quarta-feira, janeiro 15, 2014

Fogo nos ônibus, clima quente - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 15/01

Em São Paulo, incêndio de ônibus se torna 'protesto' mais comum, nem sempre criminoso


QUEIMAR ÔNIBUS parece ter se tornado uma forma de protesto. Ao menos há mais ônibus queimados em protestos nas periferias de São Paulo.

As estatísticas são escassas e recentes, e o esclarecimento policial dos casos, idem, mas os registros indicam que o recurso ao incêndio como meio de iluminar "questões públicas" se tornou mais comum neste país que se diz social e economicamente mais estável. Isso numa cidade sob certo aspecto menos violenta.

Na Região Metropolitana de São Paulo, a taxa de homicídio caiu a menos de um quarto da do início do século. 0 total anual de homicídios caiu da casa de 11 mil para a de 3.000.

Mas a panela de pressão social está fumando, de modo explícito, pelo menos desde meados de 2013. Exemplos: protestos contra o transporte ruim, manifestações gigantes contra tudo, capilarização dos protestos pelas periferias, black blocs, a animosidade ideológica causada pelos rolezinhos etc.

Em São Paulo, queimam-se ônibus para protestar contra mortes de inocentes, mortes de supostos bandidos, a violência policial, a falta de ônibus e até contra a falta d'água.

Muitas vezes não sabe nada de autoria e motivo. Outras, fica difícil distinguir os incêndios cometidos por bandidos do protesto de pessoas iradas em reação a alguma violência. Foi o caso, por exemplo, do tumulto devido à morte de um rapaz na zona norte de São Paulo, pela arma de um PM, em outubro.

O motivo deste comentário é, claro, o incêndio de ônibus que se seguiu às chacinas múltiplas e até agora mal esclarecidas na periferia de Campinas. No entanto, neste ano, foram incendiados pelo menos 11 ônibus em São Paulo. Em 2012 e 2013, a queima andou pela casa de 53 por ano. Em 2011, 25. Em 2009-2010, pela metade disso.

Nos casos menos obscuros deste 2014, a maioria dos ônibus foi queimada por grupos de pelo menos 6 e até 15 homens. Os ataques ocorrem, também na maioria, quase dois terços, no extremo das zonas leste e sul. Alguns ocorreram em reação à violência (desaparecimento de criança, criança baleada em tiroteio envolvendo polícia, protesto genérico contra insegurança, morte de acusados de tráfico, protesto "contra a proibição de bailes funk", diz a polícia).

A queima de 50 ou 60 ônibus numa cidade imensa como São Paulo é motivo de alarme? Não, mas as queimas são alarmes. Isto é, não parece se tratar nem de longe de uma onda de tumulto. Mas as explosões de fúria localizada subiram de tom.

Incendiar ônibus era (ainda é) um dos meios de causar terror nas cidades, estratégia adotada por facções criminosas em cidades grandes, embora não apenas. Vimos isso em São Paulo de 2006 e 2012, no Rio de 2002 e 2003, vimos em Santa Catarina, vimos agora no Maranhão.

Identificar, porém, motins periféricos com atos do crime organizado é enterrar a cabeça na areia, assim como é cegueira ignorar que o crime não raro se mistura no protesto. Parece ser esse o caso de Campinas, agora, ou aquele da zona norte de São Paulo, no ano passado.

As explosões de ira, mais ou menos incendiárias, parecem aleatórias. Mas o clima parece um tanto quente desde o inverno passado.

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