segunda-feira, julho 28, 2014

Bricsbanco Alexandre Schwartzman

Folha

Nunca curti muito essa história de Brics. Como marketing, reconheço, é fantástico, mas, vamos falar a verdade, há pouco em comum entre os países que fazem parte do grupo, fora seu tamanho (já a África do Sul, que lá entrou só para formar o plural, nem isso tem).
As discrepâncias são enormes: a Rússia apresenta PIB per capita (já ajustado a diferença de custo de vida) na casa de US$ 20.000, seguida pelo Brasil, com US$ 11.000, mesmo nível da África do Sul, enquanto China e Índia, bem mais pobres, têm PIB per capita na faixa de US$ 8.000 e US$ 3.000, respectivamente.
Já o perfil demográfico não poderia ser mais distinto: metade da população de Índia e África do Sul tem menos de 25 anos, comparados a 38 anos no caso da Rússia e a 34 anos na China (no Brasil, no meio do caminho, metade da população tem menos de 29 anos). Temos, portanto, países jovens, países envelhecidos e o Brasil no meio da sua transição demográfica.
Do ponto de vista político, o grupo varia de democracias vibrantes a países autoritários, quando não abertamente ditatoriais.
Por fim, ainda sem esgotar o assunto, no que respeita ao comércio exterior, falamos de países cujas exportações se baseiam em commodities (África do Sul, Brasil e Rússia) assim como de outros cuja maior ênfase está em manufaturas e, mesmo nesse caso, o espectro vai de produtos tecnologicamente simples, como têxteis, a sofisticados, como eletrônicos ou máquinas.
Em suma, o que une esse grupo não são suas afinidades econômicas (muito menos as culturais), e sim um desejo de afirmar seu posicionamento na esfera global.
A China, em particular, guarda ambições hegemônicas, enquanto a Rússia, poder decadente, aferra-se a seu antigo status de principal adversária dos EUA.
Não por acaso, até recentemente as reuniões do grupo geravam mais calor que luz, o que, cá entre nós, não era de todo mau: a imprensa dava destaque, mas nada de particularmente danoso costumava ocorrer.
Não se pode dizer o mesmo da reunião mais recente. Na semana passada, em Fortaleza, os dirigentes dos Brics aprovaram a criação de um fundo em comum para socorrer países em dificuldade, assim como um novo banco de desenvolvimento, para concorrer, respectivamente, com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.
É, por um lado, compreensível a frustração dos países emergentes acerca das dificuldades de mudança na governança dessas instituições: a mudança de seu peso econômico não está refletida na estrutura de poder do FMI e do Banco Mundial, apesar de longas discussões a respeito.
Daí, porém, à resolução de montar novas instituições, duplicando o que essas já fazem, é um longo passo.
Digamos, por exemplo, que um país, cujo pedido de crédito tenha sido rejeitado pelo FMI, bata à porta do Fundo Brics; quem estará disposto a tomar um risco de crédito já recusado pelo FMI? Só se for por razões políticas, arriscando dinheiro do contribuinte para tal.
Da mesma forma, alguém realmente acredita que os critérios que orientariam potenciais empréstimos do Bricsbanco serão apenas técnicos? Ou -como sugerido pela experiência dos países que compõem o grupo- prevalecerão juízos políticos (geopolíticos inclusive)?
Se o problema fosse realmente a esclerose da estrutura de governança das instituições de Bretton Woods, os Brics poderiam, em conjunto com outros países emergentes, achar soluções diplomáticas para isso. Bastaria ter paciência e trabalhar de forma persistente.
No caso, utilizou-se como pretexto esse problema para justificar a criação de estruturas de poder que põem em risco o meu, o seu, o nosso dinheiro, para, em última análise, um projeto de poder do qual o Brasil tem pouco a ganhar. Outro tanto dos recursos públicos passará a ser gerido fora do Orçamento, agravando o quadro da deterioração institucional do lado fiscal. Pagaremos muito por um pouco de marketing.

