quer dar cunho mais político que administrativo à Casa Civil e quer se fazer mais presente na antessala da presidente.

Mercadante, assim como Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, é de seu staff pessoal. Com eles, Lula está agora no Palácio. A presença no encontro de Franklin Martins, que dá expediente no Instituto Lula, é outro sinal de que o presidente prepara-se para assumir papel mais ativo no governo, nesse período. É o PT no efetivo comando.

As relações do partido com Dilma sempre foram meio esquizofrênicas. Dilma não é petista histórica. Sua carreira na administração pública começa no Rio Grande do Sul, pelas mãos de Leonel Brizola, que a filiou ao PDT. Seu ingresso no PT deu-se posteriormente, pelas mãos de Lula.

É uma história conhecida, no relato de Lula, que disse ter se impressionado quando a conheceu, admirando seu jeito afirmativo. Trouxe-a para seu governo, deu-lhe o importante cargo de ministra de Minas e Energia e, depois, na crise do Mensalão, que fulminou a carreira de José Dirceu, colocou-a na chefia da Casa Civil.

De lá, à revelia do partido, tornou-a candidata à sua sucessão. Dilma chegou ao Planalto pela vontade pessoal de Lula – e contra a do PT. No auge de sua popularidade, Lula dizia, nos palanques e no horário eleitoral, que, na cédula eleitoral, "onde se lê Dilma, leia-se Lula". Deu certo, mas o PT não gostou.

Sentiu-se atropelado – e com razão. Em política, afinal, há fila – e Lula fez com que Dilma a furasse, caroneando alguns petistas históricos. Desde então, as relações entre a presidente e o partido jamais foram amenas. Idem com os aliados fisiológicos da base. Dilma teve que demitir, por denúncias de corrupção, nada menos que sete ministros nos seis meses iniciais de seu governo.

Ensaiou uma faxina, interrompida por Lula e pelo PT, em nome, claro, da governabilidade. Sempre que a barra pesa, Lula entra em cena. Agora, com a campanha eleitoral à vista, ele assume mais uma vez o papel de salvador da Pátria.

A economia vai mal, a insatisfação difusa que alimentou as manifestações de junho passado continua presente, o cenário internacional é nebuloso – enfim, Lula é necessário.

No PT, jamais extinguiu-se a esperança de que ele possa mesmo voltar a ser o candidato do PT. Ele próprio disse mais de uma vez que, quando chegassem as eleições, se Dilma não mostrasse competitividade, ele iria "pro sacrifício".

Dilma, até aqui, tem liderado com folga as pesquisas. Mas isso pouco significa, na medida em que a população ainda não se deteve para pensar no assunto. Pesquisas precoces nada significam. Se significassem, José Serra teria sido eleito, pois liderou-as até uns quatro meses antes das eleições passadas.

Lula, portanto, continua peça-chave na política brasileira, goste-se ou não disso.

Ruy Fabiano é jornalista.

Fonte: Blog do Noblat

Pontos fracos e fortes Miriam Leitão

O GLOBO
A presidente Dilma exaltou a democracia brasileira na reunião de Davos. Ela não disse, mas todos sabem: é vantagem que a China não tem, nem a Rússia pode falar com a mesma firmeza. A Índia tem, mas com a nódoa das castas e de um sistema judicial desafiado por tribunais primitivos, como o que condenou esta semana uma mulher ao estupro coletivo.
Nada disso a presidente falou; nem poderia. Estava lá para atrair investidores para o Brasil e não para criticar os outros. Mas, hoje, os investidores — pelo menos os melhores — sabem o valor de haver instituições sólidas para um país acertar.
Ao falar da economia, foi previsível. Garantiu que não há os deslizes que os críticos têm apontado. Ao falar do número que preocupa muito os que analisam com detalhes a economia brasileira, fez um recorte favorável. Disse que a dívida bruta caiu de 61% do PIB para 58%. Ela pegou o pico que houve em 2009, que subiu por causa da crise, e comparou com o último número. Mais correto seria dizer o que todos sabem: ela recebeu a dívida em 53,35% e a fez subir até 59,9%. Agora, está em 58,4%.
Falou das reservas cambiais de US$ 375 bilhões. Mas o Banco Central divulgou ontem um salto no déficit em transações correntes. Chegou a US$ 81 bilhões, saindo de 2,4% para 3,6% do PIB.
A presidente falou das vantagens do Brasil como destino de investimentos, em um momento em que está havendo mais fluxo negativo. Ressaltou a oportunidade de um mercado interno crescente, de uma infraestrutura que precisa de investimentos e garantiu que está buscando o centro da meta de inflação. Na sua avaliação, o mundo voltará a crescer e isso fará com que países como o Brasil passem a ser olhados com mais atenção.
Essa percepção de que o mundo vai entrar numa fase de mais crescimento é a mesma descrita na ata do Copom divulgada esta semana. Mas o Brasil tem previsão de crescimento menor que a média mundial. O próprio presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse em Davos que o país precisa crescer mais do que os 2% no qual anda rondando.
No mercado brasileiro, os economistas têm uma visão parecida. A nova economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, por exemplo, disse que está um pouco mais otimista em relação à inflação e menos com o PIB. Acredita que o IPCA deve ficar abaixo do número de 2013, mas a taxa de crescimento pode cair para menos de 2%.
— Há quem avalie que o mundo crescendo mais pode puxar o Brasil. Mas estamos mal posicionados nessa recuperação. O Brasil tem pouco a oferecer em termos de exportações para EUA e Europa. A Argentina em crise cambial pode afetar nossas vendas de manufaturados. Buscar a saída pela América Latina é o que o Brasil já faz — explicou.
Zeina acredita que o governo está colhendo o que plantou em termos de política econômica, ou seja, a escolha de combater a inflação unicamente com a alta dos juros está limitando a capacidade do país crescer. Para 2014, a Selic em dois dígitos vai afetar os investimentos.
— As pessoas não querem a inflação alta, e a presidente Dilma já mudou um pouco o seu discurso. O problema é que a política fiscal não ajuda. Os juros vão afetar os investimentos e o PIB — afirmou.
A economista discorda da visão de que apenas o setor financeiro esteja cauteloso com o governo. Acha que a avaliação é a mesma entre o empresariado, embora o discurso das empresas seja um pouco mais otimista.
Seja para investidor externo ou interno, setor financeiro ou economia real, é preciso mais do que um discurso para quebrar a desconfiança derivada do baixo desempenho do país nos últimos anos.


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GILLES LAPOUGE A EUROPA ILUDIDA

