Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 10, 2011

Nas mãos de Deus CELSO MING


CELSO MING - Nas mãos de Deus


O Estado de S.Paulo - 10/09/11

Mais uma vez, os ministros de Finanças do Grupo dos Sete (G-7) países mais desenvolvidos se reuniram, ontem. Desta vez, em Marselha, França, para discutir saídas para a crise global.

Toda reunião desse tipo tem pelo menos duas coisas em comum: um comunicado final e a foto das autoridades, em geral de costas para uma paisagem-símbolo. Mas, nesta, não haverá comunicado oficial, provavelmente, por falta do que comunicar.

A pauta de problemas é enorme. Há dois dias, a nova diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, a francesa Christine Lagarde, fez um pronunciamento que resumiu tudo:

"Aumentaram os riscos de recessão e a demanda global necessária para garantir o crescimento sustentável está paralisada. Crescimento econômico fraco e balanços fracos dos governos, das instituições financeiras e dos consumidores desses países estão alimentando negativamente uns aos outros. Caso a oportunidade do crescimento continue a perder seu momento, os problemas aumentarão, a sustentabilidade fiscal estará ameaçada e desaparecerá a capacidade dos governos de salvar a recuperação".

Falta dizer o que pode ser feito. O diabo é que as propostas, quando existem, trombam com as necessidades dos outros países. Os Estados Unidos e a União Europeia, por exemplo, estão empenhados em provocar a desvalorização do dólar e do euro, respectivamente, para puxar pelas exportações. Mas, além de não garantir o efeito desejado, isso produz guerra cambial, essas enormes distorções em outros países, como o Japão e a Suíça - e não apenas o Brasil - estão denunciando.

Medidas na área fiscal parecem esgotadas. Os tesouros, superendividados, são limões excessivamente espremidos, o que os impossibilita de despejar incentivos orçamentários (subsídios ou redução de impostos) que se destinem a financiar a recuperação.

Essa também é a principal limitação para a tão propagada necessidade de elevar o capital dos bancos. Qualquer redução artificial do endividamento público, por sua vez, leva o risco de acentuar a vulnerabilidade dos bancos. Políticas de austeridade fiscal e de alta de impostos tendem a elevar a recessão, a reduzir a arrecadação e a debilitar ainda mais as finanças dos países endividados.

Um quadro fiscal assim puxa o foco para os grandes bancos centrais que, no entanto, já operam com juros no chão. Sua política monetária (política de juros) não tem mais tração. Nos Estados Unidos, os bancos preferem deixar seus recursos depositados no Federal Reserve (banco central) do que se arriscar a fazer mais empréstimos. Têm lá nada menos que US$ 1,6 trilhão.

O Banco Central Europeu (BCE), por sua vez, já recomprou, desde maio, 130 bilhões de euros em dívidas soberanas de países do euro. Tudo se passa como se tivesse dado sua garantia para toda a dívida pública do bloco. Esse jogo heterodoxo foi o principal motivo pelos quais o representante da Alemanha, Jurgen Stark, anunciou ontem sua saída do BCE (veja mais no Confira).

Enfim, as autoridades do G-7 têm muito o que discutir e quase nada a propor. A economia dos países ricos, especialmente a dos da zona do euro, parece mais nas mãos de Deus do que nas dos atuais dirigentes políticos.


CONFIRA

Cadeira vaga, de novo Há somente 5 meses, o então representante da Alemanha no Banco Central Europeu (BCE), Axel Weber, desistiu de sua candidatura à presidência do BCE e retornou para casa. Jurgen Stark, então, assumiu a vaga aberta, com mandato programado para até 2014. Mas, ontem, no entanto, ele também renunciou a seu posto depois de manifestar sua frontal discordância sobre o programa de recompra de títulos de dívida dos países da área do euro pelo BCE. Um após o outro, o representante da Alemanha está fadado a ser oposição dentro do BCE. Até quando?

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