domingo, julho 27, 2014

Fernando Henrique Cardoso: ‘Povo espera do governo qualidade de vida’,

Publicado no Estadão deste domingo
FHC
ALEXA SALOMÃO, GABRIEL MANZANO, RICARDO GRINBAUM
Seja quem for o presidente eleito em outubro, seu principal desafio será converter a ação do Estado em qualidade de vida para a população, um desejo crescente que se reflete na cobrança por serviços públicos mais eficientes. Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, melhorar o funcionamento da máquina pública foi a chave para o Plano Real no combate à inflação, 20 anos atrás, mas o tema ainda é um ponto preocupante.
"O que importa hoje não é o 'quantos por cento' de inflação temos", diz FHC. "O que assusta agora é perceber que os fundamentos não estão funcionando tão bem quanto deveriam. O conjunto da obra está bamboleante."
Fernando Henrique vê o País "pagando o preço" pela falta da reforma política, que ele próprio reconhece como uma frustração. Para sair dela, afirma, é preciso um entendimento entre PT, PSDB e PMDB, mas há um empecilho: as incessantes "pedradas" entre tucanos e petistas. "Lula é hegemônico, quer tomar conta de tudo, esmagar o adversário", diz. "Não há como fazer acordo."
Seu governo ficou marcado pela estabilização. O de Lula, pela distribuição de renda. Como será lembrado o governo Dilma? E qual marca deve buscar o próximo governo?
Essas marcas são todas parciais, mas, enfim, são marcas. O governo Dilma vai ser lembrado como uma espécie de cabra cega. O mundo teve a crise e fizeram uma tentativa de crescimento pela expansão do crédito, pelo consumo e pela ingerência do Estado — como uma volta aos anos 60 e 70. Nada disso está funcionando muito bem. O governo ficou, assim, sem marca. Ela foi apresentada como uma grande gerente e as circunstância não permitiram que se visse isso.
E para a frente, qual seria o norte?
O Brasil, do ponto de vista material, melhorou muito. Então, por que nos sentimos perdidos hoje? No passado, achamos que bastava fazer a economia crescer e isso nos levaria ao Primeiro Mundo. Ora, estar no primeiro mundo é ter qualidade de vida! Se você for a qualquer pequeno país europeu – Portugal, Dinamarca, Croácia que seja — todos são infinitamente menos crescidos que o Brasil em termos econômicos, mas a população se sente no Primeiro Mundo. Porque ela tem educação, segurança, respeito à lei. No futuro, um governo, para deixar uma marca, vai ter que insistir nos intangíveis — o que é difícil, porque as pessoas não vão sentir no começo.
Um ponto de forte debate é como fazer ajustes no Estado sem ameaçar a distribuição de renda. É possível?
Quando fizemos o Plano Real, a crítica do PT, do PDT e de não sei mais quem era que os trabalhadores, mais uma vez, iriam arcar com os custos. Não aconteceu isso. Aconteceu o inverso. A taxa de pobreza caiu de 40% para 30% com a estabilização e houve aumento dos salários. Fazer ajustes não quer dizer apertar o cinto do povo. Vou dar outro exemplo. Se for olhar a proporção do PIB que é gasto em bolsas e comparar com a proporção do PIB que é gasto com subsídios para setores empresariais, via BNDES, vai ver que é a mesma coisa. O governo dá para cima e dá para baixo. É mais fácil você parar com o subsídio do que com a bolsa. As bolsas vieram para ficar.
Qual é o balanço dos 20 anos do Real?
O Real não foi um plano apenas para controlar a inflação, mas para controlar as causas da inflação. As empresas não estavam em má situação. A economia havia crescido algo como 5%. Quem estava em má situação era o Estado. Se não resolvêssemos a situação do governo, não haveria como controlar a inflação. Isso significava repor a ideia de que contratos valem, que quem deve precisa pagar, que Estados e municípios precisam arcar com suas contas. Reorganizar o mecanismo de endividamento interno e o orçamento. A moeda foi a parte imediata. Levamos anos trabalhando para colocar em ordem o mecanismo institucional. A Lei de Responsabilidade Fiscal é do ano 2000. Hoje, o que importa não é o "quantos por cento" de inflação. O que assusta agora é perceber que os fundamentos não estão funcionando tão bem quanto deveriam. O conjunto da obra está bamboleante: a Lei de Responsabilidade Fiscal não é cumprida adequadamente, o gasto público não está sendo controlado, o endividamento é elevado.
E qual a maior frustração com o Real?
As reformas ficaram pela metade. Era muito difícil negociar com o Congresso. A reforma política — eu tomei a decisão de não começar por ela, porque se começássemos por ela não sairíamos dali — era importante. Deixamos para o Congresso fazer. Estamos pagando o preço pela falta da reforma política. Se queremos uma democracia bem avaliada pela população, temos que fazer a reforma política. Quando fui à África do Sul (no funeral de Nelson Mandela, em 2013), os ex-presidentes estavam juntos e eu disse a todos: nós somos responsáveis pelo caos. Ninguém acredita nesse sistema que está aí. Por que não chegamos a um denominador comum? O Sarney se sentiu atraído pela ideia. Falei com o Lula. Mas não prosperou.
E a presidente Dilma, como reagiu?
Ninguém reagiu. Quando houve a crise, a presidente tentou. Mas a coisa foi mal coordenada. Para fazer isso é preciso realmente liderança — e liderança dos partidos. É preciso entendimento entre PT, PSDB e PMDB. Assim teremos a maioria. Mas vou colocar o problema de outra maneira. Todos os governos sempre acham que fizeram muita coisa — e incluo o meu. Porém, há um problema sério de gestão no Brasil: o resultado não chega na ponta. Você faz o projeto, monitora os números, faz isso e aquilo. Os que estão no mundo oficial estão felizes, mas o cidadão não sente a diferença. Quando cheguei à Presidência da República, o Sistema Único de Saúde era uma proposta da Constituinte, mas não funcionava. Era um inferno. Montamos. Hoje há o SUS. Os governos têm uma série de programas na área da Saúde. As pessoas podem receber medicamento de graça até em casa. O cidadão, porém, não sente que isso existe porque funciona mal.
E qual é a causa disso?
Falta de gestão. Há um tempo, não agora, me perguntaram no PSDB qual seria um bom slogan para a campanha. Eu disse: em vez do que fez o Barack Obama nos Estados Unidos, com o Yes, We Can, deveríamos ter o Yes, We Care — nós prestamos atenção em vocês, nós cuidamos. O povo se sente descuidado. É preciso ver como essa máquina pública funciona e atacar de frente essa grave falta de gerenciamento.
Se o seu candidato, Aécio Neves, chegar ao Planalto, o que deveria fazer para impedir que a política continuasse a ser mais do mesmo?
A primeira condição é ter uma agenda. A segunda, fazer aliança para cumprir essa agenda. Terceiro, fazer tudo publicamente. Não quer dizer que no meu governo foi sempre assim, não. Mas eu tinha uma concepção do que queria fazer. Eu queria estabilizar a economia, dar acesso à educação, melhorar a saúde, fazer a reforma agrária, acertar a Previdência, que não consegui. Procurava fazer com critério.
Como Aécio Neves vai brigar contra o maior tempo de Dilma na TV?
Os políticos têm uma obsessão pelo tempo de TV. Muito tempo pode ser bom, mas pode ser mau também. O povo ouve, às vezes, mas nem sempre. Tem momento em que ele fecha o ouvido. Hoje, o programa eleitoral terá um peso menor do que no passado, por causa das mídias sociais. Não sei se a campanha vai ser decidida na televisão.
Como, então, vai ser decidida?
O importante é o desempenho do candidato. Eu costumo fazer o seguinte: começa o programa eleitoral, eu tiro o som. Porque o que você transmite não é só o que fala, é como você fala, qual é o seu jeitão. É subconsciente. E eu acho que o Aécio tem um bom jeitão.
A economia vai pautar a eleição?
A economia pauta sempre. O bolso pesa mais que o coração ou, pelo menos, tanto quanto. O que vai pautar é a carestia. O bolso gasta mais que a bolsa, quando falamos dos mais pobres. A vida está cara. Isso as pessoas sentem. É a feira que vai pautar a campanha.
Na luta para chegar ao 2º turno, Eduardo Campos começou a bater em Aécio. Isso vai atrapalhar uma futura aliança entre eles?
Os dois são racionais e sabem qual o limite. Mas no segundo turno o eleitorado não segue líderes. Veja as pesquisas de opinião. Dilma, no Datafolha, está na frente, 36%, Eduardo 8%, Aécio 20%. No 2.º turno Aécio vai pra 40%, Campos pra 38%. E não teve nenhum líder no meio disso! No segundo turno, o que vai contar muito é a rejeição.
Na sua relação com o ex-presidente Lula, o sr. falou em parar de jogar pedra um no outro. E as pedradas quase sempre dizem respeito à corrupção. O que falta para superar essas diferenças?
O que falta é vontade dele. Ele é hegemônico, quer tomar conta de tudo. E quem quer tomar conta de tudo quer esmagar quem? O principal adversário! Quando fizemos a transição do meu governo para o dele, logo eles definiram que o inimigo era o PSDB. Não era adversário, era inimigo. No mesmo dia falaram em herança maldita. É o hegemonismo: "Eu sou tudo. O mundo começa comigo, eu sou o bom, os outros são maus." Não há como fazer acordo.

O fiasco do Mercosul e a diplomacia de banquinho Rolf Kuntz -

O fiasco do Mercosul e a diplomacia de banquinho

Rolf Kuntz - O Estado de S.Paulo

26 Julho 2014 | 02h 03

Foi uma semana dura para a diplomacia brasileira e revoltante para os anões. Na quinta-feira, o governo de Israel ofendeu os baixinhos de todo o mundo ao descrever o Brasil como um anão diplomático. Três dias antes o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, havia cobrado, em tom quase paternal, mais empenho de Brasília para a conclusão do acordo comercial do Mercosul com o bloco europeu. Os dois fatos evidenciaram, mais uma vez, a desmoralização e a falência da política externa brasileira, tanto na área comercial quanto na geopolítica. O fato coberto com maior destaque foi o bate-boca entre funcionários de Brasília e de Tel-Aviv, mas os dois episódios são partes da mesma história.

Anões, ao contrário da atual diplomacia brasileira, inaugurada em 2003, podem ser inteligentes, eficientes, equilibrados e relevantes. Outros governos têm pressionado o de Israel e cobrado a suspensão ou moderação dos ataques à Faixa de Gaza, mas nenhum deles pagou o mico de se explicar e de responder em tom quase meigo a um porta-voz de chancelaria. A explicação oferecida: o Brasil criticou apenas a violência "desproporcional" de Israel, sem contestar seu direito de defesa. A resposta complementar: o Brasil mantém relações diplomáticas com todos os membros da ONU e, portanto, se houver algum anão, será outro país. A explicação e a réplica foram apresentadas pelo chanceler Luiz Alberto Figueiredo. Polidamente, ele se absteve de mostrar a língua e de chamar de feio o funcionário israelense.

Ator relevante age com clareza e se dispensa de explicações. A manifestação brasileira nesse caso, como em muitos outros, confirmou a inépcia da orientação formulada no Palácio do Planalto e seguida no outrora respeitado Itamaraty. Esse amadorismo, inspirado num terceiro-mundismo requentado e rejeitado por emergentes de respeito, tem-se evidenciado também na diplomacia comercial.

