O Estado de S.Paulo - 09/09/11
Desta vez, a Ata do Copom, documento pelo qual o Banco Central justifica sua política monetária (política de juros), não acrescentou nada de especialmente novo ao comunicado divulgado logo após a reunião do dia 31 de agosto. Mas deixou muitas dúvidas.
O Banco Central, presidido por Alexandre Tombini, definiu dia 31 o corte surpreendente de 0,5 ponto porcentual nos juros básicos (Selic) como a melhor resposta à forte deterioração das condições da economia mundial e ao reforço de contribuição da política fiscal (aumento do superávit primário).
Ao contrário do que alguns analistas vêm afirmando, o Banco Central não se aferrou à necessidade de acentuar a velocidade do crescimento econômico interno. Avisou (sem deixar demonstrado) que a paradeira externa deverá produzir uma desinflação no mercado internacional e, assim, contribuir para reduzir a pressão sobre os preços internos. E, se a tendência é de menos importação de inflação, conjugada à redução da inflação medida em 12 meses, não há - infere-se da Ata - nenhuma razão para não cortar os juros em meio ponto porcentual ao ano.
Não se pode negar a piora das condições da economia global. E também não é possível colocar em dúvida o impacto favorável sobre os preços internos que será proporcionado pela elevação de R$ 10 bilhões no superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida). É que essa economia de recursos deve contribuir para diminuir a criação de renda e, portanto, para conter o aumento da demanda por bens e serviços e, nessas condições, tirar força das remarcações internas de preços.
Mas em nenhum momento ficou demonstrado que a deterioração das condições externas seja tão forte e que a melhora dos indicadores fiscais internos seja tão relevante a ponto de justificarem a dosagem reforçada no corte dos juros. Há desproporção entre diagnóstico e a decisão tomada.
O Banco Central também não deixou pistas sobre a decisão de dar menos importância a outros fatores que vêm puxando os preços internos para cima e que, no entanto, se mantêm fortemente ativos. Um deles é a inflação dos alimentos. Apesar da retração geral do mercado mundial, os preços das commodities alimentares continuam subindo, em consequência do crescimento da procura por parte do consumidor asiático.
Nada indica arrefecimento das pressões internas provenientes do mercado de trabalho, nem do aumento dos salários muito acima dos avanços da produtividade nem, tampouco, da forte alta dos serviços.
O Banco Central também não explicou por que passou a operar o sistema de metas fora dos padrões anteriores de comunicação. Por que dispensou desta vez a até agora necessária sinalização dos seus passos seguintes? Em nenhum momento havia antes sugerido a iminência do reinício da temporada de afrouxamento monetário. Nem que o corte dos juros poderia ser essa paulada de meio ponto porcentual. O que o levou a mudar de curso?
A Ata também não dá sinais de eventuais alterações na até agora considerada importante política de administração das expectativas. Parece claro que mudanças bruscas podem vir a qualquer momento, sem prévio aviso.
CONFIRA
Cartola sem coelho
Como das outras vezes, o pronunciamento do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, foi fortemente esperado. Mas, também como das outras vezes, ele só disse que contava com poderosos instrumentos de ação, sem avançar nem quais são nem se os colocará em prática.
Troca de títulos
A expectativa agora está na chamada Operação Twist. Espera-se que o Fed troque boa parte dos US$ 2,3 trilhões em ativos de curto prazo por títulos do Tesouro de longo prazo. Bernanke não deu nenhuma indicação de que fará a troca.
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