Entrevista:O Estado inteligente

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terça-feira, agosto 09, 2011

Canais de contágio Míriam Leitão

O GLOBO


Três grandes perguntas rondaram o país ontem: Como a crise afeta o Brasil? Por que a bolsa brasileira caiu mais que as outras? Teremos de novo uma crise como a de 2008? Começarei pela última. Não é uma crise como a de 2008. Por enquanto, é menor. Ainda é só uma forte queda das bolsas, muita instabilidade no mercado de moedas e redução dos preços de commodities.

Nos afeta pela queda dos preços dos produtos que o Brasil exporta. Isso pode aumentar o déficit que o país tem nas contas externas. A bolsa brasileira tem uma representação exagerada de empresas ligadas às commodities. Essa é uma das razões pelas quais ela cai mais. A queda não é sinal de que a economia brasileira está pior do que as outras. Mas o Brasil não é inatingível. Se a perspectiva é de crescimento menor do mundo, o Brasil cresce menos também. Não temos aquele volume espantoso de poupança da China, com a qual ela aumenta o investimento para produzir uma demanda crescente doméstica, para compensar uma recessão mundial.

Ontem, o mercado amanheceu pessimista, mas sem pânico, na Ásia. Ficou mais nervoso na Europa. E houve um momento de pânico em que o Ibovespa desabou e as bolsas americanas caíram fortemente logo após a fala vazia do presidente americano, Barack Obama. Criar expectativas para dizer nada é a melhor forma de derrubar mercados já em si nervosos.

Do que os mercados têm medo? De uma recessão mundial; de a Zona do Euro não conseguir resgatar a Itália e a Espanha, que juntas somam 11 Grécias. Por isso, esperam a reunião de hoje do BC americano. Acham que ele aprovará uma nova rodada de expansão monetária. Se aprovar, será um alívio. Mas pequeno. Não será a solução.

A situação, por enquanto, é melhor do que em 2008, porque naquela época houve quebra de bancos nos Estados Unidos e Europa. No Brasil, houve sérios problemas em algumas empresas que estavam com muitas operações no mercado futuro de câmbio. Como o dólar saiu de R$ 1,55 para R$ 2,38 em dois meses, e elas apostavam em queda, tiveram prejuízos enormes. Agora elas estão menos alavancadas, segundo o que se ouve tanto no Banco Central quanto no mercado.

Mesmo assim, há outros canais pelos quais a economia brasileira pode ser atingida. O preço das commodities está em queda nos últimos dias. Ainda é queda discreta e não atinge nossos principais produtos. Se houver recessão mundial, elas cairão, certamente, e são elas que garantem o superávit comercial brasileiro. O petróleo caiu 16% em um mês, mas o importante para nós são outras mercadorias, como soja, minério de ferro, açúcar. A soja, segundo Fábio Silveira, da RC Consultores, está ainda em alta de 42% de janeiro a julho, comparado com o mesmo período do ano passado. O minério de ferro teve alta de 87% em 2010 e de 60% este ano. O açúcar, alta de 41% de janeiro a julho. Mesmo assim, o índice que junta todas as commodities, o CRB, publicado no “Financial Times”, mostra queda de 4,5% este ano, e no ano passado teve alta de 21%.

— Na bolsa brasileira, o setor de commodities está super-representado; 30% é Vale e Petrobras, mas elas juntas não são 30% da economia brasileira. Se agregar aço e alimentos, fica ainda maior. Por isso a perspectiva de queda de commodities afeta tanto a bolsa brasileira — diz Alexandre Schwartsman.

A analista da MB Agro Ana Laura Menegatti acha que os produtos agrícolas podem não cair muito, apesar da crise internacional, porque há baixos estoques e a demanda vem dos emergentes. Já as metálicas devem cair mais.

O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros acredita que o Brasil de novo é punido por ter um mercado mais sofisticado do que outros países.

— Se você precisar vender Colômbia num momento desses, não consegue. Aí, quem está tendo prejuízo em algum lugar vende ações num país onde há liquidez e mercado futuro, como o Brasil. Isso é que provoca esse exagero de quedas no país.

A RC Consultores informou que espera os seguintes movimentos: menos especulação nos mercados futuros; queda dos preços das commodities; menos inflação no resto do mundo; mercado de ações fraco; crescimento menor no Brasil: 3,5% este ano e 3,3% no ano que vem.

O cenário de queda das commodities é o mais comum, no governo e no mercado.

— Temos podido consumir mais do que o PIB porque os preços dos produtos que o Brasil exporta têm subido extraordinariamente. Se eles caem, o Brasil cresce menos — diz Schwartsman.