O Brasil é a maior economia da América Latina, mas seu governo é incapaz de desemperrar a negociação entre o Mercosul e os europeus. "A mim me parece um bocadinho absurdo que a União Europeia tenha acordos de livre-comércio com praticamente o mundo inteiro e não tenha com o Brasil", disse na segunda-feira o presidente da Comissão Europeia.

Por que "um bocadinho absurdo"? Para entender, basta pensar no tamanho da economia brasileira. Esse detalhe foi mencionado também pelo funcionário israelense. Ele qualificou o Brasil como gigante econômico, antes de chamá-lo, por contraste, de anão diplomático. Um contraste semelhante esteve implícito, mesmo com boa intenção, no comentário de Durão Barroso.

O presidente da Comissão Europeia foi até generoso. Teria sido menos gentil se tivesse ido mais fundo na avaliação do impasse. Absurdo, mesmo, é um país do tamanho do Brasil ter uma diplomacia subordinada aos interesses chinfrins da aliança entre o petismo, o kirchnerismo e o bolivarianismo.

Comandado por essa aliança, o Mercosul deu prioridade aos chamados acordos Sul-Sul, em geral com parceiros de pouca importância comercial. A aproximação com a Palestina é um marco notável dessa política. O livre-comércio regional com participação dos Estados Unidos foi recusado pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner. Nos anos seguintes, outros governos sul-americanos negociaram com Washington, sem o Mercosul, pactos comerciais. Nem sequer com o México, uma das economias mais importantes do hemisfério, foram tentadas negociações ambiciosas. Não se foi além de um limitado pacto de complementação.

Com a recente formação da Aliança do Pacífico (Chile, Peru, Colômbia e México), foi evidenciada mais uma vez a estagnação diplomática do Mercosul. Os dois blocos poderiam, talvez, promover uma integração. Mas só se os países do Mercosul se tornarem mais abertos, disse em janeiro o presidente do México, Enrique Peña Nieto. Quanto à negociação com a União Europeia, iniciada nos anos 1990, continua emperrada e sem perspectiva de avanço neste ano. O Mercosul permanece incapaz, principalmente por causa da resistência argentina, de apresentar suas ofertas para avaliação e discussão.

Enquanto isso, europeus e americanos negociam o pacto transatlântico e tentam novos entendimentos com outros parceiros. Asiáticos buscam aproximação com todo o mundo. A União Europeia se amplia e países da vizinhança desfrutam comércio favorecido com o bloco. A nova trama de concessões bilaterais e inter-regionais cresce e torna-se mais complexa, enquanto os líderes da Organização Mundial do Comércio (OMC) tentam reanimar e revalorizar a Rodada Doha.

Nesse quadro, a posição do Brasil e de seus parceiros do Mercosul se torna cada vez mais desvantajosa. A diplomacia comercial brasileira escolheu como prioridades, há mais de dez anos, a Rodada Doha, multilateral, e a aproximação com países emergentes e em desenvolvimento. O baile promovido pela OMC, a grande rodada multilateral, continua quase paralisado. Sem ingresso para os outros bailes - as dezenas de acordos parciais -, o Brasil tem de continuar no sereno, espiando as festas de fora.

Muitos empresários brasileiros aceitam sem aparente dificuldade a diplomacia comercial anã. Mostram-se mais interessados no protecionismo, parte importante dessa política, do que em conquistar mercados. Outra parte do empresariado reclama oportunidades comerciais mais amplas.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) cobrou do governo mais de uma vez, nos últimos dois anos, empenho maior na busca de acordos bilaterais e inter-regionais. Será impossível atender a essa demanda sem chacoalhar o Mercosul. No limite, restará trocar o status de união aduaneira pela condição, menos ambiciosa e menos limitadora, de zona de livre-comércio. Antes disso, falta o governo abandonar as fantasias terceiro-mundistas e semibolivarianas e redescobrir a noção de interesse nacional.

ROLF KUNTZ É JORNALISTA

O encontro - Luiz Fernando Veríssimo

O encontro - Jornal O Globo

O encontro

Os peixinhos nadavam por entre as nossas pernas. Estávamos no mar em frente à casa do José Paulo e da Maria Lecticia Cavalcanti, Praia do Touquinho, Lagoa Azul, Pernambuco, Brasil, América do Sul, Terra, Via Láctea, universo, com água pela cintura. Quem éramos nós? Millôr e Cora, Gravatá, Lucia, eu e peixinhos anônimos. Zé Paulinho e Maria Lecticia tinham providenciado tudo para que o prazer dos seus hóspedes fosse completo: sol decididamente pernambucano, céu e mar de um azul irretocável, uma mesa flutuante com guarda-sol em cima coberta de coisinhas para comer e bebidinhas para beber. A um sinal do Zé Paulinho, vinham mais camarão, mais marisco, mais caipirinha, mais pássaros, menos pássaros, mais brisa, menos brisa — e de repente, descendo na nossa direção pela praia como uma aparição, um convidado convocado pelos Cavalcanti para que o dia fosse mais que perfeito: o Ariano Suassuna. De calção de banho! Ele entrou no mar, e os peixinhos continuaram nadando entre as nossas pernas, sem nenhuma curiosidade intelectual. Eles só estavam ali para pegar os restos da mesa flutuante, alheios ao grande momento, como se um encontro de Millôr Fernandes e Ariano Suassuna com água pela cintura acontecesse todos os dias. Nós, ao contrario dos peixinhos, nos encharcávamos do momento. Eu, chupando um picolé de mangaba — eu mencionei que também havia picolés de mangaba? — finalmente descobria o sentido da palavra "embasbacado". Depois do encontro no mar, um almoço magnifico — não fosse comandado pela dona Maria Lecticia. E o dia mais que perfeito terminou com uma visita a um terreno próximo onde o Zé Paulinho criava bodes. Nosso anfitrião queria nos mostrar um animal que importara da Africa do Sul e que, de tão antipático e posudo, recebera do Suassuna o apelido de "Somebode".

SHOW

Uma aula do Suassuna era um show, um show do Suassuna era uma aula. Além de produzir ele mesmo boa parte da cultura contemporânea da sua terra, Suassuna conhecia como ninguém a História (e as histórias), as artes e as tradições do Nordeste, esse outro mundo dentro do Brasil, e lutava para mantê-las vivas. Tinha uma memória fantástica, poemas enormes decorados inteiros para qualquer ocasião, e era notável sua capacidade de, aparentemente, se perder em digressões quando falava sobre determinado assunto, a ponto de criar uma expectativa nervosa na plateia — será que ele volta para o assunto ou não volta? — e retomar o que estava dizendo do ponto exato da digressão, para alivio geral. O Brasil perdeu um tesouro.



Enviada do meu iPad

Modelo adotado no setor elétrico já não funciona - Editorial O Globo

Modelo adotado no setor elétrico já não funciona - Jornal O Globo

Modelo adotado no setor elétrico já não funciona

A matriz hídrica faz do Brasil uma das exceções no mundo da geração de energia elétrica. Com a aproveitamentos hidráulicos de vulto, a exemplo da usina de Itaipu, o país conseguiu montar uma matriz de calcada em uma fonte renovável e de custo relativamente baixo.

Mas uma matriz elétrica com essas características depende do regime de chuvas. Para reduzir a vulnerabilidade desse modelo, muitas hidrelétricas foram construídas no passado com reservatórios que acumulam água para uso posterior, nos anos de chuvas insuficientes.

