domingo, agosto 05, 2012

Tragédias com validade - ARTUR XEXÉO


O GLOBO - 05/08



Quanto tempo dura uma tragédia nos dias de hoje? A questão me aflige desde quarta-feira passada, quando li (reli?) uma pequena nota na seção "Há 50 Anos" do Segundo Caderno. Muitas tragédias me assombraram na infância: o incêndio do circo em Niterói, a morte de Aída Cury, o crime da Fera da Penha... Mas poucas, muito poucas me impressionaram tanto quanto a tragédia da talidomida. Foi dela que me lembrei lendo a nota do Segundo Caderno. Reproduzo-a aqui:

´´Um dos médicos da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins conhecido como o ´médico dos meninos azuis´ previu que o uso da Thalidomida causará provavelmente o nascimento de 7.000 crianças disformes. Desse total, uns 6.000 nascimentos registrar-se-ão na Alemanha Ocidental.´´

Para quem está chegando agora, a talidomida é um medicamento que surgiu na Alemanha no fim dos anos 50 do século passado. Era um sedativo, ao qual não eram atribuídos efeitos colaterais. Aparentemente tão inofensivo que logo passou a ser receitado a mulheres grávidas para amenizar enjoos matinais. Algum tempo depois, cientistas começaram a perceber que estava crescendo muito, principalmente na Alemanha, o número de fetos malformados, de crianças que nasciam sem um ou mais membros. Mais um tempo, e a estatística macabra foi associada à talidomida.

O mundo ficou horrorizado, e eu acompanhava esse horror nas páginas do ´´Cruzeiro". Em 1962, o remédio saiu das prateleiras das farmácias. Mas as reportagens do ´´Cruzeiro" estavam apenas começando. Além das fotos de crianças com deficiências físicas, a revista acompanhava o drama de mulheres, ainda grávidas, que tinham tomado o remédio em determinado momento da gravidez. E aí? Seus filhos nasceriam com deformações? Que tipo de deformação?

Foram muitos meses de sensacionalismo. As histórias saíam das páginas de revista para ocupar um lugar à mesa de jantar lá de casa. Em 1962, começou o embargo americano à Cuba, a gente ganhou a Copa do Mundo no Chile, Marilyn Monroe morreu, e "Amor, sublime amor" ganhou o Oscar de melhor filme do ano (se bem que "o meu" filme do ano foi "Hatari!", de Howard Hawks). No entanto, para mim, o acontecimento mais marcante foi a tragédia da talidomida.

Mesmo sendo uma revista semanal, o "Cruzeiro" trazia novidades sobre o assunto. A notícia demorava para chegar aqui e não tinha muitos concorrentes. O noticiário na televisão ainda era incipiente. O rádio não se dedicava a esse tipo de assunto. O cinejornal era atrasadíssimo. Só sobrava a imprensa escrita. E a imprensa escrita deitava e rolava prolongando ao máximo a repercussão da proibição do remédio maldito. Tragédia sempre vendeu jornais. E revistas.

Quanto tempo sobreviveria hoje um assunto como o da talidomida? Quanto tempo vai durar o massacre no cinema americano de alguns dias atrás? São tantos os meios de informação, e a notícia chega com tanta rapidez, que qualquer tragédia, mesmo uma tragédia com as dimensões da provocada pela talidomida, tem prazo de validade que se esgota rapidamente. A notícia chega pelo jornal, pelo rádio, pela TV e também pela internet, pelo Twitter, pelo Facebook... E, em muito pouco tempo, a notícia transmitida por um meio deixa a outra irremediavelmente velha. Há lugar para todas as fontes de informação. Só não há mais lugar para revistas como "O Cruzeiro".

Deixo uma pergunta que não quer calar nascida na notinha do "Há 50 Anos". Por que cargas d´água o tal médico da Johns Hopkins era conhecido como "médico dos meninos azuis"?

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