terça-feira, julho 22, 2014

A crise depois do abate - Opinião - Estadão

A crise depois do abate - Opinião - Estadão

A crise depois do abate

O Estado de S.Paulo

22 Julho 2014 

Os Estados Unidos estão a um passo de acusar com todas as letras o presidente russo, Vladimir Putin, pelo abate do voo MH17 da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo, que na quinta-feira passada, fazendo a rota Amsterdã-Kuala Lumpur, cruzou o espaço aéreo do leste da Ucrânia, controlado pelas forças separatistas pró-Rússia, onde foi atingido por um ou mais mísseis do lançador Buk, criado pelos russos e fabricado também pelos ucranianos. Não está claro se o equipamento foi transferido por Moscou aos seus aliados ou se foi por eles capturado na incursão a uma base militar do governo nas proximidades de Donetsk, em 29 de junho, como informou uma agência estatal russa de notícias.

O fato é que, domingo, em entrevistas a cinco redes americanas de TV, o secretário de Estado John Kerry foi além do que tinha ido a Casa Branca ao atribuir a Putin a responsabilidade moral pela catástrofe, enquanto o exortava a cortar a ajuda às milícias russófilas. Aludindo aos seus recentes ataques a aviões militares ucranianos, mas com foco na derrubada do Boeing da Malaysia, ele reiterou: "A Rússia apoia os separatistas, abastece os separatistas, encoraja os separatistas e treina os separatistas". Se não o fizesse, dispensou-se de emendar, eles seriam hoje pouco mais do que grupos guerrilheiros, incapazes de conter as Forças Armadas de Kiev.

Não havia, decerto, a intenção de atingir um jato comercial de um terceiro país. Ao vê-lo despencar em chamas, um chefe rebelde celebrou na internet a queda de mais uma aeronave inimiga. Ao tomar conhecimento do que se tratava na realidade, apressou-se a apagar a mensagem. Nada isso, obviamente, serve de consolo para as famílias das vítimas - entre as quais estavam dezenas de pesquisadores da aids a caminho de um congresso na Austrália. Nem, tampouco, atenua o impacto político da enormidade. A crispação entre o Ocidente e a Rússia, desde a anexação da Crimeia por Moscou, já levara os EUA e, em menor grau, a União Europeia a aprovarem duas rodadas de sanções contra autoridades, oligarcas do círculo de Putin e empresas de setores cruciais da economia russa - energia e armamentos.

Mas, já não bastasse a tragédia do MH17, o que agravou a crise no último fim da semana - a ponto, por exemplo, de o novo chanceler britânico declarar que "a Rússia se arrisca a tornar-se um Estado pária" - foram as ações separatistas no local onde o Boeing caiu, a aldeia de Gabrovo, na esquina da fronteira com a Rússia. Embora tivessem prometido o contrário, negaram acesso desimpedido ao local dos observadores enviados pela Organização para Segurança e Cooperação na Europa (Osce). Mais: antecipando-se aos eventuais investigadores da Organização da Aviação Civil Internacional (Oaci), cuja presença foi exigida pela Holanda, com aparente apoio russo, os milicianos se apossaram das caixas-pretas do jato e revistaram os seus escombros. Só ontem as devolveram.

Em um ambiente caótico, os brucutus ainda se apropriaram de pertences pessoais das vítimas e deixaram os corpos expostos por mais de 48 horas ao calor do verão europeu antes de empilhar 196 deles em um trem refrigerado. O aviltamento dos mortos, amplamente divulgado nos países ocidentais, diante do silêncio indiferente do autocrata do Kremlin, revoltou pessoas comuns e autoridades. O primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, declarou-se "chocado" com a "horrível" conduta dos separatistas. O americano Kerry descreveu os relatos como "grotescos". Os líderes da Alemanha, França e Reino Unido acertaram um encontro de cúpula da União Europeia para "definir as consequências" do cinismo de Putin.

Novas sanções - um teste para a dependência europeia do gás russo - estão em pauta, podendo incluir um embargo de armas para Moscou. Também o Conselho de Segurança da ONU ficou de ser convocado ontem. Washington se prepara para aumentar a ajuda a Kiev. "Todas as opções estão na mesa", disse Kerry, "menos o envio de tropas." Falta saber se, entre as opções de Putin, está a de congelar a ajuda aos separatistas. Sem isso, as pressões sobre a Rússia só aumentarão.



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