O Estado de S.Paulo - 09/10/11
O dilema entre priorizar o crescimento econômico ou o controle da inflação esteve presente durante todo o governo Lula, e no governo Dilma Rousseff ganhou definição, com opção inequívoca pelo crescimento. O corte de 0,5% na taxa de juros Selic e repetidas manifestações públicas sobre o tema da própria Dilma, do ministro Guido Mantega e do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, comprovam a escolha. A meta, agora, é baixar a Selic em três pontos porcentuais, para 9%, até o ano que vem. Se conseguir fazê-lo com a inflação controlada, decaindo para o centro da meta, de 4,5%, sem extrapolar o teto de 6,5%, Dilma provará a assertiva da escolha e vai desmoralizar as análises dos céticos que não acreditam em milagres. Mas será muito difícil.
Esse dilema Dilma carrega desde que desembarcou no governo Lula, em 2003. No início, como ministra de Minas e Energia, ela se conteve e não ousou enfrentar o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, responsável pelo rumo da política econômica. Mas quando Lula a transferiu para a Casa Civil, em 2005, ela decidiu usar os poderes do cargo e afastar os obstáculos que surgiam à sua frente.
Foi quando, numa entrevista de desabafo ao Estado, em novembro de 2005, ela classificou de "rudimentar" e demoliu o plano de ajuste fiscal de longo prazo que Palocci e Paulo Bernardo montavam e que implicava cortar gastos do governo ao longo de dez anos. Na época, Dilma ficou irritada com uma notícia publicada na imprensa segundo a qual ela teria comentado, em reunião da equipe econômica com Lula, que uma inflação de 15% não chega a prejudicar a economia. "Sou economista, conheço a ciência econômica e não sou burra para dizer uma asneira dessa", disse Dilma às três jornalistas (inclusive eu) que a entrevistavam. Ela identificava na equipe de Palocci o autor do vazamento de seu suposto comentário.
E decidiu dar o troco detonando o plano de ajuste fiscal: "Discutir ajuste fiscal de longo prazo não é fazer projeção para dez anos com base em planilha. Fazer um exercício de números dentro de meu gabinete e achar que ele será compatível com nosso país não é consistente. (...) Esse debate é absolutamente desqualificado, não há autorização do governo para que ele ocorra. (...) Para crescer é necessário reduzir a dívida pública. Para a dívida pública não crescer, é preciso ter uma política de juros consistente, porque senão você enxuga gelo" - foram alguns dos comentários feitos por Dilma na entrevista ao Estado. A divergência ficou pública e ela ganhou a briga: o plano de ajuste fiscal de Palocci foi para o lixo.
Seis anos se passaram, mas os fatos de hoje comprovam que a entrevista continua válida, com a vantagem de que, no calor de sua franqueza irritada, a Dilma ministra de 2005 delimitou parâmetros para crescimento, inflação, juros e ajuste fiscal que não interessam à Dilma presidente tornar muito claros hoje.
Na entrevista ela deixou claro, por exemplo, que a tolerância à inflação tem limite e haverá reação se chegar a dois dígitos. Se em 2005 ela negou, agressiva, que aceitava um índice de 15%, hoje a rejeição é maior, já que 36 milhões de pobres ascenderam à classe média e ao mercado de consumo, e podem ter sua ascensão anulada com uma inflação de dois dígitos. Isso, sim, seria um retrocesso, enxugar gelo.
O raciocínio que ela faz na entrevista sobre a dívida pública também deixa claro que sua concepção de ajuste fiscal está mais dirigida a reduzir a dívida e economizar dinheiro com pagamento de juros do que cortar gastos do governo. Daí a estratégia de queda gradual da taxa Selic e a repetição incansável de que não vai sacrificar o crescimento, o investimento e a geração de empregos.
A estratégia é muito arriscada, porque enfraquece o principal instrumento de combate à inflação (o uso dos juros). E, se a inflação der sinais de descontrole, pode ser tarde demais para forçar sua queda sem uma paulada no aumento dos juros, o que anularia o esforço anterior de reduzir a taxa.
Dilma não pode errar e terá de se equilibrar sobre um tênue fio de linha. É esperar para ver.
Conselhos à Europa. Em visita a Bruxelas, a presidente Dilma Rousseff aconselhou os países europeus a evitarem ajustes fiscais recessivos: "Dificilmente se sai da crise sem aumentar o consumo, o investimento e o nível de crescimento", ensinou. Exemplificou com a experiência dos países da América Latina (inclusive o Brasil) nas décadas de 1980 e 1990, que viveram estagnação econômica ou crescimento lento em decorrência de ajustes fiscais recessivos. Na crise de 2008 o governo brasileiro fez o contrário: injetou dinheiro na economia e o ex-presidente Lula aconselhou os brasileiros a gastarem sua renda, expandirem seu consumo para derrotar a crise. E deu certo.
Dilma esqueceu de mencionar dois detalhes da maior importância: nos anos 1980 o Brasil vivia uma situação de hiperinflação e caos econômico que não permitia uma saída ordenada desse caos; e, na segunda metade dos anos 1990, começou a sair da hiperinflação e reorganizar a economia, o que exigia cuidados de gestão e cautela com gastos públicos. Em 2003 Lula teve a sorte de herdar um país mais arrumado, com a inflação domada e o mundo inteiro em crescimento. Além disso, Lula teve a sensatez de seguir rigorosamente a mesma política econômica de FHC, jogando no lixo as pregações e promessas de 20 anos do PT.
Para os brasileiros que viveram aquela época (Dilma inclusive), a hiperinflação não é um detalhe qualquer a ser esquecido. Ela marcou a diferença em relação à conjuntura atual, influenciou e determinou o desempenho da economia até ser derrubada pelo Plano Real, em 1994.
A crise europeia decorre do excesso de gastos dos governos e de expansão do endividamento para cobrir esses gastos. Sair da insolvência demora, não é de um dia para o outro, muito menos agravando as razões da falência. É claro que o crescimento econômico e a elevação da receita tributária ajudam os países em crise. Mas neste momento, sobretudo no caso da Grécia, a situação é tão caótica que não dá para falar em expansão econômica nem resolver só com a ajuda financeira da Alemanha e da França. O governo grego já avisou que o dinheiro em caixa disponível não dá para completar novembro. Como evitar o default, presidente Dilma?
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