13 de fevereiro de 2011
O Estado de S.Paulo
A cena durou alguns segundos na tela, um clarão fugaz que nos gravou na retina a imagem de milhares de pessoas protestando nas ruas do Cairo. A situação era descrita pela voz empostada de um locutor cubano, que sustentava que a crise do capitalismo havia feito explodir o inconformismo no Egito e as diferenças sociais estavam afundando o governo.
Ele apenas mencionou que um ciclo de quase 30 anos estava desmoronando em apenas uma semana, justo lá, um país onde a história se mede com números de quatro cifras. A alusão entre nós à prolongada permanência no poder de Hosni Mubarak foi - como observa o cancioneiro popular - o mesmo que "falar de corda em casa de enforcado", insinuar que em nosso próprio quintal um autoritarismo de cinco décadas também excedeu sua data de validade. Talvez para evitarmos essa comparação, os meios de comunicação estatais se mostraram cautelosos com as notícias que chegavam do Norte da África. Eles nos administram a colheradas a narração dos fatos, sem insistir em todos os motivos que empurraram o povo a colocar limite ao mandato personalista de um octogenário. Apesar do sigilo jornalístico, outros fragmentos do ocorrido chegaram até nós pelas redes alternativas de informação.
A prudência oficial não pôde evitar que nos surpreendêssemos com a vista aérea da Praça Tahrir que vibrava ao ritmo da espontaneidade, quando por estes lados há muito anos que não se vê essa fraqueza na sóbria e cinzenta Praça da Revolução. Era inevitável que, ao observar a multidão manifestando-se com cartazes, terminássemos fazendo a pergunta que aquele locutor queria afastar de nossas mentes: Por que não ocorre algo assim em Cuba? Se nosso governo é de data mais antiga e o colapso econômico se converteu em elemento inseparável de nossos dias, o que impede que empreendamos o caminho do protesto civil, da pressão pacífica nas ruas?
O Egito veio sacudir-nos em nossa mansidão e o arrojo de outros nos defrontou com nossa apatia, nesta nação onde o tempo se mede em efemérides "revolucionárias".
A teoria de povos valentes e povos covardes é, no mínimo, simplista. Não há uma genética da rebeldia e tampouco se pode prever em que momento o inconformismo atinge seu ponto de ebulição. Esta ilha nutriu desde 1959 as especulações, os baralhos de ler a sorte e até as quadras rimadas de analistas, cartomantes e profetas. Ante esses augúrios de um futuro que nunca chega, milhões de cubanos resumiram sua atitude cívica a um vocábulo moroso: esperar.
Eles acalentam a ilusão da solução rápida, de deitar-se um dia num Estado sem direitos e acordar no outro numa Cuba democrática. Mas lançar-se nas praças não, pois esse asfalto retinto das avenidas pertence - e assim nos dizem desde pequenos - a Fidel Castro e ao Partido Comunista. Nos fizeram acreditar que protestar em público contra as demissões em massa, o alto custo de vida ou para exigir a renúncia de um gabinete são gestos que outros empreendem, ações que somente são possíveis fora de nossas fronteiras nacionais. No interesse de impedir que uma multidão tome as calçadas e grite em uníssono "fora presidente!", eles ativam os mecanismos ocultos de controle, os recursos do medo. A engrenagem da vigilância que não conhece crise econômica nem cortes paira constantemente sobre nós.
Neste momento, ela está indecisa, ajustando seus agentes, seus carros, suas leis, para evitar o contágio que pode vir do Leste. Pois embora o Cairo fique muito longe, há demasiadas analogias entre os cubanos e aqueles rostos que vimos reunidos na marcha de um milhão. Eles gritavam contra Mubarak, mas do lado de cá da tela muitos sentimos que eles nos intimavam, que nos faziam sentir vergonha de nossa inércia. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
É JORNALISTA CUBANA E AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. EM 2008, RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO. ESTREIA HOJE COMO COLUNISTA DO "ESTADO"
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