Estadão
PARIS - Em Kiev, fez-se uma pausa no ódio e uma promessa de pacificação? Ou trata-se, ao contrário, de um simples entreato separando dois surtos de violência?
Recordemos a gênese dessa crise: em novembro, o governo ucraniano, muito próximo de Moscou, bateu a porta na cara da União Europeia (UE), interrompendo bruscamente negociações que deviam assegurar a essa vasta república saída da desagregação da União Soviética o status, não de membro pleno, mas de simples e modesto "associado" da UE.
A Ucrânia optou então, francamente, por estender a mão à Rússia e não à UE. Foi para protestar contra essa escolha que enormes multidões se revoltaram na capital ucraniana, Kiev, exigindo uma reaproximação da UE.
Portanto, é a Europa que se viu brutalmente desafiada e quase desdenhada pela brusca reviravolta do presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, sustentado evidentemente por seu padrinho, o russo Vladimir Putin. E qual foi a resposta da UE? A debandada, primeiro. Depois, a cacofonia.
No início, a UE desinteressou-se resolutamente da questão. Bruxelas manteve um silêncio estrondoso enquanto os tumultos se espalhavam por Kiev. Foi preciso que os enfrentamentos entre a polícia ucraniana e as multidões que reivindicavam "mais Europa" produzissem feridos e depois mortos para que a poderosa UE saísse do seu sono e fizesse alguns grunhidos.
Infelizmente, como sempre, esses grunhidos europeus eram desencontrados. Na última segunda-feira, o chefe da diplomacia sueca, Carl Bildt, lançava o debate e sacudia a letargia de seus colegas de continente. No dia seguinte, o presidente da Comissão Europeia (CE) em Bruxelas, José Manuel Durão Barroso, aproveitou o embalo. Heroico, ele ameaçou agir contra o governo de Yanukovich.
Muito bem. Mas, na quinta-feira, foi a vez da chanceler alemã, Angela Merkel, se pronunciar. Ela não teve meias palavras. Abriu o debate para fechá-lo de maneira categórica: "A adoção de sanções contra a Ucrânia não está na ordem do dia". Merkel precisou que o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier - que não pertence Partido Democrata-Cristão (CDU), de Merkel, mas aos social-democratas (SPD), parceiro na grande coalizão que governa Berlim -, era da mesma opinião que ela.
O discurso da líder alemã acalmou o jogo subitamente, de tal forma que cabe perguntar se existe mesmo algum jogo. Nas horas seguintes, todos os demais dirigentes europeus acertaram o passo com Merkel, em particular o caro Durão Barroso, que se punha apaixonadamente a buscar o "diálogo" com o poder ucraniano.
Assim, a Europa vai enviar a Kiev um representante para mediar esse "diálogo". E quem foi escolhido para esta missão? O comissário Stefan Fille - o mesmo homem que havia sofrido em novembro a humilhação extrema de ver a Ucrânia lhe bater a porta na cara.
Tudo isso não impede que os cérebros de Bruxelas fiquem ativos. A cada dia, a UE inventa um novo plano para sair em ajuda às multidões Europa que se recusam a ver seu país se alinhar à Rússia de Putin.
A última ideia em voga consistiria em fazer pressão sobre Putin para que ele exerça sua influência e acalme um pouco o presidente ucraniano. Boa ideia! Mas como fazer para convencer Putin a socorrer essa UE que ele tanto detesta? Ameaçando sabotar os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, o evento com o qual Putin conta para assegurar a projeção mundial da Rússia.
Putin já respondeu antecipadamente a esse projeto dos estrategistas europeus. Seu porta-voz, Dmitri Peskov, acaba de garantir que Moscou não quer de maneira nenhuma interferir nos assuntos interno da Ucrânia.
Trata-se de uma doutrina do Kremlin: os problemas de Kiev são uma questão doméstica da Ucrânia e a Rússia tem uma regra sagrada: ela jamais se imiscui, absolutamente jamais, no que ocorre em seus vizinhos, mesmo quando isso envolve uma república que, não faz muito tempo, integrava a União Soviética. Gente de princípios, essa do Kremlin!
*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 


Celso Ming

ESTADÃO
O pronunciamento da presidente Dilma em Davos (Suíça), onde se realizou o Fórum Econômico Global, foi apenas morno.Deu para pinçar dois elementos positivos. A presidente Dilma reafirmou compromissos com a responsabilidade fiscal. Pode-se argumentar que esse discurso não constitui novidade nem foi cercado de ênfase suficiente para garantir forte recuperação de confiança do capital estrangeiro, que andava abalada. Mas o que ficou dito foi diferente do que a presidente disse em outras ocasiões, especialmente em Durban, África do Sul, em março do ano passado. Foi quando ela avisou que não sacrificaria o emprego e o social apenas para embelezar as contas públicas.
A outra manifestação pode ser vista até como novidade. A presidente garantiu que seu governo persegue a meta da inflação de 4,5% no final do ano. Isso é substancialmente diferente do que vinha alardeando. Ainda dia 20, ela afirmou que seu governo vinha cumprindo a meta de inflação e que os 4,5% não passavam de centro da meta e não da meta propriamente dita.
Em resumo, o recado da presidente Dilma em Davos é o de que não é tão refratária e tão intervencionista no mundo dos negócios, como dizem por aí, e que a seriedade orçamentária é um valor do seu governo. Não chegou a beijar a cruz, mas também não a repeliu.
O fato relevante é o de que o governo Dilma entendeu que está sendo preciso fumar o cachimbo da paz com o setor privado. Se há essa necessidade é porque há (ou havia) no jogo certa beligerância. O governo Dilma passou a maior parte dos primeiros três anos de mandato dando a entender que empresário tinha de se comportar como uma instituição de benemerência. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, por exemplo, repetia que as receitas com concessões poderiam ser baixas porque o concessionário não corre riscos.
Essa mudança de propósitos em busca de novas parcerias tende a ser sincera, não propriamente por convicção ideológica, mas porque o governo entendeu que o Tesouro é uma teta murcha. Se pretende incrementar o investimento externo, tem de mudar o jeito de lidar com os donos do capital, que esnobou nos anos anteriores.
É com esse estado de espírito, digamos assim, que o governo também vai anunciar "em breve" - foi o que ela disse - a meta do superávit primário deste ano. Superávit primário é o tanto de arrecadação separado para pagamento da dívida, portanto, para ajudar a controlar as contas públicas, conter as despesas e ajudar a segurar a inflação. É a disposição com que pretende cumprir o compromisso fiscal.
Esse anúncio, por si só, pode não significar muita coisa. Nos últimos três anos, a frustração se repetiu: o governo anunciou no começo do ano um superávit primário acima de 3% do PIB, meses depois o rebaixou para a casa dos 2% e acabou entregando alguma coisa acima de 1% e, ainda assim, com mágicas contábeis, como aconteceu em 2012, ou com atraso no pagamento de contas, como aconteceu em 2013. E convém pontuar que 2014 é um ano eleitoral, em que governo nenhum gosta de dizer não.

sexta-feira, janeiro 24, 2014

FHC diz que não há elo do cartel com o PSDB

O Estado de S. Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, atualmente presidente de honra do PSDB, disse nesta quinta-feira, 23, que o cartel na área do metrô e trens metropolitanos de São Paulo tem de ser investigado, mas acrescentou que não viu, até agora, nada que indique qualquer indício de pagamento

"Se trata de suborno, parece óbvio, de funcionários. Agora, qual o elo disso com o governador ou com o partido? Eu não vi. Nem indício", afirmou o ex-presidente em entrevista ao blog do jornalista Josias de Souza.

A afirmação do ex-presidente ocorre no momento em que três auxiliares do governador Geraldo Alckmin (PSDB) têm seus nomes envolvidos em investigações sobre cartel. São eles o secretário da Casa Civil, Edson Aparecido (PSDB), o da Energia, José Aníbal (PSDB), o de Desenvolvimento, Rodrigo Garcia (este do DEM). Todos negam taxativamente qualquer envolvimento com o cartel.

O inquérito que apura a ação combinada das empresas para a obtenção de contratos a preços superfaturados e as suspeitas de pagamento de propina está hoje no Supremo Tribunal Federal, pois os três secretários de Alckmin citados são deputados federais licenciados e têm, por causa disso, direito a foro especial.

As investigações começaram em 2008, a partir de contratos de energia do governo paulista com a multinacional francesa Alstom. Ministro da Secretaria de Comunicação do segundo mandato de FHC no Palácio do Planalto, Andrea Matarazzo é um dos 11 indiciados por causa de suspeitas em contratos com a Alstom. Hoje vereador do PSDB na capital do Estado, ele foi secretário de Energia na gestão do ex-governador tucano Mário Covas.

O inquérito quer investigava os contratos de energia acabou desmembrado a fim de que os contratos de trens e metrô fossem investigados. É essa parte da investigação que cita os secretários de Alckmin e está no STF.

No que se refere aos contratos de trens e metrô, há seis indiciados, entre eles ex-dirigentes da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Os políticos, porém, não estão na lista de indiciamento. O Supremo precisa dar uma autorização para que sejam investigados.

'Não apareceu'. "É corrupção, é condenável", disse FHC, que insistiu: "Só que não foi no PSDB. Não apareceu. Pelo menos até hoje não há nenhum dado que diga que esse dinheiro foi usado pelo PSDB". O ex-presidente ponderou que o partido "tem que explicar isso", mas questionou: "Qual o indício de que esse recurso realmente foi dado?"

