Entrevista:O Estado inteligente

sábado, janeiro 17, 2009

MERVAL PEREIRA -Em busca do símbolo


NOVA YORK. O presidente eleito, Barack Obama, prepara seu discurso de posse literalmente assombrado por três de suas admirações: Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt e John Kennedy. Descrito por seus íntimos como um político extremamente competitivo e tendo exata noção das dificuldades que tem pela frente, Obama busca uma frase que possa se comparar às pronunciadas pelos três ex-presidentes e, ao mesmo tempo, tenha o condão de estimular a sociedade americana no que pretende ser uma arrancada para a recuperação econômica.

O discurso de posse, em comemoração ao 200oaniversário de nascimento de Lincoln, será baseado no tema “O renascimento da liberdade” (“A New Birth of Freedom”), uma frase célebre do “discurso de Gettysburg”, pronunciado em um cemitério em homenagem aos mortos na famosa batalha, decisiva na vitória das forças da União.
Obama admitiu que está “intimidado” depois de reler o discurso da segunda posse de Lincoln, que está gravado no Lincoln Memorial em Washington, juntamente com o de Gettysburg.
“O mundo vai notar pouco, ou não vai se lembrar por muito tempo, o que nós dissemos aqui, mas não poderá nunca esquecer o que eles, os mortos honoráveis, fizeram aqui”. “(...) não morreram em vão, que esta nação, protegida por Deus, terá um renascimento da liberdade, e o governo do povo, para o povo e pelo povo não desaparecerá da face da terra”.
No discurso de sua segunda posse, Lincoln emplacou mais uma frase célebre: “Sem malícia contra ninguém, com caridade para com todos; com firmeza no correto que Deus nos permita ver, que nos seja possível lutar para concluirmos o trabalho que começamos, fechar as feridas da nação, cuidar daquele que enfrentou a batalha de sua viúva e órfão, e fazer tudo o que pode ser feito para se alcançar paz longa e justa entre nós e entre todas as nações”.
Já a frase de Franklin Roosevelt, em 1933, é difícil de ser batida: “A única coisa de que devemos ter medo é o próprio medo — indefinível, irracional, um terror injustificado que paralisa os esforços para passar do retrocesso ao progresso”.
Também John Kennedy deixou para a História sua marca: “Meus queridos compatriotas, não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês, perguntem o que vocês podem fazer por seu país. Cidadãos do mundo, não perguntem o que os Estados Unidos podem fazer por vocês, e sim o que podemos fazer juntos pela liberdade”.
Mas Obama não está apenas em busca de uma frase de efeito que ajude a unir o povo americano. Está atrás de um plano econômico consistente que possa ser a base de uma recuperação econômica sustentada e que leve o país para o futuro.
E o grande debate por aqui é se uma repetição do New Deal, política adotada por Roosevelt para tirar o país da Grande Depressão, dará certo, ou mesmo se é o melhor caminho.
O Prêmio Nobel de Economia Paulo Krugman é um dos defensores da tese de que a era Roosevelt tem muito a ensinar, sobre tudo uma orientação em que ele vem insistindo muito: a política de Roosevelt não deu certo mais cedo, e precisou da Segunda Grande Guerra para tirar o país da depressão, porque foi tímida, tinha que ser mais intervencionista ainda.
Krugman defende a tese de que o estímulo fiscal daquela época foi insuficiente e aconselha os assessores de Obama: “Imaginem quanto a economia precisa e coloquem mais 50% em cima”.
Para ele, os progressistas só podem desejar que o futuro presidente tenha “suficiente audácia” para ir fundo em um plano de recuperação econômica.
De fato, o editor do “New York Times” Adam Cohen, autor do livro “Nada a temer, o círculo íntimo de FDR e os cem dias que criaram a moderna América”, um dos mais respeitados estudos da época, diz que se Roosevelt estivesse disposto a gastar mais, “ser mais keynesiano, teríamos melhorado a situação mais cedo.” Na sua análise, ele foi tímido, e a “famosa decisão entre 1937 e 38 de cortar despesas causou outra recessão”.
Ao contrário, os conservadores fazem uma releitura do New Deal e acusam o intervencionismo do Estado como o impeditivo para uma recuperação rápida.
Entre os defensores dessa tese, o livro mais comentado, e que voltou à lista dos mais vendidos do New York Times, é “O Homem esquecido” (The Forgotten Man), da especialista em questões econômicas Amity Shlaes.
Formada em Yale, uma das mais ativas autoras conservadoras dos Estados Unidos, Shlaes é pesquisadora do Council of Foreign Relations, uma entidade não-partidária com sede em Nova York, considerada a mais influente em matéria de relações internacionais nos Estados Unidos.
Ela considera que as medidas econômicas tomadas para debelar, em vez disso, prolongaram a crise. Ela acha que o colapso de 1929 não foi tão profundo que precisasse levar 25 anos para uma recuperação. No livro, mostra dados do desemprego na época indicando que o índice permaneceu muito elevado até a Segunda Guerra, quando 12% da população entraram nas Forças Armadas e a indústria trabalhou a todo vapor na fabricação de material bélico.
Shlaes atribui à desconfiança de Roosevelt do setor privado o intervencionismo que impediu a recuperação mais rápida, e diz que o crescimento econômico dos anos 20, que terminaram abruptamente no crash da Bolsa em 1929, foi considerado por Roosevelt como fruto da especulação, e não como um desenvolvimento legítimo da economia real puxado pelo mercado.
Como hoje, a exigência de regulamentação do mercado financeiro assumiu um papel de destaque no receituário para debelar a crise, o que os analistas conservadores consideram um erro de enfoque.
(Continua amanhã)

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