Os aproveitamos que permitem a construção de reservatórios de acumulação se esgotaram, ou as exigências para licenciamento ambiental se tornaram mais rígidas, limitando as áreas passíveis de inundação. Na Amazônia, essas restrições fazem com que as novas usinas sejam praticamente a fio d'água, ou seja, operem com a vazão natural dos rios. Assim, nos períodos de cheia as hidrelétricas funcionam a plena capacidade, e na vazante podem até ser paralisadas.

Esse sistema é interligado nacionalmente, de modo a otimizar a energia armazenada nos reservatórios. A interligação de faz por meio de linhas de transmissão, que possibilitam, inclusive transferir excedentes de energia de uma região para outra, a longas distâncias. Mesmo com tal possibilidade, a matriz de base hídrica precisa de outras fontes que a complementem. A maneira mais convencional é a de origem térmica, utilizando-se o vapor decorrente da queima de combustíveis fósseis (carvão, gás, óleo diesel, óleo combustível, biomassa) ou da fissão nuclear.

Os custos de operação dessas usinas são mais elevados que os das hidrelétricas e, por isso, geralmente elas são instaladas junto às áreas de produção dos combustíveis ou dos centros de consumo. Outras fontes renováveis vêm sendo progressivamente utilizadas, como é o caso das usinas eólicas e de energia solar, mas ambas opções também dependem do clima. Em situação de normalidade, esse modelo funciona com um custo médio razoável. Mas em momentos de anormalidade, como o atual, a equação não fecha. Com índices pluviométricos bem abaixo das médias históricas nas áreas que concentram a maior parte dos reservatórios no Brasil, a participação da usinas térmicas mais caras (que deveriam ser acionadas apenas ocasionalmente) aumentou enormemente na matriz elétrica do país.

Para completar o cenário de crise, a intervenção atabalhoada do governo Dilma no setor, para forçar o corte de tarifas, provocou um enorme desequilíbrio financeiro. E para evitar reajustes de tarifas em período eleitoral, o Tesouro tem subsidiado parte dos custos, assim como por meio de empréstimos bancários. A conta poderá chegar a R$ 60 bilhões, este ano. E terá de ser transferida de alguma forma ao consumidor. É um dos mais sérios e urgentes problemas que estarão à espera do próximo presidente, em janeiro.




Longo caminho de ferrovias e hidrovias -Leonardo Coelho Ribeiro

Longo caminho de ferrovias e hidrovias - Jornal O Globo

Longo caminho de ferrovias e hidrovias

Superar as deficiências da infraestrutura logística, expandindo e melhorando portos, aeroportos, rodovias, hidrovias e ferrovias, é uma meta primordial. O caminho para isso: criar parcerias com a iniciativa privada. Nada mais correto. Mas será que, dentre os diferentes meios de transporte, a escolha das prioridades rompe a prevalência da matriz rodoviária? Um panorama desses diferentes setores pode dar a resposta.

De fato o mais desenvolvido, o setor de rodovias passa por algumas licitações e tem em pauta o reequilíbrio de contratos em vigor. O portuário conta, há pouco mais de um ano, com a lei nº 12.815/13. Os investimentos aguardam a liberação, pelo Tribunal de Contas da União (TCU), dos editais de arrendamento e as definições da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) quanto à autorização para a construção de terminais de uso privado. No caso dos aeroportos, já há operadores privados em alguns dos mais importantes do país. Em paralelo, o governo acena com a autorização para novos projetos da iniciativa privada.

Ainda que com dificuldades, as reformas desses modais avançam. Com o potencial de propiciar fretes mais baratos e menos poluentes, no entanto, as hidrovias e ferrovias seguem em fase bem mais atrasada.

Apesar do enorme potencial inerente às condições naturais do país, as hidrovias estão longe da prioridade estatal. Demandam simplificação do arranjo institucional e melhor articulação com outros setores, como o de energia elétrica. Especialmente quanto à construção de eclusas, quando da edificação de hidrelétricas, a fim de tornar os rios navegáveis.

O setor ferroviário, por sua vez, encontra-se em meio à construção de um novo e complexo modelo, objeto de críticas e assombrado pelo risco de incluir uma estatal entre os operadores e os usuários, a Valec, o que vem atrasando cronogramas. Se a resolução da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) sobre o Operador Ferroviário Independente (OFI) foi uma boa notícia, a baixa qualidade dos projetos afastou possíveis interessados, trazendo a necessidade de complementação de estudos de viabilidade técnica dos trechos a serem concedidos.

Os setores mais adiantados são, justamente, aqueles tradicionalmente mais bem estruturados. Desse modo, a logística brasileira segue invertida. É fundamental empenhar mais esforços para reformar hidrovias e ferrovias, uma pauta que deveria constar do programa de qualquer candidato à Presidência. Do contrário, os modelos setoriais podem até mudar. Mas não o país.

Leonardo Coelho Ribeiro é professor de Direito da FGV/Rio




As frágeis contas externas - Opinião - Estadão

As frágeis contas externas - Opinião - Estadão

As frágeis contas externas

O Estado de S.Paulo

27 Julho 2014 | 02h 05

Continuam mal as contas externas, embora os números de junho tragam pelo menos duas boas notícias - uma raríssima coincidência, nos últimos anos, quando se trata do balanço de pagamentos. Contas externas em bom estado são importante fator de segurança. A maior parte das grandes crises brasileiras esteve associada a problemas nessa área.

A primeira novidade positiva foi a redução do déficit em conta corrente. O resultado negativo ficou em US$ 3,34 bilhões, o menor em nove meses. Desde outubro, o buraco havia sido sempre maior que US$ 5 bilhões. A conta corrente, a medida mais ampla das transações com o exterior, inclui a balança comercial, as contas de serviços e de rendas e as transferências unilaterais. A segunda boa notícia foi o ingresso de US$ 3,92 bilhões de investimento direto estrangeiro, valor mais que suficiente para cobrir aquele déficit. Esse tipo de investimento, destinado ao setor empresarial, é a mais segura e mais produtiva forma de financiamento de origem externa.

O quadro mais amplo é muito mais feio. No primeiro semestre, o déficit em transações correntes chegou a US$ 43,31 bilhões, pouco superior ao de um ano antes e equivalente a 3,84% do Produto Interno Bruto (PIB). O investimento direto, de US$ 29,26 bilhões, ficou muito longe do necessário para financiar aquele rombo. O cenário é também ruim quando se examinam os números acumulados em 12 meses: déficit de US$ 81,19 bilhões e investimento direto de US$ 63,27 bilhões, pouco menor que o acumulado no mesmo período até junho do ano passado: US$ 65,53 bilhões.

O único dado positivo, nesse conjunto, é a aparente disposição dos investidores de manter um fluxo muito parecido com o do ano passado. Ainda há muitos empresários, segundo essa indicação, otimistas quanto às possibilidades econômicas do Brasil. Investimentos diretos são lucrativos quando a economia prospera ou, na pior hipótese, quando vai bem o setor escolhido para a aplicação. O dado negativo é o descompasso, muito amplo nos últimos dois anos, entre as necessidades de financiamento e os fluxos de recursos mais seguros e produtivos.

O déficit em conta corrente acumulado nos 12 meses até junho ficou em 3,58% do PIB estimado para o período. Desde agosto do ano passado essa proporção se tem mantido pouco acima ou pouco abaixo de 3,6%. Não é um desastre nem se pode falar de perigo a curto prazo. Em caso de nova turbulência internacional, o País terá, pelo menos por algum tempo, a segurança de bom nível de reservas, atualmente na vizinhança de US$ 380 bilhões.