Segundo o ex-presidente, "cartel houve, são cinco empresas no mundo e elas cartelizam sempre". Mas bateu sempre na mesma tecla: "Subornar, podem ter subornado. Mas subornaram quem? Funcionários, pessoas nomeadas, pode até ser, mas não foi pelo partido, pelo governador. Aí é diferente."

É a segunda vez que FHC afirma, de público, que o PSDB não está envolvido nesse episódio. No início de agosto de 2013, quando o caso começava a ganhar destaque, ele disse que era "preciso tomar cuidado (ao se fazer denúncias)", porque "há muita agitação e pouca coisa".

Nessa linha, ele acrescentou ontem que "está havendo muita manipulação política". Principal delator do cartel, o ex-diretor da empresa alemã Siemens Everton Rheinheimer chegou a pedir emprego e proteção para o integrantes do PT

quarta-feira, janeiro 22, 2014

Entre juros e inflação - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 22/01

Três empresários entrevistados pela coluna não tiveram dúvidas ao responder o que é pior: juros altos ou inflação? Todos acham que, para o setor produtivo, o que mais atrapalha é a inflação, que aumenta o custo das empresas. Por isso, entendem a necessidade de o Banco Central subir a Selic. O problema, dizem, é que também é preciso que o governo corte gastos e faça reformas. Isso não tem acontecido.

Há algumas diferenças entre a visão do empresariado e a do sistema financeiro sobre a economia brasileira. O pessimismo ficou maior nos bancos e nas consultorias; já o empresário, embora reconheça um cenário mais difícil, tenta manter a expectativa de que o futuro vai ser melhor e cita as baixas taxas de desemprego e o consumo forte.

— O Brasil não estava nem tão bem quanto muitos achavam em 2010 nem está tão mal agora. Nosso faturamento continua crescendo a taxas de dois dígitos. O natal veio abaixo do esperado, mas houve o black friday pouco tempo antes e as liquidações de janeiro foram boas — avalia o presidente da Positivo Informática, Hélio Bruck Rotenberg.

— Para a nossa indústria, 2013 não foi um desastre. Não foi um ano excelente, mas foi um bom ano, lançamos 180 produtos novos, o plano de investimentos foi mantido e o Brasil continua sendo o segundo maior mercado da nossa empresa no mundo — disse João Carlos Brega, CEO da Whrilpool Latin America.

Quem destoa desse cenário é o diretor-secretário da Abimaq, Carlos Pastoriza. Ele explica que a alta dos investimentos medida pelo IBGE — 9,6% de janeiro a novembro — não reflete a situação do setor de máquinas porque é a produção de caminhões que tem puxado o indicador para cima. Ele explica que o segmento de máquinas-ferramenta acumula queda de 50% em cinco anos, e que apenas as máquinas agrícolas estão com
vendas aquecidas.

— Nosso setor teve qu 3,4% em 2012 e de 5% em 2013. Esperamos nova retração em 2014. Há um processo silencioso de desindustrialização no Brasil. As empresas estão virando importadoras e maquiladoras. O déficit comercial do setor de máquinas chegou a US$ 20 bi em 2013.

Pastoriza é cético em relação ao baixo desemprego. Acha que o país tem gerado muitas vagas de baixa qualificação, e isso explica porque há tanta gente trabalhando e ainda assim o PIB continua fraco.

— Não temos criado vagas em setores importantes, que têm efeito multiplicador e geram valor agregado para a economia. São milhares de empregos em call centers, por exemplo, setores ligados a serviços que exigem baixa capacitação — disse.

De qualquer maneira, o número forte de empregados mantém o comércio aquecido e isso favorece empresas ligadas ao consumo. O que realmente tem incomodado o empresário, de qualquer segmento, é a inflação alta e o aumento dos juros. Ainda assim, tendo que escolher, os empresários ouvidos acham que é melhor subir os juros para combater a alta dos preços.

— Sempre vamos reclamar da Selic, que encarece o custo do capital. Mas, com a inflação crescendo, não há outro jeito. O ideal seria subir juros, no curto prazo, e fazer reformas e cortar gastos públicos. Com inflação de 6%, 7%, há aumento de salário que chega a 10%. A produtividade não acompanha — disse Rotenberg.

Sem saber o que havia dito Rotenberg, a resposta de João Carlos Brega foi semelhante:

— A inflação preocupa, principalmente a indexada, que está mais ligada aos salários, como o mínimo. Aumento de produtividade de 7% em um ano não existe, e há salários crescendo nessa magnitude — afirmou.

O dólar alto, como já dissemos aqui, tem sempre duas faces. Se ele ajuda as empresas ligadas à Abimaq, fazem mal à Positivo e a Whirlpool, que trabalham com componentes eletrônicos de preços internacionais, mesmo se foram fabricados no Brasil.

Retratinho do Brasil no FMI - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 22/01

Fundo faz alerta de riscos para 'países emergentes' em 2014; carapuça cabe bem no Brasil


NA REVISÃO das estimativas do FMI para a economia mundial, publicada ontem, há uma espécie de retratinho do Brasil. As perspectivas para 2014 estão ainda melhores para a média do mundo inteiro, mas não para o Brasil. Para piorar, vários dos trechos do pequeno relatório encaixam como uma carapuça puída na nossa cabeça.

Dado o histórico de erros, quando não perversidades, a gente tende a ler os textos do FMI com o pé atrás. Mas, sob o excelente e ponderado Olivier Blanchard (economista-chefe do Fundo), pode-se economizar nos grãos de sal.

De mais interessante, há o alerta de riscos para "economias emergentes". Em geral, os alertas não estão associados explicitamente ao Brasil. Porém, o retrato falado parece nos descrever. De resto, no caso do Brasil a revisão da estimativa de crescimento foi para baixo.

"Muitas outras economias emergentes e em desenvolvimento começaram a se beneficiar de uma demanda externa mais forte em economias avançadas e na China [que passaram a consumir e importar mais]", escreve o pessoal do FMI, não pensando no Brasil. Em muitas economias, porém, "incertezas de política [econômica]" e "gargalos" prejudicam os investimentos --como aqui.

Até agora, segundo o FMI, as reações à mudança da política monetária dos Estados Unidos, que começou em dezembro, foram pequenas. Mas realocação de investimentos financeiros e saídas de capital provavelmente devem ocorrer como resultado do fim do despejo de dinheiro do banco central (Fed) na economia americana. Isto é, o dinheiro deve migrar de "emergentes" para os EUA.

"Quando combinada com fraquezas domésticas, as consequências [da mudança nos EUA] podem ser saídas agudas de capital e ajustes da taxa de câmbio ("fuga" de dólares e desvalorização do real, como já temos visto)."

Não se trata de novidade que a banca mundial tem colocado o Brasil no grupo de meia dúzia de países mais sujeito a tais problemas.

Quais são essas "fraquezas domésticas"? Governos que suscitam dúvidas sobre sua capacidade de controlar suas dívidas (que têm déficits demasiados), além de inflação e deficit externos chatinhos.

O Brasil não apresenta números dramáticos nesses quesitos, mas as contas públicas pioraram nos últimos três anos, a inflação é persistente faz quatro e o deficit em conta-corrente cresceu rapidamente por meia década. Economias com tais deficiências "precisam administrar o risco de potenciais reversões do fluxo de capital".

O que fazer, na visão do FMI? Permitir que o real se desvalorize (o que tende a reduzir do deficit externo). Mas desvalorizações aceleram a inflação. O que fazer? Apertar a política macroeconômica (reduzir gastos do governo, elevar a taxa de juros), diz, para não variar, o FMI.

Enfim, isso tudo quer dizer que o Brasil está à beira de enfrentar uma fuga atropelada de dólares? Não. Além do mais, ninguém sabe do ritmo da mudança na política econômica americana, menos ainda da reação que tal mudança vai suscitar.

Ainda assim, mesmo que os EUA não nos causem tumulto maior, o diagnóstico a respeito das fragilidades brasileiras continua valendo. Enfim, no momento, grosso modo não temos alternativa à receita-padrão do Fundo.

