O GLOBO
Três grandes perguntas rondaram o país ontem: Como a crise afeta o Brasil? Por que a bolsa brasileira caiu mais que as outras? Teremos de novo uma crise como a de 2008? Começarei pela última. Não é uma crise como a de 2008. Por enquanto, é menor. Ainda é só uma forte queda das bolsas, muita instabilidade no mercado de moedas e redução dos preços de commodities.
Nos afeta pela queda dos preços dos produtos que o Brasil exporta. Isso pode aumentar o déficit que o país tem nas contas externas. A bolsa brasileira tem uma representação exagerada de empresas ligadas às commodities. Essa é uma das razões pelas quais ela cai mais. A queda não é sinal de que a economia brasileira está pior do que as outras. Mas o Brasil não é inatingível. Se a perspectiva é de crescimento menor do mundo, o Brasil cresce menos também. Não temos aquele volume espantoso de poupança da China, com a qual ela aumenta o investimento para produzir uma demanda crescente doméstica, para compensar uma recessão mundial.
Ontem, o mercado amanheceu pessimista, mas sem pânico, na Ásia. Ficou mais nervoso na Europa. E houve um momento de pânico em que o Ibovespa desabou e as bolsas americanas caíram fortemente logo após a fala vazia do presidente americano, Barack Obama. Criar expectativas para dizer nada é a melhor forma de derrubar mercados já em si nervosos.
Do que os mercados têm medo? De uma recessão mundial; de a Zona do Euro não conseguir resgatar a Itália e a Espanha, que juntas somam 11 Grécias. Por isso, esperam a reunião de hoje do BC americano. Acham que ele aprovará uma nova rodada de expansão monetária. Se aprovar, será um alívio. Mas pequeno. Não será a solução.
A situação, por enquanto, é melhor do que em 2008, porque naquela época houve quebra de bancos nos Estados Unidos e Europa. No Brasil, houve sérios problemas em algumas empresas que estavam com muitas operações no mercado futuro de câmbio. Como o dólar saiu de R$ 1,55 para R$ 2,38 em dois meses, e elas apostavam em queda, tiveram prejuízos enormes. Agora elas estão menos alavancadas, segundo o que se ouve tanto no Banco Central quanto no mercado.
Mesmo assim, há outros canais pelos quais a economia brasileira pode ser atingida. O preço das commodities está em queda nos últimos dias. Ainda é queda discreta e não atinge nossos principais produtos. Se houver recessão mundial, elas cairão, certamente, e são elas que garantem o superávit comercial brasileiro. O petróleo caiu 16% em um mês, mas o importante para nós são outras mercadorias, como soja, minério de ferro, açúcar. A soja, segundo Fábio Silveira, da RC Consultores, está ainda em alta de 42% de janeiro a julho, comparado com o mesmo período do ano passado. O minério de ferro teve alta de 87% em 2010 e de 60% este ano. O açúcar, alta de 41% de janeiro a julho. Mesmo assim, o índice que junta todas as commodities, o CRB, publicado no “Financial Times”, mostra queda de 4,5% este ano, e no ano passado teve alta de 21%.
— Na bolsa brasileira, o setor de commodities está super-representado; 30% é Vale e Petrobras, mas elas juntas não são 30% da economia brasileira. Se agregar aço e alimentos, fica ainda maior. Por isso a perspectiva de queda de commodities afeta tanto a bolsa brasileira — diz Alexandre Schwartsman.
A analista da MB Agro Ana Laura Menegatti acha que os produtos agrícolas podem não cair muito, apesar da crise internacional, porque há baixos estoques e a demanda vem dos emergentes. Já as metálicas devem cair mais.
O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros acredita que o Brasil de novo é punido por ter um mercado mais sofisticado do que outros países.
— Se você precisar vender Colômbia num momento desses, não consegue. Aí, quem está tendo prejuízo em algum lugar vende ações num país onde há liquidez e mercado futuro, como o Brasil. Isso é que provoca esse exagero de quedas no país.
A RC Consultores informou que espera os seguintes movimentos: menos especulação nos mercados futuros; queda dos preços das commodities; menos inflação no resto do mundo; mercado de ações fraco; crescimento menor no Brasil: 3,5% este ano e 3,3% no ano que vem.
O cenário de queda das commodities é o mais comum, no governo e no mercado.
— Temos podido consumir mais do que o PIB porque os preços dos produtos que o Brasil exporta têm subido extraordinariamente. Se eles caem, o Brasil cresce menos — diz Schwartsman.
Há um exagero nas quedas dos últimos dias. Porém, há riscos à frente com o rebaixamento americano. Se a Moody’s também rebaixar, vai ser um Deus nos acuda. Muitos fundos de investimento têm um espaço menor em carteira para títulos de duplo A. Teriam que vender. Alguns administradores de reservas de países terão também que vender títulos do Tesouro americano. Um primeiro rebaixamento é ruim; um segundo, é péssimo. Alexandre acha que não vai acontecer. Ontem, a Moody’s soltou nota no estilo “quem avisa, amigo é”. A Moody’s já pôs em atenção a dívida, em comunicado no mês passado, e ontem disse que se o ajuste fiscal não for confiável poderá mexer na nota. Mas o pior perigo ainda mora na Europa.
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