segunda-feira, agosto 06, 2012

O que Lula teme Ricardo Noblat


O Globo - 06/08/2012
 

"Creio que o Supremo fará justiça. E na visão do Ministério Público, justiça é condenar todos "
Roberto Gurgel, procurador-geral da República

Em 2001, faltando um ano para a eleição do sucessor do presidente Fernando Henrique, Lula se reuniu com José Dirceu e disse mais ou menos assim: "Só serei candidato outra vez se for para ganhar". A semente do mensalão foi plantada durante aquela conversa. Lula não estava mais disposto a competir por competir. Ou a sonhar com o dia em que a maioria dos brasileiros, espontaneamente, chegaria à conclusão de que ele era, sim, o melhor nome para governá-los.
Traduzindo o que Lula disse para Dirceu: "Olha, Zé, vamos jogar com as armas dos nossos adversários. Precisamos de muito dinheiro, alianças com partidos e um marketing político de primeira linha." Os escrúpulos foram jogados no lixo. Cumpriu-se a vontade do poderoso chefão.
O marqueteiro de Lula foi o baiano Duda Mendonça. Antonio Palocci tomou de empresários montanhas de dinheiro em troca da promessa de que seria mantida a política econômica de Fernando Henrique. Entre outras coisas, o dinheiro serviu para comprar o apoio de partidos.
O PT que subiu a rampa do Palácio do Planalto em janeiro de 2003 pouco tinha a ver com aquele que se dizia diferente dos outros partidos. O PT da ética, que infernizava a vida dos que roubavam ou que deixavam roubar, esse havia perdido a guerra interna. E, por tabela, a eleição presidencial.
Ora, quem se valeu de meios limpos e sujos para vencer não renunciaria depois a tais meios para governar. O que o deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, batizou de mensalão foi o resultado natural do caminho escolhido pelo PT para alcançar a Presidência da República.
O mensalão não foi uma invenção do PT. Foi invenção de governos anteriores. Da mesma forma, o loteamento da máquina pública. Teve até um presidente — Fernando Collor — que, por arrogância, desprezou o franciscano modelo do "é dando que se recebe". Acabou deposto.
Pago por outros governos, o mensalão passou em branco porque faltou um suicida como Jefferson para denunciá-lo. De santo, ele nada tem. Discordou do método de se pagar mesadas a deputados. Preferia que o dinheiro fosse entregue às direções dos partidos para que elas o administrassem.
Jefferson recebeu malas de dinheiro. Seu PTB, cargos. As pessoas empregadas por ele foram obrigadas a desviar dinheiro público e a cobrar comissões de fornecedores. Uma delas teve o azar de ser filmada embolsando a titica de R$ 3 mil. O governo jogou a culpa em Jefferson e nos seus companheiros. O bicho pegou.
O Supremo Tribunal Federal dirá se são culpadas ou inocentes as 36 pessoas apontadas pela Procuradoria Geral da República como integrantes da "sofisticada organização criminosa" que pretendeu se apoderar de parte do aparelho do Estado. O objetivo da organização era o de assegurar vida longa para o PT no poder.
Lula nunca chamou o mensalão de mensalão. Chamava de caixa dois. Que também é crime. Mas é um crime que se alimenta de dinheiro particular. Mensalão se alimenta de dinheiro público. Não basta para Lula ter deixado o governo como o presidente mais popular da História.
Se a Justiça reconhecer que o mensalão existiu, ele entrará também para a História como o líder supostamente inocente de uma gangue. Seus desafetos poderão dizer, sem que ninguém os conteste: nunca antes neste país nada de parecido aconteceu.

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