Há um exagero nas quedas dos últimos dias. Porém, há riscos à frente com o rebaixamento americano. Se a Moody’s também rebaixar, vai ser um Deus nos acuda. Muitos fundos de investimento têm um espaço menor em carteira para títulos de duplo A. Teriam que vender. Alguns administradores de reservas de países terão também que vender títulos do Tesouro americano. Um primeiro rebaixamento é ruim; um segundo, é péssimo. Alexandre acha que não vai acontecer. Ontem, a Moody’s soltou nota no estilo “quem avisa, amigo é”. A Moody’s já pôs em atenção a dívida, em comunicado no mês passado, e ontem disse que se o ajuste fiscal não for confiável poderá mexer na nota. Mas o pior perigo ainda mora na Europa.

quinta-feira, novembro 12, 2009

'Rede inteligente' seria solução do sistema, diz especialista

por Bruno Villas Bôas -
11.11.2009
|
16h21m
BLECAUTE

'Rede inteligente' seria solução do sistema, diz especialista

Um sistema elétrico mais eficiente e confiável está além dos simples esforços de construção de usinas e ampliação da rede de transmissão. Nos Estados Unidos, a confiabilidade do sistema é de 99,97%. Isso não impediu que 55 milhões de americanos ficassem às escuras em 2003, quando houve um grande apagão na região Nordeste do país. É o que estão alertando especialistas, que defendem a modernização dos sistemas para uma rede inteligente (smart grid).

Imagine uma rede de energia com tecnologia capaz de redirecionar em momentos de blecaute a energia elétrica de milhares de aparelhos de ar-condicionado e chuveiros elétricos das residências para hospitais, aeroportos, sinais de trânsito. Imagine o próprio consumidor gerando, armazenado e injetando energia no sistema em momentos desabastecimento.

— O sistema atual não tem desligamento seletivo. A energia é cortada em grandes regiões. Isso pode ser mudado com uso da tecnologia de informação. É o que a rede inteligente propõe e vem sendo debatido no mundo inteiro — explica Cyro Vicente Boccuzzi, Fórum Latino-americano de Smart Grid e da consultoria ECOee.

Parece peça de ficção, mas não é. O governo americano aprovou neste ano a liberação de US$ 3,4 bilhões para uma projeto de demonstração do smart grid. É um primeiro passo. O projeto como um todo custará muito mais do que isso e exigirá de 20 a 25 anos para ser implementando. Na Austrália, o governo ofereceu 100 milhões de dólares australianos para quem queira testar tecnologias em uma cidade modelo.

— É uma mudança em ampla escala e cara. A tecnologia atual do sistema elétrico levou cem anos para ser feita. Não vai mudar do dia para a noite. Mas não podemos dizer que estamos atrasados sozinhos nesse ponto. Todos os países ainda tentam encontrar uma solução.

O smart grid é um conceito. São várias tecnologias utilizadas. Será preciso por exemplo modernizar os medidores de energia, que são atualmente os mesmos do tempos de nossos avós. Cada casa passa a ter um medidor eletrônico com capacidade de se comunicar com outros medidores de uma rede inteira e definir prioridades da distribuição de energia.

Especialistas explicam que o problema dos atuais sistemas elétricos é a falta de tecnologia da informação. Eles não incorporaram avanços da telecomunicação, da eletrônica. São manuais, arcaicos. A rede inteligente utiliza cabos supercondutores, transformadores inteligentes, sensores eletrônicos, monitores residencias e subestações de energia mais modernos.

A geração também seria descentralizada. Segundo Cyro, a rede inteligente exigiria a instalação de paineis de energia solar e pequenas unidades eólicas nas próprias cidades. Isso seria associado à instalação de baterias para armazenar a energia. Esses geradores ficariam ainda interligados com a rede. Injetariam energia no sistema quando necessário. Isso estaria sendo testado em Portugal.

— Muda toda a lógica da operação. Em vez de depender de usinas interligadas em grandes blocos, o smart grid incentiva surgimento de pequenos fontes geradoras capazes de atender à demanda das próprias cidades, de pequenas regiões.

Alvaro Gribel -
11.11.2009
|
17h59m
ENERGIA

Rede inteligente no Brasil custaria US$ 20 bilhões

A implementação da rede inteligente (leiam mais no post abaixo) nos EUA está estimada em US$ 160 bilhões. O governo Obama está iniciando o processo com gastos de US$ 8 bilhões (US$ 3,4 do governo e US$ 4,6 da iniciativa privada). Como o prejuízo anual para o país por causa das falhas de energia chegam a US$ 150 bilhões por ano, o investimento vale a pena.

