A explosão de um gasoduto no Sinai, em Cheikh Zouwayed, a dez quilômetros da Faixa de Gaza, e que abasteceria Israel, foi o toque de realismo no 12º dia de protestos contra o governo de Hosni Mubarak, no Egito. Mesmo sem haver uma confirmação oficial, a primeira versão era de que os radicais islâmicos aproveitaram o vácuo de poder para começar seus ataques.
Somente nos próximos dias saberemos qual a dimensão desse ataque, ou se foi mesmo um ataque terrorista. Mas que ele serve aos interesses dos que querem manter Mubarak no poder, sob a alegação de que ele representa um equilíbrio conhecido na região, isso serve.
Não foi à toa que o ainda presidente Hosni Mubarak fez uma reunião de emergência com seu renovado ministério, ao mesmo tempo em que mandou prender vários membros do antigo gabinete.
Quer manter a aparência de poder e, ao mesmo tempo, reforçar a ideia, que já transmitiu ao próprio presidente dos Estados Unidos Barack Obama, de que sua saída do poder pode levar ao caos na região.
O megainvestidor George Soros, presidente Open Society Foundation (Fundação Sociedade Aberta), que apoia a democracia e os direitos humanos em mais de 70 países, tratou da questão mais delicada na região em recente artigo publicado no jornal "The Washington Post".
Ele acha que, embora Israel tenha tanto a ganhar quanto os Estados Unidos com a disseminação da democracia no Oriente Médio, o país não reconhece essa oportunidade que surge, porque a mudança é muito brusca e traz consigo muitos riscos.
Além disso, diz Soros, alguns apoiadores de Israel nos Estados Unidos são mais rígidos e ideológicos que os próprios israelenses.
Soros relembra as diversas advertências pessimistas que vêm sendo feitas em relação à possibilidade de haver eleições democráticas no Egito, desde a possibilidade de fraudes eleitorais comandadas pelo Exército até a ameaça de interrupção do suprimento de petróleo na região.
Soros chama a atenção, no artigo, para uma verdadeira vingança que a direita religiosa arma contra o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, mas o encoraja a ajustar sua política à nova situação e a apoiar as mudanças que a sociedade egípcia pede.
No artigo, o megainvestidor George Soros admite que a situação na Tunísia é mais favorável ao desenvolvimento da democracia, já que o país tem uma classe média razoavelmente desenvolvida, e as mulheres já têm maiores direitos e oportunidades que na maioria dos países muçulmanos.
A complexidade da sociedade egípcia, se ajudou a mobilização de massa através dos novos meios tecnológicos, como o Facebook, o Twitter, por outro lado torna mais difícil a liderança do movimento, que une classes de alta educação a povo sem instrução; classes médias e altas a muito pobres, velhos e jovens.
Soros adverte que, em uma eleição democrática, a Irmandade Muçulmana tem muita chance de se fazer representar com força no novo Parlamento, o que lhe dará voz nas decisões, embora dificilmente vá ser majoritária.
O acordo anunciado entre o prêmio Nobel da Paz, Mohamed ElBaradei, e a Irmandade Muçulmana é um sinal, para George Soros, de que pode haver um entendimento entre as diversas forças políticas do país.
Essa também é a linha de ação do governo dos Estados Unidos, que já mantém conversações com auxiliares diretos de Mubarak, como o vice-presidente Omar Suleiman, o preferido para comandar um governo de transição, mesmo com o ditador egípcio ainda formalmente como presidente.
As negociações têm um ponto delicado, que é o de encontrar uma saída para Mubarak que não o obrigue a sair foragido do país.
Uma das alternativas seria ele viajar para revisão médica que faz anualmente na Alemanha, deixando o caminho livre para negociações com a oposição, incluindo a Irmandade Muçulmana, banida há anos pelo governo, mas que passou a ser citada por várias autoridades, nos últimos dias, num sinal de reconhecimento de sua importância política.
O que se discute, no momento, são maneiras de limitar o poder de decisão de Mubarak e removê-lo do palácio presidencial. Há planos de colocá-lo na sua casa à beira-mar, em Sharm el Sheik, fazendo com que as negociações possam acontecer sem que seja preciso mudar a Constituição para que o vice-presidente tenha poder de decisão.
Se Mubarak insistir na ideia de "morrer no Egito", a casa de Sharm el Sheik pode se transformar em seu último refúgio. Mas nem todos admitem que o ditador continue no país, entre eles Mohamed ElBaradei, que considera indispensável que Mubarak sai do governo e do país "agora".
Ele está mais empenhado em negociar diretamente com representantes do Exército, para garantir uma transição pacífica.
Nas conversas, ElBaradei defende a tese de que não é possível dar tanto tempo a Mubarak, enquanto a economia sofre com a crise que já vai para sua terceira semana, com o país parado à espera de definição política.
O desfecho da crise já parece estar decidido. A questão, agora, é saber em quanto tempo se chega a um acordo que permita avançar na tentativa de implantar um governo democrático no Egito.
Se vitorioso nessa empreitada, os Estados Unidos, que continuam sendo o espelho em que se miram os demais países ocidentais, terão reafirmado seu poderio político através da promoção de valores, não das armas.
Se fracassar, o presidente Barack Obama estará reforçando a imagem que os republicanos radicais fazem dele, a de um líder inexperiente e ingênuo, um Carter turbinado pelas redes de relacionamento social.
FONTE: O GLOBO
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