Entrevista:O Estado inteligente
Ciclo de baixa - MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 28/06
A Ambev teme a tsunami tributária que se abaterá sobre a indústria de bebidas nos próximos anos. A Cielo acha que o país está vivendo seu segundo ano de crescimento em torno de 2%, apesar de acreditar em melhora no fim do ano. A alta do dólar ajuda alguns setores, mas a volatilidade provoca postergação de investimento. A desaceleração afeta as empresas de forma diferente.
O ciclo de desaceleração continua. Nos últimos meses, a previsão de crescimento dos bancos consultados pelo Boletim Focus do Banco Central caiu de 3,3% em média para 2,18% e não se sabe se a descida chegou ao fim. Cada setor sente de forma diferente o aperto da economia.
Na Ambev, o que preocupa é o cronograma de aumento de impostos previsto para o setor nos próximos anos. Serão altas sucessivas, até 2015, com a primeira carga em outubro deste ano, quando a incidência de IPI e PIS/Cofins ficará 19% maior sobre cervejas e 10% maior sobre refrigerantes. O vice-presidente de Relações Corporativas da empresa, Milton Seligman, acredita que o setor é punido pela sua eficiência, enquanto outros estão ganhando facilidades porque estavam com problemas.
- Temos uma tsunami tributária programada para o setor de bebidas nos próximos anos. Isso vai anular todo o ganho de produtividade dos últimos sete anos e travar investimentos. Nosso problema não é o câmbio nem a crise na Europa, mas o aumento de impostos. Em nome de bons resultados em outros setores, penaliza-se aqueles que estavam bem - disse.
Seligman acha que o governo deveria usar os benefícios que concede a alguns setores para exigir contrapartidas das empresas, sejam elas econômicas, sociais ou ambientais. E é preciso perícia para que o empresário não fique acomodado com as medidas e as restrições à competição:
- Os incentivos setoriais são importantes e devem acontecer para quem está com mais dificuldade. Mas o governo deve exigir alguma contrapartida, em termos de inovação, por exemplo. O benefício não pode levar à acomodação do empresário.
José Paulo Aleixo Coli, vice-presidente e diretor financeiro da Latina, fabricante de linha branca, contou que mensalmente participa de uma reunião com empresários de oito setores da economia:
- Na última, apenas um setor, o farmacêutico, estava otimista, todos os outros tinham visões negativas.
Para combater esse ambiente é que o governo faz tanto pacote. Em cada um deles, os empresários são chamados ao Planalto, há discursos e algumas medidas. Todas elas juntas mostram que o governo não tem visão estratégica. É uma política econômica hiperativa e sem resultados. O pacote de ontem é estranho, para dizer o mínimo. O governo anunciou com fanfarras que vai comprar carteiras escolares, blindados, ambulâncias e coisas assim.
A crise na Europa ficou mais intensa; as famílias brasileiras tomaram muito crédito nos últimos ano, e está aumentando a inadimplência. O crescimento do PIB vem perdendo ritmo. As empresas têm investido menos.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostra que os empresários estão insatisfeitos com o momento presente, mas que apostam num futuro melhor. O índice das condições atuais mede 47 pontos e o das expectativas está mais alto, em 62 pontos. A conversa com os executivos revela que eles estão preocupados, mas acreditam em um quadro melhor no fim do ano.
O presidente da Cielo, Rômulo Dias, diz que a desaceleração só não foi pior até agora porque o Banco Central começou a cortar juros em agosto do ano passado. Ele explica que as máquinas da Cielo, ao registrar as compras e vendas do cotidiano, servem também como termômetro do nível de atividade. As transações desaceleraram por duas vias: entrada menor de novos consumidores usando cartão e vigor menor no consumo.
- Temos um pulso do que acontece com o nível de atividade, e há uma desaceleração. Mas ainda prevemos crescimento de dois dígitos este ano para o nosso setor. O PIB deve aumentar o ritmo no final do ano, mas fechará 2012 no mesmo patamar de 2011. Teremos dois anos mornos, com o PIB na casa de 2% - disse. O vice-presidente da Relações com Investidores e Sustentabilidade da Whirlpool, Armando Valle, explicou que a redução de IPI para a linha branca manteve as vendas e isso garantiu um primeiro trimestre muito forte. Mas em abril houve uma queda brusca, que causou apreensão. Em maio, os números melhoraram:
- Nosso segmento teve um primeiro trimestre muito bom, com alta entre 10% e 15%; uma queda muito forte em abril; e recuperação em maio. Em abril teve início a discussão sobre os spreads e isso criou uma confusão na cabeça das pessoas. Houve parada para ver o que iria acontecer. Mas estamos entre os empresários otimistas.
José Paulo Aleixo Coli acha que a alta do dólar não ajudou por enquanto porque a volatilidade no mercado de câmbio está provocando postergação dos investimentos. - Até o momento, o ano está muito pior do que o esperado. A capacidade do governo de investir é pequena, o consumidor está endividado, o discurso oficial é confuso, a Europa está em crise. O que percebemos é que há uma piora muito grande no clima.
A política econômica hiperativa, mas sem rumo, não está conseguindo reverter o quadro.
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