Reservas, no entanto, podem diminuir em ritmo perigosamente rápido, quando se combinam más condições de mercado e desconfiança crescente em relação às perspectivas do País. Experiências desse tipo estão registradas na história econômica do Brasil e de muitos outros países, alguns desenvolvidos. Sem confiança, nem o fluxo anual de cerca de US$ 60 bilhões de investimento direto estará garantido.

Para este ano, o Banco Central (BC) estima um déficit em conta corrente de US$ 80 bilhões (3,47% do PIB) e investimento direto estrangeiro de US$ 63 bilhões. Esses itens corresponderam, no ano passado, a US$ 81,06 bilhões e US$ 64 bilhões. A mudança esperada, portanto, é muito pequena e os números projetados são quase iguais aos contabilizados nos 12 meses terminados em junho.

O principal desafio continuará localizado na balança comercial. Estima-se para 2014 um superávit de US$ 5 bilhões na conta de mercadorias, superior ao de um ano antes, de US$ 2,55 bilhões, mas muito inferior à necessidade brasileira. O País precisa de resultados muito melhores no comércio de bens para compensar, pelo menos em parte, o déficit estrutural em serviços e rendas. Há dois anos o superávit comercial brasileiro ainda superou US$ 19 bilhões.

A queda do resultado comercial é explicável, principalmente, pela redução - iniciada há vários anos e acelerada recentemente - da competitividade da indústria. A piora do comércio é gêmea da estagnação de uma indústria com baixa eficiência e custos altos. Reflete o fracasso de uma política. Essa é a fonte principal do risco externo.



Enviada do meu iPad

O adeus de João Grilo - Gaudencio Torquato

O adeus de João Grilo - Opinião - Estadão

O adeus de João Grilo

Gaudêncio Torquato - O Estado de S.Paullo

27 Julho 2014 | 02h 03

João Grilo, astuto e fanfarrão, recitava versos destrambelhados, fazia traquinagens com o amigo Chicó, arrematando impressões com a maior inocência, como a que fez para Manuel, o Leão de Judá, o filho de David, o Jesus negro da peça O Auto da Compadecida: "O senhor é Jesus? Aquele a quem chamam de Cristo? (...) não é lhe faltando o respeito, não, mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado".

As lorotas de João provocam gargalhadas, mas por pouco não baniram de nossas escolas seu pai, o teatrólogo, advogado, cancioneiro, o admirado romancista de A Pedra do Reino, o imortal da Academia Brasileira de Letras, o genial paraibano Ariano Suassuna, que, ao falecer, na quarta-feira passada, aos 87 anos, deixa um dos mais ricos legados da história de nossa literatura. O banimento quase se deu, há alguns anos, quando um grupo que se dizia defensor do conceito "politicamente correto", vestindo o manto dos censores da Inquisição ou dos anos de chumbo da ditadura de 64, produziu uma cartilha financiada pelo governo federal onde se registravam como discriminatórios verbetes e expressões comezinhas, como comunista, anão, beata, barbeiro, palhaço, ladrão, farinha do mesmo saco.

A expressão de Suassuna certamente estaria presa no cárcere montado pelos guardiões do templo da palavra nesses tempos de controle do verbo e descontrole de verbas. O amontoado de besteiras apenas serviu para subir o tom das gargalhadas de João Grilo e Chicó.

Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro (que também nos deixou na semana passada) e Jorge Amado, seu conterrâneo, foram exímios intérpretes da alma nacional. Desenharam uma galeria de personagens desbocadas, autênticas, alegres, doidas, radicais, sem nunca se submeterem ao tacão do "politicamente certo", conceito que tem sido a vara de condão de grupos ideológicos entroncados na árvore do poder. Amparavam-se na linguagem para retratar o cotidiano. Quem os vê como discriminadores senão radicais ou ignorantes? Quem não fica indignado em ver Monteiro Lobato no paredão da censura? Acusam-no de ser preconceituoso por retratar "a preta" Tia Anastácia. Lobato foi execrado por ter comparado Tia Anastácia, personagem em Caçadas de Pedrinho, a uma "macaca de carvão" e, ainda, porque o conto Negrinha, de sua autoria, abrigaria conteúdo racista.

Não há como imaginar personagens que tanto encantaram crianças e adultos - como Tia Anastácia, Emília, Pedrinho, Saci-Pererê, Visconde de Sabugosa - fazendo a discriminação, ao final do século 19, como enxergam os patrulheiros de plantão. Jorge Amado, em Capitães da Areia, apresenta João Grande, "negro de 13 anos, forte e o mais alto de todos. Tinha pouca inteligência, mas era temido e bondoso". Retratavam um tempo em que a negritude era apresentada de maneira pejorativa. Censurar a expressão de uma época é apagar costumes, jogar as tradições na fogueira de Torquemada.

A polêmica sobre o uso do lexema negro na literatura expande-se na esteira de um debate enviesado sobre direitos humanos. Acontece que as lutas pela igualdade têm jogado na vala comum da discriminação manifestações de todo tipo, mesmo as que retratam ciclos históricos.

Voltemos à Antiguidade. Aristóteles, o pensador da filosofia clássica, dividia o mundo entre gregos e o resto, no caso, os bárbaros, selvagens e escravos natos. Já Platão, em sua obra clássica A República, definia o Estado ideal como o dirigido pelos melhores. Dizia ele: "O ouro não se mistura ao bronze".

Joaquim Nabuco, o abolicionista, chegou a se indignar com os sacerdotes que possuíam escravos: "Nenhum padre nunca tentou impedir um leilão de escravos, nem condenou o regime religioso das senzalas". E o que dizer de Aluísio Azevedo, descrevendo nas páginas de O Mulato (1881): "Se você viesse a ter netos, queria que eles apanhassem palmatoadas de um professor mais negro que esta batina?". Lima Barreto também não escaparia do paredão. Em Histórias e Sonhos, diz: "Não julguei que fosse negro. Parecia até branco e não fazia feitiços. Contudo todo o povo das redondezas teimava em chamá-lo feiticeiro". Para os ignaros da censura, explique-se que esse grande intérprete produziu Clara dos Anjos (1922), libelo contra o preconceito, a história de uma mulata traída e sofrida por causa da cor.

Em A Escrava Isaura (1875), Bernardo Guimarães escreve trechos que hoje estariam no índex proibido: "Não era melhor que tivesse nascido bruta e disforme como a mais vil das negras?". Sem esquecer o jesuíta André João Antonil, com seu texto que pode ser considerado discriminatório: "Os mulatos e as mulatas são fonte de todos os vícios do Brasil". Ele escreveu o clássico Cultura e Opulência do Brasil (1711). À guisa de conclusão, o celebrado Fernando Pessoa: "O espírito feminino é mutilado e inferior; o verdadeiro pecado original, ingênito nos homens, é nascer de mulher". Arrematado por Shakespeare, que narra, em Otelo, o drama de Brabâncio deixando a filha livre para escolher o marido que mais lhe agradasse. A donzela escolheu um mouro. Otelo foi contratado para matá-lo.

Toda essa moldura vem à tona no momento do adeus a Ariano Suassuna, fiel intérprete do espírito da linguagem. Dizia ele que o português é a linguagem mais sonora e musical do mundo. Daí a necessidade de expressá-la com as nuances das ruas, com seus personagens e sem a gramática que ajusta as curvas da língua, um ato antidemocrático. Suassuna, "uma aula viva estupenda e um permanente espetáculo folgazão de inteligência, vida, senso de humor e savoir-faire", no dizer de José Nêumanne (Estado, 23/7), deixa grande lição: "Respeitemos a linguagem falada, que é diferente da letra".

