O GLOBO
A crise pode se agravar, mas o Brasil tem muitas armas. Imune, nenhum país fica numa crise internacional. Mas o Brasil tem US$340 bilhões de reservas, depósito compulsório para liberar, gastos para cortar, juros para baixar. Do ponto de vista fiscal, cambial e monetário, há muita coisa que as autoridades podem fazer. Mas o governo, inclusive o Banco Central, erra no diagnóstico fiscal.
Durante uma parte do dia, ontem, foi a França que entrou na lupa do mercado financeiro. O presidente Nicolas Sarkozy suspendeu as férias, convocou o governo, anunciou corte de gastos. Nada estava adiantando: as bolsas continuaram caindo dos dois lados do Atlântico e o banco Société Générale, o mais exposto à dívida francesa, afundou nas bolsas, com uma queda que chegou a 20%, para fechar em -14,7%. As agências reafirmaram o crédito de triplo A da França e Alemanha, mas isso não foi suficiente para salvar o dia. As bolsas da Alemanha, França, Itália e Espanha caíram mais de 5%. As americanas também fecharam em forte queda, de mais de 4%, enquanto a bolsa brasileira oscilou muito mas conseguiu se manter no azul. A queda este ano já é tão grande na Bovespa que há empresas sendo negociadas abaixo do valor patrimonial. Que lições se tira dessas horas de nervosismo da tarde de ontem?
Primeiro, como ensinou Armínio Fraga, na crise da Ásia, "quando a bruxa voa, ela olha para todos os lados." Segundo, se a França for olhada com maus olhos, o que se verá é que ela tem os seguintes pontos de fraqueza: dívida pública de 87% do PIB; déficit que no ano passado foi de 7% e que promete este ano ficar abaixo de 6%; déficit primário de 3,5%.
A Standard & Poor"s defendeu a manutenção da nota máxima para a França porque, segundo ela, o país não demonstrou a mesma dúvida política sobre corte de gastos que foi demonstrada pelos americanos. De fato, os EUA mostraram enorme incapacidade política no episódio da elevação do teto da dívida; mas a França, onde a simples elevação de dois anos na idade de aposentadoria levou, tempos atrás, até estudantes secundaristas à rua, que mantém intocados extravagantes gastos públicos que beneficiam a elite, não é nenhum primor de ajuste fiscal.
O caso da Europa é grave. Até agora não há instrumentos fortes o suficiente para vencer uma crise de confiança em relação à dívida soberana dos grandes países. A governança é falha, as tomadas de decisão são lentas demais. A crise era grega e virou europeia exatamente pela demora na formação do consenso entre os 17 países. A Alemanha tem apenas a França como parceira no esforço de sanear a Europa. Se a França entra no radar da bruxa, a Alemanha sozinha não vai salvar ninguém, até porque o CDU de Angela Merkel começa a contestar cada vez mais o papel de pagador de última instância que está sobrando para o país. Portanto, a terceira lição a tirar é que em administração de crise, a demora e a hesitação podem custar muito caro.
Em 2008, os bancos começaram a quebrar em dominó. Sob esse risco, os governos agiram, socializando prejuízos. Erraram quando salvaram os banqueiros junto com os bancos. Depois que socializaram as perdas, eles, os governos, passaram a ter problemas de déficits e dívidas. Os bancos passaram a cobrar cada vez mais para rolar as dívidas de países europeus e isso aumentou a crise de confiança em relação a eles mesmos. Se são os grandes detentores de títulos dos governos, são os mais vulneráveis em um eventual calote. A quarta lição é que o mundo continua prisioneiro desse redemoinho de crise bancária-crise fiscal, crise fiscal-crise bancária.
Ainda não há luz no fim do túnel. Esta semana o mundo está passando pelo impensável: rebaixamento da dívida americana, crise de confiança em relação às dívidas da Itália e da França e novas dúvidas em relação a grandes bancos americanos e europeus.
O Brasil precisa se preparar para o cenário de agravamento da crise. Se houver novos episódios de redução da oferta de crédito internacional, o BC tem como agir da mesma forma que fez em 2008, usando reservas, liberando compulsório, diminuindo taxa de juros.
Há um ponto fraco: o fiscal. Ao contrário do que diz o governo, inclusive o Banco Central, o fiscal não está nada bem. O erro está nas comparações feitas pelo governo entre o déficit brasileiro e o de outros países. Nossa dívida é mais cara e o Brasil vem de anos excelentes, com crescimento, elevação da arrecadação e ganhos espantosos nos termos de troca: o que a gente exporta ficou mais valorizado; o que a gente compra, mais barato. Ainda assim, o país elevou consistentemente todas as despesas e tem um primário menor do que em 2008. Subiu mais gasto de custeio do que os investimentos. Recriou um orçamento paralelo na relação entre Tesouro-BNDES, no qual há contratado gasto público não adequadamente contabilizado, e até o ano passado usou fórmulas criativas na contabilidade que tiraram solidez e transparência dos dados fiscais. Esse é o ponto fraco do Brasil na crise atual.
Por enquanto, há ainda muita incerteza em relação à evolução da conjuntura econômica. É preciso continuar monitorando o mercado como o Banco Central vem fazendo para ter o diagnóstico preciso e usar os instrumentos adequados.
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