quarta-feira, julho 17, 2013

Sem luz no caminho - LUIZ FELIPE LAMPREIA

O GLOBO - 17/07

A deposição do presidente Mohamed Mursi pelo exército egípcio foi o sinal, para muitos, de que as aspirações libertárias da praça Tahrir, em 2010, foram definitivamente enterradas. Afinal, Mursi tinha sido eleito, ainda que por margem mínima, no primeiro pleito democrático da história do país. Teria a primavera árabe acabado aí?

Tom Friedman, o excelente colunista do New York Times , perguntou-se recentemente se a deposição do presidente filiado à Irmandade Muçulmana, não seria o começo de um refluxo do Islã político. Outros sinais seriam os protestos da juventude urbana de Istanbul contra o partido islamista no poder, a eleição do moderado Hassan Rouhani no Irã, a evolução da Tunísia para uma constituição moderada e a primeira eleição livre na Líbia que viu a derrota dos candidatos fundamentalistas. Mesmo assim,Friedman foi cauteloso evitando concluir que a onda passou. Eu tenho aqui as minhas dúvidas.

Aquilo que veio a ser conhecido como a primavera árabe suscitou, sem a menor dúvida, uma enorme esperança de quebra do padrão generalizado de autoritarismo e corrupção dos governantes árabes. A derrubada e posterior enxovalhamento dos ditadores Mubarak, no Egito, e Ben Ali, na Tunísia, ecoaram em todo o mundo árabe como um toque de clarim, anunciando uma nova era de liberdade. Daí a prever que todos os autocratas teriam o mesmo fim era um passo apenas. Sucede porém que isso não ocorreu. Mesmo no caso de Tunísia, Líbia e Iêmen, onde os tiranos foram expulsos, as esperanças de um transição democrática viram-se frustradas. Cada país árabe está passando por um processo próprio, as várias ditaduras foram, por vezes, capazes de contrapor às massas uma força militar considerável, ainda que estrangeira, como foi o caso no Bahrein. O erro dos otimistas consistiu em achar que a primavera seria uniformemente florida.

Dizia-me um amigo turco, na época, que em seu país a democracia só se enraizara décadas depois do fim do Império Otomano e de toda sorte de oscilações políticas. Claramente, muita água vai passar sob as pontes do Nilo antes que os países árabes cheguem, como a nossa própria América Latina, a ser um espaço quase uniformemente democrático. As ditaduras salgaram a terra, impediram a criação de partidos e instituições democráticas, fomentando o surgimento dos ovos de serpente do radicalismo de todo tipo.

Em recente artigo, Francis Fukuyama notou que, sempre que ela surgiu, uma classe média moderna tem causado fermentação política, mas muito raramente conseguiu, por si mesma, provocar mudanças políticas duradouras . Trata-se de outro prisma interessante para buscar compreender as convulsões do mundo islâmico. As sociedades muçulmanas do Oriente Médio estão conseguindo gradualmente romper o fatalismo da desigualdade social , mas há enormes diferenças entre a Turquia moderna e os palestinos de Gaza ou Ramalá, entre a Síria brutalizada e o Marrocos, e assim por diante. Fukuyama não descobriu a chave mestra para entender o impasse árabe.

Outra discussão importante trata da relação entre fundamentalismo religioso e democracia na região. No Egito, que é o mais importante país árabe, a eleição do líder da Irmandade Muçulmana foi um teste importante: este fato político seria capaz de fortalecer a democracia, com a cooptação de um partido forjado na clandestinidade por oitenta anos e dotado de uma filosofia operacional conspiratória? A resposta foi negativa.

Chegando ao poder, a Irmandade radicalizou, fechando-se em copas, e mostrou-se incapaz de governar para o bem comum, o que levou a imensas manifestações contra Mohamed Mursi e enfim à decisão do Exército de intervir mais uma vez na política egípcia. Isso, naturalmente, não quer dizer que a Tunísia ou a Jordânia não possam apresentar melhores experiências de pragmatismo e flexibilidade política. Mas o episódio egípcio poderá levar os fundamentalistas a concluir que a democracia é apenas uma armadilha contra eles, com a conclusão, para eles lógica, de que é necessário ter uma conduta ainda mais combativa.

Não há um único farol a iluminar o caminho. Com todas as nuances de cada país árabe, nenhum deles conseguiu despontar como a prova de que a democracia pode vingar, nem sequer que haja um exemplo, um único exemplo, de que os povos árabes podem finalmente esperar gozar de liberdade e de melhores horizontes sociais. Por isso, é necessário concluir, pelo menos provisoriamente, que a primavera árabe não conduziu ao verão. 

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