Caçadores da credibilidade perdida - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 22/01


Diante do fracasso de sua política, o BC tenta, tardiamente, recuperar a credibilidade perdida


O BC surpreendeu os analistas ao elevar a taxa Selic para 10,50% ao ano na semana passada, enquanto a projeção da maioria (e minha também) era 10,25% ao ano. Só não chegou a ser uma surpresa completa porque os preços prevalecentes às vésperas da reunião do Copom embutiam uma probabilidade grande (mas não a certeza) do aumento de meio ponto percentual.

Com esse resultado, é bastante provável também que a Selic, ao final deste ciclo de aperto monetário, atinja 10,75% ao ano, o mesmo nível observado no início do atual governo, se não ainda um pouco mais elevada (talvez 11% ao ano).

Descontadas as (elevadas) expectativas para a inflação nos próximos 12 meses, a taxa real de juros se encontra ao redor de 4,5% ao ano, bastante superior aos 2% ao ano estabelecidos pela presidente como objetivo para seu governo, mas insuficiente para domar a inflação, que teima em permanecer na casa dos 6% (ou mais).

Precisamente em razão da resistência da inflação se espera que o BC seja forçado a um segundo ciclo de elevação da taxa de juros, devidamente passadas as eleições.

Para um governo que se propôs a fazer o país crescer forte, com inflação na meta e juro de 2%, os resultados observados nos últimos anos (todos sabemos, mas vale repetir: crescimento medíocre, inflação alta e sendo forçado a voltar atrás no seu objetivo de juros) deveriam levar a uma reflexão profunda acerca dos rumos de política econômica. Como não há a menor chance de que isso ocorra, ofereço as minhas ponderações, sem, é claro, nenhuma esperança de que sirvam para o aprendizado dos (ir)responsáveis de plantão.

Conforme alertei quando o BC promoveu o "cavalo de pau" na gestão da política monetária, em agosto de 2011, a redução na marra das taxas de juros nos custou muito. Mesmo com o "apito amigo" (a mudança no cálculo do IPCA, que reduziu o índice em 0,7% em 2012 e, mais recentemente, os contro- les dos preços administrados), a inflação não convergiu à meta. Pelo contrário, a tendência tem sido de aceleração.

Ademais, ao continuar reduzindo taxas de juros com a inflação em alta, o BC conseguiu demolir a credibilidade conquistada em anos anteriores. As expectativas de inflação, que antes se agrupavam ao redor da meta, hoje se situam confortavelmente acima dela, algo como 1,5 ponto percentual em 2014 e 1 ponto percentual no ano que vem. Apenas esse desenvolvimento já forçaria o BC a trabalhar com uma taxa de juros entre 1 e 1,5 ponto percentual a mais do que seria requerido caso tivesse mantido as expectativas sob controle, mas o impacto não se encerra aí.

Ninguém sabe o valor preciso, mas estima-se que, para trazer a inflação de volta à meta (e apenas ao fim de 2015), o BC teria que elevar a Selic para mais de 12% anuais ainda no primeiro semestre deste ano. Em contraste, se tivesse feito seu trabalho quando havia tempo e credibilidade para tal, hoje muito provavelmente poderia manter a Selic abaixo de 10% ao ano com a inflação controlada.

Não o fez por subserviência a um governo voluntarista que acredita dominar todos os botões necessários para controlar o funcionamento da economia, da taxa de juros ao retorno requerido pelos empresários na operação dos seus negócios, passando, é claro, pela taxa de câmbio "Cachinhos de Ouro", nem quente o suficiente para acelerar a inflação nem fria o bastante para desestimular a indústria nacional.

Diante do fracasso retumbante de sua política, o BC tenta, tardiamente, recuperar a credibilidade perdida. No entanto os limites à sua ação ficam claros na própria comunicação aos mercados. Ao sugerir que sua atitude mais dura se limita ao atual momento e evitar um compromisso mais forte com a meta de inflação, o BC revela não dispor da autonomia para fazer o necessário no campo da política monetária.

Da mesma forma que em 2011, tal política ainda há de nos custar caro, mas certas lições parecem nunca ser aprendidas.

Celso Ming-A alta da maré

O ESTADO DE S PAULO
Velho ditado inglês diz que é na maré baixa que aparecem aqueles que estão nadando pelados
Ao longo dos últimos três anos, o governo Dilma atribuiu o baixo crescimento da economia brasileira à crise mundial, ou seja, à maré baixa. Pois ontem, o Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou seu novo relatório sobre as perspectivas da economia mundial, com a boa notícia de que, depois de seis anos vazante, a maré está subindo. A previsão é a de que o crescimento global será de 3,7%, acima dos 3,0% de 2013, para o qual apontam os cálculos mais recentes (veja o gráfico).
Seria boa oportunidade para que o Brasil escondesse o bumbum exposto, porque, afinal, a melhora dos negócios implica aumento das encomendas, avanço das exportações e tal.
E, no entanto, mesmo com a melhora das promessas de recuperação global, as projeções para a economia brasileiras continuam decepcionantes. Em vez de crescer 2,5% e 3,2%, em 2014 e 2015, como projetado pelo FMI em outubro, o PIB do Brasil não avançará mais do que 2,3% e 2,8%, respectivamente, como consta no documento.
Ainda assim, são números melhores do que os apontados aqui pela Pesquisa Focus, o levantamento semanal feito pelo Banco Central com mais de cem institutos de análise do Brasil. O mais recente, divulgado dia 20, projeta um avanço do PIB de apenas 2,0% em 2014 e de 2,50% em 2015.
A informação mais preocupante não é a repetição de um desempenho baixo em mais dois anos. É o desempenho pior do Brasil não apenas em relação ao resto do mundo, mas, também, em relação aos emergentes. O México, por exemplo, deverá se expandir neste ano 3,0% e a África do Sul, 2,8%.
Até mesmo outro provérbio inglês sobre o mesmo tema ("quando a maré sobe, todos os barcos sobem junto") não é aplicável ao Brasil. O barco, bem mais pesado, não sobe com os demais.
O ritmo dos investimentos continua insatisfatório; o mercado de trabalho está esticado demais; a inflação alta e o rombo externo crescente são obstáculos para a melhora; e o ambiente reflete um desânimo bastante disseminado, o que também não ajuda.
De todo modo, as projeções ontem divulgadas não foram elaboradas pelos redatores de relatórios tupiniquins, supostamente atacados pela síndrome do pessimismo, como vem insistindo o governo. Foram elaboradas pelos analistas do FMI. Eles podem estar errados, como algumas vezes estiveram, mas são avaliações levadas em consideração pelos grandes centros globais de investimento e tendem a piorar a percepção, que já não é boa, a respeito do comportamento da economia brasileira.
Se o governo quer convencê-los do contrário terá de fazer mais do que simplesmente reforçar uma ofensiva de relações públicas, como a que está fazendo agora no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Terá de mostrar resultados, o que é mais difícil enquanto prevalecer a atual orientação do governo de não aprofundar soluções para não colocar em risco as eleições deste ano.

Roberto Damatta - Um comentário e dois fatos (final)

