domingo, agosto 12, 2012

Viagem ao império dos palanques Vitor Hugo Soares


Liberado, em São Paulo, pelos médicos “para fazer o que quiser”, incluindo falar 24 horas seguidas em campanhas de candidatos do PT a prefeito – ou nomes de sua preferência na aliança federal governista – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva arruma a bagagem outra vez.
Ele vai pegar variadas rotas aéreas que o conduzirão nos próximos meses a, pelo menos, 10 capitais brasileiras. Viaja para dedicar-se ao trabalho que mais gosta e executa com maior prazer: o de palanqueiro-mor da República, que lhe deu fama e poder.
Enquanto se arrastam em Brasília o julgamento dos 38 acusados no processo do Mensalão (no STF), e a CPI do Cachoeira (no Congresso), na capital paulista se apressam os acordos definidores da agenda nacional do novo périplo eleitoral de Lula. Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife estão entre os primeiros destinos.
Mesmo que vozes do poder no Palácio do Planalto jurem, com dedos em cruz, que a presidente da República não se meterá em campanha municipal, sobram murmúrios de que o martelo das viagens foi batido esta semana em um almoço, logo depois que o ex-presidente ao deixar o Hospital Sírio Libanês, contente com as boas notícias e estímulos que acabara de receber do doutor Kalil sobre seu estado de saúde, “confidenciou” em voz alta: “Agora vou comer um bacalhau com a Dilma”.
Mal comparando (ou não?), o ex-presidente - nas pausas de seu estafante esforço para fazer do pesado petista Fernando Haddad o prefeito de São Paulo -, viajará em situação ambivalente. Muito parecida com a da narrativa no texto de Deodoro Roca, com o título “La Gran Prensa” (A Grande Imprensa), que acabo de ler na antologia “Contra La Prensa” (Contra a Imprensa), publicada na Argentina.
O livro reproduz escritos brilhantes – em geral provocativos e incômodos - de autores argentinos e mundiais, “sobre as margens sombrias do jornalismo” através dos tempos e das diferentes situações históricas, políticas, econômicas e sociais. Trabalhos compilados por Esteban Rodriguez. Não conheço tradução em português desta leitura mais que recomendável na quadra atual do Brasil. Um magnífico exemplar é o caso do ensaio citado acima, que fala da grande imprensa europeia.
Traduzo a história, precariamente, para os leitores destas linhas.
Conta Roca que, quando Napoleão fugiu da Ilha de Elba e desembarcou no Golfo Juan, o jornal mais importante da França escrevia em sua manchete:
“O bandido Corso tenta voltar à França”
Ao alcançar o bandido corso o meio do caminho da volta à Paris, o mesmo periódico escrevia:
“O general Bonaparte continua sua marcha para Paris”
Quando o general Bonaparte se encontrava a poucos quilômetros de alcançar a capital francesa, o jornal dizia:
“Napoleão segue em sua marcha triunfal”
E ao entrar Napoleão na capital de seu perdido império, o importante jornal da França arrematava o processo de suas informações com esta manchete:
"Sua Majestade o imperador entrou em Paris, sendo entusiasticamente recebido pelo povo!”
Depois de contado este caso, não faltarão, seguramente, defensores das teorias da objetividade da informação jornalística (“mas nem sempre da prática profissional de cada um”, como destacou esta semana Janio de Freitas em magistral entrevista no programa Roda Viva ), para dizer que o autor deste artigo perdeu o rumo e delira, ao contar uma história tão afastada da realidade brasileira.
Pode ser. Mas ainda assim é sempre bom acompanhar os fatos. Objetivamente, ou não, vale a pena ficar atento à viagem do ex-presidente no planejado retorno ao seu império dos palanques nacionais. Incluindo Salvador, um dos 10 portos da viagem.
Os petistas e aliados que organizam a agenda pretendem que Lula dê uma mãozinha ao amigo e companheiro fiel de outras batalhas, Jaques Wagner. Que ajude o governador da Bahia a carregar o deputado Nelson Peregrino, que se revela nas pesquisas eleitorais, conhecidas até aqui, fardo mais pesado que o imaginado no início por seus aliados, na terceira tentativa para alcançar (e levar com ele o PT) os domínios do Palácio Municipal Tomé de Souza.
Tem outros talvez mais pesados ainda, que certamente exigirão esforço maior da garganta de Lula, mas fiquemos por aqui. A conferir.

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