O GLOBO - 07/08/11
Vários riscos rondam os Estados Unidos: dívida rebaixada, desemprego alto, recessão. O maior perigo, no entanto, são os fantasmas que o Tea Party está trazendo de volta à vida e ao debate político. A facção do Partido Republicano é um aleijão conservador capaz de defender teses como a de que as famílias dos negros eram mais estáveis na época da escravidão do que na era Obama.
Dois pré-candidatos da ala radical do Partido Republicano às eleições presidenciais do ano que vem - Michelle Bachmann e Rick Santorum - endossaram documento em defesa do casamento que sustenta a aberração acima: "uma criança nascida na escravidão, em 1860, tinha maior probabilidade de ser criada por seu pai e mãe do que uma criança afro-americana nascida depois da eleição do primeiro presidente afro-americano." Com a má repercussão, os dois fizeram um adendo para amenizar, mas nada salva uma coisa assim.
É um pensamento inqualificável, mas revelador. Num artigo no jornal americano "New York Times", a professora de História da universidade de Princeton Tera Hunter disse que o documento revela ignorância sobre a História americana. As crianças nascidas em cativeiro não pertenciam aos seus pais, mas aos seus donos. O casamento era considerado um direito civil permitido apenas às pessoas livres. A deputada Bachmann e o ex-deputado Santorum poderiam ler um livro de fácil acesso. Estou lendo no iPad: "Incidents in the life of a slave girl" ("Incidentes na vida de uma menina escrava", em tradução livre), escrito pela escrava Harriet Jacobs e publicado em 1861. Doloroso relato de longos anos na escravidão. Ela publicou quando fugiu para o Norte.
O que de vez em quando vem à tona nos Estados Unidos não é o sempre presente pensamento conservador republicano, mas o absurdo radicalismo que levou os Estados Unidos a fraturas e violências raciais. Isso foi o mais assustador da polarização vista nos últimos dias nas discussões sobre votar ou não a elevação do teto da dívida.
A direita irracional torceu pelo quanto pior, melhor. Por mais concessões que fizesse o presidente Barack Obama, eles exigiam mais. Defendiam não uma tese, mas a humilhação do presidente. Para alguns dos seus partidários, ele se humilhou e se rendeu. Por isso o Partido Democrata rachou numa votação que foi aflita até o minuto final.
No momento seguinte à aprovação, o Tea Party já estava na Fox News vociferando contra o acordo, dizendo que era preciso cortar muito mais, desde, claro, que não se aumentasse os impostos sobre a indústria do petróleo, os muito ricos, nem se cortasse na máquina de guerra. O canal é de Rupert Murdoch, o dono de meios de comunicação que cometem crimes na Inglaterra e da Fox News, que incentiva a extrema direita nos Estados Unidos.
Os perigos civilizatórios exibidos na crise política americana são maiores do que o desequilíbrio fiscal. Pode-se argumentar que eles são uma minoria. Mas quando surgiram poucos anos atrás eram meia dúzia de figuras exóticas que gostavam de se exibir com armas matando animais em extinção. Hoje, têm 25% da representação republicana, constrangem os mais moderados do partido e sequestram o debate político.
Os liberais, no sentido americano da palavra, perdem os bons argumentos ao propor que o governo não deveria cortar gastos. Uma economia naquelas circunstâncias não está em condições de propor uma política fiscal expansionista. Tem que saber onde cortar. Os democratas têm razão em apontar os gastos da Defesa como o local onde as despesas devem ser diminuídas; deveriam dizer de forma mais alta que a explosão do déficit e da dívida foi obra republicana, mas propor expansão de gastos para ativar a economia, num país com 11% de déficit, é uma maluquice completa. Os liberais argumentam que o presidente Barack Obama se rendeu ao Partido Republicano. De fato, ele abriu mão do mais brilhante no seu argumento, que era a suspensão das deduções de impostos em favor dos muito ricos e da indústria do petróleo, que foram feitas no governo de George Bush. Os democratas deveriam se assustar mais com o aparecimento dos resquícios da pior direita americana.
Os autores do texto vieram a público garantir que são contra a escravidão. Bom, só faltava eles dizerem o contrário. Mas a construção do seu raciocínio tem sinais evidentes de que um grupo político americano está soprando as brasas da mesma direita que fez a guerra civil, armou grupos de extermínio de negros, manteve a segregação e montou o tribunal do Macartismo. O pior lado americano não morreu. É possível vislumbrar seu fantasma no fortalecimento do Tea Party.
Com a sociedade ficando aflita pela falta de emprego, o crescimento claudicante, a desvalorização da sua moeda, a crise imobiliária, até que ponto os ouvidos do americano médio estarão dispostos a ouvir os disparates da direita radical?
O mais relevante não é saber quem vai governar os Estados Unidos a partir de 2013, depois do atual mandato de Barack Obama. Mas quantos corações americanos serão capturados por esse pensamento da extrema direita, que hoje tem voz, voto, meios de comunicação, representação política e capacidade de constranger o centro do país.
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