Não é possível que a preamar do niilismo, anunciada por Ortega Y Gasset na terceira década do século 20, tente reaparecer em nosso mundo literário. Que o desaparecimento de Ivan Junqueira, João Ubaldo, Rubem Alves e Ariano Suassuna nesta triste quadra reforce a convicção de que não podemos ceder um milímetro aos organizadores da "nova cultura". João Grilo implora.

GAUDÊNCIO TORQUATO É JORNALISTA, PROFESSOR TITULAR DA USP, É CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO TWITTER@GAUDTORQUATO



Enviada do meu iPad

IDH em marcha lenta - Suely Caldas

IDH em marcha lenta - Economia - Estadão

IDH em marcha lenta

- O Estado de S.Paulo

27 Julho 2014 | 02h 04

Os mais expressivos avanços sociais e econômicos alcançados na história do Brasil ocorreram a partir de 1994, quando o País se livrou da hiperinflação, estabilizou e organizou sua economia, criou condições para expandir investimentos e começou a olhar com foco mais ajustado a educação e a saúde da população. Mas, se antes de 1994 - sobretudo na chamada década perdida (1980/1990 e o período Collor) - os indicadores sociais estagnaram, depois disso passaram a avançar sem recuos, mas em ritmo lento, aquém do que esperam os brasileiros e do que é capaz de produzir um país com o nosso potencial de riquezas. Essa lentidão tem sido registrada anualmente no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) com 187 países - e o Brasil aparece na 79.ª posição em 2013, depois de ter ocupado o 75.º lugar em 2008.

Criado em 1990 pelos economistas Amartya Sen e Mahbub ul Haq, o IDH da ONU desviou o foco único na economia e passou a usar também critérios sociais para medir o bem-estar da população. Após algumas mudanças metodológicas, o índice hoje reflete três indicadores: renda, educação e saúde. Nos três o Brasil contabiliza avanços desde 1994, mas o enorme passivo de atraso social, as renitentes desigualdades regionais e uma classe política governante que prioriza a politicagem e descuida de melhorias sociais têm impedido uma evolução mais rápida.

A história do mundo mostra um ponto em comum entre os países que alcançaram desenvolvimento acelerado: todos priorizaram investimento em educação. Foi assim com os chamados tigres asiáticos (Hong Kong, Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan, Filipinas, Indonésia, Tailândia). Acusados de trabalho escravo por pagarem salários irrisórios até 1960/1970, esses países viveram extraordinários booms econômicos depois de aplicar políticas de Estado dirigidas a elevar o grau de educação e o conhecimento da população. Na sequência, a produtividade do trabalho expandiu, os salários cresceram, os produtos que fabricam ganharam em qualidade e hoje são países que acumulam altas taxas de poupança exportando para todo o mundo.

O Brasil investe mal em educação e em saúde. Há enorme carência de hospitais públicos, faltam remédios, médicos, aparelhos para exames, a população pobre sofre em longas filas para ser atendida e muitos morrem antes da cirurgia marcada para três, seis meses depois da consulta. Na educação, políticas de avaliação da qualidade do ensino só começaram a ser aplicadas em 1996, com o chamado Provão, mas a qualidade continua muito ruim - do ensino fundamental (em que é comum o aluno ler e não entender o que leu) ao universitário.

Nas duas áreas tem havido avanços muito lentos. Na saúde foram necessários 30 anos para a expectativa de vida do brasileiro avançar 12 anos, para 74,6 anos. Na educação o trabalhador tem hoje, em média, 7,6 anos de estudo, só cinco anos mais do que em 1980. Comparado aos tigres asiáticos, o Brasil perde feio em competição, produtividade do trabalho, qualidade do produto e rapidez no progresso da educação. E na renda - terceiro indicador do IDH -, apesar da ascensão de 30 milhões de pobres para a nova classe média, as desigualdades regional e de renda continuam graves e empurrando o Brasil para o atraso no IDH.

Segundo a pesquisa da ONU, em 2013 o Brasil alcançou um IDH de 0,744 (numa escala de 0 a 1, quanto mais próximo de 1 melhor é a situação do país), abaixo do Chile (0,822), da Argentina (0,808), do Uruguai (0,790) e da Venezuela (0,764).

Lanterna na lista dos 49 países de desenvolvimento humano muito elevado, a Argentina tende a recuar na classificação, diante da expectativa de recessão econômica em 2014. No interior do Brasil, contudo, há municípios com índices de Primeiro Mundo - os paulistas São Caetano do Sul (0,862) e Águas de São Pedro (0,854) são campeões nacionais em prosperidade, com serviços sociais eficientes, educação e saúde satisfatórias e IDH bem acima da capital São Paulo (0,805).

SUELY CALDAS É JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR



Enviada do meu iPad

'Exceções, nem tanto' Celso Ming

'Exceções, nem tanto' - Economia - Estadão

'Exceções, nem tanto'

Celso Ming - O Estado de S.Paulo

27 Julho 2014 | 02h 04

O empresário Carlos Pastoriza, presidente do Conselho de Administração da Abimaq (entidade que defende os interesses do setor de bens de capital), discorda das razões apresentadas por esta Coluna, na edição de sábado, 19 de julho, que apontou duas exceções no ambiente geral de baixa competitividade do setor produtivo brasileiro: o agronegócio e a Embraer.

Pastoriza entende que os dois setores só estão dando certo porque recebem incentivos do governo federal que outros não têm.

É o caso do agronegócio, argumenta ele. "O volume de recursos para o financiamento rural, no plano safra 2014/2015, é da ordem de R$ 150 bilhões. Os produtores, cooperativas e cerealistas recebem financiamentos para construção de novos silos com juros de 3,5% ao ano e prazo de 15 anos para pagar. O Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural possui taxa de juros de 4,5% ao ano. As cooperativas recebem financiamento para capital de giro e incremento da competitividade do complexo agroindustrial com juros de 6,5% ao ano." E ele cita outros incentivos: "Os programas Mais Alimentos, com juros entre 1% e 2% ao ano (na área Federal), e Pró-trator (esse no Estado de São Paulo), com juros de zero por cento ao ano". A Embrapa, diz Pastoriza, é outra explicação para o sucesso do agronegócio.

Para os bons resultados da Embraer, Pastoriza dá duas explicações. A primeira é a disponibilidade de financiamento do BNDES, de até 30 anos, para a venda de aeronaves. A outra é o recurso a importações de componentes, com isenção do Imposto de Importação, quando as aeronaves se destinam ao mercado externo.

E ele arremata: "Enquanto isso, em realidade totalmente adversa, a indústria nacional de transformação, que agrega valor e gera desenvolvimento tecnológico, é obrigada a conviver com o 'tripé do mal' (câmbio, tributos e juros)- custo Brasil que torna os produtos brasileiros cerca de 40% mais caros que os produzidos na Alemanha e Estados Unidos, câmbio desfavorável ao processo produtivo, alto custo do crédito e escassez em linhas de financiamentos de longo prazo, combinação perniciosa que tira toda a competitividade da indústria."

Sem pretender polemizar, é preciso pontuar que os avanços do agronegócio estão longe de se explicar apenas pelos fatores expostos por Pastoriza. Fica parecendo que a agricultura é regada a subsídios. Se fosse, o setor já teria sido alvo de denúncias por práticas desleais de comércio exterior na Organização Mundial do Comércio (OMC).

No mais, não é só a Embraer que está isenta de Imposto de Importação na entrada de insumos e componentes para produtos depois exportados. Qualquer empresa está capacitada a usar os benefícios do regime de draw back. Se garantia de sucesso é ter acesso a linhas do BNDES para a venda de seus produtos, então o setor de bens de capital é o mais beneficiado de todos. Só em 2013, R$ 70 bilhões de recursos do BNDES (pelo Finame) financiaram a compra de máquinas e equipamentos.