O consumo per capita de energia no Brasil é cerca de 10% do americano, então os custos para a implementação dessa rede por aqui são bem menores. De acordo com Cyro Vicente Boccuzzi, do Fórum Latino-americano de Smart Grid e da consultoria ECOee, para cobrir os grandes centros do país seriam necessários investimentos em torno de US$ 20 bilhões.

Ele acha que a política energética do governo Lula está focada na oferta de energia e se esquecendo de modernizar a distribuição.

- Vamos construir usinas hidrelétricas que estão a dois mil quilômetros dos grandes centros de consumo. Teremos que construir uma rede imensa de transmissão, para levar um volume enorme de energia. Esse modelo é antigo e está sendo repensado em todo o mundo. Precisamos mudar a lógica econômica, criando incentivos para a geração local de energia pelas empresas e pelas próprias pessoas - afirmou.

Pelos cálculos do Departamento de Energia dos EUA, essa rede inteligente promoverá redução de 4% do consumo até 2030, gerando economia de US$ 20,4 bilhões. Ela também permitirá que 20% do consumo venha de fontes renováveis até 2020.

O professor de engenharia elétrica da Coppe, Djalma Falcão, acha que a reforma do sistema elétrico brasileiro precisa começar pela legislação. Ele explica, por exemplo, que os consumidores hoje não podem interligar à rede geradores de energia particulares.

- Hoje, só se pode gerar energia em separado, sem conexão com a rede, como acontece nos grandes eventos, por exemplo, que possuem geradores particulares. Mas já existe tecnologia para que isso seja feito sem prejuízo à rede. Como a legislação não permite, ninguém faz. Se fosse possível, o uso de fontes renováveis, como os paineis solares, seria estimulado porque os consumidores forneceriam à rede a energia não consumida, tendo ganhos econômicos - explicou.

Adriano Pires: 'Faltam investimento e gestão mais moderna'

Bruno Villas Bôas -
11.11.2009
|
12h47m
INFRAESTRUTURA DE TERCEIRO MUNDO

CLICAR AQUI

O especialista em energia Adriano Pires disse ao blog que existe tecnologia para impedir blecautes com o que ocorreu nesta madrugada, aplicados em países como Estados Unidos e Canadá. Para ele, faltam investimento em linhas de transmissão e uma administração mais moderna do sistema interligado brasileiro.

Adriano disse que nos Estados Unidos e Canadá os sistemas são desenvolvidos com tecnologia capaz de evitar a queda de energia mesmo em nevascas, eventos climáticos muito mais agressivos que as chuvas e ventos do Paraná. Ele citou ainda a tecnologia smart grid, a chamada rede inteligente.

— Quando a energia cai nesses países, três cidades são afetadas. Por aqui, metade do país fica desligado. Foram 10 estados e centenas de cidades. O Brasil tem sido muito elogiado por sua economia, mas tem uma infraestrutura de terceiro mundo — afirma o especialista, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie).

Segundo ele, os erros da transmissão da energia gerada por Itaipu se repetem na construção das usinas do rio Madeira, que terá uma linhão de transmissão da energia para levar a carga os centros consumidores.

— Esse evento mostrou a vulnerabilidade do sistema inteligado em uma país que vai sediar Copa do Mundo e Olimpíadas. Bolsa sobe, real valoriza, mas não tem infraestrutura de energia, portos, rodovias, aeroportos — afirma.


segunda-feira, novembro 03, 2008

"Associação entre Itaú e Unibanco".

Presidente Lula foi informado ontem na base aérea

O Presidente Lula foi informado ontem de que estava nascendo no Brasil o maior banco do hemisfério Sul. Ele teve uma reunião com os banqueiros Pedro Moreira Sales e Roberto Setúbal. Os dois foram a Brasília informar também ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

A negociação entre os bancos vinha sendo costurada há meses, mas se acelerou devido a crise bancária que sacode o mundo desde 15 de setembro. Nestes casos, o melhor movimento é preventivo e surpreendente, e foi exatamente isso o que fizeram os dois grandes bancos brasileiros. Eles agora ficam maiores que o Bradesco e que o Banco do Brasil.

Há muito tempo circulavam informações sobre o Unibanco ser comprado por algum grande player global. Com esse novimento, os dois bancos criam um grande player brasileiro, e no momento mais difícil para a indústria de bancos no mundo.

