terça-feira, janeiro 07, 2014

Vai que é sua, Felipão Roberto Pompeu de Toledo

Veja - 06/01/2014
 
Ágil como nem os mais ágeis órgãos da imprensa, esta coluna já se encontra em condições de apontar como homem do ano, versão 2014, o cidadão Luiz Felipe Scolari. Grave responsabilidade pesa sobre os ombros desse simpático senhor. Scolari consegue a proeza, rara para um técnico de futebol, de ser mais popular do que a maioria dos jogadores. Lá está ele, desde já, nos anúncios da TV, no agradável afã de extrair o máximo de rendimento de mais um de seus grandes anos. O apelido "Felipão" aproxima-o da intimidade de cada família brasileira. Seu jeito é o do tiozão preferido, do colegão da firma, do amigão do bar (tudo nele termina em "ão"). Sua expressão corporal, traduzindo os mais diversos estágios de emoção, durante um jogo, compõe um espetáculo que compete com o que ocorre no interior das quatro linhas, e reforça a conclusão de que hoje em dia vê mais e vê melhor quem vê futebol pela TV. Ao se pôr patrioticamente à frente, mais uma vez, do ajuntamento de expatriados conhecido como seleção brasileira, Felipão repete um papel que conhece de sobra. Com uma diferença: desta vez, pesa-lhe a responsabilidade de também ter sob sua batuta a ordem política e social do país.
Muito já se disse e redisse sobre a influência ou falta de influência de uma Copa do Mundo sobre as eleições no Brasil. A questão tornou-se ainda mais pertinente depois que Copa e eleições passaram, desde 1994, a ocorrer no mesmo ano. Cotejando os resultados de uma e outra, de lá para cá, chega-se à conclusão de que não — não há influência entre derrota na Copa e vitória da oposição ou, inversamente, vitória na Copa e vitória do governo. Ocorre que 2014 apresenta duas características a singularizá-lo: (1) a Copa se realiza no Brasil; e (2) o ano se abre ainda sob o impacto das manifestações de junho de 2013 e no temor (ou esperança) de que a qualquer momento elas venham a se repetir. É nesse quadro que avultam, em dimensão maior do que em qualquer outra ocasião em sua carreira, as responsabilidades do cidadão Scolari. O Instituto Pompeu de Imprevisíveis Previsões (Ipip) trabalha com dois cenários, para o período entre o momento em que a bola começar a rolar e aquele em que os brasileiros irão às urnas.
Cenário 1. O Brasil do Felipão começa bem, passa pela primeira fase e, melhor ainda, envereda pelas fases seguintes. As tímidas manifestações ocorridas nos dias iniciais da Copa esvaziam-se na mesma medida em que colhemos vitórias nos gramados. A atenção do país pelo que ocorre nas quatro linhas redobra à medida que avançamos rumo à final. Não sobra para mais nada. Pode ser até que venhamos a perder a final. É ruim, mas, em todo caso, chegamos vivos até o fim do campeonato, e com as ruas desimpedidas de manifestantes. O eleitorado vai às urnas de bom ou mau humor, mas sem influência da bola.
Cenário 2. O Brasil do Felipão começa hesitante. Supera a primeira fase — afinal, não dá para ser desclassificado num grupo em que os adversários são Croácia, México e Camarões —, mas já nas oitavas de final encontra um adversário difícil e cai. Ou, então, supera-o a duras penas e cai nas quartas de final. Em ambos os casos, somos prematuramente postos fora de combate, e as manifestações, que começaram tímidas, avolumam-se. Com mais força do que antes, os brasileiros despertam para o pesadelo dos estádios suntuosos, das obras superfaturadas, dos desmandos da CBF, da arrogância da Fifa — tudo isso a troco de preparar uma festa da qual já não participam. Não bastassem os antigos males, são agora os trouxas condenados a assistir em casa a uma folia privativa de alemães e espanhóis, ingleses ou italianos, e ainda por cima pagar as contas que restam. As manifestações, cada vez mais maciças, prosseguem mesmo depois da Copa, e seus reflexos prolongam-se até as vésperas das eleições. O eleitorado vai às urnas com o humor alterado pelo ocorrido nos gramados.
Meio bonachão e meio malandro, meio valentão e meio candura, Felipão é um brasileiro de manual. Outro brasileiro de manual, o ex-presidente Lula, boa-praça e emotivo, falastrão e macunaímico, sonhou em aplicar o mais sensacional dos golpes na mais prezada de suas artes, que é a arte da marquetagem, ao trazer a Copa do Mundo para o Brasil. O ano de 2014 vai encontrar dois brasileiros de manual atados ao mesmo destino.

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