Enviada do meu iPad

O encontro - Luis Fernando Verissimo

O encontro - Cultura - Estadão

O encontro

 O Estado de S.Paulo

27 Julho 2014 | 02h 06

Os peixinhos nadavam por entre as nossas pernas. Estávamos no mar em frente à casa do José Paulo e da Maria Lecticia Cavalcanti, praia do Toquinho, Lagoa Azul, Pernambuco, Brasil, América do Sul, Terra, Via Láctea, Universo, com água pela cintura. Quem éramos nós? Millôr e Cora, Gravatá, Lucia, eu e peixinhos anônimos. Zé Paulinho e Maria Lecticia tinham providenciado tudo para que o prazer dos seus hóspedes fosse completo: sol decididamente pernambucano, céu e mar de um azul irretocável, uma mesa flutuante com guarda-sol em cima coberta de coisinhas para comer e bebidinhas para beber. A um sinal do Zé Paulinho, vinha mais camarão, mais marisco, mais caipirinha, mais pássaros, menos pássaros, mais brisa, menos brisa - e de repente, descendo na nossa direção pela praia como uma aparição, um convidado convocado pelos Cavalcantis para que o dia fosse mais que perfeito: o Ariano Suassuna. De calção de banho! Ele entrou no mar, e os peixinhos continuaram nadando entre as nossas pernas, sem nenhuma curiosidade intelectual. Eles só estavam ali para pegar os restos da mesa flutuante, alheios ao grande momento, como se um encontro de Millôr Fernandes e Ariano Suassuna com água pela cintura acontecesse todos os dias. Nós, ao contrário dos peixinhos, nos encharcávamos do momento. Eu, chupando um picolé de mangaba - eu mencionei que também havia picolés de mangaba? - finalmente descobria o sentido da palavra "embasbacado". Depois do encontro no mar, um almoço magnífico - não fosse comandado pela dona Maria Lecticia. E o dia mais que perfeito terminou com uma visita a um terreno próximo onde o Zé Paulinho criava bodes. Nosso anfitrião queria nos mostrar um animal que importara da África do Sul e que, de tão antipático e posudo, recebera do Suassuna o apelido de "Somebode".

Show. Uma aula do Suassuna era um show, um show do Suassuna era uma aula. Além de produzir ele mesmo boa parte da cultura contemporânea da sua terra, Suassuna conhecia como ninguém a História (e as histórias), as artes e as tradições do Nordeste, esse outro mundo dentro do Brasil, e lutava para mantê-las vivas. Tinha uma memória fantástica, poemas enormes decorados inteiros para qualquer ocasião, e era notável sua capacidade de, aparentemente, se perder em digressões quando falava sobre determinado assunto, a ponto de criar uma expectativa nervosa na plateia - será que ele volta para o assunto ou não volta? - e retomar o que estava dizendo do ponto exato da digressão, para alívio geral. O Brasil perdeu um tesouro.



Enviada do meu iPad

sábado, julho 26, 2014

Rolf Kuntz: O fiasco do Mercosul e a diplomacia de banquinho

Democracia Política e novo Reformismo: Rolf Kuntz: O fiasco do Mercosul e a diplomacia de banquinho

Rolf Kuntz: O fiasco do Mercosul e a diplomacia de banquinho

- O Estado de S. Paulo

Foi uma semana dura para a diplomacia brasileira e revoltante para os anões. Na quinta-feira, o governo de Israel ofendeu os baixinhos de todo o mundo ao descrever o Brasil como um anão diplomático. Três dias antes o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, havia cobrado, em tom quase paternal, mais empenho de Brasília para a conclusão do acordo comercial do Mercosul com o bloco europeu. Os dois fatos evidenciaram, mais uma vez, a desmoralização e a falência da política externa brasileira, tanto na área comercial quanto na geopolítica. O fato coberto com maior destaque foi o bate-boca entre funcionários de Brasília e de Tel-Aviv, mas os dois episódios são partes da mesma história.

Anões, ao contrário da atual diplomacia brasileira, inaugurada em 2003, podem ser inteligentes, eficientes, equilibrados e relevantes. Outros governos têm pressionado o de Israel e cobrado a suspensão ou moderação dos ataques à Faixa de Gaza, mas nenhum deles pagou o mico de se explicar e de responder em tom quase meigo a um porta-voz de chancelaria. A explicação oferecida: o Brasil criticou apenas a violência "desproporcional" de Israel, sem contestar seu direito de defesa. A resposta complementar: o Brasil mantém relações diplomáticas com todos os membros da ONU e, portanto, se houver algum anão, será outro país. A explicação e a réplica foram apresentadas pelo chanceler Luiz Alberto Figueiredo. Polidamente, ele se absteve de mostrar a língua e de chamar de feio o funcionário israelense.

Ator relevante age com clareza e se dispensa de explicações. A manifestação brasileira nesse caso, como em muitos outros, confirmou a inépcia da orientação formulada no Palácio do Planalto e seguida no outrora respeitado Itamaraty. Esse amadorismo, inspirado num terceiro-mundismo requentado e rejeitado por emergentes de respeito, tem-se evidenciado também na diplomacia comercial.

O Brasil é a maior economia da América Latina, mas seu governo é incapaz de desemperrar a negociação entre o Mercosul e os europeus. "A mim me parece um bocadinho absurdo que a União Europeia tenha acordos de livre-comércio com praticamente o mundo inteiro e não tenha com o Brasil", disse na segunda-feira o presidente da Comissão Europeia.

Por que "um bocadinho absurdo"? Para entender, basta pensar no tamanho da economia brasileira. Esse detalhe foi mencionado também pelo funcionário israelense. Ele qualificou o Brasil como gigante econômico, antes de chamá-lo, por contraste, de anão diplomático. Um contraste semelhante esteve implícito, mesmo com boa intenção, no comentário de Durão Barroso.

O presidente da Comissão Europeia foi até generoso. Teria sido menos gentil se tivesse ido mais fundo na avaliação do impasse. Absurdo, mesmo, é um país do tamanho do Brasil ter uma diplomacia subordinada aos interesses chinfrins da aliança entre o petismo, o kirchnerismo e o bolivarianismo.

Comandado por essa aliança, o Mercosul deu prioridade aos chamados acordos Sul-Sul, em geral com parceiros de pouca importância comercial. A aproximação com a Palestina é um marco notável dessa política. O livre-comércio regional com participação dos Estados Unidos foi recusado pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner. Nos anos seguintes, outros governos sul-americanos negociaram com Washington, sem o Mercosul, pactos comerciais. Nem sequer com o México, uma das economias mais importantes do hemisfério, foram tentadas negociações ambiciosas. Não se foi além de um limitado pacto de complementação.


Com a recente formação da Aliança do Pacífico (Chile, Peru, Colômbia e México), foi evidenciada mais uma vez a estagnação diplomática do Mercosul. Os dois blocos poderiam, talvez, promover uma integração. Mas só se os países do Mercosul se tornarem mais abertos, disse em janeiro o presidente do México, Enrique Peña Nieto. Quanto à negociação com a União Europeia, iniciada nos anos 1990, continua emperrada e sem perspectiva de avanço neste ano. O Mercosul permanece incapaz, principalmente por causa da resistência argentina, de apresentar suas ofertas para avaliação e discussão.