Os Moreira Salles e os Setúbal são amigos do tempo dos dois fundadores dos grupos, o embaixador Moreira Salles e o ministro Olavo Setúbal. Os filhos dos dois, e que são presidentes dos bancos, é que se reuniram para a discussão da fusão. Roberto será o executivo, Pedro será o presidente do conselho de administração. O controle será compartilhado, ainda que as regras da fusão provavelmente vão dar uma parte maior do capital ao grupo Itaú porque eles fizeram os cálculos pelo valor de mercado dos dois grupos nos últimos 45 dias. E o Unibanco teve quedas maiores.

O ex-ministro da Fazenda Pedro Malan que está no grupo Unibanco e fará parte, certamente, do novo grupo, me disse o seguinte:

- O grupo já nasce com vocação global, o Unibanco tinha alguma coisa fora, mas principalmente o Itaú tem operações na Argentina, Uruguai, China, Japão. O Unibanco já foi procurado por vários grupos, mas achou melhor a proposta de união com um outro grupo nacional com quem sempre compartilhou valores, afinidades e objetivos.

O novo banco nasce com R$ 570 bilhões de ativos e mais de R$ 50 bilhões de capital. Já é um dos vinte maiores do mundo.

Vejam aqui o Fato Revelante divulgado pelos dois bancos anunciando a fusão (seção Comunicados - 03/11 "Associação entre Itaú e Unibanco".

quarta-feira, setembro 17, 2008

A solução definitiva seria...., tal qual foi feito pelo Proer aqui no Brasil

O O GLOBO ON LINE BLOG MIRIAM LEITÃO,

Mercado se pergunta quem é o próximo

Os investidores aqui no Brasil estão um pouco mais otimistas agora pela manhã com a decisão do Fed de socorrer o AIG. Era isso mesmo que o mercado queria, como comentamos ontem à tarde aqui no blog. O dinheiro do contribuinte americano precisou ser usado.

O socorro ao AIG retirou inclusive a má impressão causada pela manutenção da taxa básica de juros em 2%, porque o mercado esperava que ela fosse reduzida. Agora, os economistas estão dizendo que o Fed fez certo ao manter os juros, e tomou esta decisão porque durante a reunião já deveria sabia sobre o socorro ao AIG.

As bolsas européias estavam operando em leve alta pouco antes das 9h e as da Ásia fecharam em tendência mista, com Japão e Coréia em alta, e China, Austrália e Hong Kong em queda. Os mercados futuros americanos indicam abertura com pequena baixa. Mesmo assim, o clima é de mais tranqüilidade.

Só não dá ainda para dizer que a crise passou porque os investidores ainda se perguntam qual será a próxima instituição que apresentará problemas. De acordo com o economista-chefe da Liquidez Corretora, Marcelo Voss, o que a decisão de ontem fez foi evitar o caos.

- Seria o caos a quebra de uma seguradora daquele porte. Mas a decisão está longe de solucionar de forma definitiva a crise. Com certeza, outros bancos estão também com dificuldades e em qualquer sinal de problema, as bolsas voltarão a cair - explicou.

Segundo Voss, a solução definitiva seria o mapeamento total do sistema financeiro americano, tal qual foi feito pelo Proer aqui no Brasil:

- Mas ninguém sabe porque o governo americano não faz isso. Pode ser que o problema seja pior do que o mercado imagina. Essa insegurança faz com que a aversão ao risco fique muito maior.


Momento é de cautela para consumidores

Lula deu declarações de que não existe crise na economia brasileira. Tudo bem, esse é o papel do presidente, mostrar que tem confiança no país.

Mas Mantega fez uma declaração muito ruim, ao dizer que as pessoas devem continuar comprando e fazendo financiamentos. Um ministro da Fazenda não deveria fazer esse tipo de declaração.

Ele sabe que o volume de crédito no Brasil vai cair porque a liquidez internacional está menor. O crédito está mais caro, e se as pessoas se endividarem muito, elas podem ficar numa situação complicada mais à frente.

Mesmo estando num bom momento, a economia brasileira está inserida num contexto internacional. E isso significa que os bancos brasileiros tomarão dinheiro a um preço mais alto lá fora, e isso será repassado aos consumidores.

Não é o momento para se fazer muitas dívidas, mas sim, de ter cautela para saber o que vai acontecer. Essa crise é grave e levará muito tempo para ser resolvida.

Ouçam aqui o comentário da manhã na CBN.

quinta-feira, junho 19, 2008

Drama argentino

por Débora Thomé -
18.6.2008
Panorama Econômico

Drama argentino

A crise na Argentina está próxima de completar 100 dias. Esta semana, os protestos se intensificaram também na capital, Buenos Aires, que começa a sofrer com a falta de abastecimento de alimentos. A presidente Cristina Kirchner, com problemas sérios de popularidade, teve que fazer um pronunciamento nacional. O país vizinho passa por sua mais grave crise desde 2001. Esses problemas internos refletem uma antiga cisão: o campo produtivo não quer pagar a conta de setores menos competitivos.

