O GLOBO - 02/08/11
O governo americano deve conseguir elevar o teto da dívida, mas a crise dos últimos três meses revelou muito sobre a economia e a política dos Estados Unidos. O país que lidera a economia mundial tem um déficit e uma dívida insustentáveis, um ritmo de crescimento fraco, uma política polarizada, e tem levado o mundo a níveis inimagináveis de ansiedade.
Nenhum país do mundo poderia dar todos esses sinais de fraqueza econômica e crise de governança sem ser rebaixado pelas agências de classificação de risco. Se rebaixado, fundos de investidores tenderiam a vender pelo menos uma parte dos papéis que mantêm em portfólio, e isso elevaria o custo da dívida. Nada disso aconteceu porque o mundo já sabe que o rei está nu, mas ninguém vai dizer isso a ele.
As agências de classificação de risco resmungam, os chineses criticam, mas nada além disso. Economistas como Paul Krugman dizem que os Estados Unidos não deveriam cortar gastos. Como um país que tem 100% de dívida/PIB e 11% de déficit público pode não cortar gastos?
O acordo é visto com má vontade, como disse o senador Harry Reid, pela esquerda, pela direita e pelo centro. Isso, apesar de os cortes estarem programados para dez anos. Nenhum dos lados da política americana quer fazer o trabalho doloroso de se ajustar.
Um país que em 11 anos eleva sua dívida/PIB de 55% - como era no fim do governo Bill Clinton - a 100% e que transforma o superávit primário em um déficit tão grande neste período seria olhado com maus olhos por todas as agências de classificação de risco.
As agências costumam dizer que mais importante do que a dívida é sua trajetória passada e perspectiva futura. Se ela sobe rapidamente, é mais preocupante; pior ainda se o país mantém um déficit alto porque o endividamento será crescente. Eles também dizem que quando o sistema de governança do país demonstra dificuldade na tomada de decisão, a avaliação piora. Elas esqueceram seu próprio manual.
A hesitação das agência de risco, a paralisia dos fundos de investimentos, dos administradores das reservas dos países diante desse quadro explosivo demonstram que o mundo é prisioneiro da dívida americana. Todos temem desmantelar o quadro de ativos e passivos do mundo.
O acordo é de enorme complexidade e tem várias etapas com riscos de impasses. Ele prevê um aumento imediato do teto da dívida em US$ 400 bilhões e outro de US$ 500 bilhões até fevereiro que, teoricamente, depende de voto no Congresso. Teoricamente, porque se for derrubado, o presidente pode vetar.
Em outubro começa o corte de despesas de US$ 917 bilhões em dez anos, mas que em 2012, primeiro ano, será de apenas US$ 21 bilhões. Até 23 de novembro, a comissão conjunta de 12 parlamentares terá de ter aprovado um corte adicional de US$ 1,2 trilhão a US$ 1,5 trilhão em gastos sociais e de defesa, podendo também elevar impostos.
O Congresso terá então um mês para rejeitar ou aprovar essa nova rodada de redução de despesas. Rejeitando ou aprovando, o projeto terá de ser aprovado por dois terços das duas Casas. O presidente Obama pode então pedir uma nova elevação do teto da dívida que leve o problema para depois do fim de 2012. Enfim, é um acordo de procedimentos para se chegar a novas etapas de votação. Em todos, o presidente tem poder de vetar, mas o debate permanecerá na agenda, ainda que sem a sensação de desastre iminente que esteve presente nas últimas semanas.
Ontem, as bolsas que abriram em alta voltaram a cair depois que saiu o dado de queda do índice de confiança dos gerentes de compra. Os investidores querem que haja acordo, mas como isso significa corte de gastos, e a confiança dos empresários está em queda, a conclusão é que a economia global vai demorar mais a se recuperar. Os Estados Unidos são os maiores importadores do mundo. Compraram US$ 1,9 trilhão no ano passado. Se eles comprarem menos afetam dois países que têm sustentado a economia mundial e que são os maiores fornecedores: China e Alemanha. Pelo tamanho do PIB, da dívida e do comércio americano, todos preferem não dizer que o rei está despido.
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