Entrevista:O Estado inteligente

domingo, setembro 04, 2011

Mundo piora, BC agradece VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 04/09/11

Sucesso da política do BC do Brasil depende de mais ruína econômica mundial. Por ora, vai dando certo

A SEMANA até que terminou bem para o Banco Central do Brasil. Quer dizer, más notícias colocaram azeitonas na empada do comunicado que o BC divulgou ao talhar os juros. O texto dizia que a economia mundial vai para o vinagre, rápido.
As notícias de sexta-feira indicam que o BC está bem cotado para o troféu Cassandra, uma moça troiana que deveria ser padroeira de economistas, pois ao contrário deles era capaz de ouvir o futuro (embora ninguém acreditasse nela).
De mais óbvio, soube-se na sexta que o saldo de novos empregos de agosto foi zero nos Estados Unidos.
Ficou claro que os bancos europeus captam dinheiro a prazo cada vez mais curto, com taxas no nível ainda ruim de meados de 2009. Dinheiro europeu continua a vazar para os Estados Unidos. Bancos do continente dependem de transfusões de sangue do BC Europeu -dinheiro para tapar o caixa.
A fogueira por ora branda, mas contínua da crise bancária europeia foi avivada pelas notícias ruins da economia americana e mais ainda pelo processo que a Agência Federal de Financiamento Imobiliário (FHFA) passou a mover contra 17 bancões da Europa e dos EUA.
Essa agência do governo americano administra as quebradas e em 2008 estatizadas Fannie Mae e Freddie Mac, nome fantasia de empresas meio privadas, meio estatais, de refinanciamento imobiliário.
Tais empresas compraram de bancos centenas de bilhões de títulos lastreados em hipotecas, os "que deram origem à crise" de 2008.
A FHFA diz que Fannie e Freddie compraram gato por lebre, papéis de alto risco vendidos como coisa segura pelos bancões. Bidu.
Qual o problema? Instituições como o Bank of America (BofA), o maior dos EUA, já perdem bilhões em processos devido a papéis imobiliários podres. O BofA entrou nessa fria ao comprar uma megafinanceira imobiliária toda enrolada no pior da bolha, a Countrywide.
Tais prejuízos, como outros, podem reduzir o capital dos bancos. Menos capital, menos empréstimos, menos lucros. Perdas grandes poderiam em tese exigir que bancos levantem mais capital, talvez por meio de venda de novas ações, o que reduz o direito a dividendos dos atuais acionistas. A ação do banco pode então perder graça e preço.
Tudo isso ainda é especulação. Mas o mercado acredita nela. As ações do BofA caíram 45,5% neste ano (o Dow Jones caiu 2,9%). Seus pares maiores americanos tomaram tombos menores, mas ainda na casa de 20%, 30%. Ações de grandes bancos franceses e britânicos recuaram, no ano, entre 30% e 40%.
Enfim, houve a revisita da crise da dívida da velha senhora, a Grécia. Na sexta, FMI, União Europeia e Banco Central Europeu cortaram a conversa sobre a nova parcela do empréstimo tapa-buraco grego.
A Grécia diz que vai ter recessão de 5% neste ano e, portanto, seu deficit será maior que o combinado com a troika. Coisa de € 1 bilhão, ninharia, mas FMI, UE e BCE acham que os gregos estão enrolando as privatizações e as "reformas" prometidas. Querem pressioná-los.
Mas vão fazer o quê? Deixar a Grécia dar calote? Os europeus querem ver os gregos pelas costas, claro.
Porém, se a Grécia desmorona, Portugal e Itália vão em seguida, arrastando a banca do continente. E o crédito na economia mundial.

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