Mudanças DANUZA LEÃO
FOLHA DE SP - 11/09/11
Tem razão quem diz que uma mudança é o terceiro maior estresse pelo qual um ser humano pode passar
Existem pessoas que moram a vida inteira na mesma casa, sem nem mudar o sofá de lugar, e são muito felizes. Já para outras, cada uma tem prazo de validade, e enquanto esse prazo não está esgotado, exercem sua inquietação quebrando paredes, trocando os móveis de lugar. Meu limite são sete anos, e, quando chega a hora, imagino que estou também trocando de vida; de modo de viver, digamos. E achando, sempre, que a próxima será a definitiva; nunca é, mas gosto de pensar assim, porque adoro escolher minhas ilusões.
Há duas semanas me mudei, e não foi fácil. Como meu novo apartamento é menor, tive que esvaziar os armários e muita gente ficou feliz com as heranças. Parte dos livros foram doados a um sebo -alguns eu nunca tinha lido, outros nem sei por que estavam na estante; fiquei só com os do coração, a mesma coisa com os CDs. Basicamente, eliminei o supérfluo; aliás, quem precisa de supérfluos?
A cada objeto, cada blusa, cada prato, foi preciso decidir: levo ou cancelo? Tomar uma decisão já é difícil, mas dezenas, durante dias, eu chamo de sofrimento. Afinal, tudo que eu tenho -tinha- foi escolhido, comprado com cuidado, querendo muito, e uma separação é sempre dolorosa, mesmo que seja de coisas. Para mim, é.
Mas consegui, já estou instalada, e tem razão quem diz que uma mudança é o terceiro maior estresse pelo qual um ser humano pode passar. O pior já foi, e agora estou vivendo uma nova fase: ainda não me habituei à casa nova. Quando abro os olhos de manhã, preciso de uns segundos para saber onde estou, o que é meio angustiante, e percebi que estou fazendo uma certa cerimônia com a casa. Evito sentar no sofá novo e ainda não consegui descer para conhecer as redondezas.
Meus planos eram perfeitos: como estou perto da praia, descer todas as manhãs bem cedo para tomar uma hora de sol e, à tarde, dar uma volta, ver o mar, beber uma água de coco. Até agora, não consegui. Apesar de estar a quatro quarteirões de onde morava, me sinto uma estrangeira.
Mas dois fatos que aconteceram me fizeram rir muito. Era hora do almoço, precisei falar com o porteiro, aquele que tem quebrado meus galhos; liguei pelo interfone, perguntei por ele, e ouvi a seguinte resposta "foi jogar bola, só volta às 2h". Que maravilha; em que país do mundo, em que cidade do mundo, um porteiro aproveita a hora do almoço para jogar bola? Mas ainda teve melhor: dois dias depois, procurei de novo por ele, e a resposta foi ainda mais fantástica. "Foi dar um mergulho, volta às 2h." Só no Rio.
Rio esse, aliás, que se comportou estranhamente mal no 7 de setembro. Houve manifestações contra a corrupção em várias cidades do país, Brasília brilhou; no Rio, nada. Mas soube que vão acontecer passeatas na cidade, tomara.
A coisa mais bacana foi não terem deixado nenhum partido mostrar faixas com a sigla, para ficar dono da manifestação. Os únicos políticos que têm o direito de participar -e devem- são os nove senadores que se declararam, publicamente, contra a corrupção. PS - Esse agora famoso cargo de ministro do TCU, tão disputado pelos deputados Aldo Rebello e Ana Arraes, mãe do governador de Pernambuco Eduardo Campos -que conseguiu até o apoio do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab-, é o emprego com que todos sonham: vitalício e com um bom salário, para que o ungido não precise se preocupar com o futuro.
Eduardo Campos é o filho que toda mãe gostaria de ter.
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