O Estado de S.Paulo - 15/02/11
Costumo começar meu dia rezando uma linda oração de São Patrício, padroeiro da brava Irlanda. Ela diz assim: "Meu Deus, dê-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar o que eu puder e sabedoria para perceber a diferença".
Fui educada prestando atenção ao mundo à minha volta: criaturas racionais e criaturas irracionais. Naturezas criadas por Deus: a nossa e a outra. Bem distintas,, aliás. A nossa, a humana, tem consciência de si, capacidade de raciocinar, criar e decidir. Nosso mais precioso dom é a liberdade. A outra natureza não tem nenhuma dessas características. Nossa liberdade de decidir gera responsabilidades. Uma delas não vem sendo levada a sério: a de não estragar a obra do Criador. Respeitar a natureza, vegetal, animal, mineral. Proteger as águas. Defender, e sustentar, tudo o que foi criado para garantir a nossa presença no planeta. É o legado que o Criador confiou aos nossos cuidados.
Tão grave quanto matar, roubar, mentir, praticar crueldades é agredir, devastar e desrespeitar essa outra natureza, da qual dependemos para sobreviver. Nosso planeta, nossas terras, nossos ares, nossas águas, nossos animais, nossos alimentos.
Infelizmente, porém, a natureza humana sucumbe muitas vezes diante de suas próprias fraquezas. Nós mesmos criamos nossas calamidades. Nós mesmos, agredindo a outra natureza, provocamos nela as catástrofes que desabam sobre nós.
O meio ambiente não tem como se defender. Um gato será sempre um gato. Uma trepadeira não muda seu destino. Os rios correm sempre em busca do desaguadouro, não sobem colinas e montanhas. As chuvas formam-se sempre pelo mesmo processo e seguem, inexoravelmente, as regras ditadas pela Terra e pelo Sol. É claro que, em muitos casos, alguns desses clamorosos desastres não dependem da ação dos humanos. Terremotos, maremotos, tsunamis, tufões, tornados, geleiras, icebergs, tudo isso não depende da ação do homem.
Mas o conhecimento das tragédias naturais, bem estudado e bem divulgado, pode ajudar muito na hora de se proteger. Providências podem ser tomadas. Defesas podem ser erguidas. Bens podem ser resguardados. As autoridades devem ter meios para impedir que vilas se instalem em áreas vulcânicas, cidades cresçam perigosamente à beira-mar, estradas sejam erradamente projetadas, favelas se multipliquem no cocuruto ou nas encostas de morros geologicamente inseguros ou às margens de rios, cujos níveis sobem sempre, assustadoramente, nas épocas de chuvas.
Todos os anos, em vários países, no auge da seca, incêndios devastam tudo morro acima e torrentes destroem tudo morro abaixo, na época chuvosa. Em muitos deles há todo um programa de enfrentamento. As providencias já estão todas a postos e as pessoas estão treinadas. Se as pessoas forem previdentes, e se prepararem bem, os sofrimentos serão menores. Em pleno século 21, é inadmissível que nossas grandes metrópoles ainda vivam à mercê de chuvas de verão! É criminosa a leniência das autoridades diante dessas catástrofes anunciadas. As torrentes devastadoras nas serras do Rio de Janeiro estão registradas, fartamente, em livros e documentos, desde os primórdios de nossa colonização. Continuarão a ser problema insolúvel?
Em 1960, quando Carlos Lacerda assumiu o governo do Estado da Guanabara, o Rio sofria com vários problemas até então insolúveis. Ele listou os desafios como suas principais metas. Acabar com a falta d"água que, por quatro décadas, atormentava a vida dos cariocas. Acabar com a fila de pais e mães, madrugada adentro, para matricular os filhos na rede pública de ensino. Acabar com as enchentes, já nas primeiras chuvas de verão. Retirar das áreas de risco a população favelada. Retirar das áreas de mata atlântica as edificações instaladas contra a legislação.
Para isso Lacerda criou a Cohab. Providenciou recursos e poderes para os geólogos da Sursan mapearem as áreas de risco da cidade. Construiu novas redes de esgotos e galerias pluviais. Criou a Comlurb, que até hoje é a mais moderna e ágil empresa de coleta do lixo e limpeza urbana do País.
Cinco anos depois, quando Carlos Lacerda deixou o governo, não faltava mais água em todo o Estado da Guanabara. O sistema do Guandu foi considerado, no livro Guinness de 2009, a "maior obra de engenharia de captação, tratamento e distribuição de água do século 20". Todos os rios e canais estavam limpos e desassoreados. Mais de 25 mil ex-favelados já estavam morando em bairros ótimos, na Vila Aliança, na Vila Kennedy e na Vila Esperança. Os morros, liberados, devidamente reflorestados.
Para azar nosso, administrações que vieram depois conseguiram a façanha de convencer a opinião pública de que é maldade retirar favelados de áreas de risco! Aqui, e fora daqui, os "coronéis urbanos" morrem de medo de perder seus currais eleitorais... Morador ilegal é matéria-prima preciosa para o populismo e a corrupção. Prova disso tivemos, aqui, em 1983. Usando de total arbítrio, contra todas as leis e posturas municipais, Leonel Brizola autorizou construções de alvenaria em todas as favelas. O exemplo correu o País. Traficantes, milícias e cabos eleitorais adoraram. As consequências foram trágicas. Na natureza humana, cidadelas do crime. Na natureza ambiental, a degradação. O solo, agredido, desmorona. Assoreados, os rios se enfurecem. Aterros e lixões deslizam morro abaixo. A culpa é da natureza, dizem as compungidas autoridades, já correndo atrás de verbas. A lama seca. As lágrimas, talvez. As vidas perdidas não voltam. Mas as próximas eleições municipais já começam a ser assunto. A natureza humana vai, de novo, agredir a outra natureza.
PROFESSORA, JORNALISTA, FOI DEPUTADA FEDERAL CONSTITUINTE, FUNDOU E PRESIDIU O BNH NO GOVERNO CASTELO BRANCO
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