O Estado de S.Paulo
Na semana passada, meu amigo Richard Moneygrand comentava como a vida imita a arte a partir de um conto de O. Henry - um dos mais aguçados observadores da vida americana dos 1900.
Era a história de um sujeito que havia escolhido um estilo de vida marginal. Fugia do trabalho, morava nos parques e, por isso, passava os invernos na prisão.
Tal como o sujeito que se entregou à polícia diante do tenebroso inverno americano estampado nos jornais de hoje, o personagem da ficção de ontem planejava passar o inverno no agasalho de um xadrez
O interessante é que O. Henry revela como pode ser complicado ser preso, diz Moneygrand, retomando a história. Ele tenta todas as rotinas e quando, no limite, decide assediar uma moça para ser posto na cadeia, ela lhe oferece um programa!
Desesperado pela frustação, o malandro descobre a paz de uma igreja onde se ouve um cântico religioso. Comovido pela música, ele decide mudar de vida. Quando caminha em direção ao seu novo destino, encontra cara a cara com um guarda. "O que você está fazendo?", pergunta o homem da lei. "Nada!", responde o regenerado, recebendo voz de prisão pela vagabundagem que o levou, tal como ele planejava, à contraditória segurança de uma prisão (americana, é claro!).
Renovamos as bebidas.
- E o caso de Lady Gaga salvando o rapaz que queria suicidar-se? Pergunto ao meu amigo.
Aqui - diz Moneygrand -, a vida surge na potência dos encontros entre os extremos sociais. De um lado, a celebridade na qual projetamos tudo de bom (ela existe precisamente para isso); e, do outro, alguém vivendo a terrível experiência de chegar ao fundo do poço.
Quando os extremos se encontram, você testemunha o drama das relações polares: os gênios encontrando os pobres de espírito; os poderosos encontrando os comuns; os muito ricos diante dos miseráveis. Os santos (que vivem a paz da eternidade) aparecendo para os puros de coração (que, entretanto, convivem com a mortalidade e o sofrimento).
O mundo real treme e soluça nesses encontros.
*
Se você visitar, prosseguiu o meu amigo, na Universidade de Nova Caledônia o Bar dos Veteranos, lá - depois de uns copos de cerveja - todos vão lhe explicar "a teoria do sucesso". Ela tem três proposições ou princípios:
1. Você sabe que tem algum sucesso quando alguém o reconhece em algum lugar. 2. Você sabe que tem muito sucesso quando todos o reconhecem em todos os lugares. 3. Você sabe que é uma celebridade quando as pessoas duvidam que você esteja no lugar onde elas estão!
Isso ajuda a compreender o desejo de tocar no ídolo e o arrebatamento dos "fãs". Uma palavra que vem de fanático - aqueles que aderem a uma divindade e por ela se consideram inspirados. Ora, o fanzoca de hoje é uma encarnação do velho devoto.
Aquele que situa o seu ídolo numa esfera superior. Daí a convulsão do encontro pessoal que suprime a distância. Supressão sempre delicada porque se ao famoso é atribuído aquilo que nos falta; pode também acontecer a descoberta que, de perto, a celebridade é uma besta quadrada.
Contaram-me que quando o "artista de cinema" Errol Flynn veio ao Rio, uma mulher escondeu-se no seu guarda-roupa e o assediou quando ele queria dormir. A celebridade não tinha a posse de si mesmo.
Um outro folclore cerca a mãe do cantor Tony Bennet. Ela estava gravemente enferma num hospital quando, no rádio, ouviu uma entrevista de Frank Sinatra que era indagado sobre quem seria o maior cantor dos Estados Unidos. Quando a moribunda ouviu Sinatra responder: Tony Bennet! -, ela imediatamente ficou boa e deixou o hospital.
Finalizo, disse o prof. Moneygrand, com uma parábola verdadeira, escrita pelo próprio santo no seu diário. No caso, o grande ator shakespeariano Richard Burton, que foi casado com Elizabeth Taylor (considerada a atriz mais linda do mundo), conforme ele próprio conta no livro The Richard Burton Diaries publicado pela Yale University Press em 2012.
R. Burton fazia um passeio de iate pelo lado mais pobre da Sardenha quando ele e seu grupo resolveram assistir a uma pelada de futebol jogada pelos jovens do local. Foram para a praia até que um dos jogadores, muito excitado, disse para os amigos: "É Richard Burton. É ele! É verdade, é verdade!". Felizmente, diz o autor, não acreditaram nele e o grupo ficou em paz. Mas um residente incrédulo comentou, certamente movido pelo quilate do santo, "O que, afinal de contas, Richard Burton, poderia estar fazendo naquela merda de lugar?".
Revelação profunda de como a celebrização e o vagabundo que não põe a coroa de espinhos do pobre explorado são feitas pelas pessoas banais que, afinal de contas, tocam o mundo. E, ainda por cima, amam os oprimidos pelo poder, pelo dinheiro e pelo talento.

segunda-feira, janeiro 20, 2014

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO


Emenda parlamentar é só um cheque sem fundos

Para mostrar prestígio em Brasília, anualmente senadores e deputados trombeteiam a destinação de emendas ao Orçamento da União para sua base eleitoral, dinheiro “carimbado” para obras de pequeno vulto, como escola, ponte, uma pequena estrada, desde que não ultrapasse o limite de R$ 15 milhões. Mas é tudo jogo de cena: a maioria das emendas jamais é executada, como cheque pré-datado sem cobertura.

Merreca. 

Dos R$ 232,9 milhões em emendas da bancada do Distrito Federal, em 2013, somente 11% (ou R$ 26,9 milhões) foram executados e pagos.

Aliado?
 Ser governista não garante liberação de emenda: o deputado Policarpo presidente do PT-DF, não executou nenhum tostão no ano passado.

Zero.
 Estado de políticos influentes, como senador Renan Calheiros, Alagoas não viu um só centavo dos R$ 500 milhões destinados por emendas.

Enganação.
 Nesse faz-de-conta, políticos fingem nos palanques que têm a ver com recursos previstos no orçamento e liberados sem a intervenção deles.

‘PEC do FBI’ divide agentes e delegados da PF
A Câmara analisa proposta de emenda criando a carreira única para a Polícia Federal. A proposta é chamada pelos agentes federais de “PEC do FBI”, porque tornaria a PF parecida com a norte-americana. Já os delegados da PF batizaram a proposta de “PEC do Trem da Alegria”, porque abre caminho para agentes virarem delegados federais sem se submeter a concurso público específico para ingresso na carreira.

Nove cargos. 
O FBI não tem uma carreira única. A famosa agência americana possui mais de 9 cargos diferenciados e não “carreira” ou cargo único policial.

Sabonete. 
O presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO), se esquiva quando o tema é eleição ao governo fluminense: “O Rio de Janeiro continua lindo...”

Topo do ranking.
 Para Lincoln Portela (PR), o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), ainda é o nome mais forte para disputar o governo de Minas.

Dois coelhos. 
Dilma atendeu às preces diretas do governador Sérgio Cabral (PMDB), aprovando o procurador Flávio Willeman para juiz efetivo do Tribunal Regional Eleitoral do Rio. E reconduziu à suplência o juiz relator dos recursos envolvendo Cabral e o vice, Pezão, candidato a governador.

Haja cargo. 
Para acalmar o apetite de aliados como PTB, PMDB, Pros e PSD, a presidenta Dilma conta não apenas com os ministérios, mas também com o segundo escalão, estatais de pe$o, nas negociações.

Viva o roquefort.
 O acordo mais relevante fechado por François Hollande no Brasil, em dezembro, libera a importação de queijos do tipo roquefort. Beócios da burocracia brasileira proibiam a importação por não ser “pausterizado”.

Milagre, não. 
O PMDB tenta convencer o PT de que, ao assumir em março, o vice Luiz Fernando Pezão ganhará de 25% a 30% nas pesquisas para o governo do Rio. Mas em política não há espaço para milagres.

Assunto de jerico. 
Os branquelos da Noruega, da Dinamarca e da Inglaterra devem estar pensando em se pintar de preto para vir à Copa, com o atual esforço de ministros oportunistas para abrir uma perigosa guerra racial.

Novo líder. 
Preocupado em fazer cirurgia de desvio de septo antes de pegar fogo a campanha ao governo do Rio, o líder do PR, Anthony Garotinho, pediu para Bernardo Santana (MG) assumir a liderança em 15 de fevereiro.

Convivência.
 Para Jô Moares (PCdoB), maior prova do “federalismo de cooperação” defendido pelo governador Anastasia (PSDB-MG) é que ninguém foi vaiado nem ovacionado em evento com Dilma e Márcio Lacerda (PSB).

Assédio. 
Em meio ao assédio após anunciar verba para mobilidade urbana em Minas, a presidente Dilma pediu a prefeitos que enviassem ao Planalto as demandas: “São tantas cobranças que não vou me lembrar depois”.

Pensando bem...
...Dilma, que vai à Suíça nos próximos dias, poderia dar um “rolê” na conta secreta do mensaleiro condenado fugitivo Henrique Pizzolato.

