"Investidores, líderes empresariais, altos funcionários do governo, virtualmente todos acreditam que o longo pesadelo acabou", escreveu o principal economista do Morgan Stanley, Stephen Roach, ao regressar de recente viagem ao Japão. O tom é parecido com o de reportagens de algumas das principais publicações ocidentais, como a revista britânica The Economist e o jornal The New York Times.
Poucas vezes se viu um país passar em tão pouco tempo da condição de exemplo a ser imitado pelo resto do mundo - do início dos anos 60 até meados da década dos 80 - à de exemplo a ser evitado - desde então até dois anos atrás - como passou o Japão. De motor do crescimento mundial, a economia japonesa transformou-se em centro de preocupações e, por causa da longa duração de sua crise, em caso a ser esquecido.
O estouro da bolha dos mercados acionário e imobiliário, o crescimento dos empréstimos de má qualidade concedidos pelos bancos, os escândalos de corrupção, o déficit público crescente, a estagnação compunham um quadro desolador.
A primeira eleição do atual primeiro-ministro Junichiro Koizumi, em 2001, trouxe esperanças de mudanças na política japonesa, que poderiam ter impacto sobre o ânimo da sociedade. Mas a atitude conservadora de seu partido, o PLD, no poder há mais de 50 anos, de maneira quase ininterrupta, impediu de tal forma o avanço do programa de reformas que, neste ano, Koizumi convocou eleições. Obteve, em setembro último, uma vitória esmagadora, interpretada por todos, até mesmo por seus correligionários mais renitentes, como um aval às mudanças propostas. O resultado eleitoral teve impacto sobre o humor dos consumidores e das empresas. Mas há, além desse fator de natureza política, outros que também contribuem para dar consistência à recuperação do Japão.
Os empréstimos de má qualidade, por exemplo, que numa estimativa considerada subavaliada estavam em 43 trilhões de ienes em 2001, baixaram para cerca de 20 trilhões de ienes, de acordo com estatísticas consideradas confiáveis. Neste ano, até a semana passada, o principal índice da Bolsa de Valores de Tóquio já subiu 38% em ienes e 18% em dólares, o que deu novo ânimo aos investidores. Até recentemente, eram os estrangeiros que impulsionavam o mercado acionário; agora, de acordo com analistas de Tóquio, também os investidores japoneses aplicam em ações, o que tende a empurrar ainda mais para cima o mercado.
"A maioria dos economistas e analistas concorda que a recuperação parece real, com raízes se estendendo por toda a economia japonesa", escreveu The New York Times, em reportagem que o Estado reproduziu em sua edição de domingo. "O Japão está de volta, está fazendo reformas, está se recuperando", afirmou The Economist há algum tempo, numa reportagem a que deu o significativo título de "O sol volta a nascer".
Dúvidas sobre a resistência da recuperação japonesa existem, e não são desprezíveis. Apesar do aumento da demanda interna, o crescimento japonês ainda é fortemente dependente das exportações, e estas, do desempenho dos Estados Unidos e da China, que absorvem quase a metade de tudo o que Japão vende para o exterior. Uma desaceleração econômica rápida em qualquer um desses países afetaria o desempenho da economia japonesa.
Outro problema é a política monetária, até agora baseada em juro real negativo ou igual a zero, para evitar a deflação. Agora que a economia se recupera, essa política não poderá ser mantida. Mas a alta do juro imporá custo maior para a enorme dívida pública, que já representa 160% do PIB japonês. Aí o problema será o crescimento do déficit.
Apesar disso, o cenário japonês é, sem dúvida, o melhor em muitos anos.