FOLHA DE SÃO PAULO - 17/02/11
A liberdade do indivíduo solto no mundo não é abstração nem ficção; ela é nosso passado concreto
PASSEI JULHO e agosto de 1969 no sítio do meu então sogro, Bob Bond, , na periferia de Houston, Texas.
Bob, mestre de obras, estava entre dois empreendimentos, de férias. Eu, vindo da Europa e fascinado pela televisão que emitia a noite toda, não dormia nunca. Bob levantava antes do amanhecer e me puxava de diante da televisão para me enfiar na sua caminhonete e me levar a Galveston, de onde saíamos de lancha; pescávamos na primeira luz da manhã e arrastávamos uma rede pelo fundo arenoso do mar, para juntar camarões para o almoço.
De volta a Houston, cuidávamos de seus cavalos, que viviam soltos. Nos sítios da região, as cercas eram usadas sobretudo ao longo da estrada asfaltada: bichos e humanos circulavam, livres, numa vasta extensão aberta.
No meio de uma noite, Wolfgang, o pastor-alemão da casa, explodiu em latidos. Bob apareceu na sala, tranquilo, de pijama, botas, chapéu Stetson e dois revólveres na mão. Sem falar nada, desligou a televisão e me entregou uma das armas, na escuridão. Logo, ele pegou uma lanterna, que não ligou, e saiu de casa; eu fui atrás dele.
No breu, vinha na nossa direção, com uma lanterna acesa, um homem alto e magro, com um Stetson igual ao de Bob; ele puxava o baio que era o mais lindo dos cavalos de Bob. Wolfgang dava círculos ao redor do intruso, latindo, mas intimidado pela própria calma do homem. Era um vizinho: ele tinha encontrado o baio na estrada e o levava de volta para nós. Bob agradeceu e conversamos; as duas lanternas que, na noite, pareciam um fogo de acampamento, os chapéus, a presença das armas nas nossas mãos, tudo evocava um quadro noturno de Frederic Remington (sei lá,http://migre.me/3SqO6).
Numa tarde de agosto, Bob e eu assistimos a "Bravura Indômita", de H. Hathaway, com John Wayne. As primeiras palavras de Bob, saindo do cinema, foram: Você imagina Rooster Cogburn parando para abrir uma porteira no meio do caminho? Para Bob, o arame farpado era o símbolo de tudo o que impede de "move on", de ir em frente, não apenas geograficamente.
Bob teria amado o novo "Bravura Indômita", dos irmãos Coen, porque o filme (assim como o livro de Charles Portis, Alfaguara), sem perder o humor, é mais soturno que o de 69, mais atento à gravidade das questões que ele levanta.
Bob gostaria de ver levada a sério a ideia de que a vingança privada pode ser toda a justiça da qual precisamos. Ele também gostaria de uma visão do mundo em que os bandidos não sofrem de leis interiorizadas ou culpas e os delegados não são animados por vocações morais, ou seja, em que o conflito entre a lei e o crime é apenas mais um conflito armado.
Foi Bob, na saída daquele cinema de Houston, que me ensinou o ditado pelo qual "a Revolução de 1776 nos deu a liberdade; quem nos deu a igualdade foi Samuel Colt". Incidentemente, os revólveres de Bob eram Colts.
Alguns dirão que é por isso mesmo que, nos EUA, não faltam malucos para sair matando a esmo. Bob apenas notaria que tudo tem um custo. Você quer se vingar? Pode perder um braço. Quer ser livre? Vai encontrar loucos armados por aí.
Talvez os mesmos digam que a liberdade do indivíduo serve só para filmes e romances. No caso, a galopada de Rooster Cogburn seria um mito, que narra (agradavelmente) a transformação da sociedade norte-americana no fim do século 19. Certo; é isso mesmo. Mas a liberdade dos protagonistas de "Bravura Indômita" não é uma abstração nem uma invenção estética, é um passado concreto, que permanece no âmago de nossa ideia de liberdade.
Esse passado começou na Europa da "sociedade cavaleiresca" (livro essencial de Georges Duby, Martins Fontes), quando os poderes instituídos eram sempre distantes, enquanto o bem e o mal estavam nas mãos de homens armados errando e lutando pelas florestas que cobriam o continente.
A invenção dos EUA apenas aprimorou: no meio de um território tão selvagem quanto o da Europa do ano 1000, em vez de cavalheiros e bandidos católicos, foram soltos protestantes insubmissos a qualquer autoridade que lhes dissesse o que pensar.
Pois bem, como Bob, tenho saudade do Velho Oeste.
Uma sugestão. Se você tem uma filha entre dez e 16 anos, assista ao filme com ela e constate: é extraordinário como infantilizamos nossas crianças (e como elas se aproveitam disso para se infantilizar).
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