O PODER SEM PUDOR

Tancredo e as namoradas

Tancredo Neves articulava apoio à sua candidatura presidencial, em agosto de 1983, e saía do seu escritório com Ulysses Guimarães para um encontro secreto na casa do importante político, na QL 8 do Lago Sul. Tancredo brincou com a curiosidade dos jornalistas:
- Arranjamos umas namoradas e vamos encontrá-las secretamente...
- Aonde? – perguntou uma repórter.
- Na QL 8 do Lago Sul, ora – respondeu, para espanto do dr. Ulysses.
Ninguém acreditou e eles seguiram para a reunião. Na QL 8 do Lago Sul.

Truques & riscos - AÉCIO NEVES


FOLHA DE SP - 20/01

O conhecido "jeitinho brasileiro" ameaça ganhar status de política de Estado, tal a frequência com que tem sido usado como estratégia de repaginação dos indicadores macroeconômicos. Os exemplos vão se acumulando, dia a dia.

Para calcular a inflação, nada melhor que contar com o controle político sobre preços administrados em setores estratégicos. E por que não atrasar a transferência de R$ 7 bilhões a Estados e municípios, inclusive recursos voltados para a saúde pública, prejudicando milhões de brasileiros, para dar a impressão de que cumpriu-se o superavit primário?

A inventividade do governo parece não ter limites.

É preciso reconhecer a habilidade dos truques contábeis e o uso de artifícios para melhorar a performance das contas públicas. Se há brechas legais, parece que a ordem é aproveitá-las.

Neste campo instalou-se um autêntico vale-tudo, como a estarrecedora operação da Caixa Econômica Federal, ainda sob grave suspeição, na transferência de recursos de contas de caderneta de poupança pretensamente inativas para engordar o seu balanço. É a velha tática: "se colar, colou"...

O resultado da economia brasileira certamente seria melhor se o esforço gasto em maquiar números fosse efetivamente aplicado no aperfeiçoamento da gestão. Instituições que guardam histórico compromisso com o rigor, a transparência e o profissionalismo, como o Banco Central, estão cada vez mais isoladas diante do descontrole fiscal generalizado e, não por acaso, patinam na implementação do ajuste necessário para amenizar o ambiente inflacionário.

"Estamos no limiar de um novo ciclo econômico do Brasil", disse o ministro da Fazenda, para justificar o injustificável. A verdade é que, infelizmente, o Brasil está perdendo oportunidades preciosas de ativar o seu crescimento, como a Copa, pródiga em promessas de realizações e pífia em resultados, até o momento.

Os investimentos em infraestrutura são praticamente inexistentes, em face ao que foi prometido. Em termos de desempenho, o que temos a mostrar à comunidade internacional, para nossa vergonha, é o segundo pior crescimento na América do Sul, atrás apenas da Venezuela.

A desconfiança generalizada da sociedade não é uma peça ficcional criada pelos críticos do governo, mas o resultado de uma gestão ineficaz, pouco transparente e incapaz de reintegrar o país a uma rota de desenvolvimento e de ampliação das conquistas sociais.

É urgente agir, com coragem e responsabilidade, para não permitir que o país retroceda e coloque em risco as conquistas que nos trouxeram até aqui.

Uma das principais, a credibilidade, nem mesmo o "jeitinho brasileiro" foi capaz de assegurar. Esta, infelizmente, já perdemos.

Atrás das grades - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 20/01

Graças ao avanço das comunicações e a conivência de autoridades, os criminosos dirigem as ações de dentro do presídio para serem executadas fora dele.
A administração nas penitenciárias passa a ser feita por facções de criminosos que concorrem com o Estado, e o resultado não é difícil de antever.
Hoje, o problema não é simples nem fácil. A população carcerária não é do melhor perfil e pode ser do menos bom, do mesmo modo que o elemento externo nem sempre estará qualificado a exercer as necessárias atribuições específicas que lhe cabem; as qualidades do servidor comum não são bastantes a quem deve servir nos setores penitenciários. Nem são ideais as relações que, por vezes, senão muitas vezes, se estabelecem entre os presidiários e seus guardas. Enfim, não é necessário ser especialista para intuir que as qualificações dos servidores lotados no serviço de carceragem não poderiam ser vulgares. Se as relações entre o preso e o que deve guardá-lo são complexas, o problema se centuplica consideradas as condições dos presídios. De maneira geral, são deficientes em todos os sentidos, o primeiro deles, visível a olho nu, decorre da habitual superpopulação carcerária.
Suponha-se que o melhor hotel da cidade, com a capacidade para receber 300 hóspedes, tivesse de acomodar 600 ou 900. É evidente que o melhor hotel instantaneamente se converteria no pior. Mutatis mutandis é o que vem ocorrendo com os presídios. A antiga Casa de Correção de Porto Alegre foi disso exemplo ilustrativo. Claro que o problema não é insolúvel, contudo, a primeira dificuldade está na carência de recursos financeiros e na existência do número de necessidades a satisfazer. É natural que o administrador seja levado a deixar para depois a construção de um presídio que, embora necessário, não se compara com outras obras, mais palatáveis ao gosto popular. O fato é que, de um modo geral, em todos os Estados os presídios foram ficando para melhor oportunidade, agravando-se a deficiente quando não a má qualidade dos seus serviços.
Não faz muito, um titular do Ministério da Justiça determinou fosse apurado, Estado por Estado, quando fora construída a última cadeia e o resultado foi penoso, razão porque o ministro, com apoio do seu presidente, se dirigiu a todos os governadores propondo-lhes construir uma cadeia no seu Estado. O plano foi cumprido à risca, um em cada Estado. Era o mínimo e deveria ser o começo, mas o ministro deixou de ser ministro e não houve a esperada continuidade. Essas e outras dificuldades são conhecidas, mas verificar que em alguns Estados os detentos estão amontoados é indefensável e imperdoável. Ora, isto não pode continuar.
Eis senão quando um fato veio acrescentar elemento novo ao pungente quadro conhecido; entidade veio a constituir-se aglutinando dois tipos, os condenados e por isso detentos e os que se encontram fora do presídio, porque não condenados; aqueles planejam o empreendimento e estes em liberdade são os executores dos planos traçados; não demorou que um segundo grupo decidiu instalar-se na mesma área e entrou a disputar com o anterior a primazia de sua exploração, resultando feroz concorrência entre ambos e têm sido divulgadas notícias de eliminação por parte de um ou outro, até mediante degola. É inacreditável.
A triste verificação é esta: a população vivendo em casas gradeadas, o crime ditando ordens de dentro dos presídios, a segurança ausente, enfim no século 21 é forçoso reconhecer: todos estamos atrás das grades.

O governo Dilma e os mercados - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS


VALOR ECONÔMICO - 20/01

Um analista de economia precisa ter uma combinação pouco comum de dons. Precisa ter conhecimento profundo de vários domínios e combinar talentos que não se encontram em um mesmo homem com frequência. Precisa entender de matemática, história, pensar como homem de Estado e ser filósofo em certa medida. Precisa compreender os símbolos e se exprimir por palavras. Precisa pensar no particular, mas nos termos do geral e abordar o abstrato e o concreto dentro do mesmo processo de pensar. Deve estudar o presente à luz do passado e com vista para o futuro. Nada na natureza do homem ou de suas instituições pode escapar de sua atenção. Ele precisa ser ao mesmo tempo resoluto e desinteressado; ele deve ser distante e incorruptível como um artista e, ao mesmo tempo, algumas vezes tão terra a terra como um político. John Maynard Keynes, 1930

O texto acima foi escrito há 84 anos e faz parte de um pequeno livro editado recentemente na França. Lido na fria e quase deserta Cidade Luz na primeira semana de um ano novo, ele teve um impacto muito forte em mim. Trouxe uma quase necessidade de voltar a ler alguns dos textos mais importantes deste extraordinário economista que moldou minha forma de pensar as questões econômicas. Mas, voltei bruscamente ao mundo de hoje quando de maneira surpreendente o presidente da República Francesa - François Hollande - fez declarações públicas comunicando que iria mudar de forma estrutural sua política econômica. Algo na linha do Choque de Capitalismo do governador Mario Covas e que lançado de maneira inesperada - quando ainda era governador do Estado de São Paulo - causou perplexidade na ala mais à esquerda do PSDB.

