O GLOBO - 02/07/11
O caso Dominique Strauss-Kahn já foi tudo: acusação de ataque sexual, crise na maior organização financeira internacional, discussão sobre governança global, mudança radical do cenário político francês. Ontem, entrou em nova fase. A partir de agora, pode haver uma reviravolta no cenário político da França e um aumento do antiamericanismo francês.
Difícil imaginar na ficção uma sucessão tão surpreendente e espetacular de fatos como a do caso DSK. Ontem, solto e com US$ 1 milhão de volta ao bolso, ao lado da inabalável Anne Sinclair, Dominique ainda tinha de carregar várias incertezas e sequelas: perdeu o cargo mais importante das finanças internacionais, perdeu o posto de favorito nas eleições francesas, e ainda tem de esperar até 18 de julho para uma nova audiência. O caso permanece aberto a novas surpresas.
Jack Lang, o ex-ministro da Cultura francês, disse que ontem era um dia feliz não apenas para seu amigo Dominique Strauss-Kahn, mas para "a França". O ponto delicado agora é este. Se DSK for inocentado das acusações contra ele, o antiamericanismo vai aumentar na França. Ontem, os socialistas já diziam que os Estados Unidos demonstraram um grave problema no seu processo porque os policiais teriam tratado um inocente como criminoso. Condenado antes das investigações, na dúvida, a Polícia teria agido contra o réu, causando danos irreversíveis. "Não se pode brincar com a honra e a dignidade das pessoas", disse Jack Lang.
Se as acusações contra ele de fato caírem, Strauss-Kahn poderia voltar a ter um papel na eleição francesa de abril do ano que vem? Lang acha que sim, que ele jogará um papel central nas eleições. E a mesma frase foi repetida por outros socialistas que ontem estavam entre a comemoração, o alívio, e as articulações políticas diante da reviravolta.
Mas que candidato seria DSK depois disso? Dependendo do desenrolar do processo, ele poderá jogar com o sentimento nacionalista ultrajado, mas sempre terá pontos fracos para serem explorados pelos adversários. Dois meses antes das eleições, a linda Carla Bruni, mulher do seu principal adversário, Nicolas Sarkozy, estará tendo o filho do casal que hoje está no poder na França. As cenas da família feliz sempre vão atrair a atenção da mídia francesa e mundial.
Ainda que o processo desmorone pelas contradições apresentadas pela camareira na investigação, durante os últimos meses outras mulheres disseram ter sido assediadas por ele. Na França, não há a mesma obsessão pela vida privada dos políticos, pelo contrário, mas este caso é público e tratado de forma espetacular desde o início: o mundo inteiro o debate. Pelo teor da carta dos promotores aos advogados de DSK, sabe-se que a camareira do hotel do grupo francês Sofitel, em Nova York, mentiu seguidamente para as autoridades americanas e mudou suas versões sobre o que houve no quarto 2806. Mas nada do que está ali impede que seja verdadeira sua acusação de ter sido atacada. A dúvida vai pairar sempre durante a campanha.
Os possíveis candidatos do Partido Socialista reagiram ontem da mesma forma: dizendo que suspenderiam o processo de escolha de quem vai concorrer à presidência, caso ele seja solto. A dúvida é se ele estará em condições de formalizar sua candidatura até o dia 13, que é o prazo final de registro.
No cenário em que ele seja completamente inocentado, o sentimento antiamericano entre os franceses será alto. Afinal, ele foi localizado porque ligou para o hotel - o que não é o comportamento de um culpado - e foi exibido num espetáculo que o fez perder o cargo e, possivelmente, a presidência da França. Por isso, até os seus mais ardorosos defensores no Partido Socialista diziam que ele ainda jogará um papel importante nas eleições, mas acrescentavam: "sendo ou não candidato".
O terremoto DSK paralisou o FMI no momento mais dramático da crise europeia, o que agravou o problema grego. Em seguida, provocou um grande debate sobre o monopólio que a Europa exerce no controle do cargo de diretor-gerente do FMI. Ao fim, a mesma França continuou no posto pela fraqueza dos concorrentes e pela não aceitação da candidatura de Stanley Fischer, barrado por ter dois anos a mais do que o limite de 65 anos. O que o caso mostrou é que caducou a norma que dá à Europa o cargo como se fosse um trono. Isso num momento em que o continente é o mais dependente dos recursos do Fundo, e em que os países ricos vêm perdendo ano após ano participação no bolo da economia global. Ficou claro que, diante da crise e da surpresa do evento, o mundo emergente aceitou que Christine Lagarde fosse nomeada, mas claramente o FMI terá de modernizar sua governança.
O caso é tão rumoroso que pode ter novos surpreendentes desdobramentos que mais lembrarão os inverossímeis lances de um folhetim, mas o que já se sabe é que: o FMI agora é dirigido por uma mulher pela primeira vez, que provavelmente ela será sucedida por um não europeu porque o reinado do continente caducou, e que a eleição da França de 2012 será mesmo emocionante. Com Álvaro Gribel
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