Enquanto isso, europeus e americanos negociam o pacto transatlântico e tentam novos entendimentos com outros parceiros. Asiáticos buscam aproximação com todo o mundo. A União Europeia se amplia e países da vizinhança desfrutam comércio favorecido com o bloco. A nova trama de concessões bilaterais e inter-regionais cresce e torna-se mais complexa, enquanto os líderes da Organização Mundial do Comércio (OMC) tentam reanimar e revalorizar a Rodada Doha.


Nesse quadro, a posição do Brasil e de seus parceiros do Mercosul se torna cada vez mais desvantajosa. A diplomacia comercial brasileira escolheu como prioridades, há mais de dez anos, a Rodada Doha, multilateral, e a aproximação com países emergentes e em desenvolvimento. O baile promovido pela OMC, a grande rodada multilateral, continua quase paralisado. Sem ingresso para os outros bailes - as dezenas de acordos parciais -, o Brasil tem de continuar no sereno, espiando as festas de fora.


Muitos empresários brasileiros aceitam sem aparente dificuldade a diplomacia comercial anã. Mostram-se mais interessados no protecionismo, parte importante dessa política, do que em conquistar mercados. Outra parte do empresariado reclama oportunidades comerciais mais amplas.


A Confederação Nacional da Indústria (CNI) cobrou do governo mais de uma vez, nos últimos dois anos, empenho maior na busca de acordos bilaterais e inter-regionais. Será impossível atender a essa demanda sem chacoalhar o Mercosul. No limite, restará trocar o status de união aduaneira pela condição, menos ambiciosa e menos limitadora, de zona de livre-comércio. Antes disso, falta o governo abandonar as fantasias terceiro-mundistas e semibolivarianas e redescobrir a noção de interesse nacional.


Rolf Kuntz é jornalista



Enviada do meu iPad

Marco Aurélio Nogueira: Mudar sem sair do lugar

Democracia Política e novo Reformismo: Marco Aurélio Nogueira: Mudar sem sair do lugar

• A mesmice faz com que nem se perceba o que separa os 3 candidatos principais ao Planalto


- O Estado de S. Paulo


Fechadas as cortinas do espetáculo propiciado pela Copa do Mundo e sob os destroços da seleção brasileira de futebol, o País voltou à rotina na segunda quinzena de julho. Acordou com a campanha eleitoral oficializada, a convocar os cidadãos para uma reflexão sobre o que lhes têm a oferecer partidos e candidatos.


Foram poucos dias. Mas indicaram que nenhum novo roteiro está em cogitação pelos que concorrerão ao voto popular. Será percorrido o mesmo chão de terra batida das últimas eleições no País. Os programas divulgados mesclam algumas ideias concretas e muitas generalidades, parecendo ter sido elaborados mais para sensibilizar do que para orientar o eleitor. Pouco se esclarece para onde deve ir o País, quais seus entraves, com que recursos se poderá contar para reformar o que precisa ser reformado.


Partidos, candidatos, coordenadores de campanha e marqueteiros estão alheios à sociedade. Não interagem com ela nem assimilam suas demandas e expectativas. A mesmice faz com que nem sequer se perceba o que separa os três candidatos principais ao Planalto. Suas vozes se preocupam excessivamente em desfechar ataques recíprocos, dissimulados em maior ou menor medida. Não é que não haja diferenças. Elas existem, mas estão codificadas. São genéricas e retóricas, além de repetitivas. O cidadão fica com a sensação de que tudo é falado como parte de um pacote preparado somente para impressionar.


Surpreende a reiteração desse desajuste entre a vida - complexa, repleta de problemas, difícil de ser compreendida e manejada - e a pobreza do discurso político, que se agarra ao canhestro para sobreviver. É como se houvesse entre os políticos uma cegueira paralisante, que impossibilita inovações e exacerba a defesa das posições de cada um. Os candidatos não se renovam porque temem perder espaços para os adversários. Estancam até nas pesquisas de intenção de voto.


Fala-se o que é conveniente para que não se percam votos. Deixa-se de lado o importante, não se toca nos temas difíceis a não ser para neles pendurar promessas mágicas, a serem decretadas com uma varinha de condão tão logo cheguem ao posto cobiçado. Os candidatos dizem o que acham que o eleitorado deseja ouvir, mas não explicam a estrutura dos problemas, o teor das decisões, a origem dos recursos (técnicos, humanos, financeiros) com que se viabilizarão as soluções anunciadas.


É uma pequena tragédia política, protagonizada por todos os partidos, situação e oposição. Todos caminham de costas para a sociedade, atentos somente a seus próprios planos. Não espanta que o tédio, o "ódio" aos políticos e o desinteresse cresçam. E que a simplificação, a caricatura e a grosseria impregnem os ativistas e os apoiadores dos candidatos. O ramerrão é conhecido: os tucanos são entreguistas, neoliberais e contra o povo; os petistas são bolivarianos enrustidos, esquerdistas incompetentes que só se preocupam em mentir e ajudar os companheiros. Uns e outros, por sua vez, se veem como estando acima do bem e do mal, não concedendo nenhuma nesga de dignidade aos adversários. Como ter debate democrático assim?


Veja-se a ênfase que é dada agora. Os três principais candidatos escolheram slogans praticamente idênticos para suas campanhas. O eixo é a ideia de mudança, que se teria tornado sentimento e desejo comum dos brasileiros.


Todos falam em mudar, mas não ajudam a que se compreenda a mudança como desafio político. A nossa é uma época dinâmica e móvel demais. Mudamos tanto e tão depressa que nem percebemos o movimento que nos impulsiona. Muda-se sem cessar, mas não se sabe em que direção. A política se contagia. E os políticos, em vez de contribuir para que se entenda o quadro, salientam o valor da mudança para não perderem contato com o imaginário social.


Mudar, na política eleitoral, significa invariavelmente melhorar, progredir, rever prioridades e corrigir erros. No jargão habitual, trata-se de uma inflexão que abre as portas do paraíso. O discurso político brasileiro não é crítico nem autocrítico. O elogio da mudança serve para que um candidato se autoglorifique e para que se estigmatize o "conservadorismo" de outros.


Não se considera que os humanos falam de mudança, mas não gostam de mudar e resistem à mudança. Fazem isso sem consciência ou intenção: ou para defender o que já conquistaram, ou para proteger aquilo que lhes dá estabilidade e identidade. Mesmo assim mudam, fazem a história sem saber. Paradoxalmente, têm medo das mudanças e medo de que as coisas nunca mudem.


A história não é uma flecha que aponta sempre para a frente. Está integrada por movimentos surpreendentes, não previsíveis, por efeitos bumerangue e retrocessos, erros e fracassos. Pode-se mudar para pior. Da posição que se vê como "ruim" podem derivar mudanças progressistas. Tudo isso é óbvio, mas não frequenta nenhum discurso político. Todos prometem mudanças como se fossem senhores da razão. Não explicam que às vezes se propõem mudanças para que tudo fique como está. Ou para que não se saia do lugar.


Quando Dilma fala em "mais mudanças, mais futuro", quantifica um processo em que o mais importante é a qualidade, silenciando sobre isso. Aécio Neves é imperativo quando propõe "muda, Brasil", mas não diz que a mudança social é uma construção que somente pode proliferar se for adotada pela sociedade: negociada com ela. Eduardo Campos diz que é preciso "coragem para mudar o Brasil", como se o problema fosse exclusivamente de falta de vontade e ousadia.


Caso se deixem levar por tais discursos mudancistas, as pessoas para quem a vida precisa de fato mudar ficarão sem saber para que lado correr. E passarão a se perguntar: se é assim, por que diabos esses candidatos não se dão as mãos e reúnem forças para desenhar uma mudança que seja factível e produza impacto efetivo sobre o futuro?


Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política e Diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp



Enviada do meu iPad

Arquivo do blog