Círculo europeu MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 04/10/11
Ler notícia velha sobre a crise europeia prova que as lideranças políticas estão sempre atrasadas e isso tem alimentado o agravamento do problema. Em fevereiro de 2009, a Comissão Europeia anunciou que abriria procedimento para saber o que fazer com cinco países, entre eles a Grécia, que tinham estourado o limite de 3% do PIB de déficit público. A Grécia disse que o déficit será de 8,5% este ano.
Os gregos anunciaram ontem que colocarão em "reserva" 30 mil funcionários públicos. Eles ficarão em casa sem trabalhar, com salário reduzido, e dentro de um ano serão demitidos. Um quinto da população economicamente ativa da Grécia trabalha para o governo. O país tem 11 milhões de habitantes, mas 3,5 milhões de população economicamente ativa. Desses, 750 mil são funcionários públicos. Visitados pela "troica" - representantes do FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia - os gregos avisaram que não cumprirão as metas fiscais de 2011 e 2012, que são muito maiores do que os sonhados 3% de quando a UE foi organizada.
A revista Economist avisou que é para ter medo desta crise. Segundo ela, o mais preocupante é a incapacidade dos líderes de encontrar uma saída factível e rápida. "O melhor que pode ser dito é que eles agora têm o plano de ter um plano", mas só será discutido na reunião do G-20 em meados de novembro. O plano será fazer um círculo de proteção para a Itália, que tem um problema de liquidez, mas não de solvência; negociar uma reestruturação da dívida grega com perdas para os bancos; garantir que os bancos não terão novas perdas com outros países, e assim isolar o pior caso. É até um avanço o déficit de 8,5% da Grécia, porque em 2010 foi de 10,5%. Este ano, a previsão era de recessão de 3,5% e está indo para 5,5%. Os gregos ficaram presos no círculo que a América Latina conhece bem: os ajustes para enfrentar a crise da dívida soberana são muito fortes e aprofundam a recessão; a recessão piora o déficit.
Em fevereiro de 2009, a notícia era que a meta de 3% do PIB de déficit havia sido estourada por Espanha, França, Irlanda, Grécia e Letônia, em 2008. Hoje, esse número até parece bom. A Grécia naquele ano deu um susto na União Europeia quando o atual governo assumiu e descobriu que fraudes contábeis haviam escondido o real tamanho do rombo. Ele foi recalculado para nada menos que 9,8% do PIB. Em 2009, foi a 15,5% e em 2010 ficou em 10,5%. A Grécia entrou num círculo vicioso que a leva à mais dívida, mais déficit, mais dívida, mais déficit.
Os bancos credores desconfiam do país; o mercado desconfia dos bancos credores. Quando a Grécia recebeu a ajuda de 110 bilhões de euros para um PIB de US$ 318 bilhões, o país prometeu levar o déficit aos desejados 3% em 2014. Isso dificilmente vai acontecer. Hoje, a dívida é de 158% do PIB. O pior é que isso vem após um momento de prosperidade. Desde que aderiu à Zona do Euro a Grécia passou um tempo crescendo mais do que a média, principalmente na preparação das Olimpíadas de 2004.
A Zona do Euro não é funcional. Foi feita para tudo dar certo. Quando dá errado, qualquer solução tem de ser aprovada pelos parlamentos de 17 países que usam a moeda - dos 27 que fazem parte da UE - e para inúmeras questões os países têm direito de veto. Isso iguala a Alemanha, país mais forte da região, com a Grécia, o mais vulnerável. O BCE comprou muita dívida dos países endividados para mostrar o seu compromisso com a moeda comum. O próprio banco está com ativos podres, principalmente na hipótese aterradora de haver uma sucessão de moratórias como houve na América Latina nos anos 80. O francês Jean Claude Trichet sairá do BCE ao fim do mês e seu sucessor será Mário Draghi. Caberá a um italiano decidir sobre o resgate da Itália com o dinheiro de todos os europeus.
A Alemanha tem um poder pulverizado e um eleitor mandando sinais contraditórios: não quer que o euro acabe, mas não quer resgatar a Europa inteira. Os outros países estão presos nos seus dilemas: querem que os governos frágeis sejam resgatados mas temem fortalecer mais a Alemanha. Na França, o poder está mais concentrado no presidente Nicolas Sarkozy, porém ele está em campanha eleitoral e os bancos franceses estão expostos aos países encrencados.
A Europa está prisioneira de círculos. O continente é grande demais para que uma crise lá não afete o mundo inteiro com suas conexões mais estranhas. Ontem de novo o dólar subiu no Brasil, venceu a barreira do R$ 1,90 e o Banco Central teve novamente que vender dólar. Desde que começou a subir, a moeda americana já acumula alta de 18,6%. Pelo cálculo da Economática, tirando a Petrobras, o estoque da dívida das 240 empresas de capital aberto subiu R$ 15 bilhões no trimestre pelo efeito da desvalorização sobre o endividamento em dólar.
O que mais aflige na crise do euro é não saber exatamente quem está no comando da solução. Por mais inquietantes que fossem as outras crises, como a americana em 2008, havia um governo. Quem tem 17 governos não tem nenhum; uma estrutura que dá ao país resgatado e ao que vai resgatá-lo o mesmo poder de veto construiu uma governança inviável.
Uma moeda única que tem 17 tesouros nacionais tem dificuldade de ficar em pé. Essa crise é mais complicada que as outras.
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