terça-feira, agosto 07, 2012

Lambanças na Petrobrás - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 07/08


As razões puramente técnicas e as explicações contábeis para o primeiro prejuízo trimestral da Petrobrás (veja no Confira) nos últimos 13 anos estão sendo desfiladas uma a uma pela atual diretoria, que atribui, com certa razão, todas as mazelas da empresa à administração anterior.

Esse prejuízo tem algo a ver com questões cambiais, que elevaram em reais dívidas em moeda estrangeira. E está ligado também à redução da produção, que encolheu as receitas com exportações. Mas isso não é tudo. É o resultado de oito anos de uma administração que decidiu levar às últimas consequências o slogan dos anos 50: "O petróleo é nosso".

O "nosso", no caso, é o possessivo que se refere à turma que se apropriou da gestão pública para fazer jogo político. O setor administrativo da Petrobrás foi loteado para atender a interesses da base do governo Lula. E isso ajuda a explicar o que a atual presidente, Graça Foster (foto), admite como existência de focos de hemorragia da empresa - desvios que agora pretende corrigir com um Programa de Eficiência Operacional para o qual já estão destinadas despesas de US$ 5,6 bilhões.

Um dos sinais desses focos de hemorragia, também denunciado por ela, foi a até agora inexplicada disparada dos custos de construção da Refinaria Abreu e Lima (em Pernambuco), cujo orçamento saltou inexplicavelmente de US$ 2,3 bilhões, em 2005, para US$ 20,1 bilhões, neste ano. Graça se limita a afirmar que é um exemplo do que não se pode fazer.

Outro desvio marcante é o uso do caixa da Petrobrás para executar a política populista de preços que acabou por subsidiar combustíveis. Mesmo com os tímidos reajustes, os atrasos dos preços da gasolina e do óleo diesel alcançaram a magnitude de entre 15% e 17%.

É o que explica o avanço do consumo de gasolina, de 17%, em 2011, e, nos primeiros seis meses de 2012, já de 7%. Como as refinarias não têm mais capacidade para novos aumentos de produção, neste ano a Petrobrás se vê obrigada a importar 315% a mais de gasolina do que em 2011, além de ter de revendê-la internamente por preços mais baixos.

Mais uma distorção administrativa imposta pelo presidente Lula foi fazer com que a Petrobrás passasse a funcionar como instrumento de política industrial, obrigando-a a contratar, por preços substancialmente mais altos e prazos de entrega elásticos, materiais e equipamentos de produtores nacionais, por vezes ainda em fase de implantação.

A dilapidação de patrimônio público não é a única consequência do que vem ocorrendo. Outro efeito perverso é a deterioração das condições de produção dos combustíveis renováveis, sobretudo do etanol, que já não consegue competir com os preços subsidiados da gasolina. Desdobramento dessa administração também é agora o alto risco de que o retorno operacional insuficiente inviabilize o programa de investimentos da Petrobrás, que prevê o dispêndio de US$ 236,5 bilhões até 2016.

Mesmo que a atual e as futuras gestões corrijam os desvios atuais, a Petrobrás não está dando conta da missão confiada pelo novo marco regulatório do pré-sal, como a exigência de que participe de todas as novas licitações, na proporção mínima de 30%. Ficam as dúvidas, se somente uma administração mais eficaz bastará para reverter os efeitos de tantas lambanças.

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