O drama atual se resume no seguinte roteiro: como vinha anunciando desde a campanha, a presidente Kirchner determinou um aumento na taxação sobre alimentos; em alguns casos, através da retenção de produção. O campo, claro, não gostou nada disso. Assim, desde março, vem promovendo protestos, fechando estradas, segurando a produção para que a determinação seja revogada. Agora, eles passaram a ter apoio de Buenos Aires e até mesmo de um grupo do próprio partido do governo.

A decisão de aumentar a cobrança, segundo alguns analistas, veio da busca do Estado argentino por mais arrecadação. Os gastos do governo subiram muito nos anos Kirchner I, e assim continuam. A justificativa do governo, por sua vez, foi principalmente a de que isso faria com que os preços internos dos alimentos ficassem sob controle.

O campo sempre foi fundamental para a economia do país vizinho. Para dar um exemplo, a Argentina é o terceiro maior exportador de soja do planeta. Ao longo da História, foi justamente essa pujança que garantiu os recursos necessários para desenvolver a indústria, um setor bem menos competitivo. O que acontece agora é que o campo, simplesmente, está se recusando a arcar de novo com a conta.

Num texto publicado no site do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), do Iuperj, o professor Javier Vadell, do Departamento de Relações Internacionais da PUC-Minas, afirma que “a Argentina do século XXI mostra as suas mais profundas contradições sociais (...) O ainda tímido desenvolvimentismo sofre de uma dependência estrutural: depende do dinâmico setor exportador impulsionado pelo agronegócio”.

O professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB Eduardo Viola acredita que existem dois pontos fundamentais que explicam por que a Argentina está passando por tudo isso agora. O primeiro deles é o resultado da solução dada por Kirchner I à crise econômica, que envolveu descontrole dos gastos, da inflação e quebra de contratos. O país vive hoje sérios desequilíbrios econômicos.

— O segundo fator importante é que está havendo uma reação ao excesso de acumulação de poder do casal Kirchner — analisa.
Sobre isso, o analista político Rosendo Fraga, do site Nueva Mayoria, comentou em um artigo: “A concentração do poder nas mãos do Executivo, como ocorre hoje na Argentina, é bastante vantajosa para exercer o poder quando as coisas vão bem, mas representa riscos maiores quando elas vão mal.”

A situação não está mesmo nada boa para Cristina Kirchner. No início do ano, logo após assumir, a sua aprovação chegava a 47%; em três meses, caiu para os 20%. A Kirchner II, que era reconhecida por ter uma carreira política independente da do marido, hoje é vista como um fantoche. Rosendo Fraga argumenta que isso também está erodindo sua popularidade, pois há a idéia de que é Nestor Kirchner quem, de fato, manda. Há um outro componente, mais pitoresco, neste caldo: o consumismo da presidente, que anda sendo malvisto.

O perigo de tudo isso é que, num governo com tanto poder concentrado no Executivo, problemas mais graves relacionados à presidente podem inviabilizar a governabilidade.

Na visão do professor Eduardo Viola, a crise poderia ser bem menor se ela tivesse decidido negociar desde o início.
— O estilo Kirchner é confrontacionista. A Argentina também, diferentemente do Brasil, tem um modo de agir em pêndulo; o Brasil é mais conciliatório.

De qualquer forma, o professor da UnB acha que os riscos da crise de agora são — ainda — mais brandos que os de 2001. Mas teme que o desequilíbrio macroeconômico se agrave.

A Argentina conviveu com excelentes números na economia nos anos de Nestor Kirchner. Disso não resta dúvida. Esses resultados foram para o palanque, e garantiram a eleição de Cristina Kirchner. Mas o cenário e o enredo mudaram. A opção do casal foi, então, em vez de buscar políticas econômicas de racionalidade e contenção de gastos, aprofundar o caminho peronista de assistência. Além disso tentam ainda manter o controle sobre os preços e índices. A inflação, que costuma corroer popularidade, pode chegar aos 30% no ano; registrada ou não.

A consultoria americana Eurasia acha que esta é uma hora decisiva para Cristina Kirchner se reerguer ou afundar de vez. Ela certamente tem um problemão pela frente, com popularidade baixa, desabastecimento, inflação alta e uma crise de energia à espreita. Quando o país tinha tudo para estar bem, com o preço de suas commodities lá no alto, o cenário é o oposto. Persistir no conflito agora só agravaria o drama. Para que se tenha algum final feliz, a única saída é a conciliação.

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