A diferença principal entre estes dois momentos é, entretanto, muito grande e, na linha do que escreveu Keynes nos anos 30, precisa ser devidamente qualificada. O Partido Socialista Francês é uma das referências da esquerda democrática por sua história de lutas e pela rigidez de sua ideologia econômica. Para ele o Estado deve ser a grande força condutora da economia, reservando ao setor privado e aos mercados um papel subsidiário e menor. E o presidente francês fez sua carreira política em um dos grupos mais à esquerda do espectro político do PS francês. Vivendo hoje um momento de muita fragilidade na opinião pública, e convencido de que o caminho trilhado até agora não levará a uma recuperação sustentada da economia, decidiu por uma saída quase revolucionária. Uma repetição clara do chamado cavalo de pau na economia anunciado pelo então todo poderoso chefe da Casa Civil do presidente Lula em 2003.

A diferença principal é que no caso do PT em 2003 havia um modelo alternativo e pronto a ser seguido. François Hollande terá que recuar ainda mais no tempo e buscar na Alemanha de Helmut Schmidt, o chanceler socialista nos anos noventa do século anterior, uma fonte de inspiração. Mas o maior obstáculo que o presidente francês encontrará serão as diferenças históricas entre seu povo francês e o alemão. Lula, no Brasil de 11 anos atrás, lidava com o mesmo povo.

Mas não quero aqui tratar das questões francesas e alemãs. Temos no nosso Brasil desafios suficientes para que eu gaste este meu espaço para refletir sobre os problemas de outras sociedades. As palavras de Keynes na abertura desta coluna - o analista precisa pensar no particular mas nos termos do geral - abrem, no meu entender, o caminho para trazer ao leitor algumas reflexões para o futuro usando o cavalo de pau francês como referência. A questão de fundo sobre a qual devemos refletir é qual deve ser o equilíbrio entre Estado e mercados em uma sociedade como a brasileira neste início de século.

Qual a função de um e do outro? Quais os limites de intervenção do Estado na economia e como organizar a liberdade dos mercados para que funcionem com eficiência sem excessiva concentração de renda? Quais são os exemplos exitosos nos quais devemos nos inspirar? Na Alemanha dos sindicatos poderosos ou nos Estados Unidos da liberdade total dos contratos de trabalho privados? A China, de um comunismo hoje apenas virtual e em desmonte acelerado, pode ou não trazer algum ensinamento a nós brasileiros? E os anos Lula de Meirelles vis a vis o governo bem mais centrado na intervenção do Estado da presidente Dilma, pode ele nos ensinar alguma coisa? Vale a pena o governo fazer luta de classes na sua relação com o mercado como vêm pregando alguns membros mais radicais do PT?

Estas são questões que trouxe na minha bagagem de analista das coisas da economia e que pretendo desenvolver este ano. Afinal, se ocorrer a reeleição da presidente Dilma para mais um mandato de quatro anos, não está claro qual caminho dos citados acima ela vai trilhar. As hipóteses são duas: tomar o exemplo francês como referência e refazer o equilíbrio dos anos Lula ou manter os conflitos que hoje separam a política econômica do Palácio do Planalto dos mercados.

Apenas uma última palavra aos leitores, principalmente aos mais agitados com o estado atual da economia brasileira: leiam com profundidade o relatório de 33 páginas da agência de rating Fitch sobre a economia brasileira e que manteve inalterado o rating BBB da dívida externa.

Gélidas lembranças - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 19/01

Quem está com a razão, os que dizem que o planeta está esquentando ou os que dizem que está esfriando?


Eu, que nasci numa cidade tropical, que ali me criei a uma temperatura média de 27 a 30 graus Celsius --isso nos períodos mais amenos--, não é que um dia me encontrei na cidade de Moscou enfrentando uma temperatura de dez graus abaixo de zero? Avalia só como me sentia ali eu que, no inverno carioca, se o frio chegasse a 16 graus, pensava que ia virar picolé. É nisso que dá se meter em política.

Confesso que quase pensei isso, quando me vi metido em ceroulas de lã, calças, suéter, cachecol, paletó e capote, que pesavam muitos quilos. Isso sem falar na "chapka" --aquela touca de lã que desabotoa e protege o rosto quando o vento frio se torna insuportável. E os lábios? Se você os deixar expostos, racham.

Lembrei disso na semana passada, quando vi na televisão as cidades norte-americanas soterradas sob a neve. A televisão mostrou cidadãos apreensivos, temendo que a temperatura baixasse ainda mais. Já estava, em alguns lugares, por volta de 50 graus abaixo de zero. É temperatura da Sibéria, pensei comigo.

Enquanto isso, no Brasil, estávamos sobrevivendo a uma sensação térmica de 50 graus acima de zero. É impossível não perguntar o que ocorre com o nosso planeta. No final das contas, quem está com a razão, os que dizem que o planeta está esquentando ou os que dizem que ele está esfriando? Quero achar que está esfriando, mas, tendo que tomar um banho a cada meia hora, fica difícil acreditar nisso. A verdade é que nesse assunto particular nem os cientistas se entendem.

Querendo ou não, a memória insistia em me levar para Moscou, onde, naquele ano de 1970, o inverno chegava. Minha preocupação diminuiu quando o chefe de nosso coletivo informou que íamos receber roupas especiais para enfrentar o frio do inverno russo.

Mas minha tranquilidade durou pouco. Antes de dormir, imaginava o futuro que me esperava naquela cidade que nada tinha a ver com minha origem tropical.

Quando o inverno chegou para valer, encontrou-me metido nas ceroulas de lã, na camiseta de lã, nas calças de lã, no suéter, no paletó, no capote grosso e pesado, tão pesado que, se tivesse que andar mais de uma quadra, morreria de cansaço. De qualquer modo, antes cansado do que morto.

A sorte é que passava o dia todo na escola do partido, escutando a lição dos professores ou conversando com os companheiros na lanchonete. A última coisa que eu queria era sair à rua, a não ser quando as aulas terminavam e era já noite, porque, no inverno, ali, anoitece às três da tarde.

No percurso da escola à "abchejite" (uma espécie de pensão de estudantes), se estivesse ventando então, era barra pesada. Meu nariz esfriava tanto que tinha a impressão de que, se desse um peteleco nele, quebrava, caía no chão. Claro que um comunista está no mundo para o que der e vier, razão pela qual evitava formular a pergunta que de vez em quando assomava à mente: que diabo vim eu fazer nesta cidade gelada? Só parei de perguntar quando conheci uma russa de olhos azul-violeta, linda como um sonho, e que só nasce em cidades geladas como Moscou.

Pois bem, e não é que inventaram de nos levar a um passeio em Leningrado, ainda mais frio que Moscou?

Ali topamos com uma temperatura de 30 graus abaixo de zero, o que nos foi anunciado quando o trem se aproximava da cidade, ao amanhecer. À noite, iríamos ao teatro Bolshoi para assistir ao balé famoso no mundo inteiro.

Ao sairmos do hotel, fomos advertidos de que não devíamos fumar na rua. Estranhei, mas a tradutora explicou: "Com 39 graus abaixo de zero, se você puxa o ar frio pela boca, ganha uma pneumonia". Apaguei o cigarro.

Mas ao chegarmos ao teatro, não havia onde estacionar, tivemos que sair do carro e correr uns 50 metros até a entrada, o suficiente para nos congelarmos. Quando entrei no hall, meu paletó parecia uma placa de gelo; se batesse nele, partiria em pedaços, escrevo eu, agora, no Rio de Janeiro, suando em bicas.

sábado, janeiro 18, 2014

Breve, uma temporada de reprises - ALBERTO DINES


GAZETA DO POVO - PR - 18/01

Nossa democracia, com apenas 29 anos, terá o privilégio nas próximas semanas de reencontrar-se com dois de seus marcos históricos: o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, iniciado em 31 de março de 1964, e o formidável movimento popular para restabelecer a normalidade política, o “Diretas Já”, lançado em janeiro de 1984 e cuja apoteose deu-se em 16 de abril, no comício do Vale do Anhangabaú, São Paulo, considerado o maior de nossa história, com a participação de quase 2 milhões de manifestantes.

