quinta-feira, julho 17, 2014

O estilo da presidente - ...Artur Xexéo Jornal O Globo

O estilo da presidente - Jornal O Globo


Imagino que não seja fácil para a presidente Dilma Rousseff elaborar tarefas para todos os integrantes de seu ministério. São muitos. Quantos mesmo? A última vez que a presidente contou eram 39. São tantos que já tem candidato da oposição dizendo que, se eleito, reduzirá esse número à metade. Ficaríamos, portanto, com 19 ministérios e meio. Fico pensando em quem será o meio ministro. De qualquer forma, até lá, são 39, e a Dilma, coitada, tem que arranjar serviço para todos eles. Só isso justifica a estranha entrevista coletiva em que a presidente reuniu 12 ministros para celebrar o sucesso da Copa do Mundo. Estranha porque era uma entrevista coletiva na qual a presidente não respondia pergunta alguma. Só falava. E sempre com aquela dificuldade que lhe é característica nos discursos de improviso. Quando Dilma fala de improviso é sempre um mistério. "Eu queria inicialmente primeiro falar pra vocês...", foi assim que a presidente iniciou seu discurso. E continuou: "Tudo na vida é superação. Acho que aquela frase do samba do Paulo Vanzolini, 'levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima', eu até coloquei-a no meu Twitter, é um exemplo que nós temos de ter presente diante do que aconteceu". Captaram? E foi em frente: "E acho que também nesses tempos de Brics lembrar aquela também que é um provérbio chinês: a derrota é a mãe de todas as vitórias". E mais: "Nós somos um país que demonstrou sua capacidade de organização em que pese, todos vocês sabem disso porque acompanharam os acontecimentos passo a passo, sabem que os vaticínios, né?, os prognósticos que se fazia sobre a Copa eram os mais terríveis possível". Pelo visto, a capacidade de organização de Dilma não se estende à organização de concordâncias verbais.

Houve quem criticasse o ato chamando-o de propaganda eleitoral. E foi mesmo. Se não fosse, por que o ministro Aloizio Mercadante criticaria os candidatos da oposição que, diferentemente da presidente, não foram solidários na derrota com os integrantes da seleção? Enfim, a presidente arranjou um jeito de tirar casquinha da Copa do Mundo. Porque nas duas vezes em que esteve presente em estádios não deu certo. Era constrangedor ver pela televisão, na final entre a Argentina e a Alemanha no Maracanã, a presidente ao lado de Angela Merkel fazendo aquela cara de... deixa pra lá.

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Procurei nos jornais uma lista dos 12 ministros presentes, mas não encontrei. Assim, fiquei sem saber se o ministro da Pesca fazia parte do grupo.

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Até domingo, falava-se que o Brasil recebeu 600 mil turistas durante a Copa. Na entrevista coletiva de segunda-feira,Mercadante disse que recebemos um milhão de turistas. Como é que apareceram esses 400 mil de uma hora para outra?

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Em entrevista ao programa "Roda viva", a psicóloga da seleção, Regina Brandão, disse que, ao ser convocada para avaliar "o psicológico" de nossos jogadores, encontrou "um perfil espetacular. Temos jogadores que falam quatro ou cinco línguas. Isso me chamou a atenção". Ela parece se orgulhar também de ter sido "a primeira vez, de fato", desde o ano 2000, "que temos a psicologia inserida na seleção". Tem uma coisa que a Família Scolari, incluída aí a psicóloga, ainda não entendeu. Não deu certo!

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A psicóloga revelou muito pouca coisa no "Roda viva", mas depois de muito apertada pelos entrevistadores, acabou fazendo um diagnóstico interessante. Ela acha que, ao perceberem que não estavam jogando tão bem quanto eles mesmos esperavam, os jogadores perderam a confiança no seu talento. Daí para o desmonte do equilíbrio emocional foi rapidinho.

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A gente já desconfiava pelos depoimentos diários de turistas nos telejornais do país, mas agora é oficial. De acordo com pesquisa do Datafolha, 83% dos turistas que vieram para a Copa aprovaram a organização do evento. Mais surpreendente ainda: 76% consideraram ótima ou boa a qualidade do transporte até as arenas. Como as obras para melhorar a mobilidade não foram concluídas, como as reformas dos aeroportos não ficaram prontas, ficou comprovado que o Brasil deu um jeitinho. É isso que me preocupa. Agora, a imprensa foi pessimista. Exagerou. Viu como sabemos organizar um grande evento? O preocupante é que o sucesso da Copa do Mundo pode fazer nossas autoridades relaxarem em relação à organização das Olimpíadas. Se a gente dá um jeitinho em cima da hora, para que se preocupar tanto com antecedência? Não sei não, talvez seja melhor a gente continuar sendo pessimista.



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