Os riscos dos ricos MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 13/07/11
A grande dúvida é sempre como a crise externa vai bater em nós; e se vai. A pergunta deve ser feita sempre, para que o país saiba se fortalecer. Há cenários muito ruins para a Europa e outros menos ruins. Não há bons cenários. Haverá moratória de alguns países, e o projeto político da moeda comum está em xeque. A crise é deles e dos Estados Unidos, mas o mundo está todo ligado.
O economista José Márcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos, é taxativo:
- Trabalho com três cenários, todos ruins: uma moratória organizada da Grécia, com mudanças negociadas de prazos de pagamentos; uma moratória desorganizada, como a da Argentina; e o melhor, mas menos provável, que seria um aprofundamento da união monetária, com emissão de títulos comuns. A dificuldade é que isso exigiria intervenção em países que descumprissem regras.
Joseph Tutundjian, especialista em comércio exterior, acha que pelo lado do comércio a Europa é grande para nós. O Brasil exportou para a região 21% de tudo o que vendeu em 2010, ao todo, US$43 bi. Mas quase metade disso foi de produtos básicos, que têm uma demanda mais firme. De qualquer maneira, afeta. Um aprofundamento da recessão na Europa atinge também a China, que é grande exportadora para lá. O embaixador Sérgio Amaral acha que se a China não tiver compradores na Europa pode querer inundar o mercado de outros países, como o Brasil.
A crise de agora é a mesma crise de 2008. Não é diferente: uma coisa levou à outra. Os bancos quebraram e os governos gastaram demais para salvar, agora os governos estão com dívidas altas, déficits altos, e os bancos que compraram os papéis dos governos estão em novos apuros. Agora, os bancos estão passando por um pente fino que eles chamam de "testes de stress". Os órgãos fiscalizadores avaliam os ativos e passivos dos bancos para saber como eles vão se comportar em cenários ruins. Vários serão reprovados.
- Estamos vendo um segundo momento da mesma crise, que começou com uma crise bancária e agora virou fiscal. O risco é ela voltar a ser crise bancária - explicou o embaixador Sérgio Amaral, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China.
Nossos bancos não estavam expostos aos riscos do subprime em 2008 e passaram bem pela crise. A fragilidade dos bancos é deles e não nossa. Qual o nosso risco? É pagar o preço de uma dificuldade de crédito global.
- Mesmo se a Grécia fizer uma moratória negociada, as agências de classificação de risco disseram que isso é calote. Isso aciona o CDS - diz José Márcio Camargo.
O CDS (Credit Default Swap) é o seguro contra o calote, que cada detentor de papel compra. Acionar o CDS significa que quem tem um título grego pode cobrar o seguro, caso não receba na data:
- Teríamos um congelamento do crédito, porque ninguém sabe quem vai pagar esses seguros.
Para piorar, as agências continuam atirando. Ontem, a Moody"s rebaixou a Irlanda porque uma reestruturação da dívida grega vai afetar Irlanda e Portugal. Ou seja: se a Grécia der o calote, aumenta ainda mais o temor de que a Irlanda e Portugal também deem o calote, e aí a profecia se cumpre.
O economista Newton Rosa, da SulAmérica Investimentos, acha que deveria ser feito um programa como o Plano Brady, que socorreu a América Latina. Quem viveu viu. Quando uma moratória é inevitável, não há jeito: só mesmo com os credores que emprestaram demais aceitando perder um pouco:
- A Grécia tem 330 bilhões de dívida e 22% disso estão com os bancos gregos, mas depois vem França, Alemanha, Bélgica.
E nós, como poderemos ser afetados? Essa é sempre a grande pergunta.
- Desde que não tenhamos uma crise financeira, o Brasil fica bem, porque o crescimento é sustentado pela demanda interna. Temos reservas, superávit comercial, um crescimento do PIB acima da média mundial - diz Rosa.
Longe da crise, mas sofrendo respingos, o Brasil vai amargando uma queda de 14,7% na Bovespa este ano. De 4 de novembro para cá, que foi o pico recente, a bolsa já caiu 18,2%. Muito para um país que está tão bem e até recebendo o fluxo de capitais externos abundante.
Segundo José Márcio, a Itália, que agora está no lugar da bola da vez, até que não está tão mal. É verdade que ela tem uma dívida de 120% do PIB, mas o déficit é pequeno comparado com o de outros países:
- A Itália tem um déficit de 6% do PIB, então teria que fazer um ajuste de 3%, que é bastante viável. Mas se o mercado continuar desconfiado, o governo gastará cada vez mais para rolar sua dívida e aí ficará difícil reduzir o déficit.
A revista "Economist" divulgou ontem uma análise de que a Itália está em melhor situação que muitos países grandes. A Inglaterra, por exemplo, está com déficit primário - ou seja, descontando o pagamento de juros - de 4,4%. O dos Estados Unidos é 6,8%. O do Japão é 4,9%. Por esta medida de contas públicas feita pela revista inglesa, a Itália teria superávit.
Em resumo: a situação é de risco para economias grandes, algumas até maiores do que a nossa, outras com tamanho suficiente para produzir um efeito cascata que afete a todos. A crise de 2008 é a crise que não terminou. Por isso é melhor ficar atento a todos os pontos fracos da economia brasileira.
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