As duas penosas décadas desfilarão praticamente juntas, recapituladas e compactadas num oportuníssimo showroom político entre o fim de março e meados de abril. Serão possivelmente atualizadas com passeatas, “rolezinhos”, “rolezões” e outras modas e manias atiçadas pelas insatisfações e o início da controversa Copa do Mundo em junho-julho.

Estudada, debatida, exercitada, testada, a democracia é obra em construção – aberta, incompleta, interminável, imperfeita, porém a melhor já inventada para regular as relações entre cidadãos.

Enquanto não chega a temporada de releituras e revisões, devemos examinar com atenção e cautela os desdobramentos da agenda política com o olhar e a disposição de estudantes em aulas práticas. Tudo à nossa volta tem a ver com a proteção e/ou o aperfeiçoamento do processo democrático. Somos todos herdeiros de Alexis de Tocqueville (1805-1859), jurista e sociólogo francês deslumbrado com o cotidiano do processo democrático na América do Norte.

Nosso noticiário cotidiano converteu-se numa espécie de guia prático de um transcendental tratado sobre democracia. A decisão do TSE de impedir o Ministério Público de investigar infrações eleitorais, o esforço de partidos para manter doações de empresas para o financiamento de candidaturas, a formação de coligações com o único fim de aumentar o tempo de exposição na tevê, o esforço para acabar com o voto obrigatório, a incontrolável multiplicação de partidos, a resistência de repartições públicas em adotar o estatuto da transparência informativa e a desobediência de magistrados às decisões do CNJ são alguns dos tópicos de uma extensa pauta de inspiração autoritária que corre impunemente nas cortes, legislativos, antessalas, gabinetes e corredores de governantes sem que soem os indispensáveis alarmes.

A crença de que a continuidade do calendário eleitoral e a posse dos eleitos são suficientes para garantir o pedigree democrático do Estado produz equívocos trágicos: a Rússia parece uma democracia – é uma caricatura –, o recente plebiscito egípcio sugere uma legítima consulta popular – é uma farsa. A oligarquia Sarney já dura 48 anos: tem 19 anos mais que a nossa democracia e os seus mecanismos de alternância no poder. O golpe preventivo aplicado pelo general Henrique Lott em novembro de 1955 garantiu a posse de JK, mas abriu caminho para quarteladas “bem intencionadas”.

O Estado de Direito, intangível, intocável, não pode conviver com transgressões, mesmo microscópicas, ou inofensivas ambiguidades. Logo descobriremos os porquês.

CLAUDIO HUMBERTO

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Rolezinho não é caso de polícia, é caso de presença da juventude”
Ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) sobre a arruaça juvenil em shoppings


OPOSIÇÃO VAI DENUNCIAR PRESÍDIO-AÇOUGUE À OIT

Opositor da oligarquia da família Sarney no Maranhão, o Solidariedade elabora dossiê para denunciar à Organização Internacional do Trabalho (OIT) as precárias condições de trabalho de funcionários no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, onde presos foram decapitados em motim no fim do ano. Segundo advogado Rodrigo Lago, há denúncias de que cerca de 80% do quadro são terceirizados e ganham ínfimos R$ 900 por mês.

VIDA EM RISCO

Lago explica que, além da falta de proteção do Estado, os terceirizados não fizeram treinamento para lidar com bandidos de alta periculosidade.

MAU CHEIRO

O documento deverá denunciar ainda a insalubridade do presídio, onde policiais militares tiveram de cobrir o nariz para aguentar o mau cheiro.

SEM CHANCE

Para o presidente Simplício Araújo (SDD-MA), se Roseana Sarney não terminou hospitais em três anos, imagina construir presídio em 60 dias.

FAZENDA DOS BICHOS

Enquanto José Genoino finge pobreza e faz “vaquinha” para pagar multa judicial, Henrique Pizzolato alimenta “bezerro de ouro” na Suíça.

SECRETÁRIO SE INSINUA ‘ESCOLHIDO’ E IRRITA CAMPOS

O governador pernambucano Eduardo Campos (PSB) interveio irritado, quinta (16), para impedir uma crise na sua equipe, após o secretário de Governo, Tadeu Alencar, “vazar” que havia sido escolhido candidato à sucessão do chefe. Pelo menos outros dois pretendentes querem apoio de Campos para governador. Do tipo que se dá excessiva importância, Alencar é conhecido pela arrogância com subordinados e até aliados.

NOMES FORTES

Mais três do PSB querem o governo de PE: o vice João Lira, ex-ministro Fernando Bezerra e Paulo Câmara, secretário da Fazenda.

VIABILIZANDO-SE

Como secretário de Governo, Tadeu Alencar cuida da agenda política de Eduardo Campos, mas desde 2013 criou sua própria agenda.

CORTE & COSTURA

Parentes de Eduardo Campos como a mãe, ministra Ana Arraes (TCU), têm simpatia pela candidatura de Tadeu Alencar.

ESCONDENDO O JOGO

Ex-dirigente do PT, ex-diretor do Banco do Brasil no governo Lula e figura central na ladroagem do mensalão, Henrique Pizzolatto fugiu do Brasil dizendo-se “injustiçado”. Mas com 2 milhões de euros na Suíça.

AÍ TEM COISA

O PSB estranhou a coincidência entre o anúncio do prefeito Márcio Lacerda de que não disputará governo de Minas e a visita de Dilma a Belo Horizonte, ontem, liberando verbas para mobilidade urbana.

SUPERAVIT CRUEL

Além da suspeita de encerrar poupanças da Caixa para fazer um lucro maroto, depois distribuído a funcionários, o governo pode ter cortado até verbas do SUS para fabricar superavit primário de R$ 75 bilhões.

BOLICHE DA POLÍTICA

No PMDB, lideranças dizem que Dilma fez um strike: derrubou de uma vez só o apoio de Vital do Rêgo (PB), descartado para o comando da Integração, e o de Eunício Oliveira (CE), ao prestigiar irmãos Gomes.

DORMINDO COM INIMIGO

O deputado Augusto Coutinho deverá convidar o presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG) para o primeiro encontro regional do Solidariedade, marcado para 21 de fevereiro na terra de Eduardo Campos (PSB).

FISGANDO PELO ESTÔMAGO

Adversários na briga pela liderança do PMDB ano passado, Eduardo Cunha (RJ) sondou Sandro Mabel (GO) sobre assumir o Ministério da Agricultura, já que seu plano é disputar Prefeitura de Goiânia em 2016.

BRIGA INTESTINAL

O fotógrafo oficial da Presidência, Roberto Stuckert Filho, anda às turras com os seguranças. Chegaram a negar-lhe carona no comboio oficial após evento com Dilma. Ele acabou tendo de pegar um táxi.

NEM PISARÁ LÁ

O PMDB aposta que a presidente Dilma vai optar pela neutralidade nas eleições em MS, onde governador André Puccinelli (PMDB) enfrentará Delcídio Amaral (PT), isolado no PT após presidir a CPI do Mensalão.

BANCO DE TALENTOS

Contratado para a assessoria da CUT, o mensaleiro-presidiário Delúbio Soares seria melhor aproveitado na contabilidade criativa da entidade.


PODER SEM PUDOR

UMA LINDA PRINCESA

Nos início dos anos 80, a Áustria doou os restos mortais da princesa Tereza Cristina ao Museu do Ipiranga. Chegada triunfal: banda de música, guarda de honra etc. No alto da escada do avião, surgiu Emanuel Masserani, assessor do deputado monarquista Cunha Bueno. Ele desceu devagar, com o cuidado de mordomo: nas mãos, a pequena urna dos restos da princesa. Ao pé da escada, Paulo Maluf, governador, achou aquilo tudo meio ridículo:

- Ô, Masserani, como vai a nossa princesa? - perguntou, irônico.

Ele abriu um sorriso, revirou os olhos para o alto e respondeu, extasiado:

- Linda, senhor governador, lin-da!

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