O GLOBO
O Irã cultua duas heranças, que moldaram expressões distintas de nacionalismo. O Império Persa, de Ciro e Dario, o mais poderoso de seu tempo, funcionou como mito de origem para o regime modernizante, autoritário e próocidental do xá Reza Pahlevi. A Pérsia islâmica medieval, xiita e sufista, berço de sábios corânicos, de notáveis gramáticos, linguistas e juristas, é a fonte de legitimação do Estado teocrático, tradicionalista e antiocidental implantado pela Revolução Iraniana de 1979.
O ato inaugural da política externa de Barack Obama foi o discurso de abertura para o Irã, que encerra três décadas de hostilidade declarada entre Washington e Teerã.
De Jimmy Carter a Bill Clinton, os EUA persistiram na estratégia de dissuasão dupla indireta, utilizando a rivalidade entre Irã e Iraque para sustentar um cenário de equilíbrio de poder no Golfo Pérsico. A Guerra Irã-Iraque (1980-1988), deflagrada por um Saddam Hussein apoiado tanto por Washington quanto por Moscou, conteve o impulso inicial da revolução xiita, à custa da inflação das ambições iraquianas. Na Guerra do Golfo (1991), George H. Bush absteve-se de derrubar Saddam Hussein, para não remover o contraponto regional ao Irã. George W. Bush, o filho, encantado pela visão cruzadista dos neoconservadores, eliminou o ditador iraquiano em 2003, destruindo os frágeis pilares da ordem no Oriente Médio.
Os neoconservadores imaginaram a ocupação do Iraque como o prelúdio da reforma geopolítica no Oriente Médio.
O Iraque se converteria no principal parceiro dos EUA no Golfo Pérsico, enquanto os regimes iraniano e sírio, enquadrados no "eixo do mal", seriam arrastados pela avalanche da mudança.
O discurso de Obama é o reconhecimento da falência da Doutrina Bush.
Hoje, Washington precisa de Teerã para evitar o desastre no Afeganistão e impedir a desestabilização do Iraque. A política realista toma o lugar do voluntarismo arrogante, neoimperial, que cobria sua nudez com os trapos de uma bandeira de liberdade.
"Af-Paqui" é o código pelo qual os estrategistas americanos começam a se referir a um teatro único de guerra abrangendo Afeganistão e Paquistão, um Estado em crise estrutural, cujo governo não exerce controle sobre os territórios tribais da fronteira ocidental que servem como santuários para os jihadistas do Talebã e da Al-Qaeda.
As linhas logísticas que cruzam o Paquistão, por onde passam três quartos dos suprimentos não letais destinados às forças ocidentais no Afeganistão, encontram-se virtualmente estranguladas por ataques jihadistas. No fim de janeiro, Jaap de Hoop Scheffer, o secretáriogeral da Otan, solicitou dos EUA uma parceria com o Irã, um antigo rival do regime Talebã, para a cooperação na guerra afegã. Interpelado sobre o uso do território iraniano na diversificação de rotas de suprimentos, o supremo comandante da Otan, general John Craddock, admitiu que a aliança militar "está em busca de rotas flexíveis, alternativas". Obama precisa do Irã, na hora em que começa a dobrar, para 60 mil, o número de tropas americanas no Afeganistão.
Os arautos remanescentes da Doutrina Bush, depois de errar em todas as previsões que fizeram sobre a ocupação do Iraque, difundem entre os desinformados a tese do sucesso do surge , o reforço de tropas promovido por Bush em 2007. Os generais americanos sabem, contudo, que a precária estabilidade iraquiana derivou da conjunção de uma nova estratégia política com a influência moderadora do Irã. Os EUA renunciaram à meta de erguer um Estado iraquiano fundado no monopólio da violência legítima pelo governo central e armaram as lideranças tribais sunitas em ruptura com a Al-Qaeda. Paralelamente, em nome de seus próprios interesses, que não incluem a implosão territorial do Iraque, o Irã jogou seu peso para conseguir uma trégua nas ações das correntes xiitas extremistas iraquianas. Agora, a cooperação de Washington com Teerã emerge como a melhor chance de evitar que a retirada das forças americanas coincida com um mergulho do Iraque rumo à catástrofe.
O caráter incendiário e repulsivo das proclamações do presidente Mahmoud Ahmadinejad não reflete a natureza do regime iraniano, que é extremamente realista quando está em jogo a sua própria segurança. As mazelas econômicas do Irã, até há pouco escondidas pela exuberância dos preços do petróleo, já se traduzem em crescente descontentamento popular.
A república islâmica, para se afirmar como potência regional, precisa reformular suas relações com os EUA e a União Européia. O alto clero xiita, que controla as rédeas do poder, não está em posição de rejeitar por inteiro o gesto de aproximação de Obama.
Mas o Irã não baixará suas bandeiras a troco de nada. Ele pode negociar a evolução de seu programa nuclear, sem desistir da obtenção de tecnologias com intrínseca dupla finalidade, civil e militar. Além disso, não dinamitará a rede de influência que criou no Oriente Médio, assentada no tripé formado pela Síria, pelo Hezbollah libanês e pelo Hamas palestino. A reconstrução de um processo de paz entre Israel, os palestinos e a Síria é o mínimo que Teerã espera de Washington. Obama fracassará se não confrontar o novo governo israelense, que renega até mesmo o compromisso de princípio com a solução de dois Estados na Palestina.
O Israel negacionista de Benjamin Netanyahu e Avigdor Lieberman afigurase como o elemento disfuncional na grande estratégia imaginada por Obama para o Oriente Médio. Há muito, oficiais da comunidade de defesa israelense indicam que, quando o programa nuclear iraniano alcançar o ponto de não retorno, nada evitará um ataque unilateral ao Irã. Antes, isto podia ser interpretado como mera chantagem diplomática. Agora, adquire as feições de uma assustadora hipótese realista. Claro: uma chuva de mísseis israelenses contra o Irã calcinaria no nascedouro a Doutrina Obama.
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