O GLOBO - 07/09/11
Em todos os debates que participei nos últimos meses, com as mais diversas plateias, em regiões diferentes do País, alguém sempre me perguntou se há risco de o Brasil voltar ao tempo da inflação fora de controle. Foi assim de novo no último sábado, durante a Bienal, no Rio. Digo sempre que não temo esse risco e que a pergunta, em si, já é tranquilizadora.
A insistência com que a pergunta surge nos debates diz muito do País. A conversa com o público é sempre sobre o tema que me mobiliza, tanto que me levou a escrever um livro sobre a hiperinflação brasileira e a luta do País para vencê-la. Normalmente, a pergunta vem em tom de dúvida sobre se essa vitória é realmente definitiva. Essa dúvida mostra que o Brasil está atento aos riscos que representa uma inflação de 7%. Mais precisamente 7,23% em 12 meses, com o IPCA de agosto divulgado ontem.
Nunca há vitória definitiva sobre inflação, mas a hiperinflação que vivemos foi construída com uma sucessão de erros que dificilmente o Brasil repetirá. Não confio em governos; mas sei que o País viveu um processo tão traumático que tem horror de que aquele ambiente se repita.
Ai do governo que permitir a volta do mesmo fantasma. Engana-se quem pensa que o brasileiro não se lembra porque a maioria da população é jovem, ou o Brasil teria uma suposta propensão a ignorar o passado.
"Posso contar minha história?", pergunta uma senhorinha de cabelo todo branco, que se sentou na primeira fileira da Bienal no espaço Mulher e Ponto, onde estive no último sábado.
Contou que seu marido faleceu quando as filhas eram menores, e ela só teria acesso a uma poupança quando elas completassem 18 anos. O tempo de espera corroeu o valor do dinheiro deixado pelo pai para as meninas. Sempre ouço histórias marcantes do impacto da inflação na vida das pessoas. Sempre o Plano Collor é descrito como uma violência que ficou como cicatriz na história familiar.
Em plateias mais jovens, as lembranças são herdadas dos pais ou dos avós, que relatam fatos que os deixaram convencidos de que o País viveu uma barbaridade. Na Bienal, quando eu já estava saindo da sala, um adolescente, de talvez 13 anos, falou baixinho que tivera vergonha de fazer uma pergunta.
Eu o encorajei, e ele quis saber por que se trocava tanto de moeda. Expliquei como era difícil desmontar o mecanismo que reproduzia a inflação velha na moeda nova. Numa fila em Brasília, dois outros superjovens - de 12 anos - com o livro na mão me surpreenderam com perguntas sobre hiperinflação. Tenho recebido e-mails de pessoas de 90 anos a jovens que nada viveram daquela época: todos com o mesmo tipo de preocupação sobre a atual elevação dos preços. Eu os tranquilizo. Nada parecido com aquilo está, nem de longe, na linha do horizonte, mas eles é que me acalmam, por serem assim insistentes. A inflação tem estado acima da meta e com os 0,37% de agosto saiu de 6,9% para 7,2%. Nesse mundo novo que vivemos há 17 anos, é uma taxa alta, acima do limite máximo tolerado pelo regime de metas. Mas a linha atravessada não é uma arbitrariedade dos técnicos.
Os consumidores sentem o desconforto com a alta dos preços. Os brasileiros ficaram muito mais sensíveis a essas oscilações e por isso demonstram, em todas as pesquisas, que estão preocupados.
É outro tempo, é outro patamar, mas o inimigo é o mesmo: ele corrói a capacidade de compra. Tem batido em alimentos desde o começo do ano, dando pouco refresco na safra, e em agosto já está de novo em alta. Desta vez é a carne que subiu porque a produção de soja e milho no mundo foi afetada por problemas climáticos e isso encarece a ração do gado.
O Texas está pegando fogo. Literalmente. Em Brasília, da janela do apartamento da Asa Norte, vejo fogo no horizonte. Depois, a fumaça tornou ainda mais irrespirável o árido ar de Brasília. Aqui, essa é a estação da seca mesmo. Está ficando pior pelas liberações desenfreadas de construções em áreas antes cobertas pelo pouco verde da cidade.
Nos EUA, a seca foi para outros estados produtores. Rigores climáticos, como enchentes, frios extremos, furacões, estão reduzindo a oferta de alimentos mesmo num momento em que a desaceleração mundial permitiria prever uma redução dos preços das commodities.
As cotações cederam um pouco mas permanecem em nível muito alto. Mesmo assim, há previsões otimistas sobre a inflação, numa espécie de otimismo pelo avesso: dado que o mundo vai crescer menos, consumir menos e pode entrar em recessão, então os preços vão cair. Outros economistas acham que apesar da desaceleração há fatores que manterão pressões inflacionárias.
Por enquanto, todos concordam que as taxas mensais vão subir, mas o acumulado em 12 meses vai cair porque as taxas do ano passado foram altas demais no fim do ano. Isso reduzirá a inflação acumulada.
O Brasil tem dois problemas neste momento: o governo não fez ajuste fiscal, apesar de garantir que fez; e há dúvidas sobre a autonomia do Banco Central para evitar a alta dos preços. A melhor âncora continua sendo o País que não quer viver de novo a sensação de preços em descontrole.
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